Arquivo da Categoria: Concertos

Vários – “Começa Hoje A Semana De Cultura Irlandesa – O Paraíso Celta Revela-se Em Lisboa” (festivais | céltica)

Secção Cultura Segunda-Feira, 02.12.1991

Começa Hoje A Semana De Cultura Irlandesa
O Paraíso Celta Revela-se Em Lisboa

Entre hoje e 7 de Dezembro realiza-se em Lisboa uma “Semana de Cultura Irlandesa”, organizada pelo Instituto de Cultura Inglesa e a Faculdade de Letras de Lisboa. A iniciativa visa “a articulação entre a cultura irlandesa e a portuguesa” e promete animação. Ou o acesso a Tir Nan Aog, o paraíso celta.



A semana irlandesa inclui, entre outras actividades, um concerto de música tradicional de raiz celta, na Aula Magna, com os irlandeses Comhaltas Ceoltóiri Éireann e os portugueses Jig, outro de música de câmara, conferências, debates, exposições, teatro, sessões de vídeo, cinema e até um jantar típico irlandês. E a presença do poeta e romancista John Montague que, logo a seguir à abertura oficial, lerá poemas da sua autoria. No Anfiteatro 1 da Faculdade de Letras, às 18h30.
“Fools of Fortune”, o novo filme de Pat O’ Connor, será apresentado em ante-estreia absoluta, na Cinemateca, dia 2 às 21h30. Ainda no capítulo do cinema, e no mesmo local, serão exibidos no dia 3, “Gente de Dublin”, de John Huston, às 18h30, e “My Left Foot” (“O Meu Pé Esquerdo”), de Jim Sheridan, às 21h30. E no dia seguinte os clássicos de John Ford, “The Quiet Man” (“O Homem Tranquilo”), 18h30, e “The Informer” (“O Denunciante”), 21h30, que decerto vão atrair à Cinemateca os apreciadores de bom cinema.
O teatro também estará presente. No Teatro da Comuna, dia 7, às 16h00. Com “The Dracula Meditations”, uma “série de reflexões sobre o mito de Drácula que agora é vítima da violência de uma sociedade recalcada” numa peça que “explora um submundo erótico e estético ameaçado pelo ‘status quo’ puritano e agressivo”, adaptada do original de Bram Stoker, escrita, dirigida e interpretada por Paul O’ Hanrahn e pelos Balloonatics, companhia de teatro independente sediada em Dublin. Todos os dias, das 10 às 18h00, estará patente na Sala das Exposições uma retrospectiva do “Teatro português sobre textos de irlandeses”.
Prevista está também a realização de debates: O “Teatro Irlandês em Portugal” (dia 3), “A Irlanda no cinema” (dia 4), “Música popular irlandesa” (dia 5). Todos às 14h, na Sala das Exposições. Com a presença de convidados ligados aos diversos temas abordados. O dia 6 está reservado para uma conferência sobre a cultura e literatura irlandesas.
Canções irlandesas e ciganas, e obras de Hoffmeister e Mozart, interpretadas por Stephanie Duarte, viola de arco, e William Raposo, violino (Duarte & Raposo Co.?) farão as delícias dos apreciadores de música de câmara. Dia 5, às 19h30.

A Voz E O Estômago

“And last, but not least”, a música tradicional da Irlanda, das jigas e dos “reels”, dos violinos, “tin whistles” e “uillean pipes”. Pelos Jig (muita atenção à voz de Isabel Leal), do Porto, que foram revelação no Festival Inter-céltico de Abril deste ano, e os Comhaltas Ceoltóiri Éireann (com boa vontade até se pronuncia), associação fundada em 1951 com o objectivo de “preservar e divulgar a música, a dança e a língua irlandesas e, de uma maneira geral, promover a identidade cultural das comunidades irlandesas espalhadas pelo mundo”. Da actual formação dos Comhaltas, etc, fazem parte Jim Egan (concertina, flauta e “tin whistle”), Noel Carberry (“uillean pipes”, “tin whistle”, bodhran, ossos e dança), Karena Dowling (violino, flauta, “tin whistle” e bodhran), Paula Dowling (flauta e “tin whistle”) e Doreen Norris (dança).
Depois de sonhar com os mitos e lendas da velha Irlanda, resta a consolação do estômago. Possível dia 7, às 19h30, no Bar Novo da Faculdade, com as iguarias típicas da ilha.
Os bilhetes, a preços mais do que acessíveis, encontram-se à venda na livraria da Faculdade de Letras (música), Teatro da Comuna (teatro) e Cinemateca (cinema). A inscrição, por 5 mil escudos, na livraria, garante o acesso a todas as iniciativas desta semana de cultura da Irlanda. Terra mágica onde os homens se habituaram a convivar com os deuses.

