Arquivo mensal: Agosto 2017

Jack Kerouac – “Reads on the Road” + Lawrence Ferlinghetti – “A Coney Island of the Mind”

19 de Novembro 1999
POP ROCK


Poetas “on the road”

Jack Kerouac
Reads on the Road (7)
Lawrence Ferlinghetti
A Coney Island of the Mind (6)
Ryko, distri. MVM


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Poesia em disco. Alimento para a alma, tendo o ouvido como intermediário. Uma outra forma de relação com o fluxo poético que à solidão do monólogo interior inflamado pela relação com a palavra do poeta contrapõe a mediatização do discurso musical. Em Portugal, Os Poetas mostraram em “Entre Nós e as Palavras” que a palavra poética se pode conjugar harmonicamente no e através do som musical. Pela fonética e pela voz/música própria, pessoal, do poeta (através de gravações ou declamando em tempo real) que a si próprio se diz, declamando. Na pop, a voz de William Burroughs tornou-se um ícone, símbolo mais fonético que significante, manjar dos samplers.
Agora chegou a vez de Jack Kerouac, papa da “beat generation”, dar a conhecer a sua obra num contexto musical. “Reads on the Road” reúne material disperso. Interpretadas pelo próprio, há canções como “Ain’t we go fun”, “Come rain and shine” e “When a woman loves a man” (Kerouac costumava cantar e tocar bongos nas míticas sessões de jazz e poesia que tiveram lugar no clube Minton’s Playhouse, berço do be bop, em sessões com Thelonius Monk, Charlie Parker e Dizzy Gilespie…) e uma leitura de mais de 26 minutos, em local e data não identificáveis, de “On the road”, a obra que serviu de bíblia ao movimento “hippie” na alvorada dos anos 60. “On the road” aparece de novo num curto excerto musicado pelo organista John Medeski.
David Amram, a solo ou com o seu grupo, criou arranjos instrumentais, respeitando escrupulosamente a métrica e as entoações vocais do autor, para “Orizaba 210 blues” e “Washington D.C. blues”, este último, sem publicação até à data, uma sátira imbuída de reflexões religiosas sobre o dia-a-dia num colégio feminino escrita por Kerouac em 1956 no quarto do seu amigo, e também poeta, Randall Jarrell, autor de “Pictures from An Institution”.
Tom Waits (admirador ferrenho do poeta que influenciou grandemente a sua escrita e a sua forma de cantar) fecha o álbum na companhia de Primus com nova leitura/canção de “On the road”.
“A Coney Island of the Mind” funciona de forma diversa, no modo de conjugação do tempo com o som e as palavras. Neste caso tratou-se de juntar o próprio poeta, Lawrence Ferlinghetti, a declamar os seus versos, com a música de Dana Colley, saxofonista dos Morphine, escolhido para este projecto pelas suas ligações ao jazz. Ferlinghetti é o autor da obra que dá título a este álbum, ainda um texto de referência da “beat generation”. Em 1955 foi acusado (e julgado inocente) de venda de pornografia devido a ter publicado, na editora City Lights Pocket Book Four, “Howl”, um texto de Allen Ginsberg, outro dos patriarcas da geração “beat”.
As gravações decorreram num estúdio instalado na cave do edifício Sentinel, em São Francisco, comprado por Francis Ford Copolla, que nesse local gravou as vozes de “Apocalypse Now”. Situado a curta distância da antiga editora City Lights e da galeria onde Ginsberg declamou “Howl” pela primeira vez, o edifício foi ponto de passagem, nos anos 60, de gente como Lenny Bruce e os Grateful Dead que aí gravaram algumas das suas famosas sessões psicadélicas.
Em termos sonoros não se pode dizer que “A Coney Island of the Mind” seja exaltante, apesar do minucioso trabalho do músico dos Morphine, sobretudo na “monstruosa” sequência de 38 minutos do título-tema (indexada em 29 faixas). Jazz cool, ambientes fumacentos e apontamentos instrumentais na penumbra pontuam com eficácia o discurso de Ferlinghetti, mas deixarão, decerto, desapontados os admiradores dos Morphine (“Dog” poderia ser uma canção do grupo, não fosse o peso do poeta…). Ficam para saborear, neste registo como em “Reads on the Road”, as palavras de dois dos poetas mais representativos de um tempo em que se achou ser possível fazer do sonho a regra de conduta. Caso se domine a língua inglesa, é evidente.



