O percurso musical do irmão mais novo de Brian Eno tem sofrido uma evolução curiosa de seguir. Primeiro foi a transposição do sublime niilismo “maçon” de Erik Satie para um contexto ambiental, em “Voices”, para nós, ainda o seu melhor álbum. Seguiu-se a música de câmara e o fascínio pelos brinquedos acústicos, em “Between tides”, para na colaboração com a antiga vocalista dos Dream Academy, Kate St. John, se fragilizar no bucolismo, muito “british”, de “The Familiar”. Regressou ao classicismo, mas agira condimentado pelo melaço pseudominimalista de instrutores como Michael Nyman e Wim Mertens, em “In a Room” e “Lost in Translation” e aí parecia querer ficar a dormitar até que neste seu novo trabalhou despertou de novo com o formato de “canção”, só que desta vez sendo ele próprio a encarregar-se das vocalizações. “Descobriu” igualmente as delícias da música tradicional de raiz céltica. A polca/valsa de abertura é uma leitura superficial da “folk”, na atitude e no modo idêntica à de Mike Oldflield nos primórdios de carreira (no seu novo álbum, “Voyager”, regressou em força ao celtismo, embora o resultado seja para esquecer), em temas como “The sailor’s hornpipe”. O golpe de rins vem a seguir, em duas canções que se diriam decalcadas do fundo de catálogo do irmão, “The whole wide world” e “the slow river”, onde mesmo os títulos parecem pertencer a álbuns como “Another Green World” e “Before and after Science”. “In water”, por sua vez, corresponde à fase “Apollo Atmospheres & Soundtracks” do irmão e “Amukidi” é um jogo coral de ressonâncias africanas “A capella”. No título-tema ressalta a costela satieana, num “nocturno” ondulatório embalado por um acordeão e um piano de flores, ideal para acompanhar devaneios nas margens do Sena. “Over the hills” lembra as baladas dos King Crimson, ainda com Peter Sinfield, o tradicional “The boatman” mistura a pianada romântica “à la” Wim Mertens, um vibrafone de água e canto gaélico e “Hewendawa” é Enya no masculino. O mistério, marítimo ou não, fica a pairar em “Aryis”, para nós o melhor tema do disco e aquele que poderia lançar Roger Eno nas fileiras da ECM. O Outuno começa aqui.
VÁRIOS ARTISTAS
Eyesore: A Stab at the Residents (7)
Vaccination, import. SYMBIOSE
Há mais de 20 anos que os Residents permanecem incógnitos. À proximidade do milénio, estão mais activos e subversivos do que nunca. Três dezenas de nomes, quase todos desconhecidos, responderam ao pedido da editora Vaccination e apresentaram as suas versões pessoais de temas destes anjos do bizarro, como lhes chamaria Edgar Allan Põe. É a homenagem “oficial”, de genérico “Eyesore: A Stab at th Residents”. Um objecto tão absurdo como fascinante.
Homenagem aos Residents? Estão a brincar! Será a reacção mais provável a este “digipak” com cores de cadáver e de sangue que a Vaccination Records, uma pequena editora californiana vocacionada para a ruína, acabou de lançar no mercado. As bandas e os nomes avulsos de “Eyesore” foram convidadas, d acordo com aquela companhia, através de métodos como a “persuasão”, a “tramóia” e a “boa vontade”. Os que responderam à chamada fizeram-no por piro amadorismo (“por amor à música dos Residents”), não recebendo quaisquer lucros em troca, nalguns casos financiando eles próprios as gravações. Alguns declinaram a oferta, por falta de fundos. Stan Ridgway, o ex-Wall of Voodoo que encerra o compacto, usou como “tema” a gravação da sua voz, via telefone, a desculpar-se por não apresentar uma única nota de música, nem dele nem dos “fabulous four” (perdoem o sacrilégio…) com cabeça em foram de globo ocular. Há ainda um “bonus track” secreto. Tudo com o selo “Residents approved” e o conveniente tom d conspiração.
