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Vários – “O Balanço Instável” (lista | melhores dos anos 80 | dossier | artigo opinião)

BLITZ16 JANEIRO 1990 >> Valores Selados


O BALANÇO INSTÁVEL

CABE-ME a mim, finalmente, fazer o balanço dos melhores discos da década (esta semana a lista dos quinze melhores dos anos de 1980 a 1984. A outra metade fica para a semana. Decerto repararão que desta lista constam muitos nomes estranhos e desconhecidos. A culpa não é minha. Procurem-nos e talvez cheguem à conclusão que nem sempre a melhor música é a mais badalada. Para não dizerem que invento, informo que todos os discos mencionados fazem parte da minha coleção particular. E agora podem começar a copiar e a lamentar o tempo perdido…

1980

Alan Stivell: «Symphonie Celtique – Tir Na Nog» (Todas as músicas e tradições do mundo convergindo na Bretanha).
Cabaret Voltaire: «The Voice of America» (Quando ainda eram ameaçadores).
Captain Beefheart & His Magic Band: «Doc at the Radar Station» (o esquizofrénico genial de «Trout Mask Replica»).
Chrome: «Red Exposure» (Americanos precursores de tudo o que é industrial).
Flying Lizards: «The Flying Lizards» (David Cunningham e a vanguarda como grande paródia).
Fred Frith: «Gravity» (Frith é um universo inteiro à parte).
Harold Budd/Brian Eno: «Ambient 2 The Plateaux of Mirror» (o mundo cristalino).
Jon Hassell/Brian Eno: «Fourth World, Vol. 1 Possible Musics» (a selva eletrónica).
Monochrome Set: «Strange Boutique» (dandies dos eternos 60s. Tommy, can you hear me?)
Negativland: «Negativland» (a América do avesso pelos mestres da colagem).
Pere Ubu: «The Art of Walking» (o rock à beira do abismo, sem cair).
Peter Hammill: «A Black Box» (o último voo a grande altura de eterno romântico).
Talking Heads: «Remain in Light» (com Eno desta vez luxuriante).
Tuxedomoon: «Half-Mute» (os americanos mais europeus do mundo).
Univers Zero: «Ceux du Dehors» (a nova música de câmara europeia passa por estes belgas apreciadores de Lovecraft).

1981

Art Bears: «The World as it is Today» (Fred Frith, Chris Cutler e Dagmar Krause anunciando o fim do mundo).
Brian Eno/David Byrne: «My Life in the Bush of Ghosts» (sim, já se sabe, o primeiro a fazê-lo foi Holger Czukay, mas eles não se importam).
Carla Bley: «Social Studies» (a sociologia da fanfarra pela senhora sempre bem acompanhada).
Heaven 17: «Penthouse and Pavement» (os derradeiros estertores da Pop eletrónica inteligente).
King Crimson: «Discipline» (Robert Fripp e as técnicas mágicas da J.G. Bennett).
Kraftwerk: «Computer World» (o melhor disco do séc. XXI).
Marc Hollander: «Onze Danses pour Combattre la Migraine» (o homem dos Aksak Maboul e o «Vaudeville» minimalista).
Meredith Monk : «Dolmen Music» (o nascimento da voz humana).
Nick Mason/Carla Bley: «Fictitious Sports» (Carla, outra vez, brincando ao Rock. Tomara este que houvesse mais brincadeiras assim. Mason é só um pretexto).
Penguin Cafe Orchestra: «Penguin Cafe Orchestra» (a caixinha de música onde cabe tudo).
Residents: «Mark of the Mole» (Os Beatles dos anos 80? Dos 90? Mas quem são eles afinal?)
Soft Cell: «Non-Stop Erotic Cabaret» (Desculpem lá, mas muito antes de Momus já Marc Almond estava a agitar todos os fantasmas).
This Heat: «Deceit» (o som do holocausto).
Tuxedomoon: «Desire» (Aqui já eram definitivamente europeus. Até perderam a pronúncia).
ZNR: «Barricades 3» (Satie por Zazou ou vice-versa?)

