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Vários – “XIX Festa Do ‘Avante!’ Ao Ritmo Do Mississipi – Crocodilos Do ‘Cajun’”

cultura >> segunda-feira, 04.09.1995


XIX Festa Do “Avante!” Ao Ritmo Do Mississipi
Crocodilos Do “Cajun”


O bicho do “cajun” dos French Alligators mordeu forte na Atalaia. Ficou meio mundo a dançar, com o seu “cocktail” de danças francófonas afogadas nos pântanos do Louisiana. Ainda com mais força bateram os “blues” dos Chicago Blues Explosion!, numa memorável noite de sábado em que a música ascendeu, sanguínea, pela veia do Misssissipi, desde Bâton Rouge até à pátria dos “blues” electrificados.



Estiveram menos pessoas este ano na Festa do “Avante!”. Em parte porque, para muitos, as férias se prolongaram pelo fim-de-semana, em parte devido ao programa ser menos apelativo. Mesmo assim foram muitos os milhares de uma população nómada maioritariamente jovem a percorrerem como formigas o tapete verde da Atalaia (sim, sim, acabou o pó, o vermelho cobriu-se de verde, agora só falta plantarem flores), para ouvir música onde calhasse ou simplesmente derivar ao sabor da curtição.
Com os espectáculos musicais divididos pelo palco principal 25 de Abril e o habitual “auditório” do 1º de Maio, procurar seguir o programa nos dois lados era tarefa impossível. Horários foi coisa que cedo se tornou num conceito subjectivo. Um exemplo, entre muitos: a actuação dos White Horse Ceilidh Band, marcada para as19h30 no “1º de Maio2, teve início já passava das 22h. Enfim, o que se ouviu valeu, na generalidade, o esforço de tentar contrariar o caos.
Sexta-feira, noite calma, deu-se por inteiro à Brigada Victor Jara, na apresentação do seu novo álbum “Danças e Folias”. Concerto competente, de rodagem do novo material, a mostrar algumas hesitações e a promessa, lá mais para a frente, de um futuro glorioso para este novo lote de canções tradicionais recriadas pela banda coimbrã.
Houve “caretos” transmontanos a darem cor e movimento ao início e fim do concerto, convidados dos quais sobressaíram Tomás Pimentel, no trompete, e José Medeiros, cuja vocalização, em “A fofa”, empurrou uma plateia estarrecida para os abismos da alma açoriana, e citações das tradições vizinhas, bretã, galega e irlandesa. Faltou à Brigada a folia prometida, folia que, já a meio da tarde do dia seguinte, sobrou na actuação dos Quinta do Bill, um grupo, como os Sitiados, vocacionado para este tipo de ambientes.
Aguardada com alguma expectativa, a actuação dos canadianos La Bottine Souriante passou ao lado dos grandes momentos da Festa. A hora era de debandada para o jantar, o que significa que a combinação das tradições celtas do Quebeque com as sacudidelas “funky” de um naipe de metais em forma apurada não chegou para manter as pessoas agarradas ao que a “Bota Sorridente” tinha para contar.
No fundo, apenas mais uma oportunidade desperdiçada, pela ausência de um contexto apropriado, de fruir em pleno uma das grandes bandas folk da actualidade, a juntar ao que já acontecera em edições anteriores com os Chieftains e os Boys of the Lough.
