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Kirsty MacColl – “Electric Landlady”

Pop-Rock Quarta-Feira, 24.07.1991


KIRSTY MACCOLL
Electric Landlady
LP/CD, Virgin, distri. Edisom



O nome da menina impõe respeito. Kirsty é nada mais nada menos que a filha de um nome lendário da folk escocesa, Ewan MacColl, casada ainda por cima com Mr. Steve Lillywhite. Kirsty procurou fazer um álbum eclético, mas espalhou-se ao comprido. Recorre a um leque alargado de músicos convidados – que inclui os Pogues (com quem já havia trabalhado em dois temas de “Red, hot and blue”), Johnny Marr (ex-Smiths, actual Electronic), Mark E. Nevin (ex-Fairground Attraction) e Terry Woods (da formação original dos Steeleye Span), entre outros – e a estilos tão diversificados como o “samba jazz” de “My affair” e “The hardest word”, o exotismo terceiro-mundista de “Children of the revolution” ou as reminiscências célticas de “The one and only”, mas “Electric Landlady” não consegue ultrapassar o estatuto de “disco engraçado de artista à procura de consagração”. Um caso típico de ausência de projecto consistente.
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Paul Simon – “Paul Simon, Sábado, Em Alvalade, Não Contemporizou Com O Saudosismo – ‘Ele Cantou De Maneira Diferente’” (concerto | reportagem))

Secção Cultura Segunda-Feira, 22.07.1991


Paul Simon, Sábado, Em Alvalade, Não Contemporizou Com O Saudosismo
“Ele Cantou De Maneira Diferente”


Paul Simon mostrou como a música pode, e deve, sobrepor-se ao artifício. Quando a solução segura seria o recurso aos êxitos do passado, optou, em vez disso, pelo empenhamento e pelas “fusões” do presente. Ficou provado que há outras formas de fazer espectáculo.



Foi óptimo. Foi excelente. Foi excepcional. Foi bestial. Foi piramidal. Foi grandioso. Foi super. Foi grandioso. Foi magnífico. Foi. A todos aqueles que assistiram, sábado à noite, no estádio de Alvalade, em Lisboa, ao concerto de Paul Simon e acharam que foi óptimo, excelente, excepcional, bestial, piramidal, grandioso, super, magnífico ou que simplesmente foi, e aqui apenas pretendem a confirmação oficial das suas impressões, a confirmação está feita. Podem retirar-se em paz e dormir descansados.



Os outros, que não foram ou foram (e terão ido à volta de 40 / 45 mil) mas querem saber um pouco mais, podem ficar até ao fim. Foi de facto um bom concerto. Talvez o melhor, em termos de grandes espectáculos realizados no nosso país. E foi-o por méritos exclusivamente artísticos, o que equivale a dizer que o supérfluo e o teatro foram preteridos a favor da música propriamente dita. O que chocou muito boa gente, provocando comentários do tipo “ele cantou as músicas de maneira diferente” como os que se ouviram, com uma ou outra variante.
Paul Simon cantou, é verdade, as músicas de maneira diferente: “Bridge over troubled water” com uma introdução pianística de Richard Tee e continuação em ritmo reggae; “The boxer” menos swingante que na nossa memória; “Still crazy after all these years” com a voz a divagar por entoações bizarras. Houve mesmo uma altura, a meio de uma actuação de quase três horas, em que nem sequer cantou, dando o lugar aos músicos que não se fizeram rogados e se atiraram a longos solos numa sequência de puro “jazz rock”, de colorações étnicas, que serviu para Michael Brecker mostrar quanto vale nos sopros, seja no saxofone alto ou no controlador MIDI.

Média De Isqueiros

Sim, é verdade que interpretou “Kodachrome”, “Me and Julio down by the schoolyard”, “Bridge over troubled water” (8674 isqueiros acesos, 1º lugar à média aproximada de um isqueiro por 5,18 pessoas), “Still crazy after all these years” (7290 isqueiros acesos, 3º lugar, média de um em 5,681), “America” (7919 isqueiros, média de um em 5,682, 4º lugar, fazendo o pódio por um isqueiro), #The boxer”, “Cecilia” e “The sound of silence” (8502 isqueiros acesos, 2º lugar, à boa média de 5,29), os quatro últimos já em período de “encores”. Mas descontando estes temas, mais conhecidos (os lentos são os que estão assinalados em número de isqueiros acesos), o concerto pautou-se pela musicalidade e actualidade dos recentes álbuns “Graceland” e “Rhythm of the Saints”.



