Arquivo mensal: Maio 2021

Brass Monkey – “The Complete Brass Monkey”

pop rock >> quarta-feira, 14.04.1993

REEDIÇÕES WORLD

MORRIS DE METAL


BRASS MONKEY
The Complete Brass Monkey
Topic, distri. MC – Mundo da Canção



Uma reedição histórica que reúne os dois únicos álbuns gravados por uma das bandas que revolucionaram a folk inglesa: “Brass Monkey”, de 1983, e “See how It Runs”, de 1986. A liderá-la, dois dos pilares da “british folk”: Martin Carthy e John Kirkpatrick. O primeiro é sobretudo conhec ido como um dos fundadores, com Ashley Hutchings, dos Steeleye Span. Os primórdios da sua carreira, iniciada em 1963, foram assumidos como influências por Bob Dylan e Paul Simon. Gravou e continua a gravar regularmente álbuns de parceria com o mago do violino, Dave Swarbrick. Passou, como quase toda a gente importante, pela superbanda Albion Band. Cantou e gravou com o mítico grupo vocal The Watersons. Guitarrista e vocalista de excepção, o seu estilo inconfundível pode ser apreciado nos magistrais álbuns a solo “Out of the Cut” e “Right of Passage” (circula perdido por algumas discotecas). Quanto a John Kirkpatrick, “virtuose” da concertina e do acordeão (escutem-no urgentemente, ao lado de Kepa Junkera e Ricardo Tesi, em “Trans Europe Diatonique”), apresenta um currículo não menos impressionante: três álbuns fundamentais com Sue Harris, “Shreds and Patches”, “Facing the Music” e “Stolen Ground”, este último, ao que parece, já editado em compacto. Presenças nos Albion Band, claro, e nos Umps & Dumps, ainda em acção. Tocou praticamente em todos os álbuns de Richard Thompson. É um dos grandes divulgadores da dança “morris” inglesa, que pode ser apreciada num dos seus trabalhos a solo, “Plain capers”, já com distribuição portuguesa. O que faz a originalidade do som dos Brass Monkey, cuja existência “oficial” decorreu entre 1983 e 1987, sempre com carácter esporádico, é a utilização e os intrincados arranjos de uma secção de metais – saxofone, trompete e trombone – numa fórmula instrumental que apenas encontrou paralelo noutra das múltiplas extensões dos Albion Band, os Home Servive, conhecidos entre nós pelo álbum “Alright Jack” (também já reeditado em CD). Seria pois injusto não mencionar os nomes de Howard Evans, trompete, Martin Brisnford, sax, e Roger Williams, este substituído por Richard Cheetham, em “See how It Runs”, no trombone, cujo passado entronca nos Albion Band e, no caso do trompetista, nos Old Swan Band e Edward II. Prolongamento lógico da modernização e electrização da “morris dancing” operada no seminal “Morris on” (para o qual contribuíram tanto Carthy como Kirkpatrick, ao lado do omnipresente Ashley “Tiger” Hutchings), “Brass Monkey” e “See how It Runs” reformulam por completo a rítmica característica da “morris” (o trombone fazendo a vez do baixo, por exemplo), constituindo um exercício salutar de reformulação de uma linguagem que, como diz Martin Carthy, é “intemporal”, continuando “a falar às pessoas de hoje, tão alto e claro como sempre”.
Imprescindível. (9)

Gaiteiros De Lisboa – “Grupo De Gaiteiros De Lisboa – O Prazer Do Som” (concertos)

pop rock >> quarta-feira, 14.04.1993


Grupo De Gaiteiros De Lisboa
O PRAZER DO SOM


Sem a preocupação de acertar numa fórmula, o Grupo de Gaiteiros de Lisboa prefere o prazer de tocar e o gozo que retira do som propriamente dito. Das gaitas-de-foles, percussões, flautas e de uma sanfona. A tradição é algo mais profundo e divertido do que alguns, em Portugal, podem julgar.



