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Realejo / Fernando Meireles – “Música Tradicional de Câmara” (entrevista)

pop rock >> quarta-feira, 20.10.1993


MÚSICA TRADICIONAL DE CÂMARA

No centro dos Realejo está a sanfona, instrumento ancestral que entrou em declínio a partir do século XVIII, mas que, um pouco por toda a Europa, uma nova geração de músicos tem vindo a recuperar. Os Realejo tocam e constroem as suas.



Fernando Meireles toca e constrói sanfonas. E bem. Como não há escolas de construtores de instrumentos tradicionais em Portugal, Fernando Meireles foi obrigado a ler e a ver como se fazia lá fora. Aprendeu sozinho e meteu mãos à obra. “Obradoiro” solitária, à portuguesa. Daí, os Realejo, que actuaram com êxito na última edição dos “Encontros da Tradição Europeia”, partiram à descoberta de outros sons. Entre o tradicional e a música de Câmara.
Além de Fernando Meireles, que é professor de música e toca sanfona, bandolim e cavaquinho, fazem parte do grupo Cesário Assunção, igualmente construtor de instrumentos (de corda), que tem a profissão de técnico de som e toca guitarra; Manuel Rocha, professor de música, que toca violino e bandolim; e Amadeu Magalhães, estudante num curso de Educação Musical, que toca sanfona, cavaquinho, braguesa, gaita-de-foles, flautas e bandolim.
PÚBLICO – Quando surgiu o Realejo?
FERNANDO MEIRELES – Em 1990, na altura em que acabei de construir a primeira sanfona.
P. – De onde lhe veio o interesse pela sanfona, ao ponto de aprender a sua construção?
F. M. – A sanfona tinha desaparecido completamente em Portugal durante o século XIX. Quando conheci o instrumento, achei-o fascinante e que era um disparate estar perdido. Prpopus-me então reconstituir o instrumento. Fiz um trabalho de investigação que me levou cerca de quatro anos, tendo-me baseado sobretudo em figuras de presépio dos séc. XVII e XVIII. Em 1990, tinha a minha primeira sanfona.
P. – Como explica o ressurgimento geral deste instrumento na Europa?
F. M. – Tem a ver com um interesse generalizado das pessoas pelas tradições dos seus países. Depois, a sanfona tem características muito interessantes e chamativas. Fica-se encantado. Quem vê de perto uma sanfona nunca mais a esquece.
P. – O tipo de sonoridades de grupos como o vosso, em que predomina a combinação sanfona / gaita-de-foles, vai um pouco contra a corrente geral, onde as cordas dominam…
F. M. – O reportório do Realejo está de facto vocacionado para a sanfona. O que temos feito até agora é tocar toda a música que existe para sanfona, desde a Idade Média, passando pelos românticos do séc. XVIII, os compositores franceses que escreveram para sanfona e a música tradicional. A pouco e pouco, temos vindo a adoptar outra espécie de caminho, com composições nossas.
Manuel Rocha – Há um aspecto interessante na fusão da gaita-de-foles com a sanfona. As melodias de Trás-os-Montes são extremamente moldáveis a este tipo de combinação. Por isso não é difícil partir dessas sonoridades para entendermos aquilo que deve ser o caminho de um instrumento como a sanfona. É preciso também dizer que no Realejo há uma exigência técnica em relação à execução instrumental na sanfona. A música tradicional em Portugal sofre um bocado por haver muito poucos executantes ágeis, digamos assim – com agilidade suficiente para pôr o instrumento a tocar por si.
Penso que no Realejo existe essa agilidade, de maneira a mostrar a música da sanfona não apenas pelo seu lado pitoresco, mas pelo seu lado musical. Porque não é só uma rodinha a ranger: nhek, nhek, tchuik [risos]…
P. – Onde é que vão buscar o reportório?
Amadeu e F. M. (em coro) – À França! E ouvimos bons discos, para percebermos a técnica. Por exemplo, do Nigel Eaton [Ancient Beatbox, Blowzabella, Scarp].
P. – O que pensam de um intérprete como Valentin Clastrier?
F. M. – É um excelenete instrumentista de música contemporânea. Contribuiu para o desenvolvimento da sanfona, na versão electroacústica.
P. – Será possível alguma vez recuperar ou reconstituir o reportório português para sanfona?
F. M. – É difícil. Encontrei em alguns cancioneiros de Pedro Fernandes Tomás algumas notas em rodapé sobre música que poderia ser tocada em sanfona…
A. – O que é possível fazer é transcrever a música. A sanfona tem duas oitavas e um tipo específico de fraseado. Pelas pautas podemos logo ver se a música pode ser adaptada ou não à sanfona e à sua digitação. Do que podemos ter a certeza é que os romances portugueses, em determinada altura, eram acompanhados por sanfona.
F. M. – Sanfona que acabou nas mãos de cegos e pedintes…
P. – Parece-me que o Realejo está longe de poder ser considerado apenas um grupo de música tradicional, não é verdade?
M. R. – Normalmente as pessoas têm uma determinada expectativa, quando vêem um grupo com uma braguesa, um cavaquinho e uma gaita-de-foles. Dizem: “Pronto, vai ser música tradicional.”
Em Portugal a noção de “música tradicional” está muito standardizada, diz respeito a um certo barulho, um ruído característico, que as pessoas associam à música tradicional. A sonoridade do Realejo é de facto a de um grupo de câmara. Até a gaita-de-foles está preparada para tocar baixinho para poder ombrear com a sanfona… Digamos que a música do grupo está no limiar daquilo que entendemos por música de câmara, e a música tradicional, porque os sons são de facto de instrumentos tradicionais.

