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Fausto – “Crónica Do Espírito, Da Terra Ardente E De Um Papagaio Filósofo – (Do nosso enviado especial Fernando Magalhães, Em S. Miguel)” (reportagem) + Fausto – “Por Toda Aquela Terra Adentro” (crítica de discos)

pop rock >> quarta-feira >> 30.11.1994


Crónica Do Espírito, Da Terra Ardente E De Um Papagaio Filósofo
(Do nosso enviado especial Fernando Magalhães, Em S. Miguel)



Açores. Ilha do Espírito Santo. De fogo e abandono. Local escolhido por Fausto para o lançamento da segunda parte de uma trilogia sobre a diáspora e a colonização portuguesa nos séculos XV, XVI e XVII, iniciada há doze anos com “Por Este Rio Acima” e que agora se prolonga em “Crónicas da Terra Ardente” – uma obra de fôlego, com raízes fundas na música tradicional portuguesa. Depois de uma visão, “do mar para a terra”, em “Por Este Rio Acima”, um rosto que “olha da terra para o mar”. Viagem iniciática de ida e, quem abe, sem volta. Pelos quatro elementos, pelo continente africano, pelo sonho e sofrimento das gentes anónimas que edificaram o Império. Pela memória de um Portugal que, à distância de quatro séculos, se confunde com as chagas de um país adiado no presente. E do Portugal do Quinto Império, de Vieira e de Pessoa. Com Fausto, circundámos as águas, santas ou ardentes, calcorreámos o verde dos montes e dos pastos, sentimos a pulsação, misto de proximidade e distância, das gentes e provámos as comidas. Sonhámos os sete céus sobre uma povoação múltipla e receámos os segredos subterrâneos que, a cada segundo, ameaçam a revelação do dilúvio. Na Ilha de S. Miguel, berço apropriado para uma música que, ancorada com força no tempo, do tempo se procura libertar. Onde as coisas simples e a gesta épica, a solidão e a descoberta colectiva se erguem a desafiar o (ainda) desconhecido mar.

Terça-feira, dia 22
Partimos de Lisboa ao fim do dia, no único voo diário para os Açores. Quase sem história, não fossem alguns receios provocados por uma aterragem na Terceira – onde o avião fez escala antes de seguir para S. Miguel -, algo agitada pelos ventos fortes a chuva que se faziam sentir nessa altura na ilha. Depois do susto, os trinta minutos em marcha atrás até S. Miguel foram uma brincadeira. À chegada a Ponta Delgada, esperav-nos ângela de Almeida, directora e proprietária da editora açoriana Jornal de Cultura, fantástica anfitriã e guia de viagem ao longo de toda a estada. Repousados os corpos e as bagaens no simpático e acolhedor Hotel Açores Atlântico, situado em frente ao porto da cidade, partimos para casa de amigos. Ao passarmos pelo jardim onde um dos naturais mais ilustres de Ponta Delgada, Antero de Quental – o poeta e filósofo que de si mesmo dizia “De plano em plano e de desejo em desejo vou descendo lentamente a espiral dos desenganos” e, já perto do fim, exclamava: “Isto ainda acaba com uma corda na garganta ou uma bala na cabeça!” -, se suicidou (no dia 11 de Setembro de 1891), Fausto referiu a impressão que sempre lhe causaram os pormenores finais daquela data fatídica. Contou ele que alguém, observando uma vez as dimensões mínimas da arma com que o poeta tencionava já pôr termo à vida, comentara: “É uma pistola de matar pardais” – ao que o escritor, com impressionate humildade, lhe respondera: “É isso mesmo!” Sobre o banco onde Quental disparou contra si próprio, conta ainda Fausto, entre tantas outras, uma inscrição apenas se erguia, em suprema ironia: “Esperança”.
Já no conforto lo lar da Marina e do Mariano, onde o jantar foi de comer e chorar por mais, a conversa prosseguiu em tom menos dramático. Em discussão esteve a actualidade conturbada do Sporting (clube da simpatia do cantor, do anfitrião e do repórter, o que deixou desamaprado o único “lampião” presente, João Afonso, da Sony, de quem não sabemos se é mais fanático do Benfica ou das maravilhas do arquipélado) e pormenores da vida do intelectual do papagaio filósofo de Fausto, chamado Zé, que gosta de proferir máximas como “Só sei que nada sei”, “Penso, logo existo” e “Ser ou não ser, eis a questão”, concluídas ocasionalmente com a não menos sábia e avisada “Ai, ai, ai, ainda vou para à panela!”