Nos bastidores, a ingestão apressada de uma sandes e uma cerveja teve a companhia de algumas notícias chegadas em primeira mão: de Júlio Pereira, que se encontra a gravar um disco de parceria com o acordeonista basco Kepa Junkera; ou de José Medeiros, que em breve lançará a banda sonora, da sua autoria, de O Feiticeiro do Vento, uma série – na linha do que já fizera em Xailes Negros – produzida pela RTP-Açores e a exibir futuramente no continente.
De volta ao “1º de Maio”, a hora era de dança com os White Horse Ceilidh Band, banda irlandesa animadora de bailes que cumpriu aquilo a que já está habituada a fazer, ou seja, pôr os corpos a rodopiar. Uma senhora do grupo fez mesmo algumas demonstrações de passos de dança mais complexos, com a colaboração de jovens voluntários da assistência.
Acabou tudo aos pulos, num baile mandado algo caótico que serviu para mostrar, uma vez mais, que há uma costela irlandesa em cada português. Impávido e sereno, estendido entre a confusão de pernas e pés em movimento, outro jovem, imerso no seu paraíso pessoal, sonhava, alheio a tudo. Alguém, piedoso, rodeou-lhe a cabeça com uma grinalda de latas de Superbock vazias.
Logo a seguir, os French Alligators – com a acordeonista e vocalista Katherine Bersoux, cuja pose foi evoluindo dos esgares “zombie” até à da fada que, de repente, se descobre no prazer da música e levanta voo – conquistaram a pulso um público de início desconfiado e perplexo com o inusitado das valsas e “two steps” sincopadas da música “cajun”, mas que no final se rendeu sem reservas à dolência excitada destes sons que se deixaram adormecer nos “bayous” do Louisiana e foram picados pelo mosquito dos “blues”. Não foi fácil o triunfo dos French Alligators, se se levar em conta que, durante largos minutos da sua actuação, as colunas debitaram ao mesmo tempo a música dos Red Hot Chilli Peppers, que alguém se esquecera de desligar, enquanto lá fora o baixo tonitruante que animava a montanha russa “Dragão”, instalada a 50 metros do auditório, aproveitava cada pausa para se fazer escutar.
Cerca da meia-noite, “round midnight”, hora perfeita para uma entrega ao feitiço dos “blues”, a superbanda Chicago Blues Explosion! Deu início à sua lição de como arrancar ao coração todo o ritmo e emoções que ele pode dar. Foi a festa máxima dentro da Festa! Na euforia dos músicos, perdidos na alegria de se tocarem por dentro a si próprios e à multidão. Na comunicação perfeita de gestos e sentimentos. Sidney James Wingfield, o organista que não se conteve e saltou para fora das notas do seu órgão Hammond, A.C. Reed, 69 anos de energia inesgotável a brotar de um saxofone tenor e, sobretudo, a tempestade eléctrica da guitarra de Cash McCoil, figuras da lenda, fizeram história na Atalaia.
Já perto dos acordes derradeiros ficou a imagem mágica deste último, em transe, tocando por entre as primeiras filas da multidão, lançando na noite as afirmações de orgulho, os queixumes e as gargalhadas da sua guitarra. Uma noite tingida com os reflexos rubros de um Mississipi em chamas e em sangue.