1982

Andy Summers/Robert Fripp: «I Advance Masked» (Frippertronics mais Police pelos mestres da guitarra).
Annette Peacock: «Sky-Skating» (a voz mais sensual em cetim aveludado).
D.A.F.: «Fur Immer» (Um, dois, esquerdo, direito).
Etron Fou Leloublan: «Les Poumons Gonflés» (Captain Beefheart + Henry Cow em tons parisienses).
Fad Gadget : «Under the Sky» (Frank Tovey é uma espécie de Matt Johnson, só que ainda mais doentio).
John Cale: «Music for a New Society» (a sociedade ainda não é suficientemente nova. Ainda bem).
Kate Bush: «The Dreaming» (deixem a menina sonhar).
Laurie Anderson: «Big Science» (deixem a senhora falar).
Michael Nyman: «The Draughtman’s Contract» (música das imagens do labirinto das imagens da música).
Monochrome Set: «Eligible Bachelors» (Ainda e sempre o chá das cinco).
Peter Gabriel: «Peter Gabriel IV» (é o quarto, é o melhor e não embirrem mais com o homem).
Residents: «The Tunes of Two Cities» (segunda parte da luta entre toupeiras e Hrtywxlks).
Snakefinger: «Manual of Errors» (costumava tocar guitarra com os senhores acima. Seria um novo Zappa se não tivesse entretanto morrido).
Soft Veredict: «Vergessen» (Wim Mertens antes de se tornar Merdens – obrigado Jorge).
Terry Riley: «Descending Moonshire Dervishes» (Riley antes de se tomar por profeta).

1983

Art Zoyd: «Les Espaces inquiets» (franceses. Música total. Só gravaram obras-primas).
Benjamin Lew/Steven Brown: «Douzième Journée: Le Verbe, la Parure, l’Amour» (precursores da Made to Measure. Nao sei porquê lembram-me Duras).
Einstuerzende Neubauten: «Zeischnungen des Patienten O.T.» (queriam destruir a música e quase o conseguiram).
Fred Frith: «Cheap at Half the Price» (outra vez, agora em canções Pop. O quê?)
Golden Palominos: «The Golden Palominos» (primeira grande conferência nova-iorquina. Estão lá todos: Fier, Lindsay, Laswell, Zorn. Frith também, claro).
Moebius, Plank, Neumeier: «Zero Set» (alemães, eletrónicos e à procura de África).
Peter Blegvad: «The Naked Shakespeare» (o excêntrico dos Slapp Happy em canções ainda mais excêntricas).
Phantom Band: «Nowhere» (o percussionista Jaki Liebezeit continuando brilhantemente o espírito dos Can).
René Lussier: «Fin du Travail» (o Fred Frith canadiano).
Severed Heads: «Since the Accident» (os Throbbing Gristle australianos, mas com humor).
Tom Waits: «Swordfishtrombones» (a Lua na sarjeta).
Virginia Astley: «From Gardens where We Feel Secure» (Onde ficam esses jardins? Silêncio).
Wha Ha Ha: «Wha Ha Ha» (são japoneses. O Free-Jazz pode ser melodioso e dançável).
Yello: «You Gotta Say Yes to Another Excess» (Dieter Meier é suíço, gosta da Europa dos casinos e de computadores).
Zazou/Bikaye: «Noir et Blanc» (Europáfrica em ritmo de dança).

1984

After Dinner: «After Dinner» (mais japoneses. Música de bonecas e cristais).
Andre Duchenes: «Le Temps des Bombes» (as canções de Andre é que caem como bombas).
Brian Eno/Harold Budd: «The Pearl» (até onde é audível o silêncio?)
Débile Menthol: «Battre Champagne» (a boa velha música progressiva continua viva e de boa saúde).
Foetus: «Hole» (gritos. Sofrimento. Auto-Tortura).
Frank Zappa: «Them or Us» (sempre genial. Continua a fazer rir).
Hector Zazou: «Reivax au Bongo» (Zazou e Bikaye reincidentes, agora mais surrealistas).
Holger Czukay: «Der Osten ist Rot» (o homem dos Can que fez tudo antes de Brian Eno e pôs o papa a cantar Blues).
Holger Hiller: «Ein Bundel Faulnis in der Grube» (o mestre absoluto do sampler. Reinventou a música. Não me voltem a falar nos De La Soul).
Mnemonists: «Horde» (o ruído da deformidade).
Officer!: «Ossification» (música medieval na ótica de um banco de malucos).
Pascal Comelade: «Détail Monochrome» (música ambiental no quarto dos brinquedos).
Penguin Cafe Orchestra: «Broadcasting from Home» (basta sintonizar).
R. Stevie Moore: «Everything You Always Wanted to Know About R. Stevie Moore But Were Afraid to Ask» (Ufa! Tem gravadas mais de cem cassetes. Inclassificável. Como é possível ser Pop, experimentalista, doido varrido, sério, etc., etc., etc?)
Test Dept.: «Beating the Retreat» (Metal on metal).

