Arquivo da Categoria: Críticas 1996

Libredón – “Los Pasos Perdidos”

pop rock >> quarta-feira >> 14.02.1996
world


Libredón
Los Pasos Perdidos
SAGA, DISTRI. MC-MUNDO DA CANÇÃO



Uma canção tradicional holandesa de piratas, uma melodia escocesa acoplada a uma dança renascentista centro-europeia sobre um poema de Kavafis, o Códice Calixtino do séc. XIII, o gigante Gargantua, de Rabelais, e um “horo” da Macedónia são algumas das fontes utilizadas pelos galegos Libredón, livres-pensadores e adeptos da convergência das várias culturas europeias, nestes seus “passos perdidos”. A música árabe e a das vizinhas Astúrias são igualmente convocadas para este “cocktail” onde cada tema deve ser saboreado em separado. Original e das facetas mais curiosas dos Libredón é a forma como o grupo recria ambientes medievais (“Esperando a los bárbaros”, “Los pasos perdidos”) juntando as ponteiras e “gaitas” à tecnologia MIDI e (escândalo!) a desavergonhadas caixas-de-ritmos, com ocasionais derivações para apêndices improvisados. José Escudero é um gaiteiro de recursos, a vocalização do romance asturiano “de la mal casada y bien escapa” é evocativa quanto baste, mas a impressão final é a de que a música dos Libredón vive mais da acumulação de pormenores e soluções de muita invenção e algum risco do que de uma proposta global amadurecida. Um pouco os tais “passos perdidos”, por mais interessantes que sejam os lugares visitados. (7)

Joanie Madden – “Song Of The Irish Whistle”

pop rock >> quarta-feira >> 14.02.1996


Joanie Madden
Song Of The Irish Whistle
HEARTS OF SPACE, DISTRI. STRAUSS



Tem-se assistido, nos últimos tempos, à atracção, não raras vezes fatal, entre a new age e a folk dita “céltica”. É um ver se te avias de colectâneas “’celtic’ qualquer coisa”, onde cabem desde o velhote rabequista às orquestrações sintéticas pintalgadas do famoso verde esmeralda. Esta ventania, por vezes de mau gosto, tem assolado com particular intensidade a Irlanda. Chegou agora a vez de Joanie Madden, emigrada nos “states” mas de boa cepa irlandesa, se render aos apelos da “fusão”, indo cair nas mãos de uma das mais activas editoras de new age da actualidade, a Hearts of Space. Depois do ortodoxo “A Whistle on the Wind”, na vetusta Green Linnett, já aqui recenseado, este novo disco da “virtuose” do “tin whistle” poderá não entusiasmar alguns ouvidos mais intransigentes, mas a verdade é que Joanie não se sai mal da experiência. Até porque, de entre as várias modalidades instrumentais irlandesas, os “airs” são os que melhor se adaptam a um revestimento harmónico exterior, nomeadamente orquestrações, convencionais ou não, funcionando como campos de gravidade a suportar a fluidez melódica do “tin whistle” ou da flauta. Seja rodeada de “new agers”, como John Boswell, Paul Avgerignos e Glen Velez, ou de companheiros da cena folk, como Eileen Ivers (violino), John Whelan (acordeão) e Jerry O’Sullivan (“uillean pipes”), Joanie Madden flutua acima das vaidades do mundo, o seu “tin whistle” concentrado numa conversa aérea com as nuvens. (7)

António Menano – “Fados, Volume II”

pop rock >> quarta-feira >> 14.02.1996


António Menano
Fados, Volume II
ODEON, DISTRI. EMI-VC


Segundo capítulo de classe e nostalgia daquele que foi o mestre incontestado do fado de Coimbra, depois do lendário Hylário. As gravações foram recuperadas de discos de 78 r.p.m. e tratadas digitalmente através do sistema CEDAR Audio Restoration – esses sistemas sofisticados que não apagam os ruídos de fritura originais mas possivelmente os devolvem sob a forma de produto audiófilo. Neste caso, como noutro recente, das primeiras gravações de Amália, a crepitação de fundo até confere uma “patine” especial a uma música que, mais do que nunca, soa perdida nos confins da memória, como um fantasma a puxar-nos para um tempo de romantismo e boémia inocentes, de sentimentos à solta numa serenata. O rouxinol de Coimbra, se não tivermos cuidado, é capaz de nos fazer chorar. (8)