Quarta-feira, 23
De manhã, tempo de entrevistas para as rádios locais. Por nós, quisemos saber a razão, ou razões, que levaram ao lançamento de “Crónicas da Terra Ardente”, nos Açores. Além do convite da Jornal de Cultura, também porque os Açores são, segundo Fausto, “ilhas de músicos”, de pessoas que tocam, uma escola onde têm sido feitos belíssimos trabalhos, não só de música tradicional” – em suma, “uma alternativa ideal” a Lisboa. Por outro lado, a própria temática do álbum harmoniza-se bastante bem com o arquipélago. “Há, de facto, uma coincidência feliz”, embora Fausto reconheça não ter “pensado deliberadamente” nisso. “Na primeira parte do disco, o barcmuito perto dos Açores. Os marinheiros, inclusive, dizem que não tinham conseguido abordar as ilhas Terceiras, como naquela altura se chamavam.”



Almoço no restaurante Remédio d’Alma – designação perfeita para um local de repasto mas que, para falar verdade, fez menos sentido quando se chegou a vias de facto. Sobre o novo álbum, a explicação, dada pelo próprio, de um ciclo ideal. Doze anos separam “Por Este Rio Acima” de “Crónicas da Terra Ardente”. “Dez anos são a marcação de um tempo suficientemente distante e, ao mesmo tempo, acessível para elaborar a trilogia, uma ideia que expus pela primeira vez à editora em 1985. Se eu a fizesse de seguida, correria o perigo de parecer que estava a falar sempre da mesma coisa.” Acabaram por ser doze em vez de dez anos de intervalo, “devido a este álbum ter sido pensado para ser um triplo, cerca de trinta e tal canções” e, por fim, Fausto ter chegado à conclusão de “que era longo demais”. Punha-se um problema: “Onde suspender a viagem? Suspendi-a precisamente no tema ‘Ao longo de um claro rio de água doce’, para que não terminasse com a tragédia dos Sepúlvedas, um episódio pesadíssimo. Deste modo, há uma retoma da esperança. Nas suas dimensões oníricas de fantástico. O texto fala em alecrim, que é a flor da esperança”.
“Mas ao proceder deste modo”, continua o músico, “verifiquei ao mesmo tempo que tinha deixado espaços em aberto, que a viagem deixara de ter alguma lógica, quando os temas subsequentes deixaram de existir. Por isso, tive que repensar certos temas e refazer outros, e daí o atraso de dois anos”. “Ao contrário do que acontece em “Por Este Rio Acima”, onde há um regresso ao Continente, neste novo disco há uma viagem suspensa, uma nova partida, no fundo, o sentido da di´spora, de ir e vir, o mesmo movimento da saudade.” “Com hipotética chevista, daqui a dez anos, na terceira e última parte da trilogia, à casa de Silva Porto,”’o homem das barbas”, em Bié (Angola), de onde Fausto é natural e onde passou a infância e a adolescência.
