Arquivo mensal: Agosto 2017

Paul McCartney – “Run Devil Run”

5 de Novembro 1999
POP ROCK


Espanta-espíritos

Paul McCartney
Run Devil Run (8)
Parlophone, distri. EMI – VC


pmc

“Hey, hey, my, my, rock ‘n’ roll will never die”. Neil Young é um rocker. John Lennon era um rocker. Paul McCartney, não. Macca foi sempre chocolate e caramelo, dos Beatles aos Wings, passando por dois notáveis álbuns a solo, “McCartney” e “Ram”. Melodias para brincar. Entretanto Linda morreu. Era preciso descarregar a fúria, submeter a alma a um exorcismo, passar-lhe um atestado de limpeza. “Run Devil Run” é o nome de uma gama de produtos de sabonete e óleos de banho destinados a afastar os maus espíritos.
Paul vasculhou nos arquivos, introduziu as moedas na ranhura da Jukebox da memória e o resultado é “Run Devil Run”, um álbum de clássicos de rock ‘n’ roll. Doce, para os netinhos bebericarem à lareira? Pelo contrário, “Run Devil Run” magoa como um chicote de cabedal. O ex-Beatles acelerou a moto dos fifties e é como se tudo começasse de novo. Mas, atenção, com ligeiras deformações espaço-temporais… Durante a entrevista feira por Chris Ingham para a última edição da Mojo, o jornalista interroga Paul sobre os métodos de trabalho – semelhantes aos deste disco – usados pelos Beatles até “Revolver”. Resposta de Paul: “Sim, mesmo até mais tarde, em ‘Rubber Soul’, o disco seguinte, não é?”. Após uma pausa, Chris Ingham arrisca: “Bem, não, ‘Revolver’ foi editado antes de ‘Sgt. Pepper’s’”. Paul: “Foi? Ok, eu fazia parte dos Beatles não fazia?”.
Confusões à parte, “Run Devil Run” introduz algumas notas de estranheza, como a presença, na ficha técnica, dos bateristas Dave Mattacks (ex-Fairport Convention) e Ian Paice (Deep Purple) e, sobretudo, do guitarrista dos Pink Floys, David Gilmour, completamente desatinado em solos do mais puro rock ‘n’ roll… Também o facto de, por um qualquer condicionamento ou influência subliminar, o som se assemelhar às produções da época, saturado de eco, o que acentua o efeito de verosimilhança. Mas não, o próprio McCartney esclarece que apenas recorreu a este efeito de estúdio no tema de abertura, “Blue Jean bop”, de Gene Vincent.
Além deste tema, o alinhamento é composto por “Blue Jean bop”, de Gene Vincent, “She said yeah”, de Larry Williams, “All shook up”, “I got stung” e “Party”, de Elvis Presley, “No other baby”, dos The Vipers, “Lonesome town”, de Rick Nelson, “Movie Magg”, de Carl Perkins, “Brown eyed handsome man”, de Chuck Berry, “Coquette”, de Fats Domino, “Honey hush”, de Johnny Burnette & The Rock ‘n’ Roll Trio e “Shake a hand”, de Little Richard, e inclui ainda os originais “Run devil run”, “Try not to cry” e “What it is”.
Nesta viagem de recordações traficadas (há transposições de registo, num dos temas, McCartney não diz qual, parte da letra, que o músico nunca conseguiu decifrar, foi deliberadamente mal transcrita para uma aproximação fonética…) há sangue, suor e lágrimas. Como em “Try not to cry”, precisamente, que parece arrancado a um drama da época, e “What it is”, outro original, digno de figurar em qualquer álbum dos Beatles.
Ao contrário de Bryan Ferry que, obviamente, se diluiu na taça de champagne das baladas “standards” (o ataque de nostalgia está, inclusive, a afectar gente tão dispare como Joni Mitchell, George Michael e Gal Costa, todos com álbuns passadistas na calha), Paul McCartney correu no sentido contrário ao da sofisticação e das lantejoulas. O que é que encontrou nessa viagem para trás? “Paixão!”. Aos 57 anos, o exorcismo produziu os seus efeitos: “Senti-me realmente bem quando cheguei ao final das gravações”.