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #101 – “Os (meus) melhores 186 álbuns de sempre (FM)”

#101 – “Os (meus) melhores 186 álbuns de sempre (FM)”

Fernando Magalhães
24.04.2002 160400
POP

AMON DÜÜL II – Yeti (1970)
AMON TOBIN – Supermodified (2000)
ANTHONY MOORE – Flying doesn’t Help (1979)
ART BEARS – Hopes and Fears (1978)
ART ZOYD – Berlin (1987)
ASHRA – New Age of Earth (1976)
BEACH BOYS (THE) – Pet Sounds (1967)
– Wild Honey (1968)
BEATLES (THE) – Revolver (1966)
– Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967)
– The Beatles (1968)
BRIAN ENO – Another Green World (1975)
– Before and After Science (1977)
BYRDS (THE) – Younger than Yesterday (1967)
– The Notorious Byrd Brothers (1968)
CAN – Tago Mago (1971)
– Ege Bamyasi (1972)
– Future Days (1973)
CAPTAIN BEEFHEART & HIS MAGIC BAND – Trout Mask Replica (1969)
– Shiny Beast (Bat Chain Puller) (1979)
CARAVAN – If I Could do it all over again, I’d do it all over you (1970)
– In the Land of Grey and Pink (1971)
CLUSTER – Cluster II (1972)
– Zuckerzeit (1974)
CONRAD SCHNITZLER – Rot (1973)
CURVED AIR – Phantasmagoria (1972)
DAVID BOWIE – The Man who Sold the World (1970)
– Diamond Dogs (1975)
– Heroes (1977)
DEVO – Q: Are we not Men? A: We are Devo! (1978)
DOORS (THE) – Strange Days (1967)
EGG – The Polite Force (1970)
FAUST- Faust (1971)
– So Far (1972)
– The Faust Tapes (1973)
FENNESZ – + 47º 56’ 37’’ – 16º 51’ 08’’ (1999)
FRANK ZAPPA – We’re only in it for the Money (1967)
– Burnt Weeny Sandwich (1969)
– Hot Rats (1969)
FRED FRITH – Gravity (1980)
– Speechless (1981)
GENESIS – Nursery Cryme (1971)
– The Lamb Lies down on Broadway (1974)
GENTLE GIANT – Acquiring the Taste (1971)
– Three Friends (1972)
GONG – Radio Gnome Invisible, Part 2: Angel’s Egg (1973)
– You (1974)
GURU GURU – Känguru (1972)
HARMONIA – Musik von Harmonia (1974)
– DeLuxe (1975)
HAROLD BUDD/BRIAN ENO – Ambient #2 The Plateaux of Mirror (1980)
– The Pearl (1984)
HATFIELD AND THE NORTH – Hatfield and the North (1973)
HELDON – Un Rêve sans Conséquence Spéciale (1976)
HENRY COW – The Henry Cow Leg End (1973)
– In Praise of Learning (1975)
HOLGER CZUKAY- On the Way to the Peak of Normal (1980)
HOLGER HILLER – Ein Bündel Faulnis in der Grube (1984)
– Oben im Eck (1986)
HUGH HOPPER – 1984 (1972)
INCREDIBLE STRING BAND (THE) – 5000 Spirits or the Cayers of the
Onion (1967)
-The Hangman’s Beautiful Daughter (1968)
JETHRO TULL – Aqualung (1971)
– A Passion Play (1973)
JIMI HENDRIX – Axis: Bold as Love (1967)
– Electric Ladyland (1969)
JOCELYN ROBERT – Stat-Live-Moniteur (1986)
JOHN & BEVERLEY MARTYN – Stormbringer (1970)
JOHN CALE – Fear (1974)
– Music for a New Society (1982)
JOHN MAYALL- Blues from Laurel Canyon (1968)
JON HASSELL – City: Works of Fiction (1990)
JON HASSELL/BRIAN ENO – Fourth World, Vol. 1 Possible Musics (1980)
JONI MITCHELL – The Hissing of Summer Lawns (1975)
– Mingus (1979)
JULIAN COPE – Interpreter (1996)
KEVIN AYERS – Joy of a Toy (1970)
– Shooting at the Moon (1971)
KING CRIMSON – Lizard (1970)
– Larks’ Tongues in Aspic (1973)
KINKS (THE) – Face to Face (1966)
– Something else (1967)
KLAUS SCHULZE – Mirage (1977)
KRAFTWERK – Kraftwerk (1971)
– Ralf & Florian (1973)
– Autobahn (1974)
KREIDLER – Appearance and the Park (1998)
LAURIE ANDERSON – Strange Angels (1989)
LEGENDARY PINK DOTS (THE) – Asylum (1985)
