Inspirados pelos D. A. F., pioneiros da electrónica militarista, os Nitzer Ebb tiveram a sua hora de glória na época em que os radicais da música industrial decidiram baixar de tom e tornar um pouco mais acessível o seu discurso, ao ponto de se fazerem ouvir nas discotecas. A música desta formação liderada por Douglas McCarthy não destoava muito da dos seus colegas continentais para quem a “electronic body music” constituía a forma ideal apara o mesmo tempo fazer dançar e martelar a cabeça com sons e mensagens de índole subversiva. Em 1995, os Nitzer Ebb continuam às marteladas, embora recorram menos aos maquinismos electrónicos. Sangue, suor e lágrimas é ainda o velho lema para quem faz do sado-masoquismo um ponto de honra. “Big Hit”, a “grande pancada”, dá forte, à boa maneira dos “cinzentos” da Mute, e se a fórmula está hoje já um pouco exausta, a verdade é que os Nitzer Ebb a praticam com a convicção necessária que estas práticas exigem. E se temas como “Hear me say” ou “Floodwater” evocam as poucas-vergonhas levadas a cabo por outro ex-estratega da perversão, Frank Tovey, ou Fad Gadget, já “I thought” cai no poço do “industrialismo sinfónico” seja lá o que isso for. “Border talk” consegue ser ameaçador e razoavelmente original, aproximando-se do paradigma do grande mestre da tecnologia em pé de guerra, Foetus, ou Jim Thirwell, ou Clint Ruin, isto é, o autocrucificador, o mesmo acontecendo com “A living out of a bag” neste caso com o apoio logístico de uma marcação sintética-minimalista cerrada, à boa maneira dos D. A. F. “In decline” faz o mesmo que os Simple Minds, por altura de “Empires and Dance”. “Boy” é Depeche Mode e “Our own world” mistura Suicide, D. A. F. e os Motors. Ou seja, os Nitzer Ebb assimilaram influências e procuraram alargar os seus horizontes. Só falta um dia destes ficarem bonzinhos. A embalagem inclui um segundo compacto, com quatro temas retirados de cada um dos anteriores álbuns de grupo. (6)
Jorge Reyes
Mexican Music Prehispanic (10)
Mexican Music Prehispanic: Music for the Forgotten Spirits (9)
Mexican Music Prehispanic: Mystic Rites (10)
PARAMUSICA, DISTRI. SYMBIOSE
Durante anos, os apreciadores da música deste mexicano procuraram em vão o compacto “Mexican Music Prehispanic”. Quem teve a sorte de escutar um exemplar de amostra que por aí circulou há tempos, desde logo considerou este um dos melhores trabalhos de sempre do músico. Agora, não só o disco está finalmente disponível, como a ele se vieram juntar os volumes dois e três deste projecto “sui generis”. Jorge Reyes – que actuará ao vivo em Portugal no próximo mês de Junho – pode ser considerado como que um Jon Hassell terceiro-mundista. Só que, enquanto o trompetista americano partiu do naturalismo ambiental das “Possible musics” do quarto mundo para se aproximar progressivamente de uma urbanidade revista à luz de novas ficções, em álbuns como “City: Works of Fiction” ou “Dressing for Pleasure”, o mexicano seguiu o caminho inverso. A música progressiva exótica dos primeiros álbuns derivou rapidamente para um lado mais acústico que privilegiava a utilização de instrumentos das antigas civilizações mexicanas, maias e “nahuatl”, ou de elementos da Natureza, quando não o próprio corpo, numa síntese subtil com a tecnologia electrónica. “Mexican Music Prehispanic” representa o primeiro momento desta inflexão numa vertente ritualista, ao qual se viriam mais tarde juntar obras importantes como “Cronica de Castas” (com o guitarrista espanhol Suso Saiz, seu companheiro nos Suspended Memories), “Bajo el Sol Jaguar”, “El Costumbre” e os desperdícios de ouro de “The Flayed God”.
