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Yellow Magic Orchestra – “Orquestra De Autómatos” (artigo a propósito da reedição em CD de “Naughty boys”, “Service” e “Technodelic””

Pop Rock >> Quarta-Feira, 05.08.1992


ORQUESTRA DE AUTÓMATOS

As reedições de “Naughty boys”, “Service” e “Technodelic”, álbuns até agora disponíveis apenas nas terras do Sol Nascente, juntamente com a colectânea “The besto f YMO”, compõem o lote de CD dos Yellow Magic Orchestra a partir de agora distribuídos em Portugal pela Variodisc. Techno-pop pelos discípulos dos Kraftwerk, da época em que Ryuichi Sakamoto ainda não era “superstar”.



Uma das inúmeras bandas que fizeram discipulado na Academia Kraftwerk, os Yllow Magic Orchestra nunca deixaram de apresentar características muito pessoais que lhes permitiram distinguir-se da cacofonia de “bips” e “ploinks” que à entrada dos anos 80 se fazia ouvir um pouco por todo o mundo.
“Techno-pop” era como então se chamava à resposta da electrónica ao império dos três acordes de guitarra, que durante escassos mas explosivos anos dominou a cena musical sob a designação de “punk”.
Houve, de certo modo, uma transição entre a sujidade e as rugosidades da selvajaria punk e o brilho anti-séptico dos sintetizadores. Essa ponter encontra-se na chamada “música industrial” que transpunha o lixo e o horror para um contexto tecnológico, das grandes urbes em decadência. Em Inglaterra, onde o movimento teve origem, encarnaram-no grupos como os Throbbing Gristle, Cabaret Voltaire ou Human League, entre outros, com estas ou outras designações (Psychic TV, no caso dos Throbbing Gristle ou Heaven 17, uma derivação dos Human League), que acabaram por vir desembocar também no techno-pop. Claro que os Kraftwerk desde 1976, ou seja, na mesma altura em que o punk eclodia, já anunciavam claramente com o álbum “Radio Activity” as linhas do futuro.
No Japão os Yellow Magic Orchestra dforam dos primeiros a compreendê-lo. Oriundos de uma nação especializada no fabrico de tecnologia electrónica de ponta, os YMO passaram por cima do “industrial” (conceito que nunca fez muito sentido num cenário mais próximo de um “sillicon valley” global do que da fuligem de fábricas monstruosoas em laboração) e entrara por via directa no universo das pistas de dança cibernéticas. A dança, criada pelos sequenciadores, caixas-de-ritmo e computadores deixados em liberdade, é afinal uma das características fundamentais que distingue a techno das ruminações niilistas dos pesos-pesados da música industrial.
No caso da banda japonesa há ainda uma diferença extra. Ao contrário da maioria dos seus congéneres europeus (Orchestral Manoeuvres in the Dark, Depeche Mode, Telex, Yello, Yazoo, etc.), que “inventaram” um universo digital virgem que fez tábua rasa do passado anterior à revolução industrial inglesa, os YMO mantiveram-se, à boa maneira nipónica, fiéis à cultura e música tradicionais do seu país.
Não por acaso, Ryuichi Sakamoto, membro carismático da banda, assinou a solo, em “The End of Asia”, uma obra que junta a “nova ordem” ditada pelos computadores à tradição, através da utilização de instrumentos medievais e renascentistas japoneses, o que lhe valeu ter sido considerado a reencarnação nipónica do compositor francês do século XIII, Tribaut de Navarre…
Nestes três álbuns de originais nunca antes disponíveis no mercado europeu e agora lançados por cá, e na compilação que reúne a face mais facilmente assimilável da YMO, é toda uma nova linguagem elaborada a partir da assimilação de milénios de cultura oriental, aliada a um novo tipo de sensibilidade, característica da “nova era”, que se autonomiza em objectos musicais de difícil definição. Melodias tradicionais japonesas, música de salão, ruídos de “video games”, delírios “disco”, maquinações Kraftwerk, “muzak ambiental”, piscadelas vocais a David Bowie e David Sylvian, enovelam-se em dança interminável, como se uma orquestra de autómatos tivesse de súbito acordado para a luz de uma civilização nova.