LOU REED – Berlin (1973)
LOVE- Forever Changes (1967)
MAGMA – Magma 2xCD (1970)
– 1001º Centigrades (1971)
– Köhntarkösz (1974)
MAGNA CARTA – Seasons (1970)
MARIANNE FAITHFULL- Strange Weather (1987)
MARY COUGHLAN – Uncertain Pleasures (1990)
MATCHING MOLE – Matching Mole’s Little Red Record (1972)
MATILDE SANTING – Water under the Bridge (1985)
MEIRA ASHER – Spears into Hooks (1999)
MONOCHROME SET (THE) – Eligible Bachelors (1982)
MOTOR TOTEMIST GUILD – City of Mirrors (1999)
MOUSE ON MARS – Iaora Tahiti (1995)
MUTANTES – A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (1970)
NEGATIVLAND – Escape from Noise (1987)
– Free (1993)
NEU! – Neu!’75 (1975)
NICK DRAKE – Five Leaves Left (1970)
– Bryter Layter (1970)
NICK MASON – Nick Mason’s Fictitious Sports (1981)
NICO – The Marble Index (1969)
– The End… (1974)
NURSE WITH WOUND-The Sylvie and Babs High-Thigh Companion (1986)
PERE UBU – The Modern Dance (1978)
– Dub Housing (1978)
– The Tenement Year (1988)
PETER HAMMILL – In Camera (1974)
– Over (1977)
– The Future now (1978)
– A Black Box (1980)
PINK FLOYD – The Piper at the Gates of Dawn (1967)
– Ummagumma (1969)
– Atom Heart Mother (1970)
POLLY JEAN HARVEY – Is this Desire? (1998)
POPOL VUH – Affenstunde (1971)
RESIDENTS (THE) – Not Available (1978)
– Mark of the Mole (1981)
RICHARD AND LINDA THOMPSON – I Want to See the Bright Lights
Tonight (1974)
ROBERTO MUSCI & GIOVANNI VENOSTA- Water Messages on Desert
Sand (1987)
– Urban and Tribal Portraits (1988)
ROBERT RICH & BRIAN LUSTMORD – Stalker (1995)
ROBERT WYATT – The End of an Ear (1971)
– Rock Bottom (1974)
– Shleep (1997)
ROLLING STONES (THE) – Between the Buttons (1967)
– Their Satanic Majesties Request (1967)
– Beggar’s Banquet (1968)
ROXY MUSIC – Roxy Music (1972)
– For your Pleasure (1973)
– Stranded (1973)
SLAPP HAPPY+HENRY COW – Desperate Straights (1975)
SOFT MACHINE (THE) – Volume Two (1969)
– Third (1970)
STEVE BERESFORD, DAVID TOOP, JOHN ZORN, TONIE MARSHALL
– Deadly Weapons (1986)
STEVE MOORE – A Quiet Gathering (1989)
SUICIDE – Suicide (1977)
SUZANNE VEGA – Days of Open Hand (1990)
TALKING HEADS – More Songs about Buildings and Food (1978)
– Fear of Music (1979)
TANGERINE DREAM – Phaedra (1974)
– Rubycon (1975)
TELE:FUNKEN – A Collection of Ice-Cream Vans Vol.2 (2000)
THINKING PLAGUE – In this Life (1989)
TIM BUCKLEY – Happy Sad (1969)
– Lorca (1970)
TODD RUNDGREN – A Wizard, a True Star (1973)
TOM WAITS – Small Change (1976)
– Swordfishtrombones (1983)
– Bone Machine (1992)
TONE REC – Pholcus (1998)
TO ROCOCO ROT – Veiculo (1997)
TORTOISE- Millions now Living will never Die (1996)
UNIVERS ZERO – Ceux du Dehors (1980)
5 UU’S – Elements (1988)
– Hunger’s Teeth (1994)
VAN DER GRAAF GENERATOR – The Least We Can do is Wave to each
other (1969)
– H to He who am the only one (1970)
– Pawn Hearts (1971)
– Godbluff (1975)
– Still Life (1976)
VAN DYKE PARKS – Song Cycle (1968)
VELVET UNDERGROUND (THE) – The Velvet Underground & Nico (1967)
– The Velvet Underground (1968)
WALTER WEGMÜLLER – Tarot (1973)
WHITE NOISE – An Electric Storm (1969)
WIGWAM – Being (1973)
X T C – Mummer (1983)
– Skylarking (1986)
YELLO – You Gotta Say Yes to another Excess (1983)
YES – The Yes Album (1971)
– Close to the Edge (1972)
– Relayer (1974)
Z N R – Barricade 3 (1977)
ZOMBIES (THE) – Odessey & Oracle (1968)

