Arquivo mensal: Outubro 2022

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #100 – “Fernando Magalhães-Supertramp agora a sério! (nunosjorge)”

#100 – “Fernando Magalhães-Supertramp agora a sério! (nunosjorge)”

nunosjorge
23.04.2002 001244
Fernando Magalhães, agora a sério:

– qual a tua opinião pessoal, há 28 anos (se é que te lembras), sobre o «Crime of the century», dos Supertramp?
– qual a tua opinião atual sobre o mesmo disco?
– como é que traduzirias isso em notas, de 1 a 10?

thanks
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nunosjorge

Fernando Magalhães
23.04.2002 160439
O criminoso volta sempre ao local do crime, não é? 🙂

Mas vamos lá falar a sério, então.

1 – Nunca gostei dos Supertramp. Não é propriamente não gostar, mais um caso de ser completamente indiferente à sua música.

Em relação ao “Crime of the Century”, conheço-o demasiado bem. A minha mulher tem o álbum, uma edição em vinilo que conserva religiosamente.
Acho que não é pop, não é progressivo, e é um bocadinho irritante (a voz, aquela voz…). Todavia, as canções não são más de todo. Mas é difícil falar objetivamente deste disco, da mesma maneira que me é difícil falar objetivamente do “Dark Side of the Moon”, dos Pink Floyd. Casos de overdose de audição forçada!
Uma nota? Talvez 5,5/10, com boa vontade, um 6/10.

Dito isto, considero o “Even in the Quietest Moments” um trabalho mais sério e musicalmente mais bem sucedido. Um 6,5, vá lá, 7/10… 🙂

Agora, nunca ouvi os dois primeiros e parece que mais “progressivos” álbuns do grupo (e andam para aí à venda aos pontapés, em saldo…), “Supertramp” e “Indelibly Stamped”. Pode ser que tenha uma surpresa!…

FM

Fred Frith – “O Grande Explorador” (valores selados | blitz | artigo de opinião | dossier)

BLITZ 19 DEZEMBRO 1989 >> Valores Selados


FRED FRITH

O GRANDE EXPLORADOR


Fred Frith é indiscutivelmente uma das personalidades mais marcantes e fascinantes da música atual. Os seus múltiplos talentos de instrumentista, compositor e produtor estendem-se praticamente a todas as áreas.

«The Top Of His Head», publicado muito recentemente pela Made to Measure, confirma a sua permanente capacidade de inovar e de nos espantar. Vale a pena arriscar a sua audição. Falo para os ignorantes, é claro, que os outros já adquiriram de certeza pelo menos cinco exemplares do disco. «Quem é Fred Frith?» perguntam os primeiros. Já explico.
Fred Frith é o homem com o dom da ubiquidade. Está em todas, como se costuma dizer. Não há músico ou grupo importante que não esteja de algum modo ligado ao seu nome. Senão, vejamos a lista: como membro em «full-time» fez parte dos Henry Cow, Art Bears, Massacre, Skeleton Crew e Aksak Maboul. Como músico convidado ou/e produtor participou em discos de (por ordem alfabética): Bill Laswell, Bob Ostertag/Phil Minton, Brian Eno, Derek Bailey, Etron Fou Leloublan, Golden Palominos, Henry Kaiser, John Zorn, Lol Coxhill, Martin Bisi, Material, Negativland, Nicky Skopelitis, Orthotonics, Polka Dot Fire Brigade, René Lussier, Residents, Robert Wyatt, Swans, Tenko, Violent Femmes, Zeena Parkins e Zazou/Bikaye. Se souberem de mais, escrevam.



