Arquivo da Categoria: Críticas 1991

Pascal Comelade – “Cent Regards”

Pop Rock

8 MAIO 1991

PASCAL COMELADE
Cent Regards

LP, G3G, import. Ananana

pc
O homem tem uma fixação por instrumentos de brinquedo. Mania original que deu excelentes frutos em obras como “Détail Monochrome” e “Bel Canto” (editado em Portugal). Pascal Comelade chegou agora ao ponto de pôr uma banda de dez músicos (a “Toy Limited Orchestra”) a tocar pianos, cornetas e xilofones de brincar. Valsas diagonais, tangos minimais, boleros astrais, rock’n’roll de peluche venenoso, nocturnos de Chopin, o café Mozart, o “Moulin Rouge”, “Egyptian Reggae”, “Proud Mary” dos Creedence Clearwater Revival, desfilam, sob a forma de miniaturas mecânicas, num universo irreal de soldadinhos de chumbo, casas de bonecas e sonhos de encantar. Como se a música não existisse fora do quarto dos brinquedos, cristalizada numa dimensão atemporal e onírica em que a realidade se confunde com a ilusão e tudo se anima ao sopro musical. Louco entre os loucos, Pascal Comelade agradece, no fim, a Robert Wyatt, Don van Vliet (um tal Captain Beefheart) e ao “Béu-Béu”. De que é que estávamos a falar? ****



Delerium – “Stone Tower”

Pop Rock

8 MAIO 1991

DELERIUM
Stone Tower

LP e CD, Dossier, import. Contraverso

delerium

A “Torre de Pedra”, o mais recente e terrífico delírio do duo constituído por Bill Leeb (faz parte dos Front Line Assembly, quando quer ganhar dinheiro), e Rhys Fulber, redime os Delerium dos passos em falso dados nos anteriores “Morpheus” e, em menor escala, “Syrophenikan”, após a estreia magistral, “Faces, Forms and Illusions”.
Recuperada a veia criativa e o veio que melhor sabem explorar – o de sonoridades sombrias e majestosas, votadas a um panteísmo pagão ou a liturgias de contornos islâmicos –, os Delerium, herdeiros das “flores do mal”, plantadas pela primeira vez por David Bowie, na missa negra que é todo o segundo lado de “Low”, voltam a cumprir rituais obscuros, algures entre as atmosferas mais barrocas e carregadas dos Controlled Bleeding e a religiosidade gelada dos SPK de “Zamia Lehmani”. As programações rítmicas (exageradamente em destaque nos álbuns anteriores) retornam à penumbra ameaçadora do primeiro álbum, sobrepondo a consistência e a força ritualística à tentação da dança. Ambientes opressivos, subitamente perturbados por vozes de proveniência incerta ou tornados ainda mais perturbantes pelo repique de sinos trágicos e distantes, conferem a “Stone Tower” uma carga angustiante por vezes difícil de suportar. A torre de pedra, edificada no coração das trevas, ergue-se, orgulhosa, antes que o raio a fulmine, sobre o caos. ****

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The Waterboys – “The Best Of The Waterboys, ’81-’90”

Pop Rock

1 MAIO 1991

THE WATERBOYS
The Best of the Waterboys, ’81-’90

LP/MC e CD, Ensign, ed. EMI-VC

waterboys

“Desde que viajámos para Oeste, até Galway, que nos ligámos à música tradicional. Em 1989 tocávamos country/folk. Um ano depois era de novo o rock’n’roll” – palavras de Mike Scott, líder, guitarrista e vocalista dos escoceses Waterboys, que exprimem bem a indefinição estética desde sempre evidenciada pela banda. Este “Best of” recolhe material dos seus cinco álbuns de originais, “The Waterboys”, “A Pagan Place”, “This Is the Sea” (com a parte de leão, o que não admira já que foi aquele que mais vendeu…), “Fisherman’s Blues” e “Room to Roam”.
Rivais dos irlandeses U2, os Waterboys procuram ainda um lugar confortável na primeira divisão das bandas de guitarras, “preocupadas com as raízes tradicionais”, cuja ambição máxima é encher estádios e os bolsos. Só que ainda não descobriram a melhor maneira de o conseguir. “Room to Roam” apostava no filão tradicional, com resultados satisfatórios. Da próxima vez, como será? Para já, a presente colectânea inflecte nos domínios mais seguros do rock “mainstream”, apoiado nas vocalizações e guitarradas de Scott e no pulmão do saxofonista Anthony Thistlewhaite. “O melhor” dos Waterboys não aquece nem arrefece. É melhor esperar pelo próximo. *

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