Arquivo mensal: Maio 2022

Foetus Inc. – “Sink”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 13 JUNHO 1990 >> Videodiscos >> Pop


FOETUS INC.
Sink
LP e CD Self-Immolation/Some Bizarre, import. Contraverso



Foetus Under Glass, You’ve Got Foetus On Your Breath, Phillip And His Foetus Vibrations, Foetus Over Frisco, Scraping Foetus Off The Wheel, Foetus Art Terrorism, The Foetus of Excellence, The Foetus All Nude Revue, Foetus Interruptus e agora Foetus Inc., são outras tantas designações para a genial paródia de Jim Foetus, alias Clint Ruin, alias Jim Thirwell. “Sink” é o sexto álbum da personagem, como os anteriores (“Deaf”, “Ache”, “Hole”, “Nail” e “Thaw”) com apenas quatro letras. O disco em questão é duplo e reúne máxis antigos não incluídos em álbuns anteriores. Foetus (chamemos-lhe assim, por comodidade de escrita) encarna o espírito niilista dos Einsturzende Neubauten, substituindo a distância intelectual e conceptual da banda berlinense por uma vivência pessoal, em carne-viva, do caos e da desagregação. “The Art of Falling Apart”, se quisermos, parafraseando o título dos Soft Cell, processada metodicamente segundo técnicas de demolição/reconstrução da personalidade referidas, de resto, no termo “Self-Immolation”, escolhido para selo de tão subversivas atividades. Crucificação, chacina, doença, violência, poder, são alguns dos tópicos preferidos e magistralmente tratados na totalidade da obra do mestre do horror, atingindo dimensões épicas à custa de um tratamento sonoro grandioso e de uma utilização única das potencialidades da voz. Foetus transforma a agonia em espetáculo de “music-hall”, dando a ver, sob uma luz intoleravelmente branca e clínica, as chagas abertas de uma humanidade à beira do fim. Depois de Foetus o “show” já não pode prosseguir.

Immaculate Fools – “Another Man’s World”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 20 JUNHO 1990 >> Videodiscos >> Pop


IMMACULATE FOOLS
Another Man’s World
LP, CCD, imp. CBS



A característica mais notável destes loucos imaculados era a extraordinária semelhança entre a voz do seu vocalista, Kevin Weatherill, e a do mestre dos mestres Peter Hammill. Neste novo álbum essa característica diluiu-se, e o que resta não é de molde a suscitar grandes entusiasmos. Antes pelo contrário. Se a música dos Fools já não era, nos primeiros álbuns, nada por aí além, então agora pouco se aproveita. A banda esforça-se, mas os resultados são nulos. Esforça-se sobretudo para se parecer com algo ou alguém que venda, procurando tirar dividendos da(s) parecença(s). Assim, Kevin imita (mal) sucessivamente John Cale, Neil Diamond, Mark Knopfler e por aí fora, tornando “Another Man’s World” (título bem escolhido…) um chorrilho de asneiras musicais, de uma pop pirosa e pretensamente épica, destinada à sopa das FM. O que faz correr Kevin Weartherill? Não há quem corra com ele?

Ryuichi Sakamoto | Yellow Magic Orchestra – “A Beleza Da Nova Geografia”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 13 JUNHO 1990 >> Videodiscos >> Pop

A DISCOTECA

A BELEZA DA NOVA GEOGRAFIA

Ryuichy é um dos inventores da “World Music”, versão nipónica. Ou seja, filtrada pela tecnologia mais sofisticada. Não são só baleias e Amazónia. As luzinhas e os dígitos também contam. Para ele o mundo não tem fronteiras. Como em “Beauty”, o seu disco mais recente.



Os japoneses adoram fabricar marionetas que funcionam a eletricidade. Entre as quais umas que têm a ver com música. Os europeus chamam-lhes eufemisticamente “aparelhagens”. Gira-discos, gravadores, leitores de CD – esse tipo de coisas. Reprodutores de som. A certa altura pensaram que, além de reproduzir, também podiam perfeitamente construir máquinas que produzissem som: sintetizadores, samplers, com muitas luzinhas e tecnologia digital.