Vários (Brigada Victor Jara, La Bottine Souriante) – “A 19ª Edição Abre Hoje Na Quinta Da Atalaia – Militantes Da Folia”

cultura >> sexta-feira, 01.09.1995


CULTURA | FESTA DO “AVANTE!”

A 19ª Edição Abre Hoje Na Quinta Da Atalaia
Militantes Da Folia


“Danças e Folias”, o novo álbum da Brigada Victor Jara, é apresentado esta noite ao vivo no espectáculo de abertura da XIX edição da Festa do “Avanat!”. É o regresso em força da banda coimbrã que há 20 anos cantava o trovador chileno Victor Jara e hoje surge como uma das bandas de música de raiz tradicional portuguesa com mais pergaminhos.



Depois de “Monte Formoso”, editado em 1989, e da colectânea “15 Anos de Recriação da Música Tradicional Portuguesa”, “Danças e Folias” traz finalmente a Brigada de novo para a ribalta, com um lote de 11 novos temas inspirados no nosso folclore, fruto de recolhas efectuadas por Michel Giacometti. Margot Dias, Jorge Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, António Maria Moutinho e Aurélio Malva.
Com este último elemento do grupo, o PÚBLICO falou a propósito do disco e do concerto agendadopara hoje.
PÚBLICO – A apresentação desta noite tem características especiais?
AURÉLIO MALVA – Vai ter um alinhamento especial, com incidência no novo trabalho, ao qual acrescentámos três temas antigos. Por outro lado, vai haver algumas coreografias, uma vez que o disco incide realmente sobre danças: uma entrada de “caretos” [bailarinos mascarados] de Trás-Os-Montes, uma coreografia sobre o tema da mazurca e outra, uma dança, sobre a “Cana Verde”, numa linha mais tradicional, com a colaboração do GEFAC, Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra.
P. – Estão previstos convidados?
R. – Sim, todos os que participaram no disco. André Sousa Machado, na bateria, António Pinto [colaborou nos últimos anos com Fausto], na guitarra, José Medeiros [trabalhos na área da televisão e do vídeo, na RTP dos Açores, tendo produzido a série “Xailes Negros”, gravou ainda, a solo, o álbum “Ala Bote”], voz, Jorge Reis, no saxofone, Pedro Jóia, que vai fazer um solo de guitarra andaluza na “Moda da zamburra”, Tomás Pimentel, no trompete, e uma rapariga, muito pouco conhecida mas que canta divinamente, Margarida Miranda. Tem uma formação mais clássica, ligada à música sacra, e uma voz muito trabalhada.
P. – Alguns desses nomes, como André Sousa Machado, Jorge Reis e Tomás Pimentel, vêm do jazz…
R. – São nossos amigos. E gostam de música de raiz tradicional. Penso até que os músicos de jazz em geral, mesmo a nível internacional, de alguma maneira procuram raízes étnicas, até como forma de análise da música modal ou das harmonias. Nós procuramos percorrer o caminho inverso, não nos fecharmos nem cristalizarmos na mera reprodução do tradicional.
P. – A que se deve um intervalo tão longo entre este novo disco e o anterior, “Monte Formoso”?
R. – É complicado. É feio dizer isto, mas talvez tenha havido alguma preguiça… Por outro lado, o processo de criação no grupo passa de cada vez por um ou outro músico particular que avança com propostas, soluções ou arranjos. No caso de 2Danças e Folias”, a maior parte dos arranjos passaram por mim e pelo Ricardo Dias. O que significa que, de certa forma, tenho que ser eu a penalizar-me por não ter acelerado um pouco mais as coisas…
P. – Até agora tem valido a pena esperar, com o pormenor de todos os discos da banda serem bastante diferentes uns dos outros…
R. – Tentamos apresentar-nos como um grupo homogéneo, ao nível do produto final, do que aparece em cima do palco ou no disco, mas essa homogeneidade é difícil de conseguir. A Brigada começou por ser um grupo muito ligado à recolha e à sua reprodução, mas hoje, e de há uns anos a esta parte, quer ir avançando mais e mais. É evidente que há várias linguagens musicais no seio deste grupo. Chegarmos a uma estética final coerente não é fácil.
P. – A Brigada tem tocado ao vivo com assiduidade nos últimos tempos?
R. – Temos feito bastantes espectáculos e continuamos a fazê-los, quer neste jardim à beira-mar plantado, quer lá fora. O ano passado, por exemplo, estivemos em Macau. E na Bélgica, em Bruxelas, ombreando com bandas de alto gabarito, inglesas e irlandesas. Tem-nos é faltado uma gestão de carreira. Agora já temos alguém para cuidar deste aspecto, o Soares Neves, da Vachier e associados. Vamos lá ver como é que a coisa vai funcionar. Há ideias curiosas no sentido de mediatizar mais aquilo que fazemos.
P. – Volvidos 20 anos de carreira, não existe um desfasamento entre a designação do grupo e a sua estética musical actual?
R. – Um nome demora muito tempo a construir. Temos 20 anos e recomeçarmos tudo de novo, pelo menos ao nível da designação, seria um perfeito suicídio. Mesmo assim, o nome Brigada continua a fazer sentido. É claro que a questão do Victor Jara, podemos talvez, enfim, pô-la um bocado em segundo plano. Não porque tenhamos reservas em relação a ele – a Brigada, quando surgiu, em 1975, começou por cantar música da América Latina, fundamentalmente do Chile. De resto, os nossos cartazes, destacam “A Brigada”, o nome Victor Jara aparece já relegado para segundo plano. Continuamos a assumir o nome de Brigada porque continuamos a ser, de certa forma, militantes. Não a nível politiqueiro, mas de uma militância cultural. Choca-nos bastante que a nossa música, a música portuguesa, verdadeiramente popular, que se revê nas raízes do que somos, passe horas e Às vezes até dias sem ser ouvida na rádio. A Brigada rema contra essa maré.