Juntem a isto uma intensa atividade ao vivo em tudo o que é sítio, integrado em obscuras «Big Bands» ou sozinho, entretido a atirar com objetos sortidos para cima da sua guitarra e perguntem: «Como é possível?» ou «E ainda gravou discos a solo?» É verdade. Gravou discos em seu próprio nome; e que discos!
No primeiro não arriscou muito. Chama-se «Guitar Solos» (74) e é isso mesmo. Só que os solos são de molde a colocá-lo imediatamente ao lado de Hendrix ou de Fripp, como um dos grandes, dos maiores inovadores nesse instrumento. A sua linguagem é única, desmultiplicando-se (e mesmo desdividindo-se) em complexidades harmónicas, rítmicas e tímbricas absolutamente assombrosas que vão das explosões atonais concretistas a um som límpido e cristalino que até parece o dos Shadows ou o Rui Veloso se tocasse harpa. Se me é permitida a comparação, Frith é o Miles Davis da guitarra.
Agora atenção: «Gravity» e «Speechless» (respetivamente de 80 e 81) são duas obras-primas da música desta década. Frith apelida-as de «música de dança» mas está a brincar. Ou se calhar não. O que é a dança? Segundo Curt Sachs, na contracapa de «Gravity», dança «é a vitória sobre a gravidade, sobre tudo o que pesa e oprime, transformação do corpo em espírito, a elevação da criatura ao criador, a imersão no infinito, o divino», ao que Frith logo acrescenta: «O que pode não ter nada a ver com este disco mas é um bom ponto de partida.»



Nestes dois discos, além da guitarra, do violino e do xilofone (os seus instrumentos habituais), Frith encarrega-se ainda das percussões, teclados e manipulações eletrónicas. Em «Gravity» participam os membros do coletivo sueco Samla Mammas e os americanos Muffins. Em «Speechless» são os franceses Etron Fou Leloublan além dos seus parceiros nos Massacre, Fred Maher e Bill Laswell.
É difícil definir a sua música. Música universal, talvez? Música das músicas? «World Music» traficada? O melhor é ouvir. Há tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo que nos perdemos. Felizmente. O som exótico de steel bands confunde-se com o folclore dos Balcãs. As ambiências industriais cruzam-se e misturam-se com fragmentos de gaitas-de-foles e solos de guitarra gravados de trás para a frente e outra vez para trás e eu sei lá, é uma orgia onde se abraçam múltiplas referências e tradições. A música do Terceiro Mundo (tão cara ao músico) é a solução? Ou do quarto, ou do quinto?
«Live in Japan» (82, em dois volumes) apresenta-nos a sua faceta de improvisador, entre o genial e o chato. «Cheap At Half The Price» (de 83, para a Ralph Records, a mesma dos Residents) é uma extravagância construída à base de canções que lembram por vezes os primeiros discos de Brian Eno, outras, o célebre quarteto(?) incógnito. Coincidência ou influência?…
«The Technology Of Tears» é um duplo do ano passado composto para peças de bailado. Depuração formal de um estilo, testemunho requintado de um universo musical ímpar. Frith revela a melodia oculta na dissonância e as descontinuidades de todas as melodias, quando dissecadas ao microscópio. Operação difícil mas de resultados fascinantes.
«The Top Of His Head», agora importado pela Contraverso, é uma surpresa a vários níveis. Começando pela própria editora, a belga Made To Measure, pelo menos aparentemente afastada das anteriores propostas do músico. Em «The Top…» Fred Frith como que adapta os seus próprios métodos às estratégias e pressupostos estéticos daquela editora. O som e a embalagem ostentam o habitual pendor classizante, mas com o fundador dos Henry Cow empenhado em dinamitar pela ironia e por dentro essa mesma imagem. Atente-se, por exemplo, no solo redundante de guitarra de «Hold On Hold» ou na canção «This Old Earth», interpretada por Jane Siberry. Em ambos os casos é rompido o tom sério presente em quase todo o disco. Frith nunca se satisfaz em permanecer durante muito tempo no mesmo lugar. Quando julgamos reconhecer uma entoação mais familiar ou uma referência a obras anteriores somos imediatamente despistados por constantes fugas para a frente. A sequência lógica (se é que é lógica) com que se encadeiam os diversos temas é praticamente indecifrável. Talvez vendo o filme. Sim, é verdade, já me esquecia de referir que «The Top Of His Head» é a banda sonora de um filme de Peter Mettler. Estranho filme deve ser, a avaliar pelos sons que o acompanham.
«The Top Of His Head» é um disco que desconcertará os mais acomodados, sem ser dos de mais difícil abordagem de toda a colecção MTM. Por vezes há aproximações à música de Benjamin Lew, como em «The Way You Look Tonight» e mais frequentemente aos mundos desse outro excêntrico que é Peter Principle, dos álbuns «Sedimental Journey» e, sobretudo, «Tone Poems».
«New Music»? Mas se Fred Frith já a faz de há dezassete anos para cá quando os Henry Cow chocaram com os preconceitos da época. As pessoas é que não têm reparado…

