Arquivo mensal: Novembro 2015

Joe Jackson – “Night Music”

Pop Rock

19 de Outubro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

Joe Jackson
Night Music
Virgin, distri. EMI-VC


jj

Na profundidade e sumptuosidade dos arranjos, na descoberta, a cada nova audição, de novos pormenores, “Night Music” tem a dimensão de um clássico. As canções desrespeitam o formato vulgar pop. “Flying”, com ressonâncias a Elvis Costello, é o único momento em que a memória dos primeiros tempos de Jackson é consentida. As outras são lentas cascatas de emoção dentro das quais o músico inventa espaços que pinta a seu bel-prazer com traços electrónicos. Oboés, violinos e clarinetes contribuem para aumentar a dimensão clássica de “Night Music”, espécie de grande produção cinematográfica a que não é alheia a aprendizagem anterior de Jackson na autoria de bandas sonoras como “Tucker”, “Shijin No Ie” (com a orquestra Filarmónica de Tóquio) ou “Queens Logic”, a par da gravação dum álbum totalmente instrumental, “Will Power”, já editado em Portugal. Joe Jackson prepara ainda uma obra sinfónica para instrumentação electrónica a incluir no catálogo de clássicos da Virgin. “Even after”, “The man who wrote Danny boy”, “Only the future”, “Sea of secrets” e “Lullaby” são canções para durar. A voz do cantor suavizou-se, os tempos ganharam uma respiração mais lenta, os sintetizadores assumem-se como principais tecelões das melodias. Espalhadas entre as imagens sonoras, outras imagens, sem palavras, falam na noite: quatro “nocturnos” onde os sons sintéticos se fundem, como as estrelas contra o pano negro de céu, com as cordas e os sopros acústicos, para fazer surgir paisagens que evocam o universo musical de um Hector Zazou, de “Géographies” e “Géologies”. “Detesto a ideia de ser considerado um rocker veterano ou uma estrela pop envelhecida”, diz Joe Jackson, “se tiver que escolher, prefiro ver-me como um jovem compositor”. Gershwin e Cole Porter têm um novo discípulo. (8)



REM – “The Singles Collected”

Pop Rock

28 de Setembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

REM
The Singles Collected

IRS, distri. EMI-VC


rem

A estratégia consiste em, de cada vez que os REM lançam um álbum novo na multinacional Warner, a sua antiga companhia independente IRS editar mais material antigo em sincronia. O problema, claro, é que dessa cartola é cada vez mais difícil tirar coelhos, sobretudo depois do relançamento dos álbuns nessa companhia bonificados com gravações inéditas. Daí que, desta feita, para tirar partido da saída de “Monster”, a IRS não tenha outro recurso a não ser o expediente da compilação de singles. São hoje quase inencontráveis no formato original de vinil, mas as suas faces A fazem quase todas parte do “greatest hits” dos REM, e as faces B não justificam especialmente a aquisição. Há uma ou outra brincadeira interessante, como a incursão na country de “King of the road”, mas a maioria é dispensável, ou mesmo a evitar, como o tremendo “Bandwagon”. (5)



Muslimgauze – “Citadel”

Pop Rock

28 de Setembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

Muslimgauze
Citadel

Extreme, import. Ananana


citadel

No início de uma discografia que já se aproxima das duas dezenas de títulos, entre os quais quatro gravados para a Extreme, os Muslimgauze (“névoa muçulmana”), um grupo enigmático originário de Manchester, propunham a guerrilha sonora assente em torrentes de ritmo metálico algures entre os Test Dept. e a escola dura de dança da “electronic body music” europeia, infiltrada por alusões e referências em defesa da causa árabe. “Citadel” suaviza o discurso, razão por que este se torna talvez ainda mais perturbante. As sombras adensaram-se. As percussões recuaram e os sintetizadores são como espectros mantidos em expectativa na retaguarda, prestes a atacar. A raiva vem à superfície e a tentação techno aflora em “Opel”. Mas na maioria dos temas os Muslimgauze preferem a surdina ao grito, a hipnose à tortura, o subliminar ao ostensivo, inscrevendo a sua música ao lado da dos seus conterrâneos O Yuki Conjugate. Uma citadela que se ergue, qual Babel, até às nuvens mas que para muitos poderá parecer impenetrável. (7)