Fernando Meireles / Vários – “Terminou Ontem O Ciclo De Instrumentos De Corda, No Teatro Da Trindade, Em Lisboa Música Sanfónica” (festivais / concertos/ etno /portugueses)

Secção Cultura Segunda-Feira, 11.02.1991


Terminou Ontem O Ciclo De Instrumentos De Corda, No Teatro Da Trindade, Em Lisboa
Música Sanfónica
(Fernando Magalhães e Vasco Câmara)

A sanfona de Fernando Meireles e restantes Realejo encantaram, ontem, o escasso público presente na sala do Chiado. Na véspera, Carlos Paredes tocou e falou da guitarra portuguesa, e as marionetas de Santo Aleixo recriaram o mundo é escala dos sonhos.



Fernando Meireles fabrica instrumentos musicais de corda. A sanfona que tocou no Teatro da Trindade levou três meses a construir. Durante esse período não lhe sobrou tempo para mais nada, mas acha que valeu a pena. As paixões são assim. A sua nasceu há cinco anos, quando principiou a investigar a documentação existente sobre o instrumento, extinto no nosso país desde meados do século passado. Viajou um pouco por todo o lado, escutando os segredos ocultos no chorar da sanfona. Depois foi só basear-se numa figura de presépio do séc. XVII, de Machado de Castro, e confiar na intuição e nos seus próprios conhecimentos de mecânica acústica.
Ontem à tarde, perante uma assistência de pouco mais de trinta pessoas (16h00, domingo de Carnaval, não seria propriamente o horário ideal…) Fernando Meireles apresentou-se integrado no agrupamento Realejo, formado em Coimbra o ano passado. O grupo dedica-se à interpretação de música exclusivamente tradicional, “com arranjos instrumentais substituindo as partes cantadas e variações sobre as melodias originais”.
Para além do Fernando (também membro dos “Ars Musicae de Coimbra” especializados no reportório medieval e renascentista da Península Ibérica) que toca sanfona, violino, bandolim, cavaquinho e percussão, fazem ainda parte dos “Realejo”, Amadeu Magalhães (gaita de foles, flautas de bisel, cavaquinho e braguesa), Santos Simões (guitarra, bandolim e percussão) e Cesário D’Assunção (guitarra, braguesa e percussão).
Interpretaram temas do périplo celta da península: melodias e danças da Galiza, da Bretanha e do Norte do país (Bragança, Vinhais, Amarante), como não poderia deixar de ser. Para Fernando Meireles esta é a música que mais tem a ver consigo, aquela que o “toca de perto”. Nota-se – no brilho dos olhos, quando faz girar a manivela e os seus dedos deslizam sobre as teclas de madeira antiga da sanfona.
Se por vezes se tornam perceptíveis algumas limitações técnicas da parte dos músicos, nem por isso é menor o prazer extraído da audição dos sons e cadências ancestrais que fazem vibrar a memória de um povo, apelando para uma raiz colectiva que já quase esquecemos, perdida na voragem do século.
Situados à margem do “Folklore com K”, para turista ver, com ‘trajezinhos’ e, na maior parte das vezes, os instrumentos miseravelmente tocados” – como Fernando Meireles faz questão de frisar, os Realejo encaram a música como um acto de entrega amorosa. Para além das modas e oportunismos, longe da ignorância e inépcia oficiais, ficam “aqueles que gostam mesmo disto e acham que vale a pena lutar”.