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #99 – “REQ, GIANT SAND, MARY TIMONY Óptimos discos (FM)”

#99 – “REQ, GIANT SAND, MARY TIMONY Óptimos discos (FM)”

Fernando Magalhães
22.04.2002 140254
Na electrónica, uma surpresa:

REQ: Sketchbook (ed.Warp).
Já tinha ouvido álbuns anteriores desta banda mas este é diferente, um passo numa direção desconhecida que faz o trip-hop e o pós-drum ‘n’ bass encontrar o tribalismo e um lado ritualístico personificado por bandas como os O Yuki Conjugate ou músicos como Don Cherry e Jon Hassell. Sons escuros e baixas frequências alternam com xilofones e mbiras mágicos e um minimalismo obscuro que, surpreendentemente, num dos temas (tema 9) se abre à influência nítida do Terry Riley de „A Rainbow in Curved Air”.

No rock:

GIANT SAND: Cover Magazine
The great underground vaudeville american album. Howe Gelb é o digno sucessor de Neil Young, Tom Waits e Stan Ridgway de uma vez só. E aqui também, um pouco surpreendentemente, de Alan Vega (ou Elvis Presley?), dos Suicide…

No universo indie:

A descoberta absoluta de MARY TIMONY (ex-Helium Icon), em „The Golden Dove”.
Inclassificável e desbravador de caminhos originais para o poprock alternativo. Pontos de memória convergente: Raincoats, Gentle Giant, Young Marble Giants intoxicados em ideias, os Velvet Underground às cambalhotas num caleidoscópio saturado de cores, Stereolab + Roxy Music (na magnífica „Musik and charming melodee”). Mas absolutamente original enquanto entidade que parece deslocada no tempo e no espaço „normais”…
Sentido da melodia pop menos óbvia (embora por vezes toque o falso bubblegum de uns Marine Research…), dissonâncias com o ouvido no pós-rock, sintetizadores analógicos com veneno, pianos elétricos fora de moda mas absolutamente encantatórios, sinos e um violino encharcado em açúcar e ácido. Harmonias vocais irresistíveis. O gosto por recantos e esquinas pouco ou nada frequentados, á medida que o álbum avança e se vai progressivamente afastando da pop e do rock que julgávamos já não ter segredos. Um pormenor de cravo e música barroca e o sorriso de Virginia Astley a espreitar em „Ash and Alice”. Difícil definir esta música onde a canção sem abrigo se cruza com a experimentação lo-fi e o gosto pela aventura.

A „Magnet” chama a MARY TIMONY „Kafka with a touch of Charles Manson”. Não estou bem a ver porquê. Mas vejo em „The Golden Dove” provavelmente a revelação indie do ano

FM

PS-A EMI acabou de editar um coletânea (recebi-a agora mesmo) com os artistas psicadélicos/Progressivos da editora Harvest, na sua época dourada de 1969/1970: Do alinhamento fazem parte: KEVIN AYERS, SYD BARRETT, BARCLAY JAMES HARVEST, EDGAR BROUGHTON BAND, THIRD EAR BAND, DEEP PURPLE, PETE BROWN & PIBLOKTO, THE MOVE, BABE RUTH, BATTERED ORNAMENTS, FOREST, SHIRLEY & DOLLY COLLINS, ELECTRIC LIGHT ORCHESTRA, SPONTANEOUS COMBUSTION, RON GEESIN & ROGER WATERS e WIZZARD.