E de viagem em viagem se passou pela poesia. De Natália Correia, profetiza do Espírito Santo, À veia popular, fruto da emotividade do momento. Um exemplo, contou Fausto, que o leu com os próprios olhos, algures numa dessas academias da arte de versejar que são os sanitários dos cafés e resraurantes. Aconteceu que, no lado de dentro de uma porta de um restaurante, garatujada até à exaustão com aquel género de “grafitti” literários onde o dichote obsceno e as alusões sexuais constituem a temática dominante, alguém, num lampejo de génio, redigiu, no derradeiro espaço deixado livre, a seguinte pérola: “Estes grandes filhos da puta / que de tesão se consomem / não tendo com quem foder / foderam a porta ao homem” (repare-se na métrica da quadra e, em particular, na musicalidade e subtileza do segundo verso) – o génio poético português, na sua expressão mais moralista.
De tarde, as águas. Lagoa das Sete Cidades, antes do poente. A RTP dos Açores deslocou-se ao local para captar imagens do cantor, transmitidas nessa mesma noite no noticiário da hora do jantar. Impressionante o silêncio. Um silêncio que, aliado á beleza grandiosa esculpida pela natureza numa cratera de vulcão, levou certa vez uma criança a perguntar aos pais: “Foi aqu que Deus nasceu?” Um silêncio musical, murmúrio das águas que o vento empurra suavemente contra as margens, cantando pela eternidade o princípio e o fim dos dias. O poeta Eugénio de Andrade costuma sentar-se na beira da lagoa, cadinho do alto pensamento, à conversa com as águas.
Subitamente, acordámos das Sete Cidades – sete níveis, um físico mais seis sobrepostos e ocultos – como de um sonho. Após um jnatar onde o estômago sofreu mais do que rejubilou, seguimos para o lançamento oficial de “Crónicas da Terra Ardente”, no John’s Pub, situado na zona mundana de Ponta Delgada. “Uma leitura actual”, sintetizara já antes o seu autor, “onde, indo ao fundo da história, se procura provar que os problemas do homem permanecem praticamente os mesmos em termos de atitude, comportamentos e valores. Problemas como o racismo e a xenofobia, encarados na sua plenitude – como agressão mútua resultante de um etnocentrismo excessivo – ou a guerra e a violência, a droga e a toxicodependência, como no tema ‘À deriva Porto Rico’.”
José Medeiros – “Zeca” para os amigos, realizador da já lendária série televisiva sobre os Açores, “Xailes Negros” – teceu alguns comentários sobre o autor e a sua obra, recordando, a propósito, o impacto que a música de Fausto tivera, durante um concerto, sobre um músico de “blues” norte-americano, positivamente siderado com o “beat” dos ritmos tradicionais portugueses, no modo como o cantor português os trabalha. Algo que pode ser apreciado em profundidade tanto em “Por Este Rio Acima” como em “Crónicas da Terra Ardente”, residindo as diferenças entre ambos, em termos de perspectiva, no facto de, no primeiro, “o cenário ser, de facto, o mar: o ponto de vista é do mar para a terra”, enquanto, no segundo, “o cenário muda, representando sobretudo a entrada dos portugueses pelo continente dentro e a sua dramatização, em particular na tragédia dos Sepúlvedas. O ponto de observação alterou-se, passando a ser da terra para o mar”.
A capa do Vítor Belém é, neste aspecto, para Fausto, “muito sugestiva”. “O disco avança até um tema chamado ‘O mar’ e, a partir daí, o mar começa a funcionar como uma memória, desaparecendo como elemento da Natureza, iniciando-se a caminhada.”