Em geral, as pessoas vão a este tipo de espectáculos, com nomes consagrados, não para ouvirem música mas para se reencontrarem com a sua memória. O mesmo estádio, que agora não atingiu o paroxismo com Paul Simon, enchera-se completamente não para ouvir e ver os Rolling Stones ou a Tina Turner actuais, mas para rever, de forma alucinatória, a lembrança que se tem dos tempos áureos. Paga-se, não para se ouvir música, mas para ver e venerar mitos. Nem que seja já na fase de agonia.
Precisamente, Paul Simon trocou as voltas a quem se preparava para mais uma sessão de saudosismo. Chegado aos 50 anos, e ao contrário dos nomes atrás citados, o autor de “Sounds of silence” encontra-se em pleno apogeu criativo. “Graceland” e “Rhythm of the Saints”, discos recentes, são de facto melhores que qualquer dos antigos, do tempo em que formava dupla com Art Garfunkel. E isso foi o que, para muitos, custou a perceber, incomodados com o desconhecimento da maior parte dos temas ou com a complexidade de outros tantos.

Canções De Recompensa

A esses, (cerca de 37562 num total de 45621, 82,33% portanto), restou o prazer da dança, irresistível nos momentos em que a “bateria” brasileira, constituía por Mingo Araújo, Curo Baptista, Dom Chacal e Sidinho, se juntou a Steve Gadd, num festival de ritmos e cadências sincopadas a que os corpos se entregaram sem resistência, ou, em desespero de causa, o recurso inevitável ao ritual dos isqueiros. Registe-se que a este nível, “Hearts and bonés”, embora também um tema lento, por ser menos conhecido, conseguiu a marca pouco representativa de 56 isqueiros acesos, correspondentes à média desprezível de um por 803,57 pessoas.
A sequência final de “encores” (“America”, “The boxer”, “Cecilia” e “The sound of silence”, com Paul Simon praticamente a solo, voz e guitarra acústica, aqui sim, fazendo recordar os primórdios “Folk”) funcionou então como uma espécie de recompensa (curiosamente, ou não, foi nestes temas que o músico se revelou menos à vontade…) para quem já desesperava de cantarolar um refrão ou bater umas palmas a marcar o compasso, de modo a justificar as “milenas” gastas. Foram os momentos apoteóticos da noite, em termos de reacção popular.
Na perspectiva oposta, estritamente de crítica musical, tudo foi diferente, para melhor.



Apoiada por um som excelente (que, seguindo o sábio preceito, amplificou sem agredir, preferindo acentuar os pormenores em vez de recorrer ao truque fácil do totalitarismo dos decibéis) e num jogo de luzes eficaz (que iluminou e deu côr e ênfase aos diferentes ambientes, em vez de ofuscar e distrair), a banda de Paul Simon deu cartas na difícil arte de juntar diferentes tradições conotadas com a “World music” a um discurso rock articulado de forma sempre coerente.

Não Eram Chineses…

Da “jive music” dos negros sul-africanos, com que, logo a seguir a “The obvious child”, abriu o concerto, em “The boy in the bubble”, ao esplendoroso batuque final de “Diamonds on the soles of her shoes”, Paul Simon e os restantes músicos mostraram que não tinham vindo para contemporizar. Que os seguisse quem pudesse. A maioria da assistência seguiu e acabou por entregar-se, quando concluiu que a ocasião não era a ideal para grandes evocações. Talvez patra a próxima, com o Santana…
Na primeira parte do espectáculo, Rui Veloso e os Mingos e samurais não tiveram dificuldade em pegar na assistência e levá-la rapidamente ao rubro. Neste caso as canções eram bem conhecidas de todos e por isso não custava nada trauteá-las em coro. Cumpriu-se o que seria de esperar, com a celebração colectiva de “Não há estrelas no céu”, numa noite que terminou cheio delas – encerrada a série de “encores” de Paul Simon (todos fazendo parte do programa…), os pedidos de “mais” foram calados através do expediente que já se vai tornando habitual nestas ocasiões: o fogo de artifício.
À saída ouviam-se comentários desencontrados: uma jovem fazia comparações com o espectáculo de Tina Turner, afirmando que nunca nessa noite vira “o povo tão maluco”, esquecendo o pormenor importante ds pernas, as de Tina Turner indubitavelmente mais esculturais que as de Paul Simon (por isso ele trazia calças), embora tenham quase a mesma idade. Outro jovem, este mais entusiasmado, assegurava que a banda de Paul Simon “era espectacular, com aqueles sons esquisitos tipo chineses”, logo emendado pela namorada, conhecedora: “Não eram chineses, eram dos Andes”. No fim de contas, para quase todos acabou por ser uma noite de Verão bem passada.

Sérgio Godinho – “Luz Na Sombra”, De Sérgio Godinho, Começa Hoje Na RTP2 – As Sombras Da Ribalta” (televisão | documentário)

Secção Cultura Domingo, 21.07.1991

“Luz Na Sombra”, De Sérgio Godinho, Começa Hoje Na RTP2
As Sombras Da Ribalta

Luz e sombra são parte integrante do mundo do espectáculo. Em “Luz na Sombra”, Sérgio Godinho dá a conhecer os bastiadores, os rostos na sombra, o real por baixo damaquilhagem. “The show must go on”, é verdade, mas pode parar por instantes, e mostrar o outro lado do espelho. De que matéria são feitos os sonhos?



