Arquivo mensal: Novembro 2023

Mat Molloy, Sean Keane, Liam O’ Flynn – “The Fire Aflame”

pop rock >> quarta-feira, 17.03.1993
WORLD


DANÇA DO FOGO

MAT MOLLOY, SEAN KEANE, LIAM O’ FLYNN
The Fire Aflame
CD Claddagh, distri. VGM



O ano editorial promete. “Vox de Nube”, já levou muitos ao céu. “Acrobates et Musiciens”, dos Lo Jai, de Eric Montbel (nos anos 70 ajudou a lapidar uma das jóias da Hexagone, os Le Grand Rouge), apresenta em glória a música da região do Limousin, da Idade Média à Renascença. Há um álbum novo a rebentar. Vindos do frio, os suecos Hedningarna (“Kaksi!”) são apontados como verdadeiros renovadores da música tradicional europeia. Mas por agora concentremo-nos, ainda e sempre, na Irlanda. Confira, por favor, o nome dos músicos, “le crème de la crème”, “Irish coffee” da melhor qualidade: Matt Molloy, é “apenas” o melhor flautista irlandês da actualidade. Dá a ideia que não necessita de respirar, tal a técnica que possui. Passou pela santíssima trindade Planxty / Bothy Band / Chieftains, fazendo parte actualmente desta última banda. O seu bar, em Westport, foi palco da desbunda gravada para a Real World, “Musica t Matt Molloy’s”. Sean Keáne é, desde há anos (melhor dizendo, décadas…), violinista dos Chieftains, depois de integrar as fileiras dos lendários Ceoltóiri Chualann, de Séan Ó Riada. Quem o quiser ouvir meis em particular procure-o no seu álbum a solo “Jig it in Style”. Acreditem que não é só nas jigas que ele tem estilo. Até Ali Farka Toure, imagine-se, o convidou para tocar consigo, em “The River”. Liam O’ Flynn, por seu lado, é um dos mestres actuais das “uillean pipes”. Fez igualmente parte dos Planxty. Habitual solista nas obras orquestrais de Shaun Davey (“The Brendan Voyage”, “The Pilgrim”, “Granuaile”), discípulo dos grandes Leo Rowsome, Wille Clancy e Séamus Ennis, trabalhou com John Cage e a companhia de dança de Merce Cunningham. Arty McGlynn, claro, tinha de estar presente. É o guitarrista dos guitarristas, rei e senhor na arte do contraponto. Felizes dos que o viram e ouviram ao vivo com os De Danann, no Intercéltico do ano passado. Noel Martin, membro da Belfast Baroque Consort, no violoncelo e teclados (aparece em “Lament” – ver crítica nesta página), e Noreen O’ Donoghue, debutante nos Oisin e actualmente nos Bakerswell, em harpa e teclados, completam o lote de participantes. Apenas resta entregarmo-nos às delícias da audição. Os músicos disparam em classe pura até ao coração da Irlanda. Jigs, reels, airs e hornpipes encontram aqui a sua expressão mais elevada. Não é apenas o virtuosismo, nem sequer a energia contagiante desta música que progressivamente se infiltra nos veios invisíveis do mundo, que impressiona. “The Fire Aflame”, como o título deixa entender, é um acto de amor. A síntese de vários talentos individuais acesos numa chama única, capaz de nos conduzir ao centro do sonho, à Irlanda do mito que, rezam as lendas, continua a orradiar de Tir Nan Aog. Não vale a pena racionalizar. Quer queiramos quer não, há uma parte de nós que habita do lado de lá do nevoeiro. No único tema não instrumental, Brian Keenan lê um poema da sua autoria, “Night Fishing”, em cujas letras é possível vislumbrar o lado lunar, espelhado nas águas do inconsciente, desta Ilha unida por um elo secreto a Portugal… Outras histórias… Mas se não quisermos mergulhar nessas águas que tudo religam (e afogam, se o navegante não souber a arte…) e ardermos no fogo que tudo anima, consome e transforma (na Irlanda, acendiam-se e ainda se acendem, no princípio de Maio, os fogos de Beltane, em louvor de Belenos – o Apolo dos celtas – e da terra renascida), resta sempre a dança. Dança do fogo. Que também se aplica às jóias. O diamante lapidado com perfeição decompõe a luz branca nos sete raios coloridos. Assim, de um diamante melhor ou pior lapidado se diz que tem mais ou menos fogo. Matt Molloy, Sean Kean e Liam O’ Flynn são joalheiros exemplares. Mais não posso explicar. (10)

Mário Pacheco – “Um Outro Olhar” + Quadrilha – “Contos De Fragas E Pragas” + Shalom – “Dar de Vaia”

pop rock >> quarta-feira, 17.03.1993
PORTUGUESES


MPP – MÚSICA POPULARUCHA PORTUGUESA

MÁRIO PACHECO
Um Outro Olhar (2)
LP / MC Philips, ed. Polygram
QUADRILHA
Contos De Fragas E Pragas (3)
LP / CD, ed. Ovação
SHALOM
Dar de Vaia (0)
LP / CD Disconorte