Von Magnet, Cassandra Complex, e Test Dept. – “‘Extensões Musicais’ Do Citemor 92 Começam Hoje Em Montemor-O-Velho- A Decadência Da Civilização Ocidental” (festivais / concertos)

Cultura >> Sexta-Feira, 31.07.1992


“Extensões Musicais” Do Citemor 92 Começam Hoje Em Montemor-O-Velho
A Decadência Da Civilização Ocidental


Em Montemor-O-Velho, no seu castelo medieval, está montado o palco para três concertos que vão abalar os alicerces da civilização ocidental. Von Magnet, Cassandra Complex, e Test Dept. actuam integrados nas “Extensões Musicais” do Citemor 92.



Os Test Dept., banda britânica pioneira, ao lado dos Einstuerzende Neubauten e SPK, da música industrial que a partir dos anos 80 tem vindo a corroer os alicerces da civilização ocidental, prometem os abalos maiores numa noite (a 22 de Agosto) que se prevê inesquecível.
Mas não são só os mestres do martelo-pilão que se preparam para perturbar o sossego das noites beirãs. Os Van Magnet que dão um concerto hoje no castelo, e os Cassandra Complex (no mesmo local, a 15 de Agosto) são duas outras bandas que a Novas Audições Objectivas (NÃO) traz a Portugal, integradas no programa da “extensões musicais” do Citemor 92, festival de teatro que desde dia 21, tem vindo a decorrer nesta localidade.
Qualquer destes agrupamentos, pela sua prática teórico-musical, ilustra bem o conceito que a NÃO pretende implantar, definido como uma “ideologia produtiva”, sintetizada na frase de Philippe Von, dos Von Magnet: “A nossa religião consiste em dizer aos jovens que esqueçam o seu conforto, experimentem agir, sejam mais curiosos, corram riscos e lancem-se em delírios e projectos.”
A ideia de criação da NÃO surgiu em Coimbra, “numa esplanada de um café”, para procurar responder à estagnação de uma “cidade apática que hiberna durante todo um ano e que repentinamente, e como um período menstrual bem regulado, desperta numa semana de Maio para a bebocultura dos líquidos louros de facto agradáveis, mas que caem num estômago vazio de conteúdos culturais realmente importantes e, sobretudo, contemporâneos”. Entre tantos líquidos, uns da parra, outros orgânicos, não é claro o sentido geral da preposição, se bem que, num pequeno manifesto de intenções, os NÃO esqpecifiquem que os move a “vontade e a necessidade de agir”. Tudo contra aquilo a que chamam a “cultura do mofo”. Na sua sede de acção os NÃO trouxeram já a Portugal espectáculos dos Young Gods e The Grief.
Os Von Magnet, primeira banda a actuar, são um grupo de mutantes sediados em França, praticantes do que eles designam por “Electro flamenco”, a junção do sangue, da faena e das castanholas ao ritmo dos computadores, numa concepção semelhante à da fase recente dos catalães La Fura Dels Baus. Álbuns como “El Sexo Surrealista” ou o novo “Computador” (no sentido de “matador”) são o pretexto para os Von Magnet apresentarem a sua versão do que será, em traços largos, a nova linha existencial para o século vindouro: tecnologia, frio e rigor. O estilista será, obviamente, o anti-cristo, trajado de tecnocrata no escritório central da idade do gelo.
Não é muito diferente a história que os Cassandra Complex t~em para contar, um grupo belga militante da primeira linha da denominada “Electronic Body Music” que passa por ser o género dançável preferido dos androides. Eles referem-se à sua música como “cyberpunk” e ao futuro como um “pesadelo tecnológico”. Sem esquecer, dizem, a utilização de máquinas para exprimir sentimentos humanos. A audição dos discos deixa, no entanto, no ar a suspeita em contrário: de serem antes os humanos que exprimem os sentimentos das máquinas…