Hoje, a partir das 20h15, no canal 2 da RTP, a luz incidirá nos recantos mais escuros dos bastidores da música, iluminando aquilo que por norma apenas se adivinha. Sérgio Godinho, viajante de todos os imaginários, contador de histórias e de vidas que já não vamos tendo tempo de vivar, vai levantar o pano e mostrar como se constrói a imagem em que acreditamos.
São seis programas, genericamente intitulados “Luz na Sombra”, “cada um sobre uma pessoa que trabalha dentro da música”, numa reflexão pessoal sobre outros tantos aspectos ligados à produção musical, personificados por quem sabe e quer partilhar esse saber.
José Salgueiro, músico, é o protagonista do primeiro programa. Depois será a vez de Carlos Tê, letrista, Paulo Pulido Valente, produtor de espectáculos, Ricardo Camacho, produtor e músico, Rui Fingers, “roadie” e músico e, por último, Tó Pinheiro da Silva, técnico de som. Todos os domingos, até finais de Agosto.
Sérgio Godinho, além de autor de “Luz na Sombra”, acumula ainda as funções de apresentador e entrevistador. A realização e montagem estão a cargo, respectivamente, de Teresa Olga e Henrique Monteiro.

O Outro Lado Existe

Luz e sombra são pólos complementares de uma mesma realidade. Sem um o outro não existe nem tem razão de ser. Luz e sombra que constituem a própria essência do espectáculo. De um lado o brilho dos projectores, a fama, a claridade das vozes e da música, a encenação e simulação dos gestos. Do outro, aquilo que não se vê mas está lá, atrás da cortina ou da câmara, omnipresente, indispensável para o bom funcionamento da parte visível. Os alicerces, as infra-estruturas técnicas e humanas, a imaginação e o suor dos que trabalham para que a máquina funcione, tornando possível o sonho e a ilusão credível.
Para Sérgio Godinho trata-se de deixar por algum tempo o papel de “escritor de canções” para contar outro tipo de histórias, feitas de imagens e jogos sobre a música e as pessoas a ela ligadas. Jogos de sombra. Jogos de luz. Ficções, ainda e sempre, urdidas por quem há anos vem tecendo o pano cru onde sonho e realidade se confundem. Eis o argumento resumido desses pequenos filmes subjectivos, parte integrante da grande-metragem que é a música popular portuguesa.

Seis Argumentos Possíveis

José Salgueiro, baterista (hoje) – O suor dos ensaios, o trabalho de professor, as “tournées” com os Trovante que ciclicamente se repetem. É difícil manter o ritmo, mesmo para um baterista. A vida e música de um músico, no compasso certo.
Carlos Tê, letrista (28 de Julho) – o verbo também se escreve com caneta. A letra “T” sempre presente nas palavras que Rui Veloso canta. Palavras nascidas de uma cidade antiga e mágica, o Porto, cenário de muitas histórias por contar. Canções inéditas da dupla, recolhidas num ensaio da banda. Novos projectos. Um livro aberto.
Paulo Pulido Valente, produtor de espectáculos (4 de Agosto) – Como se organiza um espectáculo? Ninguém se preocupa, desde que o pano suba. Um exemplo: as Festas de Lisboa de 1990, onde o citado produtor se encarregou de animar o cinzento das ruas com fantasia, trabalho e a música dos Repórter Estrábico, Capitão Fantasma e a Lua Extravagante de Vitorino e Janita Salomé.
Ricardo Camacho, produtor – E músico dos Sétima Legião, acrescentamos nós. Explica como se produz um disco, se arranjam as canções e se idealiza o som global. Sem um produtor capaz não há disco que resista. Música da Sétima Legião, António Variações, GNR e Manuela Moura Guedes.
Rui Fingers, “roadie” – O “roadie” é quem carrega com o piano às costas. Quem liga e desliga os amplificadores. Quem monta e desmonta o palco. É o operário da música, o homem dos músculos, um “mouro” de trabalho. O “roadie” em questão, para além de trabalhar com os Rádio Macau, que veremos actuar, ainda arranjou tempo pra tocar na banda de “heavy metal” V 12. Uma canseira.
Tó Pinheiro da Silva, técnico de som – Ele escuta as opiniões e as bocas, tantas vezes despropositadas, dos músicos, mas faz como acha melhor. No estúdio é ele que sabe, pode e manda. Dele depende em grande parte o sucesso ou fracasso de um disco. Vamos ver essa alquimia, durante a gravação e misturas de um tema do último álbum de Jorge Palma.
Depois de “Luz na Sombra” tudo ficará, de certo modo, mais claro. Luz e sombra, o difícil está em separá-las. Ou, como diria Neil Young, “there’s more in the Picture, than meets the eye”.