A história conta-se em poucas palavras. O espírito dos Yes fora apartado da lendária designação. Motivos: a saída de Chris Squire, dono da patente, digamos assim, de um simples, mas precioso, “Sim”, que, por capricho ou má disposição, impediu os outros de usarem. É um bocado a história de Vítor Rua versus GNR. Assim, Jon Anderson, Bill Bruford, Rick Wakeman e Steve Howe continuaram, mas só com os nomes próprios. Entretanto, sob a influência das vibrações pacifistas da “nova idade” e por um misterioso encadeamento de coincidências, deu-se a união das duas facções, daí o título do disco. Para não ferir susceptibilidades, ninguém ficou de fora. Aos quatro nomes já citados juntaram-se os de Squire, Tony Kaye (da formação original dos Yes), Trevor Rabin e Alan White, o que na prática significa que o grupo passou a ter dois teclistas (Wakeman e Kaye), dois percussionistas (Bruford e White) e dois guitarristas (Howe e Rabin). De notar que, para uma daquelas especialidades foram ainda convocados mais cinco ou seis músicos de estúdio… Quanto à música, nada mudou desde os tempos de “Close to the Edge” e “Tales from Topographic Oceans” – as mesmas vocalizações andróginas de Jon Anderson, o misticismo dos temas (agora enfeitados com uns toques de “modernidade”), servidos a preceito e como montra para cada músico exibir as suas habilidades. Até a capa é assinada por Roger Dean. Disco inofensivo, mesmo a calhar para todos aqueles que não repararam na passagem dos últimos vinte anos. **
TOYAH WILLCOX
Ophelia’s Shadow
LP e CD, E.G., distri. Edisom
Actriz, cantora e casada com Robert Fripp, Toyah passou em pouco tempo de “punk” mal amanhada a dama do “music-hall”, ou quase… O actual marido pegou-lhe na carreira e deu-lhe a volta. O pior é que, por mais voltas que lhe dê, a carreira da senhora teima em avançar devagarinho, sobretudo em termos de vendas de álbuns, já que os singles lá vão conseguindo chegar aos tops. Vai-se mudando o estilo até encontrar a receita mágica. No álbum estreia (“The Blue Meaning”) era a poesia, longas histórias de encantar adultos (o título sugere os “blues minnies” do desenho animado “Yellow Submarine”), pontuadas pelas “frippertronics” do marido. “Prostitute” procurava ser experimental e ao mesmo tempo fazer dançar. Não era mau disco. “Ophelia’s Dream”, de ressonâncias shakespeareanas, a recordar tempos passados, opta pelo meio termo, com nítida influência da vertente discretamente equilibrada e muito “crafty guitarists” de Fripp (que co-assina dois temas) e procurando a todo o custo uma aura de mistério e sensualidade. Refira-se, a propósito, que a voz de Toyah cada vez mais se vai tornando, em todos os aspectos, uma cópia muito perfeita da de Kate Bush. Sobra-lhe em mimetismo o que lhe escasseia em originalidade. Como será a fase seguinte? **
Derradeira etapa da trilogia iniciada em 1984 com “It’ll End in Tears”, continuada, passados dois anos, com o também duplo “Filigree and Shadow” e agora concluída (por vontade expressa do seu mentor Ivo Watts Russell) em tons sanguinolentos. A fórmula, rigorosamente idêntica à das anteriores operações, parece ter esgotado as suas virtudes. Operação que, desta vez, talvez por deficiente cicatrização, provocou maior sangria, colorindo de hemoglobina canções já por natureza a atirar para o mórbido. Ivo Watts-Russell continua como cirurgião de serviço, preocupado em dissecar o lado mais sombrio da natureza humana. Mas como há sempre quem goste de se imiscuir nos recantos mais escuros da existência, resolveu envernizá-la de dourados e roxos funerários, conferindo-lhe a dignidade de uns Moody Blues dos anos 90. Projecto de início inovador, na maneira como traduzia em luxuriantes réquiens as agruras do mundo, sobretudo na fase intermédia de “Filigree and Shadow”, em que atingiu o pico de criatividade, chegado a “Blood” parece ter enveredado por um beco sem saída. Restava a Ivo apurar a já de si apuradíssima complexidade instrumental e os requintes de produção, acrescentando-lhes mais um efeito, um apoio vocal, uma nota suplementar de exotismo.
Chegados a este ponto, cabe esclarecer que não se trata de um álbum susceptível de atirar imediatamente para o caixote do lixo. Longe disso. Possui os seus encantos, mais sensíveis e apetecíveis em certas ocasiões, saboreável de preferência num quarto mal iluminado, no fim de uma tarde chuvosa.
Naipes de cordas lúgubres e pomposos, sintetizadores que rebentam a escala no limite dos graves, vozes dilaceradas cantando angústias existenciais e as insuportáveis agonias que o amor e a vida em geral sempre comportam, constituem o pano de fundo musical à volta do qual se vão delineando as canções, intercaladas por curtas divagações experimentais, à semelhança do que acontecia nos álbuns anteriores. Canções iluminadas a luz negra pelas vozes de Deirdre Rutkowski, Caroline Crawley (dos Shelleyan Orphan) e Dominic Appleton (Breathless). Luz que somente se aclara na sublime transcendência das vozes de Kim Deal e Tanya Donnelly – num dos dois emas compostos para este disco pelo malogrado Chris Bell (da banda de Alex Chilton, Big Star), “You and your sister” –, radiosas na simplicidade de um arranjo construído sobre o dedilhar de uma guitarra acústica (sintética, samplada, mas que importa aqui a ilusão?…) e a omnipresente secção de cordas. O leque de compositores é variado e revelador, aqui sim de uma ousadia do projecto.
Para além de Chris Bell, recuperam-se canções de Randy California (“Nature’s way”), Peeter Nooten (“Several times”), Mary Maragret O’ Hara (“Help me lift you up”) e Syd Barrett (“Late night”). Pense-se em psicadelismo, na sua vertente mais obscura (e existiu outra?…), no gosto pela tragédia, na crença romântica de que a redenção se encontra somente para além dos portais da dor e da decadência. Imagine-se um velório. As alucinações de um quadro de Bosch. Lamentos na escuridão. Os This Mortal Coil, irremediavelmente atraídos pelo lado escuro do universo rock, de tanto se banharem no sangue alheio, acabaram exangues. O que lhes restava de vitalidade, verteram-no nas canções amargurados de “Blood”. Ideal para vampiros e necrófilos. ***