Maria João – “Maria João Apresenta ‘Convidadas’ Em Lisboa – A Música Suspensa Do Corpo” (concerto | antevisão)

Secção Cultura Segunda-Feira, 02.12.1991


Maria João Apresenta “Convidadas” Em Lisboa
A Música Suspensa Do Corpo


A cantora Maria João actua hoje à noite no Teatro S. Luiz em Lisboa. Com a presença de “convidadas” ligadas a outras áreas musicais: Lena D’ Água, Teresa Salgueiro (Madredeus), Anabela Duarte (ex-Mler Ife Dada) e Xana (Rádio Macau). Adivinham-se surpresas. Maria João prefere guardar segredo.



Em princípio, tudo pode acontecer. Acompanhada pelos habituais Mário Laginha, piano, Carlos Bica, contrabaixo, José Peixoto, guitarra e José Salgueiro, bateria, Maria João, uma vez mais, preferiu o prazer inesperado, o confronto com a novidade – “a ideia é justamente pegar em pessoas que não fazem o mesmo que eu, construir qualquer coisa com elas e ver a que é que isso soa. Isto é que é divertido e estimulante”. “Uma ideia deliciosa” – nas suas próprias palavras.
Quem quiser pormenores, o melhor que tem a fazer é deslocar-se logo às 22h00, ao Teatro S. Luiz, e ouvir para crer. Que vai acontecer qualquer coisa diferente, é garantido, mas o quê? “Isso é surpresa” – a cantora fecha-se em copas e apenas adianta que “como de costume, vai haver lugar para a improvisação”. Trata-se, para Maria João, de uma necessidade vital de movimento, de constante mudança: “Seria extremamente aborrecido se fosse uma coisa fixa. Gosto muito de mudar as coisas. Até ao último minuto.”
A solo, sabe-se que cantará temas do seu mais recente álbum, “Sol”, gravado na Alemanha com o selo Enja e os mesmos músicos do espectáculo de hoje à noite. Além de “outras pequenas coisas que não estão lá, e as convidadas, claro”. Claro. Logo à noite se verá qual o segredo que permite juntar, no mesmo palco, a pureza ascética de Teresa Salgueiro, o jovial cançonetismo de Lena d’ Água, a excentricidade de Anabela Duarte e a energia rock de Xana, com o discurso libertário de Maria João

Entrega Total

A ideia de recrutar outras cantoras, aquelas de que “mais gosta”, surgiu a partir de um projecto que desde há algum tempo vem mantendo no estrangeiro, um trio vocal feminino do qual fazem parte ela e duas americanas, a experimentalista Laura Newton e a cantora de ópera, residente da Filarmónica de Berlim, Catherine Geyer. Refira-se a propósito que Maria João ainda tem tempo para se integrar num quarteto “com um programa especial”, ao lado de Mário Laginha, a já citada Lauren Newton e o guitarrista alemão Thomas Hortsmann. Já para não falar das aventuras em duo com a pianista japonesa Aki Takase, das quais resultaram o magnífico “Looking for Love”, e em trio, com Takase e o contrabaixista dinamarquês Niels-Hanning Orsted Pedersen, no álbum “Alice”.
Seja qual for o contexto, o que mais impressiona nesta cantora que, de uma maneira quase sôfrega, não para de evoluir, é a paixão com que se entrega de corpo inteiro à música, numa relação que tem muito de sexual. Tinham razão John Coltrane e John McLaughlin quando defendiam que fazer música é deixar-se possuir e tocar por ela e que ao intérprete se exija que seja o seu instrumento afinado. Afinação que exige uma total transparência e a máxima tensão / atenção. Fazer música é saber ouvir a voz que vem de dentro, o movimento cósmico que em cada indivíduo se manifesta e traduz numa forma particular. No caso de Maria João essa capacidade passa pela dimensão física, pela sensualidade dos gestos, pelo desnudar interior. Seria isto o jazz se “isto” não fosse mais qualquer coisa.

Jazz Ou Algo Mais?

