Arquivo mensal: Setembro 2016

Harold Budd – “Luxa”

Pop Rock

16 de Outubro de 1996

Harold Budd
Luxa
ALL SAINTS, DISTRI. MVM


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Contrariando a tendência recente que indicava uma importância crescente dada às palavras, “Luxa” orienta de novo as coordenadas musicais de Budd para a música ambiental. “Luxa” divide-se em quatro secções. A primeira, “Butterflies with tits”, inclui seis temas de cariz impressionista em que o piano é a voz narrativa principal de quadros luminosos alusivos a alguns dos artistas preferidos de Budd, deste século, com títulos estranhos como “A sidelong glance from my round Nefertiti”. “Inexact shadows”, quatro esboços com apenas alguns segundos cada, fazem a ponte para a terceira secção, “Smoke trees”, em que o pianista ilustra a vertente mais sombria e reflexiva da sua música, numa linha próxima de “The Shutov Assembly”, de Brian Eno. A última secção, “Laughing Innuendos”, engloba duas dedicatórias, “Marion Brown (sweet Earth flying)”, piano solo, numa recriação do universo sonoro deste compositor, que Budd, aliás, já interpretara, em “The Pavillion of Dreams”, e “Steven Brown”, um híbrido de sintetizadores construído sobre a música dos Tuxedomoon. Com “Luxa”, Harold Budd demonstra uma vez mais que “ambiental” e “sedativo” não são necessariamente sinónimos. (8)



Marianne Faithfull – “20th Century Blues – An Evening in the Weimar Republic” + The Rolling Stones & Vários – “Rolling Stones Rock and Roll Circus”

Pop Rock

9 de Outubro de 1996
poprock

Perdidos nas estrelas

MARIANNE FAITHFULL
20th Century Blues – An Evening in the Weimar Republic (7)
BMG, distri. BMG
THE ROLLING STONES & VÁRIOS
Rolling Stones Rock and Roll Circus (6)
Abkco, distri. Polygram


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Um intervalo de três décadas separa estes dois álbuns, marcados ambos pelo tempo, pela ilusão e pela utopia. As contas podem fazer-se entre os anos 30 e os 60, ou entre os 60 e os 90, sempre o teatro e a ilusão surgem a baralhar as datas. Em “20th Century Blues”, Marianne Faithfull põe em dia a sua relação com a música de Kurt Weill, iniciada em 1985 com a sua participação na homenagem a este autor idealizada por Wal Willner em “Lost in the Stars”, onde cantava “Ballad of the soldier’s life”, e posteriormente aprofundada no seu melhor álbum até à data, “Strange Weather”, que inclui “Boulevard of the broken dreams”, outro clássico dos anos 30, não weilliano, recuperado neste seu novo trabalho.
Gravado ao vivo no New Morning, em Paris, “20th Century Blues” culmina todo o anterior percurso de Faithfull em redor da obra de Kurt Weill, que a levou, inclusive, em 1992, a participar como actriz na “Ópera dos Três Vinténs”, onde desempenhava o papel da pirata Jenny. Antes, a cantora fizera duas “performances” sobre “Os Sete Pecados Mortais”, obra que a marcaria decisivamente na descoberta do universo de Kurt Weill.
O passo decisivo coincide com a realização de um ciclo de três dias, “A Weekend of Decadent Twentieth Century Music”, o último dos quais dedicado a Weill, assistiria ao encontro de Marianne Faithfull com o pianista Paul Trueblood, num espectáculo de genérico “An Evening in the Weimar Republic”, base do presente trabalho.
“20th Century Blues” funciona, pois, como um clímax há muito aguardado, como se todo o anterior passado recente da cantora não fosse mais do que a laboriosa preparação deste momento. É o casamento perfeito, dir-se-ia, de uma alma atormentada com um conceito estético que juntou a ópera, o jazz, o cabaré, a “folk” e a canção de rua, no período da História da Alemanha compreendido entre a queda da monarquia e a Primeira Grande Guerra e a ascensão de Adolf Hitler ao poder, em 1933. Um período de sínteses dolorosas e apressadas que se erigiu como um imenso (e intenso) espectáculo de máscaras, na construção de uma utopia – do poder e da arte nas mãos do povo – de em breve as chamas de um novo totalitarismo consumiriam. Neste “cocktail” psíquico e musical, encontrou Marianne Faithfull a sua pátria espiritual, bebendo a cicuta até à última gota.
Em 1968, ano seguinte ao de todas as obras-primas de “pop music”, em plena euforia “hippie”, os Rolling Stones montavam, por sua vez, o seu próprio circo de “rock’n’roll”. Como nos anos da República de Weimar, acreditava-se então que a música poderia mudar o mundo, celebrando-se, em conformidade, um outro jogo de máscaras e sínteses musicais, de novo do jazz e da “folk” com o teatro, mas agora com o estímulo adicional das drogas psicadélicas. À semelhança do disco de Marianne Faithfull, é uma gravação ao vivo, neste caso com o beneplácito da BBC e até agora inédita. “Rock and Roll Circus”, além dos Stones, contou com as presenças de convidados – enquanto músicos ou simples apresentadores fazendo a ligação entre as canções -, dos Jethro Tull (com “Song for Jeffrey”), The Who (“A quick one while he’s away”), Taj Mahal, Yoko Ono, John Lennon (integrado nos inexistentes The Dirty Mac, com “Yer blues”), Eric Clapton e… Marianne Faithfull. Marianne Faithfull que então cantava no “standard” “Something Better” (lado B do “single” “Sister morphine”): Have you heard, blue whiskey is the rage, I’ll send you a jug in the morning…” Escutamos os ecos de “Alabama song” e é como se o tempo se apagasse…
Os Stones contribuem com metade dos temas, seis, incluindo “Jumping jack flash”, “You can’t always get what you want” e “Sympathy for the devil”. Dois de folia, de músicos mascarados, trapezistas e comedores de fogo, na ressaca de “Their satanic Majesties Request”, o “opus” psicadélico-satânico do grupo, que constituem um testemunho da agitação criativa da “swinging London” dos anos 60. Ocasião irrepetível em que, como escreve o crítico “David Dalton”, “por um breve momento pareceu que o rock’n’roll iria conquistar a terra”.
Se “20th Century Blues” é o voo de cinzas de um coração magoado, o circo montado pelos Stones era a crença ilimitada na irracionalidade. A música de Weill/Faithfull soa seca, ferida, a sangue coalhado. A festa das estrelas “pop” fazia a apologia do caos e das cores garridas. Marianne Faithfull enverga, por interpostas máscaras, a diversidade devastada dos seus próprios rostos. A companhia dos Stones tripava, cavalgando sobre a inconsciência do instante. Marianne Faithfull abraça comovidamente a morte, como a uma derradeira amiga, Os Stones, perversamente, vestiram a morte com uma túnica “hippie” e enfiaram-lhe um charro na boca.