A lista das bandas e solistas participantes é como segue: Only a Mother, Idiot Flesh, Heavy Vegetable, Frank Pahl, Thinking Fellers Union Local 282, Borgia Popes, Ubzub, Mooseheart Faith, Spatter Trio, Amy Denio, U-Totem, Greg Roe, Giant Ant Farm, Charming Hostess, Richie West & Bomb Factory, Silica Gel, Mommyheads, Supercollider, Snakefinger, Fibulator, Dramagold, Shakin’ Ray Levis, Poxy Boggards, Big Butter, Cracker, Pink Floyd the Barber, Non Credo, Lungpigs, Eskimo, Primus e o já citado Stan Ridgway. Alguns parecem invenção mas não são.
Deste rol de inanidades, conhecemos os U-Totem, de James Grigsby, banda conotada com o som Recommended, e os Negativland, os (Segundo cremos) suiços Non Credo, outra banda da estética Recommended, Snakefinger (guitarrista que, durante anos, participou nos álbuns dos Residents, entretanto falecido), os Cracker e Amy Denio, “performer” habitual da Knitting Factory que já actuou entre nós. Os Idiot Flesh e os Giant Ant Farm já têm álbuns da Vaccination. Outras bandas estão em agenda para gravar. A grande maioria, porém, compõe uma grande incógnita, embora alguns disponham já de endereços próprios na Internet. Todos os temas estão interligados, formando uma longa peça sonora, de maneira idêntica à dos primeiros álbuns conceptuais dos homenageados, como “The Third Reich ‘n’ Roll”, “Not Available” ou “Eskimo”. Os álbuns repescados em “Eyesore” abrangem um período temporal que vai do EP de estreia, de 1972, “Santa dog”, ao álbum do ano passado, “The Gingerbread Man”. No total, 76 minutos de incongruência, caos, loucura, paródia, devoção, paranóia e algum humor, numa para de “freaks” desejosos de agradar aos progenitores.
Os sons e os ruídos, os decalques e as variações, a acumulação de citações e desvios, a estranheza pela estranheza ou a assunção séria da diferença que se derramam em “Eyesore” fazem deste produto – que seria perturbante se a ânsia de esquisitice não fosse, em muitos casos, gratuita – algo de impenetrável, quase anedótico. A estética das várias bandas confunde-se e contagia-se mutuamente, a alucinação acústica esbarra na derivação electrónica mais esotérica, as vocalizações tanto seguem as estratégias fonéticas que, segundo os Residents, lhes teriam sido ensinadas por uma misteriosa personagem de nome N. Senada, como inventam elas próprias novos e insanos vocabulários. Seria despropositado destacar temas, uma vez que o princípio da identificação não funciona aqui. As bandas, mesmo aquelas cuja discografia é do nosso conhecimento, fazem questão em soar como se fossem outras, esmagadas pela sombra imensa que sobre elas paira.
Seria o equivalente à (des)montagem sistemática de canções dos anos 60, de êxitos dos Beatles, Roilling Stones e Beach Boys, empreendida em “The Third Reich ‘n’ Roll” se não pecasse pela ausência de um objectivo preciso e perverso como era o dos Residents nesse álbum, primeiro de uma longa série (que hoje inclui outros formatos como o vídeo e o jogo em CD-ROM), de destruição, inversão e contágio da música popular deste século.
Os Residents sabem – e os participantes de “Eyesore” não – que não se destrói um organismo com o poder do rock, à martelada, a tiros ou à bomba, como fizeram, por exemplo, e com idêntico projecto, os Einstuerzende Neubauten, mas de outra forma, mais subtil, operando por dentro uma mutação genética. “Eyesore” é um “cartoon”, banda desenhada convulsa mas pueril de uma operação de maior gravidade. Um ovo de pequenas criaturas parasitas posto, mas não chocado, pela besta-mor.
