Arquivo mensal: Agosto 2017

Orchester 33 1/3 – “Maschine Brennt” + B. Fleischmann – “Pop Loops for Breakfast” + Fennesz – “Plus Forty Seven Degrees 56’ 37’’ Minus Sixteen Degrees 51’ 08’’”

Sons

3 de Dezembro 1999
POP ROCK


Orquestra de Vila Chã

Orchester 33 1/3
Maschine Brennt (8)
Charizma, distri. Ananana
B. Fleischmann
Pop Loops for Breakfast (8)
Charizma, distri. Ananana
Fennesz
Plus Forty Seven Degrees 56’ 37’’ Minus Sixteen Degrees 51’ 08’’ (8)
Touch, distri. Matéria Prima


orch

Não lembraria ao diabo começar um disco com um tema de 41 minutos mas foi isso mesmo que fizeram os austríacos Orchester 33 1/3 em “Maschine Brennt”, digno sucessor do álbum homónimo de estreia, quanto a nós um dos melhores trabalhos discográficos de 1997. O longo tema em questão, que dá título ao álbum, é uma homenagem ao escritor Max Brand, pseudónimo de Frederick Faust, autor de centenas de “best-sellers” e da personagem Dr. Kildare. Passam-se coisas inquietantes nesta longa viagem pela música da orquestra mas nem sempre com aquela dose de interesse e acutilância que a dimensão do tema justificaria. Um pavimento de electrónica ambiental/industrial sustenta súbitas erupções dos metais que longe de quaisquer heresias “free” aparecem aqui completamente subjugados a um meticuloso trabalho de escrita que os coloca entre as progressões harmónicas dos Urban Sax e marchas funerárias de jazz de New Orleans. Há ainda sequências de ruído de máquinas em funcionamento e interlúdios vocais completando um todo algo descosido que ora se eleva aos cumes atingidos pelos Art Zoyd em “Berlin” ora divaga durante largos minutos sem destino por um pântano de detritos electrónicos onde não se vislumbram quaisquer formas de vida. Um trabalho de fôlego, sem dúvida, que procura romper com os métodos prévios instaurados pela orquestra mas que acaba por soçobrar perante a desmesura de propósitos. As restantes seis faixas de “Maschine Brennt” incluem um terramoto de baixas frequências pelo que parece ser um sax barítono tratado electronicamente, em “Daily plasma”, uma incursão não menos telúrica no “hip hop”, em “Lower ass side mix”, uma curiosa intersecção de efeitos vocais e truncagens sonoras em “Review” e, a fechar, um solo de piano na gaveta, “Reise nach Berlin”. Longe de ser uma obra-prima, “Maschine Brennt”, não mancha porém a reputação daquela que foi uma das bandas mais originais a emergir da nova cena electrónica europeia nos últimos anos.
Christof Kurzmann e Christian Fennesz eram os dois maestros da Orchester 33 1/3. Extinto o projecto colectivo que integrava mais de uma dúzia de elementos, gravaram cada um a sua estreia a solo. O primeiro fundou a editora Charizma e escudou-se no pseudónimo B. Fleischmann para rubricar “Pop Loops for Breakfast”, um delicioso álbum de electrónica romântica na linha de “Beautronics” dos Isan, obviamente inspirado nas duas referências germânicas mais citadas nos últimos tempos: Cluster e Pyrolator. Puro deleite auditivo.
Já Christian Fennesz – que há alguns meses actuou no Lux-Frágil e se prepara para produzir o novo álbum dos portugueses Supernova – optou por uma obra mais intelectual, ainda que também no seu caso exclusivamente electrónica. Mas enquanto o seu ex-colega se revela sensível à melodia e com uma atenção aos timbres mais sedutores criados pelos samplers e sintetizadores, Fennesz programou o seu universo de bits segundo coordenadas menos evidentes e a exigirem uma dose maior de disponibilidade. Sem referências aparentes que permitam balizar os limites deste lugar onde decorrem mil fenómenos bizarros, é passo a passo e com as antenas em regime de captação máxima que se caminha até ao ponto exacto que Fennesz traçou no seu mapa pessoal. Diluviano, misterioso, por vezes hermético, “Plus 47º 56’ 3’’ Minus 16º 51’ 0’’” é uma emissão radiofónica emitida de um planeta nos confins da galáxia e recebida em segredo na estação ferroviária deserta ilustrada pela capa. Em Vila Chã, algures no Norte de Portugal.