(Fernando Magalhães com Jorge Dias)
O Humor Do Quebeque Com La Bottine Souriante
Uma Bota, Crocodilos, “Blues” E Um Pé De “Ceilidh”



LA BOTTINE Souriante, o humor e a diferença a música do Quebeque, vão aterrar na Quinta da Atalaia, vindos do Canadá, para mais uma edição, a 19ª da Festa do “Avante!”. Directamente de Montreal, a “Bota Sorridente” apresenta (no palco 25 de Abril, no sábado, pelas 20h00) a sua mestiçagem de sons que sintetizam as tradições francesa, inglesa, irlandesa e escocesa, chegadas ao novo continente no século XVII. Ou seja, música de raiz celta, filtrada pela bonomia e o espírito de aventura dos colonos para quem o respeito pelos antepassados não obsta a mil e uma tropelias e transgressões. Algo que se nota sobretudo no seu álbum mais recente, “La mistrine”, uma orgia de jogos bem humorados com a língua francesa, os ritmos de “reel” e incursões no rock, no jazz e até num “Rap a Ti-pé-tang” que contrastam com a maior seriedade dos álbuns anteriores “Chic & Swell” e “La Traversée de l’Atlantique”, ambos com o selo Green Linnet e distribuição nacional pela MC – Mundo da Canção.
Do Sul, oriundos dos pântanos (“bayou”) da Louisiana, chegam os French Alligators, um quarteto de música “cajun”, essa mistura bizarra de influências europeias, africanas e caraibenhas com os “blues” nativos (actuam também no sábado, mas no auditório 1º de Maio, pelas 21h00). Os “blues” que marcarão presença em força nesta Festa através dos Chicago Rhythm & Blues Kings, uma superbanda que trará consigo convidados de renome como A.C. Reed, Cash McCall, Sidney James Wingfield e Katherine Davis, e que são apresentados como fazendo “uma fusão entre os ‘blues’ eléctricos de Chicago, o impacte dos metais da ‘soul’ de Memphis e o enérgico balanço do ‘rhythm ‘n’ blues” (sábado, palco 25 de Abril, pelas 23h00).
Os White Horse Ceilidh Band representam, por seu lado, a Irlanda, este ano menos sofisticada, mas com uma reserva adicional de danças “ceilidh” em duas actuações (sábado e no domingo, no auditório 1º de Maio, respectivamente pelas 19h30 e 15h00). Fapy Lafertin, guitarrista francês de origem cigana (“manouche”), fará com os Le Jazz uma homenagem a uma das lendas da guitarra, Django Reinhardt, também ele de ascendência cigana (sábado, auditório 1º de Maio, pelas 22h00).
Numerosa e diversificada vai ser a presença portuguesa, este ano com a inclusão de algumas surpresas, com especial destaque para Pedro Abrunhosa e os Bandemónio, que irão fechar a programação do palco maior da Festa (domingo, palco 25 de Abril, pelas 20h45), e Fausto, que regressa às lides comunistas após longos anos de ausência com a apresentação do seu mais recente álbum, “Crónicas da Terra Ardente” (sábado, também no palco 25 de Abril, pelas 21h30).
Em alta, a Brigada Victor Jara vem estrear à Atalaia o seu novo álbum “Danças e Folias” (sexta, no palco 25 de Abril, pelas 22h00) – ver texto principal), o mesmo acontecendo com os angolanos Kussundolola (que, na sexta, irão abrir o palco 25 de Abril, pelas 21h00) com os sons reggae de “Tá-se Bem”. De resto, este ano, e no campo dos nomes nacionais, a Festa é mais diversificada que nunca em termos de estilos, com a presença de General D (sexta, palco 25 de Abril, pelas 23h30) em antestreia do seu primeiro álbum com os Karapinhas; o novo fado apresentado por Mísia (sexta, auditório 1º Maio, 23h00); o jazz apresentado pelo quarteto de João Paulo (no mesmo dia e local, às 22h00) e o Quinteto de Carlos Barreto (sábado, também no auditório 1º Maio, pelas 23h00); o heavy metal dos Ramp (sábado, no palco 25 de Abril, pelas 15h30), o rock de Xana (mesmo dia, mesmo local, pelas 16h30); o folk-rock dos Quinta do Bill (idem, pelas 17h45); mais música de raiz tradicional com a Quadrilha (idem, pelas 19h00), e a música de vanguarda e o jazz com os Telectu que se apresentam com a colaboração do “terrorista” da “downtown” novaiorquina Elliott Sharp (sábado, auditório 1º Maio, 18h00) e ainda Vítor Rua, que mostrará o seu projecto paralelo Vidya Ensemble (domingo, no auditório 1º de Maio, às 16h00).
Jorge Palma apresentará o espectáculo “Na Terra dos Sonhos”, acompanhado por uma grande banda e com uma retrospectiva das melhores canções da sua carreira (domingo, no palco 25 de Abril, pelas 19h30), os Tabanka Djazz introduzirão os presentes aos ritmos de África (mesmo dia, mesmo palco, pelas 15h00), enquanto o novel grupo Navegante irá apresentar canções de tradição portuguesa com homenagens a Zeca Afonso e Fernando Pessoa (domingo, palco 25 de Abril, 16h00). De destacar ainda uma “Noite de Fado Clássico”, com Beatriz da Conceição, António Rocha, Camané, Aldina Duarte, Maria da Nazaré e um grupo de guitarra e violas sob a direcção do professor José Fontes Rocha (domingo, auditório 1º Maio, pelas 20h30), e uma apresentação da Orquestra Metropolitana de Lisboa dirigida pelo maestro Miguel Graça Moura (sábado, no mesmo local, pelas 16h00).