O Paraíso Dos Bonecos

As Marionetas de Santo Aleixo, os títeres tradicionais do Alto Alentejo, abriram o programa de sábado, dia 9, com o “Auto da Criação do Mundo”. Construídos em madeira e cortiça e de dimensões muito pequenas – 20 a 40 centímetros – os bonecos, propriedade do Centro Cultural de Évora, são manipulados no retábulo, que é a reprodução em miniatura de um palco tradicional, com cenários pintados em papelão e iluminação a candeia de azeite.
O “Auto da Criação do Mundo” é a recriação, popular, brejeira, mas também trágica, da parábola bíblica da queda de Adão e Eva do paraíso, expulsos por um Deus avaro que contava os frutos do pomar do paraíso terrestre. Nos vários quadros, cujo elemento de ligação era um coro de anjos impertinentes e tontos que esvoaçavam sobre o pequeno cenário, foi constante, durante os 45 minutos de representação, a provocação e o diálogo com a assistência. Um pouco à maneira da revista à portuguesa: “Como se chama esta avezinha?”. “Pomba”, responde alguém do público. “Então meta aqui a tromba!”.
A fraca iluminação projectava no fundo negro do palco do Teatro da Trindade as enormes sombras dos cinco manipuladores das marionetas, acentuando o lado trágico desta farsa de que são protagonistas Deus, Adão e Eva – “duas carnes e um só osso” – Caim e Abel.

História Da Guitarra

Estes bonecos tradicionais, os textos, das peças, de transmissão oral e o suporte musical começaram a ser divulgados pelo etnólogo Michel Giacometti a partir do final da década de 60. Juntamente com Mestre Manuel Jaleca, “grande guitarrista de Évora”, a figura de Giacometti foi lembrada por Carlos Paredes no pequeno recital – pouco mais de meia-hora – que deu a seguir à representação dos títeres alentejanos.
Foi uma curta viagem pela história da guitarra portuguesa, desde o seu antepassado mais recuado, a citola, até ao modelo que o músico usou no recital, e que foi definido no século XVIII. As peças que Paredes interpretou – “Dança dos Camponeses”, “Variações”, “Verdes Anos” – serviram-lhe para explicar as várias facetas do instrumento, capaz de exprimir o fatalismo e a saudade mas também o vigor e a violência. Oportunidade para Carlos Paredes lembrar o pai, Artur Paredes, o criador de um género novo, a guitarra de Coimbra.
No final houve direito a um “encore” pedido pela assistência que não enchia a plateia do Teatro da Trindade, e que era constituída, na sua maioria, por sócios do INATEL, com direito a desconto de 50 por cento nos 1200 escudos que era o preço do bilhete.

Artigo de Opinião: “O Futuro Sem Fantasmas” – Brigada Victor Jara, Gaiteiros De Lisboa, Realejo, Quadrilha

