Arquivo mensal: Novembro 2015

The Divine Comedy – “Promenade”

Pop Rock

15 de Junho de 1994
ÁLBUNS POPROCK

The Divine Comedy
Promenade

Setanta, import. Contraverso


dc

Neil Hannon tem aquele ar entre o seminarista e o perverso que caracteriza os verdadeiros “dandies” ingleses. Mas Neil Hannon, além do aspecto, é um notável escritor de canções – canções cheias de sentimento, humor, erudição e, algumas vezes, grandiloquência, a combinação perfeita a que é fácil chamar pretensiosa. Hannon tem, de facto, pretensões de classicismo. Se, no álbum anterior, ele abrira já o livro das melodias perfeitas que permitia comparar os Divine Comedy a uma ressurreição, nos anos 90, dos Kinks, o novo “Promenade” vestiu-se ainda com maior rigor, carregando com mais força na sofisticação dos arranjos para cordas – como se Michael Nyman tivesse virado pop – e deslizando no escorrega de um piano tocado à hora do chá na biblioteca de uma velha mansão inglesa. Os Divine Comedy estão no cruzamento de um madrigal, uma sala de leitura, uma igreja, Roger Eno, Nyman, e a “mod generation” dos anos 60. A pose, bem entendido, é cultivada até ao limite, com o artista a deixar-se fotografar em sugestões de crucificação ou com a pirâmide do Louvre por fundo, arvorando uma expressão mista de altivez e distanciamento. O intelectual mas também o iconoclasta assoma em “The booklovers”, cuja letra se resume a enunciado exaustivo de escritores, dos românticos aos contemporâneos, cada um acompanhado por um ruído, um cumprimento, uma exclamação ou uma onomatopeia, intercalado de um refrão irresistível. “Geronimo”, “Don’t look down”, “The summerhouse” ou “Neptunes daughter” insinuam-se da mesma maneira no ouvido, audição após audição. Mas é no último tema deste passeio pelo jardim que Neil Hannon atinge o estado de graça, em “Tonight we fly”, pouco menos de três minutos de pura magia passados com Peter Pan, verdadeira lição de voo pela terra do Nunca. Desde a estreia dos Smiths que um álbum não reunia um naipe de canções deste quilate. (8)



Everything But The Girl – “Amplified Heart”

Pop Rock

15 de Junho de 1994
ÁLBUNS POPROCK

Everything but the Girl
Amplified Heart

Blanco Y Negro, distri. Warner Music


EBG

Tracey Thorn e Bem Watt estão cada vez mais feios, mas isso até nem é muito importante, pois a música continua a ser bonita, embora com tendência crescente para se tornar bonitinha. Passados os tempos em que os ventos sopravam de feição para Sade Adu, Working Week, Marine Girls, Anna Domino e Weekend, e os próprios Everything nos deleitavam com as carícias de “Eden” e “Baby, the Stars Shine Bright”, resta agora uma brisa ligeira de Verão e um suave aroma de maresia. “Amplified Heart” é um oceano sem ondas, melhor, um lago de águas calmas, ideal como palco sonoro para namoros de veraneio, sem futuro nem compromisso. A onda dos Everything but the Girl, aliás, é outra. Feita de melodias que entram num ouvido e saem pelo outro. Deixando na passagem um rasto de paixões tão ardentes como o pico gasoso de um refrigerante e tão duradoiras como a espuma de uma cerveja. As canções deslizam de “skate”, quase todas na voz da menina com ar de patinho feio. Os calores tropicais forma substituídos pelo ar condicionado e já não é possível fazer “surf” sobre as emoções. Os murmúrios de um “Mini Moog” anacrónico, posto a cantar por Bem Watt no tema de abertura, “Rollercoaster”, o súbito acordar da guitarra, pelo convidado Richard Thompson, em “25th December”, e as sacudidelas dos saxofones a fechar, em “Disenchanted” proporcionam os únicos sobressaltos num disco que se compraz na serenidade de quem se observa no espelho das águas do Mar Morto. Danny Thompson, Dave Mattacks e Kate Saint John, presentes neste coração a precisar de um amplificador mais potente, aproveitaram para meter a velocidade de cruzeiro. Uma das delícias do Verão é poder-se saborear discos como este, que duram o tempo de uma maré. (5)



Sally Oldfield – “Three Rings”

Pop Rock

25 de Maio de 1994
ÁLBUNS POPROCK

Sally Oldfield
Three Rings

MSM Music, distri. BMG


so

Que têm em comum Enya, Loreena McKennitt, Mae McKenna, Maggie Reilly e Sally Oldfield? Resposta: a música de todas elas (a que poderíamos acrescentar os actuais Clannad e Capercaillie, grupos nos quais pontificam vocalistas femininas que se tornaram do mesmo quilate) é chata. Chata, enjoativa e, na pior das hipóteses, pretensiosa. Todas elas se embrulham nas farpelas coloridas da “new age” e o “céltico”. Todas elas não fazem ideia do que pode e deve ser cada uma destas referências. Sally Oldfield, portanto, pertence ao grupo das chatas. Em “Three Rings”, aflora como seria de esperar, a sua veia mística, apesar de, na capa, a mana de Mike Oldfield se deixar fotografar com a roupa interior bem à vista. Mas o misticismo não é também isto mesmo, a revelação do interior? Bem, logo no tema de abertura somos siderados pela poesia: “Do caos vem a força, o azul ofuscante e sem medo da vida e do amor, e a luz infinita do espírito que és tu.” O final é uma caixinha de música num instrumental sobre o mago Merlin. O resto é tudo menos uma caixinha de surpresas: previsível e amorfo, na tradição do pior “MOR” (“middle of the road”). Sintetizadores envernizados, harpas de plástico, vocalizações todas elas ternura e bichinhos de peluche. Sally Oldfiel aprendeu também, claro, a ser “étnica”. Daí haver um refrão numa língua qualquer mágica e um tema chamado “Survival” em que as percussões são praticamente iguais às de uma sequência célebre de “Ommadawn”, um dos (bons) álbuns do mano Mike. O mais espantoso é que a par de uma caramelada intitulada “Summer of love” há em “Three Rings” um outro Verão bem mais apetecível à mão de Sally Odfield, “Summer in my hand”, uma canção simples com o melhor que uma canção pode ter: uma bonita melodia. Sally Oldfield parece não ter compreendido que, no seu caso, mais do que isto é demais. (3)