Tudo somado, não é nada. A música portuguesa de raiz tradicional incorre actualmente no mesmo tipo de equívoco em que incorreu o rock da era “Chico Fininho” e Luís Filipe Barros. Ou seja, quando a maré parece estar de feição, editar a eito, esquecendo critérios de qualidade e tentando enganar o incauto com o rótulo, de novo na moda, “música popular portugesa”. Da mesma maneira que se chamava “rock português” às montanhas de lixo que então invadiram os escaparates, também agora dizer “música popular portuguesa” serve de disfarce a todo o tipo de mediocridades e oportunismos. Esclareça-se desde já o seguinte, para que não haja dúvidas: qualquer destas três “propostas”, agora atiradas para a praça pública, não tem rigorosamente nada a ver com a dita música popular e muito menos com a tradicional. “Popularucha”, sim, assenta-lhe como uma luva. Comparados com elas os ranchos de Pedro Homem de Mello passam por tratados de etnografia. Dos três, os Shalom (como é possível existir uma banda com um nome destes?) são os que reivindicam com mais força o rótulo “tradicional”. “Dar de Vaia” – expressão popular sinónima de encontro e solidariedade – é o único elemento genuíno num disco que, entre caixas de ritmo e imitações sintéticas de acordeões, não passa de um postal ilustrado para confundir turistas, em tons de rosa “shocking” e azul cueca. De fugir a sete pés – ou dar de frosques, para utilizar também a terminologia popular. Os Quadrilha (antes davam pelo nome de Peace Makers – como é possível ter existido uma banda com um nome destes?), por seu lado, assumem-se como “um grupo de música folk com raízes na tradição celta”. Olha a novidade! Quem é que não se assume? Se até o José Cid se assumiu da “tradição celta” no recente Festival RTP da Canção! Encheram a capa com reproduções de instrumentos medievais e escolheram como logotipo uma harpa estilizada semelhante à que aparece num disco de William Jackson (“Heart Music”). Na prática, seguem na peugada dos Romanças, com um cheirinho a Fausto nas vocalizações, mas perdem-se nos arranjos À base de teclados “tapa buracos”. São mais sérios que os (argh!) Shalom, atrevem-se a cantar José Afonso – em “Chamaram-me cigano” e “A mulher da erva” – e são capazes de ter um caminho a desbravar, a julgar pelos pormenores de qualidade que aqui e ali pingam a conta-gotas em faixas como “Fraga” e “Desnorteio”. Positivos são ainda os textos assinados por Sebastião Antunes, a merecerem melhor sorte do lado musical. Finalmente, Mário Pacheco, guitarrista, é, dos três, o que tem menos pretensões. O que não significa que seja melhor. Filho de um famoso guitarrista de fado, António Pacheco acompanhou, entre outros, Tristão da Silva, António Mourão, Hermínia Silva (anda, Pacheco!), Carlos do Carmo, Paulo de Carvalho, João Braga, Nuno da Câmara Pereira e… Amália Rodrigues. Não se lhe negam as qualidades de acompanhante à guitarra. O pior são as composições, da sua autoria, de “Um Outro Olhar” (a excepção é um tema de Egberto Gismonti), que vão do fado-anemia ao “muzak” de supermercado e “hall” de hotel. Pode haver quem goste. Há gostos para tudo…

Vários – “The Spirit Cries”

pop rock >> quarta-feira, 17.03.1993


Vários
The Spirit Cries
CD Rykodisc, distri. MVM



Eis o paradigma do “disco ecológico”. “The Spirit Cries” apresenta registos gravados “in loco” em várias florestas, denominadas “da chuva”, da América do Sul e Caraíbas, pertença do “American Folklife Center”, uma divisão da Biblioteca do Congresso norte-americano, cujo património índio ascende a 50 mil gravações – do primitivo cilindro de cera aos suportes digitais mais recentes. Os lucros provenientes desta iniciativa, com a designação de “Endangered Music Project”, destinam-se a auxiliar os músicos intervenientes e respectivas culturas, algumas delas em vias de extinção.
Entre os objectivos conta-se a sensibilização do Ocidente às culturas ancestrais, não tecnológicas, matriz mágica e anímica de que o planeta não pode prescindir, sob pena de se enredar por completo nas malhas da ilusão racionalista. “The Spirit Cries”, reunindo diversas tradições orais da cintura equatorial do globo, tem a força de um sinal de alarme. Ouvir, compreender e, sobretudo, sentir o significado profundo destes cantos é mais do que o vislumbre do passado – é uma viagem aos alicerces do som matricial. Se pudéssemos ir mais além ainda, anularíamos o tempo. (7)