Manuel Rocha – “EM PÚBLICO” (entrevista | artigo de fundo | dossier | portugal)

pop rock >> quarta-feira >> 22.06.1994
EM PÚBLICO


MANUEL ROCHA *


Qual foi o seu percurso como músico?
Comecei a estudar violino em Coimbra, como todos os miúdos, em escolas particulares. Mais tarde, entrei na Brigada, era ainda pequenito, tinha 14 anos. Estive aí até aos 20 anos, altura em que consegui uma bolsa na União Soviética para uma escola de ensino de violino. Estive em Moscovo seis anos, entre 1982 e 1988, a estudar pedagogia do violino. Após esse período, ainda tentei entrar numa orquestra mas acabei por ficar em Coimbra, no Conservatório de Música. Entretanto, reencontrei-me com a malta da Brigada e fiquei por lá, onde estou há 18 anos.

Enquanto violinista de formação clássica, como se processou a sua aproximação às técnicas de execução tradicionais?
De início, tocava violino de ouvido, na Brigada. Mas não existe um grande reportório de música para violino em Portugal. Não é como na Irlanda ou na Inglaterra. As coisas vão-se apanhando. Aconteceu-me um episódio engraçado: na Brigada, como na música tradicional portuguesa em geral, não existe uma grande exigência ao nível da técnica e da sonoridade. A tradição oral é, em si mesma, especializada. Um homem que é um bom ponto num cantar alentejano nunca será capaz de cantar provavelmente uma daquelas cantigas de ritmos arrevezados de Trás-os-Montes. Em Portugal, existe sobretudo uma tradição do canto. E de gaiteiros. Há tocadores de gaita-de-foles que têm a chamada “onda” no seu instrumento. No último disco que saiu de recolhas de Giacometti, há uma música em violino que eu ando a tirar, mas é difícil, porque o homem consegue, de facto, ao nível da frase musical, certos artifícios que eu não consigo tirar. Tenho uma escola muito mais clássica, enquanto a técnica popular é empírica e muito mais ornamentada. Aquilo que ele não consegue ir buscar à riqueza do timbre vai buscar ao ornamento.