Um Prodígio Visual

Mas o grande acontecimento deste Verão em Montemor-O-Velho vai ser, sem dúvida, o espectáculo “multimédia” apresentado pelos Test Dept. munidos da sua estética totalitária baseada no confronto entre a Natureza e a Vontade de Poder, o senhor e o(s) escravo(s), o prazer e a tortura. Exemplificada em álbuns como “Beating the Retreat”, “The Unacceptable Face of Freedom” e “Terra Firma” ou no vídeo “Program for Progress”, que há alguns anos atrás escandalizou um dos auditórios do Centro de Arte Moderna, em Lisboa. Ao vivo, os Test Dept. são um prodígio visual que recupera para a música popular a noção de “trabalho” e de movimento físico, de músculos em actividade moldando a fogo e pelo sopro de demónio, nota a nota e a golpes de ruído, uma imensa arquitectura de metal em louvor ao homem “ex-machina”.
A música dos Test Dept. é como uma fábrica em pelan laboração, portadora de dor, da dor inerente a todo o acto de criação. Só que eles exageram. As percussões metálicas que constituíram o emblema inicial do movimento da “música industrial”, juntam-se ao ritmo implecável dos computadores e aos sons tradicionais produzidos por gaitas-de-foles ou por um “didjeridoo”.
O “admirável mundo novo” propagandeado pelso Test Dept. é um mundo construído pela colmeia, um mundo em que a dignidade só pode ser conferida pelo sofrimento e o corpo humano se assume como uma peça de um imenso maquinismo de precisão.
Tudo isto no espaço de uma noite, numa pacata localidade subitamente transformada no centro da decadência da civilização ocidental.

Mary Wells – “A Voz Por Um Cigarro” (obituário)

Cultura >> Terça-Feira, 28.07.1992


A Voz Por Um Cigarro



Morreu Mary Wells. Aos 49 anos, com um cancro na laringe (fumava uma média de dois maços por dia), num hospital de Los Angeles. Não se ouvia falar muito de Mary Wells, enquanto era viva. Mas também quem é que ouve falar de tantos outros artistas, muitos deles importantes, que compõem, cantam e tocam por este mundo fora? Sobretudo se forem negros, embora o racismo não exista?
De Mary Wells falou-se sobretudo nos anos 60, quando a cantora negra, natural de Detroit, no Michigan, levou ao top a canção “Bye bye baby”. Fez parte do lote de artistas de ouro da Tamla Motown, editora com a qual assinou contrato, logo aos 16 anos de idade. “Bye bye baby” foi o primeiro êxito. Mas houve outros: “The one who really loves you”, “You beat me to the punch”, “Two lovers”, que vendeu cerca de um milhão de cópias, e “My Guy”, qualquer deles escrito em colaboração com Smokey Robinson.
Mary Wells foi a primeira artista da Tamla Motown a andar em digressão por Inglaterra e f~e-lo logo na companhia dos Beatles. Actuou ao lado de Marvin Gaye, com quem gravou os “hits” “What’s the matter with you, baby” e “Once upon a time”. A Tamla Motown deve-lhe parte do prestígio que ao longo dos anos angariou, como sede principal do que melhor se fez, durante os anos 60 e 70, no campo da “soul music”.
O corte de relações e consequente abandono da Motown coincidiu com o princípio do fim da cantora. A partir daí apareceu esporadicamente nos tops norte-americanos de “rhythm ‘n’ blues” mas a decadência era irreversível. O casamento com Cecil Womack e a mudança de Detroit para Los Angeles piorou a situação, ao ponto de levar a artista à beira da ruína. Já depois do divórcio com Womack, e de lhe ser diagnosticada a doença que viria a vitimá-la, Mary Wells viu-se forçada a vender a casa para pagar os tratamentos e internamento hospitalar. Diana Ross, Bruce Springsteen, Rod Stewart e os Temptations, juntamente com a “The Rhythm ‘n’ Blues Foundation”, contam-se entre os nomes que a ajudaram a pagar algumas contas.