Nova Huta – “At Bambij Robot’s Nonstop Datscha” + Pluxus – “Fas 2”

10 de Dezembro 1999
POP ROCK

Nova Huta
At Bambij Robot’s Nonstop Datscha (8)
Storage Secret Sounds
Pluxus
Fas 2 (7)
Slowball, distri. Matéria Prima


novahuta

Toda a gente se anda a divertir na música electrónica. Ainda bem. Longe vão os tempos dos rostos sisudos perdidos numa confusão de botões, circuitos e enciclopédias. Agora tudo é permitido como num desenho animado. Os Cluster, claro, foram os “culpados”, quando ainda na primeira metade dos anos 70, gravaram o álbum que se tornaria na bíblia da nova electrónica: “Zuckerzeit” (na década seguinte reactualizado por Holger Hiller, Der Plan e Pyrolator). Os Nova Huta, do alemão Oleg Kostrow, companheiro de quarto, sem malícia, de Felix Kubin, e os suecos Pluxus (mas também os também germânicos Sack & Blumm e Bluthsiphon, em breve nesta páginas, não perca!) juntam sons como uma criança monta um Lego. No caso dos Nova Huta o brinquedo cola ritmos “motorika” com melodias românticas de “easy listening” imberbe (como no viciante “Soft end” ou na quase imbecilidade de “Amazing tante diwan”), solos de calculadora de bolso e caixas de ritmo num tom geral de Kraftwerk para o jardim de infância cortado pela interferência dos Suicide, no tema final “Babsie me”. Tudo com o selo do bom-humor, como na inscrição da capa “All music made by this hands” ilustrada por um par de mãos. Os Pluxus são um trio mais “electro” que reactualiza a electro-pop dos OMD mas que ouviu de certeza o seu compatriota Bo Hansson, a julgar pelo tema “Hej, hej ign, hej då”, com a mesma caixa de ritmos e o órgão Farfisa de álbuns como “Lord of the Rings” e “Magician’s Hat”. Música para festas para se dançar com a cabeça no ar e o cérebro atafulhado de “confetti”.



Peter Hammill – “The Fall of the House of Usher – Deconstructed & Rebuilt” + Roger Eno & Peter Hammill – “The Appointed Hour”

10 de Dezembro 1999
DISCOS – POP ROCK

Ópera de empreitada


Peter Hammill
The Fall of the House of Usher – Deconstructed & Rebuilt (7)
Roger Eno & Peter Hammill
The Appointed Hour (5)
Fie, distri. Megamúsica


ph

Há uma maldição a pairar sobre esta ópera baseada num conto de Edgar Allan Poe que Peter Hammill demorou cerca de 20 anos a concretizar e que finalmente viu a luz do dia em 1991, como amaldiçoada era a mansão saída da imaginação do escritor inglês. O tema da decadência e da hiper-sensibilidade da personagem principal, Roderick Usher, desempenhado pelo próprio Hammill, assentam como uma luva no universo poético do antigo líder dos Van Der Graaf Generator mas a verdade é que a conjugação do libretto, escrito por Chris-Judge-Smith, com as partes vocais das restantes personagens, entregues a Lene Lovich, Sarah-Jane Morris, Andy Bell e Herbert Gronemeyer, não conseguiram evitar que “The Fall of the House of Usher” tivesse um tom de ópera-rock que, nalguns momentos, rondava perigosamente a grandiloquência balofa de um Meat Loaf.
Oito anos volvidos, Hammill terá chegado à mesma conclusão. Na impossibilidade de trocar os intérpretes, o cantor reescreveu a totalidade dos arranjos, modificando as vocalizações que a si diziam respeito, retirando as partes da bateria e acrescentados naipes corais de guitarras eléctricas. Também todo o trabalho de produção sofreu modificações já que Peter Hammill remodelou todo o conceito sonoro do álbum no seu estúdio particular. “The Fall of the House of Usher” soa agora mais cheio e electrónico com a contrapartida das novas vocalizações mostrarem um Hammill mais velho e menos disponível para os excessos histriónicos que caracterizavam a anterior versão. Mas por mais que Roderick Usher/Peter Hammill continuem a chorar a morte de Madeline a velha mansão jamais se erguerá das ruínas. Apesar disso, esta reconstrução, “demolida e reconstruída” de “The Fall of the House of Usher” é uma obra-prima, comparada com “The Appointed Hour”, uma colaboração de Hammill com o teclista Roger Eno. Os dois combinaram uma hora, fecharam-se cada um no seu estúdio a improvisar e depois encontraram-se para colar os respectivos desempenhos. Apesar de, segundo dizem, não ter havido qualquer tratamento ou ajustamento dos trabalhos individuais, não se notam fracturas nem costuras pela simples razão de que quase nada acontece ao longo de uma hora pachorrenta preenchida por pianadas e tapetes de sintetizador que têm mais a ver com o neo-romantismo de Eno do que com a ebulição criativa de Hammill. Sem correrem riscos para além do inusitado da ideia, Hammill e Eno limitaram-se a fazer “muzak” tão agradável quanto inconsequente, nada acrescentando de relevante às respectivas discografias.