FM

PS-Esta lista deixa de fora, obviamente, discos de folk, jazz, contemporânea, etc…

Pedro_M
24.04.2002 170502
Incredible String Band! 🙂

Estranhei o Nick Mason, mas fui ver ao All Music e já percebi. O melhor do Tim Buckley, para mim, é o “Starsailor”.

Fernando Magalhães
24.04.2002 180634
“Fictitious Sports” é um colosso de originalidade e humor. A combinação Carla Bley + Robert Wyatt revela-se explosiva e de um surrealismo que, francamente, não encontro em mais nenhum álbum de rock.
O Nick Mason limita-se a produzir e a tocar bateria.

Quanto ao “Starsailor” ser o melhor de T. Buckey, também é a minha opinião, embora apenas tenha ouvido uma cópia pirata do mesmo e apenas uma vez.
A questão está em que, praticamente, como sabes, esse disco desapareceu de circulação. NÃO ME DIGAS QUE O TENS? :O
A lista que apresento inclui apenas discos que fazem parte da minha coleção, daí que…
Também tenho o “Goodbye and Hello”, que também é muito bom.

Quanto aos Incredible String Band- sou fanático. É uma das bandas mais estranhas do Psicadelismo (versão folk).
Tudo o que gravaram até “Liquid Acrobat as Regards the Air” é excelente. Já se falou deles por aqui, há tempos…

FM

Fernando Magalhães
26.04.2002 190727
“Das duas uma: ou as obras primas foram quase todas editadas nessa altura (e tivemos todos um azar dos diabos em ter nascido com 2 décadas de atraso :D) ou já não ouves música com o mesmo entusiasmo de antigamente (oh tempo / vooltaaa pa tráss). “
________________________________________

Olá MN 😀

Eu lamento ter que dizer isto, mas é verdade: Tiveste (tiveram) um azar dos diabos. Eu bem vos avisei que nascessem antes, mas não me quiseram dar ouvidos!!!! AGORA NÃO SE LAMENTEM!!!!!!
😀

Num registo sério: Não ouço hoje música com menos entusiasmo do que ouvia em qualquer outra época da minha vida.

Acontece que nos anos 70 (os 60 ouvi-os “a posteriori”, fui descobrindo aos poucos, já muito mais tarde) a música que se fazia era, regra geral, ou execrável ou simplesmente fora de série.

havia liberdade para gravar o que quer que fosse, em qualquer registo entre a imbecilidade pura e o sublime.

Além disso, a tecnologia encontrava-se numa fase de desenvolvimento muito especial. Uma melhoria imensa relativamente à década anterior, mas longe dos automatismos que começaram a fazer-se sentir sobretudo a partir dos anos 80.
Era um estímulo para a criatividade do músico em vez de um substituto. Mas tenho pouco tempo agora p/desenvolver este tópico.

