Arquivo mensal: Novembro 2023

John Zorn – “Concerto De John Zorn Em Portugal – Sax Supesónico” (concerto | antecipação)

cultura >> domingo, 21.03.1993


Concerto De John Zorn Em Portugal

Sax Supesónico


JOHN ZORN, o saxofonista supersónico, regressa a Portugal, com um concerto marcado para o próximo dia 2 de Abril, no Armazém 22, em Lisboa, numa produção da Simbiosis. Acompanham Zorn, nesta sua terceira deslocação ao nosso país, o baixista Bill Laswell e Mike Harris, do grupo “hardcore” Napalm Death, num novo projecto com a designação Pain Killer.
Considerado um inovador do saxofone alto e um dos pilares do movimento “downtown” de Nova-Iorque, Joh Zorn, revolucionou as bases do “bebop”, para partir ao encontro do rock “hardcore” que o músico considera ter “uma intensidade igual à do ‘free jazz’ nos anos 60” e cuja estética desenvolveu até ao delírio nos Naked City, outro dos seus projectos iniciado nos anos 80, ao lado de Fred Frith, Bill Frissell, Joey Baron e Wayne Horvitz. Em 1989, o saxofonista assinara já a sua versão “hardcore” de temas de Ornette Coleman, em “Spy vs. Spy”.
Adepto da colagem sonora e da velocidade de interpretação, a par do fascínio pelas perversões sexuais sado-masoquistas, conceitos que exrcitou em álbuns como “The Big Gundown”, sobre música de Ennio Morricone, “Spillane”, inspirado no escritor policial Mickey Spillane, ou na longa e magistral sequência que ilumina a colectânea “Godard, ça vous Chante?” dedicada ao profeta da “nouvelle vague” do cinema francês, John Zorn atingiu o limite em “Speed freaks”, tema de menos de um minuto de duração no qual incorpora 32 estilos musicais diferentes.
Entre os álbuns mais importantes de John Zorn contam-se os dois volumes de “The Classic Guide To Strategy”, “Locus Solus”, “Cobra”, “News for Lulu” e “Torture Garden” (com os Naked City. Quem preferir escutá-lo em perfeito estado de enamoramento pelo “bebop” deve procurar nas águas mais calmas, mas não menos brilhantes, de “Deadly Weapons”, na companhia do pianista excêntrico inglês Steve Beresford, David Toop e a cantora Tonie Marshall.

Lisa Stansfield – “Lisa, A Magnífica, Contra Pacote”

rádio e televisão >> sexta-feira, 19.03.1993
DESTAQUE


Lisa, A Magnífica, Contra Pacote



DEVEMOS SER isentos. Informar sem influenciar. De maneira a permitir ao leitor e telespectador um julgamento e uma escolha imparciais. Lisa Stansfield e “Red, hot and dance”, um compacto de remisturas de temas famosos (não muito) por artistas de dança, são as propostas para hoje à noite do Últimas Notas, um programa que põe o poder nas mãos do povo que vê televisão.
Lisa Stansfield é uma cantora brilhante, bonita, que veste bem, culta, asseada, filha de boas famílias. Irradia felicidade, beleza e “Coco” Chanel por todos os poros. Em matéria de música, de algum interesse para o seu perfil, forma em 1986 o celebérrimo agrupamento Blue Zone, com os não menos celebérrimos Andy Morris e Ian Devaney. Três anos mais tarde grava o seu primeiro álbum a solo, intitulado “Affection”, que sobe ao segundo lugar do “top” britânico e onde é possível apreciar a cantora no esplendor da Sua arte.
Na Primavera e Verão do ano seguinte realiza digressões triunfais pela Inglaterra, América do Norte e Europa, diante de assistências de mais de mil milhões de pessoas. Mais pessoa menos pessoa. Talvez menos. Grava entretanto “Down in the depths”, um tema de Cole Porter incluído no álbum colectânea de canções deste autor, “Red, Hot and Blue”, editado com o objectivo de ajudar no combate contra a sida.
O segundo longa-duração de Lisa Stansfield, “Real Love”, de 1991, atinge vendas na ordem dos três milhões de cópias.
Em 1992 vamos encontrá-la a actuar para 75 mil pessoas, no Estádio de Wembley, em Londres, no concerto de homenagem póstuma a Freddie Mercury. O espectáculo a que todos deverão, digo, poderão assistir esta noite foi gravado ao vivo na Wembley Arena. Um espectáculo inolvidável, absolutamente a não perder. Nele vão poder escutar canções maravilhosas como “Set free”, “Little more love”, “Soul deep”, “Time to make you mine”, “This is the right time” e outras tão ou mais belas do que estas. A produção é de Jazz Summers e a realização de Marion Waldorf, uma dupla com probvas dadas, não me recordo agora bem onde. Se a sua escolha não incidir hoje em Lisa, depois já deve ser difícil. Sem querer influenciar, como é óbvio.
A alternativa é uma selecção de artistas de dança apertados no pacote “Red, Hot and Dance”, volume de remisturas em pezinhos de dança da série “Red Hot”, que inclui os Inxs, EMF, Seal, Dream Warriors, Jimmy Sommerville, F M Down e Lisa Stansfield, ela própria, aqui um pouco deslocada. Nada de especial.
A escolha é difícil (Lisa é uma cantora e uma mulher espantosa), mas é sua.
ÚLTIMAS NOTAS
TV 2, às 00h40

The Ukrainians – “Vorony”

pop rock >> quarta-feira, 17.03.1993
WORLD


DIVERSÃO COSSACA

THE UKRAINIANS
Vorony
CD Cooking Vinyl, import. Bimotor



No início, foi “Ukrainski Vistupi”, uma loucura dos Wedding Present, gravada em 1989 numa das sessões regulares de John Peel. Na sequência do sucesso obtido por esse trabalho, e do single “Oi divchino”, os Ukrainians surgiram como entidade autónoma, em volta de um núcleo constituído por Peter Solowka, Len Liggins e Roman Remeynes. Seguiu-se um primeiro álbum em nome próprio, “The Ukrainians”, onde se fortalecia a componente ucraniana, através da inclusão de temas tradicionais, impulsionados por uma rítmica frenética próxima dos grupos da “new wave”. “Vorony” é nova explosão de ritmos e energia, cada vez mais imbuída da festa tradicional. O apelo da dança impregna a maioria das faixas, ao velho estilo cossaco, braços cruzados, perna esticada e grito na ponta da língua. Um bigode revirado e farfalhudo também é de bom tom.



Aos poucos, os Ukrainians vão-se aproximando mais e mais das raízes, e até já espreitam para toadas mais lentas, ousando polifonias vocais como as de “Nadia pishla”, balada que lhes abre as portas para novas perspectivas passíveis de exploração futura. O corte do cordão umbilical não parece, contudo, estar nas previsões dos Ukrainians, pelo menos a curto prazo. Por enquanto, tudo gira em volta do velho e forte “rock ‘n’ rol”. Do Leste e em caracteres ucranianos, é uma questão de pormenor – provam-no a inclusão de uma versão frenética de “The queen is dead”, dos Smiths (os Ukrainians editaram em paralelo um EP onde interpretam quatro temas assinados por Morrisey) e outra de “Venus in Furs”, o clássico de Lou Reed e dos Velvet Underground, incluído no álbum da banana, na qual os cossacos optaram pelo lado “velvet”, de veludo. Sem ser um disco de provocar grandes arrebatamentos, “Vorony” atrai pela extroversão e pela frontalidade de uma proposta, no mínimo, divertida. A “world music” também tem direito a ser um parque de diversões. (7)