Edward Ka-Spel – “The Blue Room”

Sons

3 de Dezembro 1999
POP ROCK

Edward Ka-Spel
The Blue Room (8)
Soleilmoon, distri. Ananana


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“Canta enquanto podes” é a divisa que há anos ilustra cada disco dos Legendary Pink Dors. A sigla apocalíptica transitou para o mais recente álbum do seu líder, o vocalista Edward Ka-Spel, uma das poucas “cabeças de ácido” dos anos 90, ao lado de Julian Cope e um dos legítimos herdeiros da “trip” interminável desencadeada por Syd Barrett. “The Blue Room” é, segundo o seu autor, a primeira parte de uma trilogia versando o tema da demanda da alma. Viagem pelos planos astrais da consciência, “The Blue Room” convida-nos a entrar no quarto azul, o quarto secreto do feiticeiro Ka-Spel, palco de intraduzíveis cerimónias, tão alucinatório como o cubículo de terror carmesim congeminado por David Lynch em “Twin Peaks”. É uma caixa de música de electrónica barroca, em progressão lenta em direcção aos abismos da mente, conduzida com cinismo pela voz de veludo e falsamente inocente de Ka-Spel, que aqui assume o comando de todos os sons e efeitos, musicais e psicológicos. O mundo de Ka-Spel, como dos Legendary Pink Dots, é um quadro de roxos e dourados emoldurado por um céu polvilhado de estrelas doentes. Uma música que atrai, que se insinua, estranha como um carnaval de espectros. Vozes de deuses moribundos, batuques de joalharia, danças de arlequins, computadores embriagados com licores, corredores com braços e espelhos em cada esquina, relógios deformados a marcarem o tempo que falta para o fim. Edward Ka-Spel, uma vez mais, mina os alicerces da normalidade. E da religião, como em “Supper at J’s”, a última ceia de um falso Messias acessível através da Internet. Um álbum do outro mundo. A ouvir enquanto é tempo.



Isotope 217º – “Utonian Automatic”

Sons

3 de Dezembro 1999
POP ROCK


Isotope 217º
Utonian Automatic (7)
Thrill Jockey, import. Lojas Valentim de Carvalho


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Com o anterior álbum, “The Unstable Molecule”, os Isotope 217º inauguraram de forma auspiciosa a vertente mais jazzy do pós-rock com sede em Chicago que os Tortoise afloraram em “TNT” e os Chicago Underground Duo/Orchestra aprofundaram e radicalizaram, sempre no seio da Thrill Jockey, e que na Alemanha ganha força com os Tied + Tickled Trio, no seu novo e estimulante trabalho, “EA1 EA2”. “Utonian Automatic” dá um passo ao lado na relação entre as estratégias solísticas declaradamente de raiz jazzística e bases rítmicas rock, com a electrónica a invadir todo o espaço envolvente. Mais “cool”, digamos assim, que “The Unstable Molecule”, este novo trabalho dos Isotope 217º acaba, curiosamente, por se aproximar de um dos referenciais estéticos consultados com maior regularidade pelos pós-rockers de Chicago – a escola de Canterbury, aqui completamente assumida através dos Gilgamesh e dos National Health, em temas como “Audio Champion” e “Now beyond”, praticamente parafraseando a guitarra de Phil Miller e os teclados de Dave Stewart e Alan Gowen (“Solaris”). “Rest for the wicked” e “Looking after life on Mars” cultivam a veia mais convencional do jazz-rock, num álbum que nos primeiros nove minutes de “LUH” parece querer desenvolver as vias mais energéticas encetadas pelo grupo no seu disco de estreia mas que no último tema, “Real MC’s”, se esvazia no soft-jazz aquático de uma Annette Peacock, só que sem Annette Peacock, regressando à tona nuns estranhíssimos 30 segundos finais. Pós-jazz em compasso de espera.