Quinta-feira, 24
Chuva. A cair pela primeira vez desde que chegáramos. Apóso almoço, no restaurante do hotel das furnas – one o célebre cozido, cuja cozedura é feita no forno natural proporcionado pela própria terra desta zona vulcânica, deixou mais uma vez o estômago em trabalhos de parto – um arco-íris formou-se entre o azul e as nuvens, como que a confirmar a aliança do céu com a natureza. O destino da viagem apontava obviamente para as caldeiras. Impressionante o primeiro contacto com a voz da terra e da água ferventes, na maneira brutal como abrem caminho a golpes de lava e vapor para a superfície, por onde menos se espera, furando muros, escavando poços para o inferno ou dando-se em bênção curativa nas dezenas de bicas que jorram da pedra.



Uma força telúrica que encontra parceiro à altura na música de “Crónicas da Terra Ardente”, cujo título bem se poderia aplicar a este local que alguns autores julgam ser a parte emersa da Atlântida. Já no percurso de regresso ao aeroporto (Fausto permaneceu na ilha por mais um dia), despedimo-nos da lagoa crepuscular, invadidos pela sensação de termos pisado um lugar onde a terra faz fronteira com o Céu e o Inferno.


CAIXA

Por Toda Aquela Terra Adentro
Fausto
Crónicas Da Terra Ardente
2xCD Columbia, distri. Sony Music



Mais de uma década volvida sobre o mítico “Por Este Rio Acima”, Fausto abre o jogo e propõe um período de vinte anos para a construção de um trabalho desmesurado sobre a diáspora portuguesa no Renascimento, com implicações e leituras que se prolongam pela sociedade actual. Segunda etapa de uma viagem que, segundo o seu autor, começou por ser, em “Por Este Rio Acima”, uma visão do mar para a terra, “Crónicas da Terra Ardente” espraia-se por “contos dos matagais, dos rios e das serras, de vales e quebradas, lugares e caminhos por toda aquela terra adentro…”, ou seja, uma visão essencialmente terrena pelo interior do continente africano.
Depois da “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, são agora os relatos da “História Trágico-Marítima”, reunidos por Bernardo Gomes de Brito que servem de material de inspiração para as letras e música de “Crónicas da Terra Ardente”. Este novo disco de Fausto revela em primeiro lugar um trabalho excepcional ao nível da escrita dos textos. Mas esta riqueza poética acaba por ter efeitos nefastos sobre a música. De tal forma as palavras possuem as suas melodias, ritmo e harmonia próprios que a música se deixa ir atrás delas, incapaz de se libertar do seu fascínio. De resto constitui um exercício curioso ler a totalidade dos textos sem o apoio musical. É todo um mundo de sons e imagens, de sensações quase sinestésicas, que se desvela numa sinfonia de sentimentos e significados que dispensam o acompanhamento das notas! Por outro lado, se a genuína e profunda ligação da música de Fausto com os ritmos tradicionais portugueses confere a “Crónicas da Terra Ardente” uma unidade formal forte, essa mesma ligação acaba por ter igualmente um efeito perverso, ao condicionar grande parte dos temas ao espartilho das chulas ou dos corridinhos (e também das batidas africanas), por mais voltas que as vozes e os arranjos lhes dêem.
Fausto criou um universo musical único e original onde tudo se movimenta dentro de parâmetros e regras determinados. É evidente que as diferenças em relação a “Por Este Rio Acima” são perceptíveis, na utilização da bateria e das percussões, na maior insistência nos coros ou na preocupação com a dinâmica intrínseca e extrínseca dos sons. Mas no essencial os contornos que delimitam a composição permanecem idênticos. Assim acabam por ser os temas onde a fuga ao império instituído é mais evidente aquelas onde o prazer da descoberta é maior, fazendo passar para segundo plano a euforia rítmica da maior parte deles e, inclusive, estabelecendo outras e estimulantes pontes com as palavras. Exemplo disto é logo o tema de abertura, “Travessia”, com um arranjo fora de série onde, por esta ordem, a percussão (por Fernando Molina, dos Romanças), a gaita-de-foles (por Ricardo Dias, da Brigada Victor Jara, também o autor do arranjo), a sanfona (por Fernando Meireles, dos Realejo) e o piano (ainda por Ricardo Dias) projectam com enorme violência expressiva a música tradicional do futuro. A chula é vencida em “Ao som do mar e do vento” e impressiva é a utilização do coro e dos efeitos de estúdio em “Na ponta do cabo”, um dos momentos de carga emotiva – quase sensível, no modo como é descrita a luta do homem contra a fúria dos elementos – mais forte de todo o álbum. No segundo disco sobressaem “Diluídos numa luz”, ondulante sobre sintetizadores, vozes que se entrelaçam em eco e o tom espectral das palavras e “Pela fome comidos”, onde de novo Fausto explora as possibilidades de estúdio numa singular manipulação dos registos corais. Por fim, o libelo acusatório “Manuel de Sousa Sepúlveda” surge desde já como uma das canções da música popular portuguesa onde de forma mais crua é exposta a miséria, a tragédia e a dimensão humana das gentes que edificaram o império. Depois dele, a terminar o disco, é de descompressão a subida “Ao longo de um claro rio de água doce”. Em direcção a uma eterna nascente. (7)

Gaiteiros De Lisboa – “Grupo De Gaiteiros De Lisboa – O Prazer Do Som” (concertos)

pop rock >> quarta-feira, 14.04.1993


Grupo De Gaiteiros De Lisboa
O PRAZER DO SOM


Sem a preocupação de acertar numa fórmula, o Grupo de Gaiteiros de Lisboa prefere o prazer de tocar e o gozo que retira do som propriamente dito. Das gaitas-de-foles, percussões, flautas e de uma sanfona. A tradição é algo mais profundo e divertido do que alguns, em Portugal, podem julgar.