POP ROCK
3 de Janeiro de 1996

Especial Balanço 95 Da Música Portuguesa

O FUTURO SEM FANTASMAS


realejo

Uma colheita de ouro, a do ano que findou, de música portuguesa com as raízes mergulhadas na tradição, só comparável à da segunda metade dos anos setenta, com a digestão consumada da ressaca da revolução de Abril.
Três grupos recolheram os louros, assinando trabalhos discográficos notáveis que fizeram a música de raiz tradicional portuguesa avançar um passo de gigante: Brigada Victor Jara, Gaiteiros de Lisboa e Realejo, por ordem cronológica de edição dos respectivos discos, “Danças e Folias”, “Invasões Bárbaras” e “Sanfonia”. Num registo menor, os Quadrilha garantiram o apoio logístico aos generais, com o seu folk rock sem pretensões de maior, em “Até o Diabo se Ria”.
O que faz dos álbuns atrás mencionados obras que vão ficar na história é o facto de cada um deles apontar um caminho no sentido da renovação do legado tradicional. Nenhum está anquilosado no passado. Logo, nenhum deles sofre de artrite, reumatismo ou esclerose. Tal não significa, porém, que se possa passar ao lado, ou, por inépcia, massacrar a música tradicional, por natureza sensível aos maus tratos. Quem conhecer os músicos que compõem tanto a Brigada como os Gaiteiros, verificará que todos eles se submeteram ao longo de anos e anos a um processo de evolução e aprendizagem que se poderá considerar alquímico. Do trabalho de recolha dos primórdios às liberdades tomadas no presente, vai uma jornada longa e, amiúde, dolorosa. Recuperar e actualizar a tradição é perpetuar essa mesma tradição. Criar novas formas a partir do barro exige o conhecimento do barro e as suas técnicas de manipulação. A alma esconde-se na pedra. A luz habita no âmago das trevas. Picasso demorou uma vida até conseguir pintar como uma criança. Umas “uillean pipes” demoram anos até ganhar vida e voz próprias. Não é quem quer, mas quem sabe, quem tem o direito – e o dever – de arrancar a erva daninha e o “folclore”, enquanto deterioração enfeudada a um qualquer poder político, que fazem definhar a verdadeira música – os seus gestos, as suas melodias, as suas cadências, os seus rituais – das comunidades rurais ainda existentes. Não é quem quer, mas quem sabe, quem tem o direito – e o dever – de inventar novas vozes, sobrepondo-se às vozes que levam de vencida e se incrustam no tempo.
A Brigada evitou as rupturas bruscas, apostando no reformismo. Os festejos, sem convulsões, do seu 20º aniversário não poderiam ter sido melhores, não só pela edição de “Danças e Folias”, como pela reedição em compacto de “Eito Fora” e “Contraluz”, culminando num concerto memorável, em Dezembro, no São Luiz. Os Gaiteiros entraram a matar, com a voracidade de predadores. “Invasões Bárbaras” é uma aposta no excesso e na diferença que não deixa ninguém indiferente e volta a agitar as águas mornas de algum contentamento, representando para os anos 90 o que o GAC representou para os 70.
Deixámos para o fim os Realejo, projecto de Fernando Meireles, que partiram de outro lugar e de um outro modo de olhar. Se o objectivo primeiro foi recuperar a dignidade e o prestígio perdido em séculos passados, da sanfona, a verdade é que o som de “Sanfonia”, até pela ênfase colocada naquele instrumento, apresenta características que o aproximam de uma certa forma de “fazer tradicional” disseminada pela Europa, algures entre a música antiga e o folk progressivo das grandes bandas, sobretudo francesas, dos anos 70 (Malicorne, Mélusine, La Grand Rouge, La Bamboche, La Marienne, Maluzerne).
Entre as várias conclusões possíveis de extrair desta trindade que em 1995 ganhou um corpo novo e um novo alento para a música portuguesa, não só tradicional, uma há que se reveste de particular importância. A dessacralização de Michel Giacometti, acompanhada por uma visão mais lúcida e, sem dúvida, mais frutuosa do seu trabalho no campo das recolhas e catalogação dos espécimes étnicos. O seu espólio deixou de ser considerado um mito e, como tal, um dogma, passando a constituir um ponto de referência e de consulta, enquanto material de trabalho prático, à disposição de todos, na condição de não terem mãozinhas de chumbo.
Foi este, aliás, um dos principais tópicos do debate sobre música tradicional e de raiz tradicional portuguesa promovido pelo pop Rock no mês de Novembro, com a presença dos convidados Tentúgal, dos Vai de Roda, Carlos Guerreiro e José Manuel David, dos Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge e José Martins (Ó que Som Tem). “O futuro, já!”, título que escolhemos para ilustrar o referido debate, poderia ser, de resto, o lema de uma nova atitude perante a tradição, carregada em simultâneo de sabedoria, ousadia e espírito de inovação. Neste cenário de promessas cumpridas, acompanhado da separação do trigo do joio (1995 foi um mau ano para a “MPP – música popularucha portuguesa”, ou então não se deu por ela, o que vai dar no mesmo…), ficou ainda reservado um lugar de honra para um disco de recolhas onde é possível desfrutar o canto e a música genuínos da população rural de uma localidade de Trás-os –Montes, “Idanha-a-Nova, Toques e Cantares da Vila”, considerado pelo Pop Rock um dos melhores discos de música tradicional do ano, resultado da investigação de José Alberto Sardinha.
A última boa notícia é que o ano que agora se inicia, a confirmarem-se as expectativas, vai ser pelo menos tão bom como o anterior.