Depois, as drogas eram outras, o que era também muito importante. Uma coisa é música induzida (ou sugerida) pelo LSD, outra completamente diferente a resultante da heroína (já bastante disseminada nos 70’s, de resto… ex-Velvet Underground) ou de pastilhas estimulantes como a “ecstasy”.

Curiosamente também no jazz e na folk, grande parte das obras-primas foram gravadas nos 70s!

Mas vou ter que sair agora. Penso que este tema poder dar uma “polémica” engraçada.

saudações

FM

King Crimson – “Na Corte Do Rei Carmesim” (valores selados | blitz | artigo de opinião | dossier)

BLITZ 2 JANEIRO 1990 >> Valores Selados


KING CRIMSON

NA CORTE DO REI CARMESIM



Ainda se cantavam a paz e o amor nos finais da década marcada pela geração hippie quando Robert Fripp e os seus pares entraram a matar, anunciando de forma violenta o advento do homem esquizóide do século XXI. Era de mais para a época. Os King Crimson ficavam definitivamente marcados com o estigma de grupo maldito. Fripp nunca se importou muito com isso. A sua guerra era outra.

Muito se escreveu e historiou já acerca desta banda, uma das mais marcantes e decisivas na definição das novas estéticas da década agora prestes a findar. Será pois talvez mais interessante procurar levantar um pouco o véu que cobre algumas das ocultas intenções do seu líder e mentor espiritual, Robert Fripp.
Logo no primeiro álbum eram já visíveis alguns indícios das principais preocupações e motivações do guitarrista e compositor do grupo. O rosto e o sinal da personagem desenhada na capa, os títulos sintomáticos de algumas das canções (entre as quais a já citada «21st Century Schizoid Man» e a que dava o nome ao disco: «In the court of the Crimson King») e as tonalidades majestosas e sombrias da música apontavam inequivocamente para uma personagem que era nem mais nem menos que o próprio diabo, padrinho e mestre de Fripp.



Peter Sinfield, letrista e encarregado de todo o aspeto gráfico e visual da banda, era o pólo oposto à negritude diabólica daquele. A tensão entre estas duas polaridades resultaria nalguns trabalhos fabulosos que viriam a constituir a fase inicial da banda. Depois do álbum de estreia, «In the Wake of Poseidon» e o deslumbrante «Lizard» (ambos de 70) marcam o apogeu desta fase de contornos classizantes e sinfónicos. No primeiro as tendências mefistofélicas do guitarrista, bem expressas em temas como «Pictures of a City» ou «The Devil’s Triangle», são contrabalançadas pelos dois poemas que abrem e fecham o disco, «Peace-A Beginning» e «Peace-An Ending», da autoria de Peter Sinfield.
Mas seria com «Lizard» que os King Crimson atingiriam o ponto culminante da sua arte. A imprensa britânica, deslumbrada, comparava-os com os grandes autores da música clássica. O Rock (seria?) alcançava, com os Crimson e outras bandas importantes da então designada «Música Progressiva», o estatuto e as honras da maioridade e paridade em relação aos seus vizinhos eruditos.