Eis-nos chegados ao pomo da discórdia, para os que estão do lado de fora. Maria João é uma cantora de jazz ou não é uma cantora de jazz? Ela não se importa nada com isso, desde que as pessoas a ouçam e gostem do que ouvem. O termo “jazz”, há quem o jure a pés juntos, é uma derivação fonética do verbo francês “jaser” – “tagarelar, conversar animadamente e um pouco à toa sobre diversos assuntos”, segundo a “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” (ilustrada com cerca de 15 mil gravuras), que era a que estava mais à mão.
À primeira vista poderá parecer ao auditor médio português, habituado a ouvir Phul Collins e Madonna, que Maria João canta “à toa”, isto é, “como uma maluca” a vociferar “coisas sem sentido”, frequentemente “sem letra”, em suma, “esquisitas”. Mesmo quando essas “coisas” são um tema de música tradicional portuguesa ou um “standard” de Billie Holiday. É neste sentido que Maria João pode ser comparada, na atitude e na maneira como vive e dramatiza a vibração musical, a Bobby McFerrin. Em ambos existe o amor pela liberdade e uma fé. Ou a consciência, no caso feminino quase táctil, de um acto mágico que só o verdadeiro músico vive e compreende, no qual a ordem dos sons, a Harmonia como que se organiza por si própria, cabendo ao Intérprete, com “I” grande, centrar-se, coincidir, dizer e dizer-se, dançar e dançar-se, e às vezes consumir-se, nesse fogo que dizemos vir de “cima”, ou de “dentro”, quando queremos significar a transcendência.
Diz-se por outro lado, muito por força do hábito, que o jazz é “música de negros”. A “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” (ilustrada com cerca de 15 mil gravuras) faz mesmo questão de acentuar a “natural disposição dos negros para a arte musical”. É verdade. Em Maria João corre, do lado materno, sangue africano. É o pólo energético complementar: a natural apetência pelo ritmo, a assunção das forças da terra que sobem dos pés até ao cérebro e os põem a dançar. É ainda a sensualidade e, se levada ao extremo, a dor, alegria insana dessa entrega. E no limite do humano, a loucura.
Talvez por isso Maria João (como Meredith Monk ou Shelley Hirsch) saiba a exigência do método (o “haikido” – não, não é porrada – que praticou, ajuda muito), da justa medida, a necessidade de equidistância entre o oceano e o raio. Decerto que sabe.

Nigel Eaton – “Nigel Eaton Em Digressão Portuguesa Sanfona De Baunilha” (concertos | antevisão)

Secção Cultura Sábado, 30.11.1991


Nigel Eaton Em Digressão Portuguesa
Sanfona De Baunilha


Nigel Eaton, tocador de sanfona e destacado representante da “terceira via” da “folk” britânica actua hoje em Coimbra. Na Guarda e em Algés, terça e quarta-feira. Acompanhado pelo gaiteiro Paul James. Ambos fazem parte dos Blowzabella, cujo novo álbum, “Vanilla” (“baunilha”), acaba de chegar aos escaparates nacionais.
Locais agendados são o Café Santa Cruz, em Coimbra, o antigo café Mondego, na Guarda e o Palácio Anjos, em Algés. Todos os espectáculos às 21h30. Em paralelo com os concertos haverá “workshops” de sanfona e gaita-de-foles, nas localidades e datas assinaladas. A organização é da “Etnia”, com o apoio das Cãmaras Municipais da Guarda e de Oeiras e do Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra.
De Nigel Eaton pode dizer-se que é um mago da sanfona, de tal modo a sua mestria do instrumento lhe permite casar as sonoridades da música medieval e da Renascença, com peças da tradição inglesa e bretã ou com manipulações mais próximas da pop contemporânea.
A sua aprendizagem do instrumento fez-se no seio da escola francesa, tendo vencido, em 1986, o concurso de “maîtres-sonneurs de vielles et cornemuses” de Saint-Chartier, em França. Gravou a solo, em compacto, “The Musico f the Hurdy-Gurdy” (disponível entre nós), “tour de force” de sanfona em obras tradicionais, de Vivaldi (“Il Pastor Fido”) e da sua própria autoria.
Paul James, companheiro de Nigel Eaton nos Blowzabella, além de exímio executante de gaita-de-foles, toca saxofone, flauta, teclados e percussões. Vale a pena escutar as prestações de ambos nos Blowzabella, grupo estranho, encantatório, diferente da maioria dos seus congéneres. Depois de um álbum gravado ao vivo no Brasil (“Pingha Frenzy”) assinaram a obra-prima “A Richer Dust” na qual pontifica a inesquecível suite que ocupa todo o segundo lado do disco, “The Wars of the Roses”, inclusão fascinante no universo da música antiga sustentada por uma energia que se diria próxima do “rock”, apelativa mesmo para os ouvidos mais habituados ao frenesim da modernidade.
Em “Vanilla”, gravado no ano passado, os Blowzabella de novo dão a provar o doce sabor a terra, desenvolvendo essa como que “terceira via” da música tradicional, de síntese entre o antigo e o “actual”, do rigor com a alegria da transgressão, da veneração às origens com nobvas e não menos actuantes formulações. À música dos Blowzabella chamou Nigel Eaton “antiga caixa de ritmos”. Definição sugestiva para um percurso de contínua aproximação ao que está prestes a irromper no final do milénio: a eternidade incarnada no mundo e no tempo.