Felix Kubin – “Filmmusik” + Oleg Kostrow – “The Great Flashing Tracks from Iwona”

Sons

12 de Novembro 1999
POP ROCK


Felix Kubin
Filmmusik (7)
a-Musik, distri. Matéria Prima
Oleg Kostrow
The Great Flashing Tracks from Iwona (8)
Storage Secret Sounds, distri. Matéria Prima


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Felix Kubin actuou há dias em Portugal em duas memoráveis “performances” no interior de um cacilheiro, a caminho da sessão de tortura dos Pan Sonic que nos esperava do outro lado do rio. “Filmmusik”, composto por temas retirados de três bandas sonoras para filmes (de animação?) de Mariola Brillowska (“Katharina & Witt, Fiction & Reality”, “Die Contr-Contras”, “Der falsche Spieler” e “Morgenröte”, este co-realizado com o próprio Kubin), não tem o mesmo sentido de humor que Kubin evidenciou ao vivo (do alinhamento de 26 faixas, apenas “Pornodisko” foi tocado no barco), optando por fragmentos vocais dispersos, processos de samplagem aprendidos com o seu mestre e amigo Holger Hiller e ambiências electrónicas que ilustram a dedicatória de Kubin: “Long live psycho sci fi pop!” Bastante mais interessante que o álbum de Kubin é “The Great Flashing Tracks from Iowa”, do seu compatriota Oleg Kostrow. Um extraordinário trabalho de samplagem e colagem, sem costuras, de canções de filmes das últimas quatro décadas, lounge jazz, disco, psicadelismo, drum ‘n’ bass, easy listening e electrónica composto para a banda sonora da peça de teatro infantil “Iowna”, idealizada pelo artista russo Andej Bartenev, antigo colaborador de Paco Rabane e Brian Eno. Alguém definiu esta sinfonia de “flashes” da imaginação como um cruzamento de “Trip Tease”, dos Tipsy, com “Organ Transplants”, de Stock, Hausen & Walkman. Um álbum de pop electrónica leve como o vento. Esqueçam os Air.



Salaryman – “Karoshi”

Sons

12 de Novembro 1999
POP ROCK


Salaryman
Karoshi (7)
City Slang, distri. Música Alternativa


sal

“Um carro de músculos construído pelos Kraftwerk e conduzido pelos King Crimson” é como a folha de promoção define o som dos Salaryman em “Karoshi” (“morte por excesso de trabalho”). Bastante mais complexo, e por vezes maçudo, que o seu antecessor, “Karoshi” é um híbrido onde apenas a referência aos King Crimson faz algum sentido, se compreendida à luz de uma energia e de “riffs” de guitarra (“Strong holder”) cuja sobrecarga eléctrica se pode aferir por obras como “Lark’s Tongues in Aspic” e “Red”. Crescendos de electrónica amontoam-se contra uma parede de baixo e bateria. Easy listening de cristal mal lapidado (“The companion”) cede o passo a uma versão dub dos Genesis (“Thomas Jefferson Airplane”). Os sintetizadores analógicos fazem valer os seus direitos, enquanto “My hands are always in water” avança implacavelmente em frequências de peso entontecidas pela sirene de aviso de um theremin. “Monterey days” traz as vozes dos Tuxedomoon (de “Half Mute”) para a arena de um álbum essencialmente instrumental. Aliás, “Karoshi” situa-se, mais do que uma vez, perto da fase electropunk desta banda americana, enquanto noutras lembra um álbum como “The Bridge”, de Thomas Leer e Robert Rental, paradigma do rock industrial mais intelectualizado. “Dull normal” é uma banda sonora para psicóticos compulsivos e “Taco Muerte” junta os Tuxedomoon aos Cabaret Voltaire. Depois de catar as pulgas a “My dog has fleas” com um desparasitador jazz, “Karoshi” fecha-se na obscuridade de “Craters of the national moon” e do título-tema, representativos do lado mais sinistro dos Salaryman. O álbum inclui um jogo de CD-ROM que o grupo define, e com razão, como “irritante”.