Magia Amarela

Os Yellow Magic Orchestra eram um trio de jovens fanáticos da eletrónica: Yuki Takahashi, Haruomi Hosono e Ryuichi Sakamoto. Sakamoto rapidamente se revelou o mais apto, seguindo os mecanismos naturais da seleção das espécies, dando desde logo início a uma carreira a solo paralela à dos YMO.
Os Yellow Magic gravaram ao todo nove álbuns, alguns deles de edição japonesa exclusiva e por isso de mais difícil acesso. Os dois primeiros, “Yellow Magic Orchestra” (78) e “Multiplies” (79) são brilhantes exercícios de technopop temperada pela tradicional elegância nipónica. Tiveram honras de edição nacional. “Public Pressure”, “BGM”, “Solid State Survivor” e “Technodelic” são menos pop e mais experimentais, este último uma lição exemplar na arte do “sampling” e das manipulações eletrónicas. “Naughty” (83) é cantado exclusivamente em japonês. “Service” e “After Service” (ao vivo) são os derradeiros testemunhos de uma banda que nunca obteve, fora de portas, o êxito que logrou alcançar no seu país de origem.

Cidadão Do Mundo

Ryuichi Sakamoto, pelo contrário, é hoje um cidadão do mundo, com o duplo privilégio de imprimir às suas obras uma marca de inconfundível qualidade e ainda por cima conseguir vendê-las. Apreciador de Coltrane, Jobim, Cage, Beatles, Debussy e Satie, enveredou inicialmente por vias próximas dos YMO. “The 1000 Knives Of Ryuichi Sakamoto” (78) revela-nos um exímio operador de computador e um pianista apostado em transformar o fraseado satiano em pirotecnia à Rick Wakeman. “B2-Unit” (80, com alguns temas misturados pelo mestre do “dub”, Dennis Bovell) e “Left Handed Dream” (81) ostentam já os germes de posterior atitude – de mistura e síntese de géneros e culturas musicais diferentes, servidos por uma abordagem mais comercial. “Illustrated Musical Encyclopedia” (“Ongaku Zukan”, na edição original japonesa) e “Esperanto”, de meados da década, continuam por esta via, o primeiro incluindo um tema de parceria com Thomas Dolby, “Field Work”, o segundo comissionado para uma coreografia da nova-iorquina Molissa Fenley. Segundo Sakamoto, “não existe nenhuma cultura pura no mundo. Todas se misturam e influenciam mutuamente. O Bali fica ao lado de Nova Iorque e logo a seguir é Tóquio, ou talvez Hamburgo… Temos de ter esta espécie de mapa diferente na cabeça”.
“Neo Geo” é bem o manifesto musical desta nova geografia, juntando a Ásia à Europa e à América. O disco é produzido por Bill Laswell e o tema “Risky” cantado por Iggy Pop. A África é contudo o continente onde por fim desagua a música do japonês. “Beauty”, gravado o ano passado, rende-se incondicionalmente aos ritmos negros e à dança. A lista de convidados é extensa e luxuosa: Youssou N’Dour, Arto Lindsay, Robert Wyatt, Brian Wilson, Shankar ou Robbie Robertson são apenas alguns dos mais ilustres. Para descobrir como é possível juntar, no mesmo disco, o mestre das brasileiradas Arto Lindsay, o neuro-depressivo Wyatt e o ex-Beach Boy Wilson é preciso ouvi-lo.

Capitão Yonoi

Ryuichi também não descura a imagem. Ou seja, é ator. Excelente o seu capitão Yonoi, em “Merry Christmas Mr. Lawrence”, de Nagisa Oshima, ao lado de David Bowie, Tom Conti e Beat Takeshi. Talvez menos em “The Last Emperor” de Bernardo Bertolucci. Compôs música para a banda sonora de ambos e para o desenho animado “Kitten Story”. “Tokyo Melody” é um documentário centrado exclusivamente sobre a sua figura. Ele próprio realizou dois vídeos: “Adelic Penguins” e “Esperanto”.
Como homem dos sete ofícios que é, produziu e tocou nos discos “Brilliant Trees” e “Hope In A Darkened Heart”, respetivamente de David Sylvian e Virginia Astley. A colaboração com Sylvian vem, aliás, já de longa data. Desde os tempos em que contribuiu com uma canção sua para o álbum dos Japan, “Gentlemen Take Polaroids”, passando pelo já citado “Merry Christmas”, em que Sylvian agradece e retribui interpretando “Forbidden Colours”. O mundo, depois de “Beauty”, pertence a Ryuichi Sakamoto.