P.S. – Na capa de “Eyesore”, um tal Penn Jilette conta uma história. Amigos de longa data dos Residents, conhece o nome dos seus músicos, o tal segredo mantido inviolável há mais de duas décadas. Durante um concerto de estádio dos Talking Heads, no Texas, um par de jovens à sua frente suspira. O se maior desejo, dizem, é conhecer os nomes, os tais nomes… Penn Jilette, atrás deles, grita e pronuncia claramente os nomes e apelidos de cada um dos Residents. Os jovens ouvem o som mas não prestam atenção. A decifração do segredo passa-lhes ao lado. Há uma moral qualquer a extrair deste episódio.
LISA GERMANO
Excerpts from a Love Circus (8)
4AD, distri. MVM
“Sad Lisa”, cantava, já lá vão uns bons anitos, Cat Stevens. A Lisa mais triste, mas também mais acutilante, deste mundo, é, com certeza, Lisa Germano. E aquela que melhor traduzir essa tristeza em música que não prescinde da originalidade. “Excerpts from a Love Circus” – terceiro álbum posterior à obra-prima “Happiness” e ao exercício barroco de “Geek the Girl” – constitui um depoimento conturbado de uma alma atormentada pelo amor que deverá ser apreciado na maior intimidade. O tema recorrente é o dos fracassos e desencontros amorosos, tudo lágrimas e equívocos, uma busca que eternamente desemboca em traição. Mas quantas mulheres não fazem desse estendal de mágoas material de exibição para os seus discos? Hoje em dia, imensas, sem dúvida. A diferença está em que Lisa Germano, ao contrário daquelas, mergulha as suas sublimações e devaneios autobiográficos num universo musical pessoal e personalizado, onde as obsessões são submetidas ao método da coloração, sabendo nela bem o que noutras sabe mal.
Cuidados prévios a ter com este “circo do Amor” há, pelo menos um, importante: não confiar nas primeiras impressões. “Love Circus” é cioso dos seus segredos e não se revela aos ansiosos e apressados. Uma primeira leitura dá-nos a conhecer um fio narrativo poético-musical mais linear do que o dos seus dois anteriores trabalhos. As descontinuidades são menores, sendo aqui a separação temporal e temática mais nítida, de canção a canção. Por outro lado, a noção de ciclicidade e de repetição (Velvetiana, no caso da abertura “Baby on the plane”, na sua derivação Suicide, de “Cheree”), bem como a sobreposição e saturação de timbres, jogam ainda mais forte do que no passado, o que exige um grau maior de cumplicidade e disponibilidade para penetrar as camadas cerradas de som que revestem cada tema. Como invólucros de electricidade húmida a servir de prisões que visitássemos com muita precaução, onde as guitarras soam como pântanos e o violino a um raspar de unhas no vidro (“A beautiful schizophrenic”).
É um álbum de luzes baixas, de néons e verniz fora de uso, uma noite de insónia passada numa águas-furtadas a contar as baixas de guerra, na companhia de osgas e lesmas sonolentas. Cornetas e metal em colisão amparam “I love a snot”, dança de marionetas, “Metal Machine Music” da idade das bonecas.
Ao longo desta noite sem estrelas, desfilam as memórias. Algumas já desbotadas. Os motivos de desgosto tanto podem vir de receber pelo correio um catálogo de “lingerie” (”Victoria’s secret”, a pop que vicia) como do confronto de personalidades que lutam em “Lovesick” e confundem em “I love a snot” – “amo um ranhoso”, o substantivo “snot” (“ranho”) parece ter dado azo, a editora, a equívocos engraçados… Lisa, bem entendido, não facilita. “Odeio-te porque te amo, amo-te porque me odeio” e “Gostei de ti quando me magoavas” (de “Forget it, it’s a mystery”) não fazem, com toda a certeza, parte do vocabulário amoroso da dona-de-casa vulgar. O tom autobiográfico e intimista destes excertos encontra um escape na inclusão de três interlúdios, onde o desempenho “vocal” foi entregue aos dois gatos da cantora, Dorothy e Miamo-Tutti.
“Excerpts from a Love Circus” é um lamento e um lugar de perdição, em cujo centro, o quarto sem janelas de “Forget it, it’s a mystery”, a voz não encontra nenhum eco e se expõe a decomposição dos sentimentos.