Ainda faz sentido falar, hoje, no chamado trabalho de recolha?
Esta história dos grupos de recolha é uma mentirinha. Mesmo em relação à Brigada, alguns elementos do grupo fizeram realmente algum trabalho de recolha no início da formação – integrados, muitas vezes, em jornadas de trabalho com o Giacometti. O que se fez daí para a frente foi, sobretudo, ir buscar aos arquivos do Giacometti espécimes que nos pareciam interessantes. Hoje, vai-se buscar material aos cancioneiros, a pautas escritas, o que retira alguma autenticidade à recolha. Por exemplo, o caso do violino que referi há pouco: um tipo ler aquilo na pauta deve ser diabólico. E não lhe agarra a onda.

Em termos gerais, como se processa a sua relação com a música tradicional?
Tenho sobretudo interesse pela música tradicional, naquilo que esta é em termos de base de um universo sonoro a que nós pertencemos. Sou também um curioso em relação à música tradicional de outros países. Há outra questão: um músico de escola, normalmente, tem alguma dificuldade em improvisar. Na música tradicional, uma pessoa aprende a funcionar com os tons, a improvisar. Embora um improviso nunca muito arrojado do ponto de vista temático ou harmónico. Isso já vem depois com os músicos de jazz. É interessante verificar como um músico de outra área, como o Júlio Pereira, é dos melhores executantes de instrumentos tradicionais em Portugal. No nosso país, falta sobretudo escola – um problema que nunca foi equacionado em Portugal. Vemos os chamados grupos de raiz tradicional a utilizarem todos os instrumentos possíveis, acabando por agregar bateristas e baixistas, mas o que eles não fazem, de facto – e deveriam fazer -, era pegar em músicos que fossem capazes de dominar os instrumentos tradicionais. Quando nós, Brigada, vamos a Inglaterra tocar nos festivais de música tradicional, as pessoas gostam sobretudo é das músicas que estão mais agarradas à nossa raiz, não daquelas em que nós mostramos algum arrojo no domínio, por exemplo, de uma guitarra. Eles querem ouvir é uma braguesa bem tocada, guitarras têm eles lá com fartura.

O que falta, nesta área, aos músicos portugueses?
Existe pouco profissionalismo no desempenho do músico: falta de ensaios mas também falta de escola. Pode encontrar-se, em Portugal, bons guitarristas, bons baixistas, bons bateristas, mas não se encontra bons braguesistas, grandes tocadores de gaita-de-foles, a sanfona só agora reapareceu. Deveria ser feita uma aposta na formação em escola, em que se integrasse o músico na técnica do instrumento e numa noção da música em geral, para que pudesse evoluir. Já lá vai o tempo em que funcionávamos na base da relação tónica/dominante. Considerava-se a música portuguesa aquilo da concertina para dentro e para fora. Não é. A música portuguesa é predominantemente modal. É muito difícil, hoje, abordar-se a música tradicional portuguesa sem essa parte do modalismo. E, para isso, é preciso conhecer harmonia. Aliás, estou agora a participar na gravação de um novo disco da Né Ladeiras, sobre música de Trás-os-Montes, em que a maior parte dos músicos é de jazz. É notável, ao nível das soluções harmónicas, aquilo que se tem arranjado. Músicos que nunca tiveram qualquer relação com a música tradicional acabam por achar nela um campo de trabalho onde é possível ir mais ao fundo.