Música única, feita com sons únicos, de conchas, pedras de fósseis, troncos de árvore ou água, juntamente com flautas e tambores rituais, “Mexican Music Prehispanic” invoca as antigas divindades pagãs e os seus poderes mágicos – “um simples pedaço de madeira pode constituir um elo de ligação com os deuses”, diz Jorge Reyes, a propósito do tema “Wood Music” – viajando nas asas de uma ave pelo mundo dos sonhos e das cerimónias de iniciação. Toda a obra de Reyes, e de forma superlativa neste disco, pode ser encarada por uma dupla perspectiva. Se por um lado pode agir como música funcional, psicadélica, na medida em que propicia condições para a passagem de estados normais de percepção para outros, em planos paralelos de realidade, por outro é inegável o seu fascínio e enorme riqueza sonoros, independentemente dos usos que se lhe quiser dar.
O segundo volume, “Music for the Forgotten Sprits”, recua ainda mais, até “ao tempo anterior ao tempo, aos deuses e à existência da consciência humana”. Leitura virtual dos estratos mais profundos do inconsciente humano onde habitam as entidades a eu chamamos deuses e demónios, e do limbo intemporal onde vivem os espíritos que, na tradição asteca, presidiram à criação do universo, como Ometeotl, a “essência suprema”. O álbum é produzido por Steve Roach, terceiro elemento dos Suspended Memories, cujo primeiro álbum, “Forgotten Gods”, aborda idêntica temática. À semelhança dos Suspended Memories, neste segundo volume de “Mexican Prehispanic” a música ganha peso, centrando-se no ritmo hipnótico das percussões, enquanto as melodias dervíshicas das flautas e dos cânticos servem para despertar os órgãos ocultos de percepção. De notar que se encontra também disponível outra edição deste registo, com capa diferente e o título “Tonami”, no selo espanhol No-CD.
“Mystic Rites”, terceiro volume da trilogia, é um caso especial, já que se trata de uma colectânea de temas considerados mais “místicos” e “rituais” da discografia do músico anterior à fase “pré-colombiana”, ou “pré-hispânica”. Voltado desta vez para o lado solar e luminoso, a ênfase é posta no amor e no misticismo, como forma superior de transcendência. Em consonância com este estado de espírito, o tema de abertura, “Invocacion”, combinação de “ritmos do corpo” com “atmosferas” e uma voz feminina, inspira-se na liturgia católica de uma ordem monástica. “Mexican Music Prehispanic”, na sua geografia secreta, desperta para a descoberta de novas formas de ouvir música. Ou, como diz o título de um dos temas, para “Ver cosas nunca oidas”.
Bill Laswell
Baselines
CELLULOID, DISTRI. MEGAMÚSICA
Bill Laswell, o maior faz-tudo da música actual, no sentido em que faz realmente tudo, desde produzir, editar e tocar com toda a gente até investigar nas mais recônditas áreas musicais, assina aqui um dos seus projectos mais conseguidos, num território – o da “funky” urbano-tribal – que ele ajudou a desbravar com os Material e os Massacre. Neste disco, Laswell procede como que à dissecação das possibilidades do baixo eléctrico (utiliza cinco variedades deste instrumento), enquanto catalisador e aglutinador de núcleos rítmicos que, partindo das raízes africanas, foram rapidamente assimilados pela cultura de rua norte-americana e, em paralelo, transformados pelas novas tecnologias de reprodução e samplagem. Em “Baselines” não está ainda patente o lado “etno” que viria a tornar-se obsessivo, na procura de linhas de dança hipnóticas que seriam levadas ao extremo da música cósmica electrónica, na parceria de Laswell com o sintetista Pete Namlook, para o selo Fax. Era ainda o tempo da liberdade e da manipulação do jazz, por um “combo” de privilegiados em que figuravam Michael Beinhorn, Ronald Shannon Jackson, George Lewis, Ralph Carney, Fred Frith, Martin Bisi e David Moss, a nata de uma certa vanguarda que soube dotar a experimentação com a energia e o “punch” rítmico característicos do rock. (8)