Três dos músicos da actual formação têm um currículo lavrado com distinção. Paulo Marinho é o gaiteiro dos Sétima Legião, com os quais brilhou no recente Festival Intercéltico. Carlos Guerreiro vem do GAC, tocou com José Afonso, Fausto, Sérgio Godinho e Rui Veloso, no “Auto da Pimenta”, “indivíduos com uma forma própria de encarar a música popular portuguesa e de a trabalhar”. Com eles aprendeu que esta música “não é uma coisa tão intocável” como nos tempos do GAC e da devoção às recolhas de Giacometti, quando a preocupação era “fazer igualzinho ao que fazia o povo”, sem tocar nesse “património inexpugnável”. Hoje Carlos Guerreiro procura “sons novos”, sem contudo “perder o respeito pelas raízes”. É um dos poucos músicos portugueses tocadores de sanfona. Ele próprio construiu a sua.
Rui Vaz esteve igualmente ligado ao GAC. Durante 12 anos assumiu a direcção artística do grupo vocal feminino Cramol. Integrou os Bago de Milho, banda formada nos tempos da MPP, da qual circula ainda uma cassete de mão em mão, com música do que seria a sua estreia discográfica, nunca concretizada. Hoje Rui Vaz dá mais importância ao canto. José Mário Branco não o costuma dispensar para fazer os apoios vocais nas suas actuações. Também ele tocador de gaita-de-foles (ouçam-no no álbum “Monte da Lua”, dos Romanças), insiste em que o termo “gaita” se aplica a uma quantidade mais lata de instrumentos de sopro: “Gaitas há muitas, não são só as de foles.” Os diversos tipos de flauta que toca no grupo, por exemplo. Concorda com Carlos Guerreiro quando diz que, “se uma pessoa tentar repetir o que o povo faz ou fazia, entra em paranoia completa. É impossível”. Para Rui Vaz, “quanto mais se conhece a música tradicional, mais se sabe que ela depende de factores não realizáveis noutro contexto”. Então, “o melhor é assumir isso e fazer a coisa como a gente gosta, de acordo com a nossa cultura e a nossa vivência”.
Francisco Bouxo, outro gaiteiro, é o mais novo da banda. Nascido em Portugal, filho de pais galegos, faz parte, juntamente com Paulo Marinho, do grupo de dança Anaquinhos, do Centro Galego de Lisboa. Por enquanto, contenta-se com o gosto que lhe dá tocar gaita-de-foles.

“É Orgiástico!”

O nome do grupo prende-se com a sua primeira fase, então constituído pelo Paulo, o Francisco e um terceiro gaiteiro, Nuno Cristo, que entretanto abandonou. “O grupo surgiu em 1991 com um objectivo específico: fazer trabalho de rua, com gaita-de-foles e percussões” – diz Paulo Marinho. Com a entrada de Carlos Guerreiro deu-se a mudança de reportório – temas tradicionais portugueses e galegos, um dos La Bamboche, um “saltarelo” medieval, danças da Bretanha, uma adaptação do “São João”, por sua vez adaptado por Fernando Lopes-Graça… “Encontra-se na música tradicional portuguesa muita coisa que provavelmente se faria na Idade Média e no Renascimento, que tem a ver com os instrumentos de sopro”, garante Carlos Guerreiro.
Insistem em ser diferentes pelo som. “A sonoridade de qualquer grupo de música popular portuguesa, neste momento, salvando honrosas excepções, estagnou um bocado. São as braguesas, são os cavaquinhos, são os bombos, são aqueles sons quadrados…”, diz Carlos Guerreiro. “Hoje em dia é muito fácil juntarem-se alguns bancários e respectivas esposas e fazerem um grupo qualquer…” E continua: “É pena, porque temos uma riqueza de instrumentos neste país que vai desde os instrumentos de corda aos de sopro, flautas, ocarinas… é possível procurar outro som, outras harmonias, e bricar com eles.”
Para o Grupo de Gaiteiros de Lisboa importa, como diz Rui Vaz, “fazer música sem complexos de saber se estamos nesta ou naquela via”, assim como a relação física com os instrumentos e, acima de tudo, o gozo de tocar. “Quando a música afina, é orgiástico!”, exclama Carlos Guerreiro.
Quem quiser tirar a prova, pode ir aos Açores, escutá-los ao vivo na ilha de São Jorge, no próximo dia 25, onde vão actuar, integrados nos Festival da Sexta Semana Cultural da Cidade das Velas.