Não havendo escolas, no meio de tantas limitações, como consegue evoluir como músico?
O facto de dar aulas acaba por ensinar muito. Ter que resolver problemas técnicos e musicais, e debruçar-se sobre obras de diversas maneiras faz desenvolver a própria escola pessoal. Por outro lado, o reportório clássico oferece pistas brutais no campo da música tradicional. O Villa-Lobos era, se não me engano, quem dizia que o Bach era o músico que acabou por centrar na sua música a música dos povos do mundo. E vou também evoluindo através daquilo que vou ouvindo.

Ouvindo o quê?
Por exemplo, um catálogo interessantíssimo, que é o da ECM, os discos da Silex; muita chamada música clássica, por causa da minha profissão; e, claro, música étnica, que hoje está na moda. Em Moscovo, habituei-me a ouvir coisas de muitos lados, sobretudo da América Latina e da Ásia, música vietnamita, coreana, chinesa. Havia coisas curiosas. Por exemplo, os vietnamitas eram tipos com uma dificuldade tremenda para perceber a tal questão da dominante/tónica, por que é que uma dominante ia para a tónica. O que se explica, porque o sistema musical deles não tem nada a ver com o sistema ocidental. Isto abriu-me uma janela. A nossa música não é “a verdade” mas apenas um caminho sonoro.

Em relação aos violinistas, a escola irlandesa poderá ensinar alguma coisa aos músicos portugueses?
Penso que se pode aprender. Se nós copiarmos os “standards” dos irlandeses, acabamos por ganhar muito em rapidez, por exemplo. Em termos de desenvencilhamento melódico, eles arranjam soluções extremamente interessantes, em termos inclusivamente de manejo das escalas.

Será, então, mais uma questão de “ginástica”, não é assim, e nunca uma cópia da música em si?
Sim, todos os grupos da música portuguesa, incluindo a Brigada, passaram pela fase da celtização. Penso que a celtização é uma coisa tão má como a moda dos ranchos folclóricos, do sol-e-dó. Ao fim e ao cabo, é importar algo que exerce sobre nós um certo fascínio e transportá-lo mecanicamente para a nossa música. Isto decorre de uma certa falta de ideias dos músicos portugueses – falta de ideias que, por sua vez, decorre de um baixo profissionalismo do seu desempenho. Um homem, um músico, só pode criar quando tem a cabeça cheia de informação. Há músicos extremamente mal formados na música portuguesa, alguns deles, inclusivamente, não sabem ler música, o que, às vezes, chega a ser dito com certo orgulho. Um músico popular pode não saber ler mas um músico da cidade e da sua arena musical tem que saber ler – ler e estudar. Já não se compreende que haja músicos à molhada a fazerem todos a mesma coisa. E isso faz-se. Na Brigada, também se faz. Quando se fica amarrado a fazer algo cinzentinho, para sair limpinho, isso não aponta caminho nenhum. É por isso que, nos discos de música tradicional que chagam dos países em que está mais desenvolvida, se encontra músicos com recursos brutais. O que encanta nesses discos é a manipulação, o desempenho.

Enquanto professor de violino, procura despertar nos seus alunos o interesse pela música tradicional?
Utilizo, nas aulas, alguns temas tradicionais portugueses, infantis, por exemplo. Os alunos mais novos, que movimentam ainda muito debilmente os dedos, podem tocar essas músicas. Utilizo também algum reportório estrangeiro. Trouxe, há pouco tempo, livros de Inglaterra, com escalas e harpejos, formas simples de tocar que são para os alunos extremamente estimulantes. Eles sentem-se logo a fazer música, até porque o seu universo sonoro inclui esses tipos de música, a irlandesa e a portuguesa. Toda a escola devia fazer isso e não faz.

* Violinista da Brigada Victor Jara e músico convidado dos Realejo. Professor de violino no Conservatório de Música de Coimbra. Encontra actualmente a gravar, com Né Ladeiras, um álbum desta cantora centrado na música tradicional de Trás-os-Montes.