«Lizard» é também o álbum mais «branco» de toda a sua discografia. Por uma vez o diabo ficava fora da jogada. Memorável o combate travado entre a guitarra demoníaca de Fripp e a voz celestial de Jon Anderson, convidado especial no tema épico que ocupa a totalidade do segundo lado. Do outro, a entrada grandiosa do Mellotron e do sax de Mel Collins (mais tarde nos Camel) em «Circus», as perturbantes sonoridades e alusões ao free-jazz de «Indoor Games», a subtil paródia aos Beatles em «Happy Family» e a balada de tons medievais que é «Lady of the Dancing Water». Produção impecável, arranjos esplendorosos e executantes excecionais (que incluem como convidado o pianista de jazz, Keith Tippett) dão a esta obra o cunho da perfeição.
Em «Islands» (71) Fripp ultrapassa os limites, tornando-se como compositor de música clássica «a sério». O tom geral torna-se demasiado óbvio, com a inclusão da soprana de Ópera, Paulina Lucas e um prelúdio instrumental de música de câmara com Fripp tocando órgão de pedais.
«Earthbound», gravado ao vivo nos E.U.A., sofre de um som péssimo mas tem a vantagem de nos dar a perceber toda a energia que a banda desenvolvia em palco, com a guitarra de Fripp arrasando tudo e todos em torrentes elétricas demenciais. A nova versão de «21st Century Schizoid Man» causa arrepios.
Os King Crimson fecham entretanto para balanço. Fripp viria a ressurgir alguns anos mais tarde, orientando definitivamente a sua música segundo as diretivas do senhor das trevas. «Larks’ Tongues in Apic» (73), «Starless and Bible Black» (74) e «Red» (74) constituem a fase mais negra da banda. Entram e saem constantemente novos músicos, incapazes de suportarem a tensão acumulada e a tremenda energia exigida nas prestações ao vivo. Apenas Fripp se mantém inexorável, cumprindo escrupulosamente as ordens do chefe. «Red» tem momentos quase insustentáveis, com a guitarra elétrica e a secção rítmica formada pelo baixo de John Wetton e a bateria de Bill Bruford sem darem um minuto de descanso, numa espécie de Heavy-Metal mais sofisticado. Com «Red» os King Crimson atingem novo ponto crítico e novamente é dado o toque a dispersar, não sem entes editarem mais um disco gravado ao vivo nos E.U.A., intitulado obviamente «U.S.A.».
Fripp confessa-se então à beira da loucura e retira-se para um mosteiro para receber os ensinamentos de J.G. Bennett, discípulo de Gurdjieff, cujas doutrinas esotéricas eram o suporte teórico ideal para os seus futuros projetos musicais.
Práticas mágicas e rituais, exercícios de auto-disciplina e a aprendizagem de novas técnicas (de guitarra e não só…) impelem o músico para uma atitude agora declaradamente luciferina. Domínio da dor, o sofrimento como forma de ascese ou a utilização fria e sistemática da inteligência em detrimento das emoções conduzirão a partir de agora toda a sua vida e obra.
O modo como Fripp toca a sua guitarra é exemplar desta nova atitude. A energia é agora perfeitamente canalizada e contida, jamais explodindo em clímaxes libertadores. Exercício tântrico. Toda a energia, sexual ou emocional, é contida e dirigida para os centros mentais superiores. Como consequência, o aumento de poder e de uma certa forma de lucidez e o crescente controlo que o músico vai progressivamente adquirindo, sobre si próprio e (mais subliminarmente) sobre os outros.
Grava entretanto, juntamente com Brian Eno, os álbuns «No Pussyfootin’» (74) e «Evening Star» (75), utilizando pela primeira vez a técnica das «Frippertronics». «Evening Star» é, ainda hoje, para quem o souber escutar e perceber, dos álbuns mais terríveis e diabólicos que alguma vez foram gravados. «Index of Metals» desvela-nos implacavelmente a beleza gelada do mais terrível dos Infernos, os da inteligência que se auto-devora nos labirintos do seu próprio orgulho e desmesura. Fripp foi ainda um dos precursores das técnicas de inversão.
Não quero para já adiantar mais sobre este assunto. A eletricidade e a música sempre foram bons condutores para a passagem de energia, seja ela positiva ou negativa. Magia, pois claro, neste caso melhor dizendo escuro, pois que de magia negra se trata. O trivial, nos tempos que correm, em algumas das correntes da música atual. Quanto ao resultado final de tudo isto só Deus o decidirá.
A trilogia final dos King Crimson, novamente reciclados para os anos oitenta, é constituída por mais três álbuns: «Discipline» (81), «Beat» (82) e «Three of a Perfect Pair» (84). Fripp é ultrapassado pela rapidez dos acontecimentos e pelos seus discípulos, nas artes diabólicas. Os citados álbuns são «apenas» bons, reunindo como sempre excelentes executantes, como Tony Levin ou Adrian Belew.
Hoje é um pacato cidadão casado com a senhora Toyah Wilcox e dá aulas regularmente na sua Winbourne natal.
Uma referência final para os álbuns a solo, excetuando o primeiro, «Exposure», exercícios de estilo de «Frippertronics» apoiados em manifestos teóricos de tom apocalíptico e profético. Duas vozes dão vida e entusiasmo aos dois primeiros trabalhos: as de Peter Hammill em «Exposure» e de David Byrne em «God Save the Queen/Under Heavy Manners». Dos restantes que venha o diabo e escolha…