Arquivo mensal: Novembro 2015

Jorge Reyes – “The Flayed God”

Pop Rock

28 de Setembro de 1994
WORLD

JORGE REYES
The Flayed God

Staalplat, distri. Ananana


JR

“Mundo real” significa, no caso de Jorge Reyes, “Mundo interior”. A progressão da obra deste músico mexicano que nos últimos anos se tem dedicado à prática de uma “música mexicana pré-hispânica” (aliás, título de um dos seus álbuns), reinventada a partir de referências simbológico-mitológicas, mais do que o resultado de um estudo das fontes históricas, é exemplar.
Da música progressiva com tendências planantes dos primeiros álbuns (“Ek-Tunkul”, “A la Izquierda del Colibri”, com Antonio Zepeda), Reyes passou para a electrónica, que cedo começou a incorporar elementos étnicos, através de utilização de instrumentos rituais mexicanos, os álbuns como “Comala”, “Niérika”, “Bajo el Sol Jaguar” e o m ais recente “El Costumbre”. O aprofundamento deste vertente etno-ritual, inclinada para o uso preferencial de sons acústicos, viria a produzir obras como “Cronica de Castas” (com o guitarrista espanhol Suso Saiz) e a já citada “Musica Mexicana pre-Hispanica”, cuja distribuição está prevista pela Dargil. O encontro com Steve Roach, expoente da “nova electrónica” norte-americana, cujo percurso tem evidentes pontos em comum com o do mexicano (“World’s Edge”, por exemplo), presente em “El Costumbre”, foi determinante para Jorge Reyes levar ainda mais longe a opção pelo “exclusivamente acústico”. Ficando a estética electrónica salvaguardada no colectivo Suspended Memories, do trio Reyes, Roach e Saiz, do qual resultou já o álbum “Forgotten Gods”. “The Flayed God”, divindade mexicana que simboliza realidades como a morte, a ressurreição, o sacrifício ritual e a fertilidade, é, ainda com maior intensidade que em discos anteriores, uma alucinação de “peyote”, imersão num universo elementar, mágico e ancestral. Jorge Reyes manipula flautas de osso, didgeridoos, pedras, água, tambores que reproduzem os ritmos do homem, da natureza e dos cosmos. Anjos e demónios são convocados do alto de arquitecturas erguidas no mundo dos sonhos. A capa reproduz preces e invocações, num invólucro com reflexos de pérola e opala que reforçam o onirismo deste objecto situado nas margens da música contemporânea.
Ao auditor coloca-se o dilema de mergulhar nesta fantasmagoria onde, consoante a profundidade a que se chegue, se manifestam entidades surgidas do Inconsciente ou provenientes do labirinto do tempo, ou, pelo contrário manter distâncias e optar pela visão aérea, exterior, podendo mesmo assim maravilhar-se com as cores e texturas da música sem atender aos chamamentos. “The Flayed God” é o disco psicadélico por excelência. (8)



Haruomi Hosono – “Mental Sports Mixes”

Pop Rock

28 de Setembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

Haruomi Hosono
Mental Sports Mixes

Epic, distri. Sony Music


hh

É um processo eterno, este de pegar nos temas e remisturá-los de forma a acentuar-lhes um sentido, uma tendência ou, em caso extremo, vergá-los à imposição de um estilo ou de um conceito. A música dos japoneses Yellow Magic Orchestra é hoje objecto de culto da parte dos construtores “techno”, que os colocam reverentemente ao lado dos papas Kraftwerk. Um novo disco da banda, já aqui recenseado, bem como o anterior de Hosono, “Medicine Compilation from the Quiet Lodge”, não fazem mais do que acentuar este fenómeno de sobrevalorização das vertentes “techno” e “ambient house” da música de dança actual. “Mental Sports” é uma colecção de remisturas empreendidas por gente como os também japoneses Something Wonderful, The Orb, Graham Massey e Tim Simenon dos Bomb the Bass. No meio da enxurrada de ritmos aprisionados na batida obrigatória do “tum-tum-tuntuntum” sobressaem os pequenos apontamentos alucinatórios que os Orb acrescentaram a “Laughter meditation – the reality os impossible orbjects”, e o início com uma reichiana e minimal (Wilheim e não Steve…) “Orgon box” – secret life mix” para atestar a energia. Está alguém acordado no meio da pista? (6)



David Sylvian & Robert Fripp – “Damage”

Pop Rock

28 de Setembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

DAVID SYLVIAN & ROBERT FRIPP
Damage

Virgin, distri. EMI-VC


damage

Sylvian teria dado um bom vocalista dos King Crimson, como alternativa a Greg Lake ou Boz (em “Lizard”). Mas pronto, já que não pôde ser, ficou-se pela parceria com Fripp, iniciada em “Gone to Earth” e oficializada em “The First Day”. “Damage” é uma gravação ao vivo efectuada em Itália em Dezembro do ano passado e misturada nos estúdios Real World, o que, numa música que não se compadece com palmas nem quaisquer outros ruídos susceptíveis de desviarem a atenção, é um ponto em desfavor. Abstraindo-nos destes aspectos extramusicais, ressalta um som pausado, de respirações amplas, onde a voz toda ela ornamentações (embora menos que nos Japan) de Sylvian se harmoniza com a virilidade da guitarra de Fripp. O primeiro contribui com o lado “canção” do disco, conferindo-lhe o necessário grau de acessibilidade, enquanto o segundo faz o que lhe dá na gana, arrancando da guitarra, no desenvolvimento intermédio dos temas, ora as torrentes de energia que caracterizavam o seu estilo nos King Crimson, ora complexos fraseados na linha do que fazia nas duas ligas que fundou, os “gentishomens” e os “guitarristas dotados”.
O prazer maior resultante da audição de “Damage” está no tratado de guitarra que Fripp nos oferece, ainda para mais neste disco coadjuvado pela “guitarra infinita” de Michael Brook. Sylvian é a imagem, o rosto, a voz que aparentemente dita a direcção mas na realidade é comandada pelas vagas de fundo da guitarra. Dito isto, não se trata de um disco do arco-da-velha, capaz de nos fazer abrir a boca de espanto, mas sim, e apenas isso, um trabalho competente de dois profissionais que sabem o que querem e manejam com mestria os respectivos instrumentos. O ex-Japan brilha com mais fulgor nos dois temas da sua autoria, “Wave” e “Riverman”, bem como num da sua antiga banda, “Every colour you are”. Quanto a Fripp, coloca a sua assinatura nos restantes temas, bastando para tal a marca incandescente da sua guitarra.
Música para o cérebro e para os sentidos, onde o vermelho dos corações se confunde com as pétalas de uma rosa, “Damage” não ultrapassa os anteriores trabalhos em estúdio da dupla mas é suficiente para manter vivo o interesse pelo seu futuro. A presente edição está limitada a 50 000 exemplares no mercado internacional e a 1000 em Portugal. (7)