Três dos músicos da actual formação têm um currículo lavrado com distinção. Paulo Marinho é o gaiteiro dos Sétima Legião, com os quais brilhou no recente Festival Intercéltico. Carlos Guerreiro vem do GAC, tocou com José Afonso, Fausto, Sérgio Godinho e Rui Veloso, no “Auto da Pimenta”, “indivíduos com uma forma própria de encarar a música popular portuguesa e de a trabalhar”. Com eles aprendeu que esta música “não é uma coisa tão intocável” como nos tempos do GAC e da devoção às recolhas de Giacometti, quando a preocupação era “fazer igualzinho ao que fazia o povo”, sem tocar nesse “património inexpugnável”. Hoje Carlos Guerreiro procura “sons novos”, sem contudo “perder o respeito pelas raízes”. É um dos poucos músicos portugueses tocadores de sanfona. Ele próprio construiu a sua.
Rui Vaz esteve igualmente ligado ao GAC. Durante 12 anos assumiu a direcção artística do grupo vocal feminino Cramol. Integrou os Bago de Milho, banda formada nos tempos da MPP, da qual circula ainda uma cassete de mão em mão, com música do que seria a sua estreia discográfica, nunca concretizada. Hoje Rui Vaz dá mais importância ao canto. José Mário Branco não o costuma dispensar para fazer os apoios vocais nas suas actuações. Também ele tocador de gaita-de-foles (ouçam-no no álbum “Monte da Lua”, dos Romanças), insiste em que o termo “gaita” se aplica a uma quantidade mais lata de instrumentos de sopro: “Gaitas há muitas, não são só as de foles.” Os diversos tipos de flauta que toca no grupo, por exemplo. Concorda com Carlos Guerreiro quando diz que, “se uma pessoa tentar repetir o que o povo faz ou fazia, entra em paranoia completa. É impossível”. Para Rui Vaz, “quanto mais se conhece a música tradicional, mais se sabe que ela depende de factores não realizáveis noutro contexto”. Então, “o melhor é assumir isso e fazer a coisa como a gente gosta, de acordo com a nossa cultura e a nossa vivência”.
Francisco Bouxo, outro gaiteiro, é o mais novo da banda. Nascido em Portugal, filho de pais galegos, faz parte, juntamente com Paulo Marinho, do grupo de dança Anaquinhos, do Centro Galego de Lisboa. Por enquanto, contenta-se com o gosto que lhe dá tocar gaita-de-foles.

“É Orgiástico!”

O nome do grupo prende-se com a sua primeira fase, então constituído pelo Paulo, o Francisco e um terceiro gaiteiro, Nuno Cristo, que entretanto abandonou. “O grupo surgiu em 1991 com um objectivo específico: fazer trabalho de rua, com gaita-de-foles e percussões” – diz Paulo Marinho. Com a entrada de Carlos Guerreiro deu-se a mudança de reportório – temas tradicionais portugueses e galegos, um dos La Bamboche, um “saltarelo” medieval, danças da Bretanha, uma adaptação do “São João”, por sua vez adaptado por Fernando Lopes-Graça… “Encontra-se na música tradicional portuguesa muita coisa que provavelmente se faria na Idade Média e no Renascimento, que tem a ver com os instrumentos de sopro”, garante Carlos Guerreiro.
Insistem em ser diferentes pelo som. “A sonoridade de qualquer grupo de música popular portuguesa, neste momento, salvando honrosas excepções, estagnou um bocado. São as braguesas, são os cavaquinhos, são os bombos, são aqueles sons quadrados…”, diz Carlos Guerreiro. “Hoje em dia é muito fácil juntarem-se alguns bancários e respectivas esposas e fazerem um grupo qualquer…” E continua: “É pena, porque temos uma riqueza de instrumentos neste país que vai desde os instrumentos de corda aos de sopro, flautas, ocarinas… é possível procurar outro som, outras harmonias, e bricar com eles.”
Para o Grupo de Gaiteiros de Lisboa importa, como diz Rui Vaz, “fazer música sem complexos de saber se estamos nesta ou naquela via”, assim como a relação física com os instrumentos e, acima de tudo, o gozo de tocar. “Quando a música afina, é orgiástico!”, exclama Carlos Guerreiro.
Quem quiser tirar a prova, pode ir aos Açores, escutá-los ao vivo na ilha de São Jorge, no próximo dia 25, onde vão actuar, integrados nos Festival da Sexta Semana Cultural da Cidade das Velas.

Daniel Lanois – “For The Beauty Of Wynona”

pop rock >> quarta-feira, 14.04.1993


Daniel Lanois
For The Beauty Of Wynona
CD Warner Bros., distri. Warner Portuguesa



Embora na capa apareça uma rapariga nua, armada de um punhal, Wynona é o nome de uma pequena localidade canadiana onde o jovem Daniel cresceu e se fez homem. A jovem será quando muito a Beatrice de uma das canções. Depois de “Acadie”, o guitarrista, produtor e co-produtor, com Brian Eno, de inúmeros projectos (U2, Bob Dylan, Robbie Robertson, Jon Hassell, Roger Eno, Michael Brook, Peter Gabriel…), volta a insistir na criação de atmosferas subjectivamente (objectivamente, no tema “The collection of Marie Claire”) associadas à cena “acadiana” e à cultura “cajun” do Canadá, embora menos que no álbum anterior, num trabalho que privilegia antes de mais os arranjos. Se no aspecto da feitura e combinação de sons, “For The Beauty” faz jus ao título, já as prestações vocais de Lanois deixam um pouco a desejar, não tanto pela técnica em si, mas pelo que revelam de indecisão e falta de uma orientação definida. Curiosamente, a voz mostra-se permeável à influência de alguns nomes com quem o músico trabalhou: Bob Dylan, em “Brother L. A.” E “Rocky world”, Peter Gabriel, em “The unbreakable chain” e “Indian red” e Bono, dos U2, em “Lotta Love to Give” e “For the beauty of Wynona”. Lou Reed (“Still Learning how to crawl”), Joe Cocker (“The Messenger”) e até John Lennon (“Death of a train”) parecem, também eles, ter encarnado vocalmente no canadiano. O que significa que, por enquanto, Daniel Lanois não se conseguiu libertar do estigma do produtor que procura uma voz e uma via pessoais. (6)