Arquivo mensal: Abril 2016

Mick Karn – “The Tooth Mother”

Pop Rock

10 de Maio de 1995
álbuns poprock

Mick Karn
The Tooth Mother

CMP, DISTRI. MEGAMÚSICA


mk

Uma das vertentes actualmente muito participada da música pop que se pretende inteligente é o “etno-seca”. O “etno-seca”, cujos cultores mais credenciados são hoje Jah Wobble e os Transglobal Underground, tem características próprias e perfeitamente identificáveis. O mais importante é possuir uma linha de baixo o mais amplificado e arrastado possível sobre uma batida binária. As faixas devem ser longas, de modo a provocar o efeito de hipnose pretendido. O lado “etno” deverá ser preenchido com o recurso a vozes sampladas, árabes ou búlgaras. Um excerto dos arrotos vocais de William Burroughs também é sempre bem-vindo, ou então a presença, na ficha técnica, de Natasha Atlas. A capa deve sugerir um estado alucinatório e, em conformidade, ter muitas cores. Depois mistura-se tudo muito bem, mete-se uma instrumentação exótica, uns drunfos no bucho e – oh maravilha das maravilhas! – eis activado o contacto das raízes planetárias com as frequências cósmicas. E ainda por cima dá para dançar. O novo disco de Mick Karn, um ex-elemento dos Japan, os quais, como alguma gente sabe, eram mestres encartados na arte de levar o cérebro aos braços de Morfeu, é um belo exemplo de “etno-seca”. Está lá tudo, com a vantagem de ser em câmara-lenta, ter uns solos de guitarra peçonhentos (por um “telúrico” muito em voga, David Torn), sem dispensar o tal arsenal de exotismo, em instrumentos “esquisitos” como o “shawm” (bombarda medieval), a “dilruba”, a “dida” e o “oudar”. Uma das vocalistas tem o nome maravilhosamente “etno” de Sureka Kothari. Outra é a nossa amiga Natasha Atlas! O conceito temático, não sendo vulgar, é, à sua maneira, também “etno”: insectos e larvas. Quanto ao lado “seca”, não falta por onde escolher. (3)



The Orb – “Orbus Terrarum”

Pop Rock

26 de Abril de 1995
álbuns poprock

The Orb
Orbus Terrarum

ISLAND, DISTRI. POLYGRAM


orb

Montagens. Refracções “dub”, vozes que aterram como “ovnis” em terra de ninguém (dando razão a Laurie Anderson quando diz que a linguagem é um vírus), ritmos de maquinetas a triparem “ecstasy” ou em “overdose” de “drunfos”, temas a rondarem os dez minutos de duração sem que se chegue a perceber para onde vão são a solução de banha da cobra apresentada em embalagem reciclada pelos The Orb. Só que o pessoal parece que atinou e, vista do lado de for a e sem aditivos, a fórmula estafa mais do que hipnotiza e irrita mais do que atrai. Para dançar, é excessivamente longo e arrastado; para alimentar a inteligência, falta-lhe consistência para ser algo mais que um “cocktail” vitamínico de frutas de plástico. Evidentemente, os mistérios das combinações de sons aleatórios são infindáveis – sim, porque, oculto por detrás desta cornucópia de discursos entrecortados, há uma lógica implacável a esticar o dedo, em muda acusação. A combinação dos nove minutos de “White river junction” (Fripp com Eno e os Cluster a ressacarem) com os catorze de “Occidentle” (mais Cluster, grupo germânico dos anos 70, de Moebius e Roedelius, que surpreendentemente surge como pioneiro deste tipo de sons) formam, apesar de tudo, um corpo uniforme, embora à custa de uma certa monotonia, dando a sensação de que, pelo menos, os The Orb andaram a ler os manuais. Para o fim, ainda sobram dezassete minutos de “Slug dub” a mostrar que não é Holger Czukay quem quer. (5)



Vários – “Encomium – A Tribute to Led Zeppelin”

Pop Rock

19 de Abril de 1995
álbuns poprock

Vários artistas
Encomium – A Tribute to Led Zeppelin

ATLANTIC, DISTRI. WARNER MUSIC


lz

Ale dos álbuns de versões, outra das formas de gravação actuais mais originais são os discos de homenagem. Como é que alguém teve a ideia brilhante de pegar nas canções dos dinossauros do “hard rock”? Transformar “Fool in the rain” em música “tijuana”, pelos Mana, ouvir as 4 Non Blondes fazerem um réplica vocal extremamente realista de “Misty mountain hop” ou aprender a gostar de uma banda como os Hootie & The Blowfish, assim uma espécie de Mungo Jerry F. M., só enobrece os autores dos épicos “Whole lotta love” e “Moby Dick”. Sheryl Crow, outro nome, nada, mas mesmo nada, nas bocas do “business”, perdão, do público, faz um “D’yer mak’er” com verniz “reggae” que soa como a coisa mais banal, perdão, bestial, para consumo dos surdos. Não fosse a atitude realmente criativa posta no assunto pelos Stone Temple Pilots, em “Dancing days”, o estudo mimético dos Blind Melon, em “Out on the tiles”, a graça dos Big Head Todd and the Monsters e dos Cracker, respectivamente em “Tangerine” e “Good times bad times”, e o sarcasmo ácido da banda de Henry Rollins, em “Four sticks”, este “Encomium” seria um projecto para esquecer. Ah, sim, no tema final, “Down by the seaside”, Robert Plant, um dos genuínos Zeppelin, faz dueto com Tori Amos, estilo Whitney Houston com Willie Nelson, ou Cândida Branca-Flor com Placido Domingos. Vejam lá se não há gente com olhinhos! (4)