XTC – “Fossil Fuel: The XTC Singles, 1977-92”

Pop Rock

25 de Setembro de 1996
reedições poprock

Isto é pop!

XTC (8)
Fossil Fuel: The XTC Singles, 1977-92
2xCD Virgin, distri. EMI-VC


xtc

Perdidos no meio da confusão da pop britânica, em guerras para decidir se os melhores são os Pulp ou os Oasis, ou uns rapazotes chamados Babylon Zoo, os ingleses têm andado distraídos, não reparando que desde há anos a melhor e mais inteligente pop tem nascido de uma banda que decidiram ostracizar desde que em “Skylarking” optaram por lançar a sua música, como diria Julian Cope, “to-the-moooooon!”. A crítica foi unânime, os XTC eram bons quando eram crus. Para sermos precisos e preconceituosos, até “Black Sea”, álbum onde disseram adeus à melodia directa e à unidireccionalidade do “punk” e da “new wave”. Certo, já nessa altura os XTC pregavam outras mensagens e outros coloridos. Os primeiros ‘singles’, “Science friction”, “Statue of liberty” e “This is pop”, reclamam ainda estéticas idênticas, respectivamente, às dos Devo, Elvis Costello e Talking Heads (com quem foram frequentemente comparados). A partir daí, porém, seguiriam um caminho só deles, levando embora no bornal os ensinamentos dos Beatles – e dos Kinks – na prossecução de uma “englishness” genuína.
O estigma do pretensiosismo colou-se-lhes à pele a partir dessa altura, na “fuga” que empreenderam em direcção a um psicadelismo que devia menos ao LSD do que a Alice no País das Maravilhas, em álbuns como “English Settlement” e “Mummer” (que a “Q”, por exemplo, considera “irritante” e “sem verdadeiras canções”), subvalorizados pela história, que os pôs no caixote do lixo das bugigangas perigosamente próximas do “progressivo”. Por acaso serão talvez os dois melhores álbuns de sempre do grupo e que assinalariam o ponto de não retorno de uma música que de “Skylarking” até “Nonsuch”, passando pelo duplo “Oranges & lemons”, se rodearia de um manto de impenetrabilidade cada vez maior. Qualquer destes álbuns não se compadece com a voracidade do momento, necessitando de outro tipo de atitude até se tornar legível a sua organicidade e a riqueza das suas entranhas. À míngua de tempo e com o brilho ofuscante de novos estímulos, colou-se nos XTC o rótulo de “banda de ‘singles’”, como quem diz que deveriam ter deixado de gravar álbuns. Nada mais do que preconceitos. Se é verdade que os seus 45 rotações (semeados, na totalidade, ao longo dos álbuns) sempre foram pródigos em refrescar o mercado com pequenas peças pop de um barroquismo e refinamento que de disco para disco se acentuavam, tal deveria apenas servir de indicador de que “o melhor” do grupo sempre esteve guardado nos longas-durações.
Aconteceu que a preguiça terá impedido muita gente de penetrar além da porta de entrada. “Fossil Fuel”, embalado numa caixa com o molde, em alto-relevo, de uma amonite, não deixa, por todas estas razões, de ser o documento ideal para quem passou ao lado da discografia de álbuns do grupo, na mesma medida em que apresenta uma colecção com um número impressionante de algumas das melhores e, porque não dizê-lo, excêntricas canções alguma vez nascidas do outro lado da Mancha.