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Realejo – “Realejo Lançam “Sanfonia” – SANFONA CONCERTANTE”

pop rock >> quarta-feira >> 20.12.1995


Realejo Lançam “Sanfonia”
SANFONA CONCERTANTE


“sanfonia” é o título do primeiro álbum, há muito aguardado, dos Realejo, um lançamento recente da editora Movieplay. Fernando Meireles, mentor do grupo, falou ao PÚBLICO do seu amor de sempre, a sanfona, e da maneira como a arrancou ao desprezo e abandono a que foi votada pela História.



embora tarde, “Sanfonia” chegou a tempo de entrar directamente para a lista dos “melhores do ano” do Poprock. É o vértice que faltava ao triângulo formado pelos Gaiteiros de Lisboa e pela Brigada Victor Jara. Polígono que, muito em breve, terá aumentado o seu número de lados, com os próximos a serem traçados pelos Vai de Roda, O Ó Que Som Tem, Cramol e Amélia Muge. Por enquanto não mencionaremos sequer o projecto de um disco a solo de Isabel Silvestre, com produção de João Gil, da Ala dos Namorados. É segredo. Para já é tempo de rodar a manivela da sanfona e dar a palavra ao seu executante e construtor Fernando Meireles.
PÚBLICO – “Sanfonia” começa e termina na sanfona. É um manifesto em sua defesa?
FERNANDO MEIRELES – O projecto começou a partir do momento em que construí a minha primeira sanfona. Era preciso tocá-la e dá-la a conhecer. Foi igualmente determinante a leitura da obra sobre instrumentos populares portugueses, do doutor Ernesto Veiga de Oliveira, nomeadamente o capítulo da sanfona.
P. – Não é um disco de grandes ousadias formais…
R. – A tarefa era, à partida, dignificar não só a sanfona como os instrumentos tradicionais portugueses, os quais, de um modo geral, eram mal feitos. Para mim, enquanto músico, isso sempre me desgostou. Foi por isso que comecei a fazer instrumentos. Uma das minhas preocupações é que a sonoridade do Realejo seja característica dos instrumentos e que esses sejam bons.
P. – Porquê a opção por um disco totalmente instrumental?
R. – … E totalmente acústico. As vozes não foram postas de lado “a priori”, o que aconteceu foi que nunca encontrámos no nosso caminho alguém com boa voz, ao nível de qualidade e de “feeling”. Para o nosso tipo de música, o que é preciso é ter onda. Algo difícil de encontrar, ainda para mais aqui em Coimbra, um meio pequenino…
P. – É também um dos poucos discos, na área em que se insere, onde o virtuosismo, ao nível da execução, é um facto, e não existe o receio de o mostrar…
R. – Exacto. Os instrumentos devem tocar por si. Devem ser bons, soar bem, e depois serem bem tocados. Conhecemos um pouco o que se passa no panorama musical português, onde muitas vezes as pessoas usam os sintetizadores para “fazer cama” e depois metem umas vozinhas por cima, não sei quê, e aquilo até sai bonitinho. Não nos sentimos minimamente atraídos por esse tipo de coisas. Gosto dos instrumentos portugueses e sempre achei que eles deviam ter uma certa dignidade que tinham vindo a perder sistematicamente, sobretudo a seguir a 1975, durante o “boom” da música de raiz tradicional portuguesa, quando se começaram a fazer instrumentos a dar com um pau e de qualquer maneira…
P. – Apesar disso, “Sanfonia” soa bastante “europeu”, não acha?
R. – Sim, tem uma sonoridade um bocado além fronteiras, o que resulta em grande parte da responsabilidade musical assumida pelo Amadeu Magalhães, autor dos arranjos. É um som universal, sem limites e sem estar amarrado a qualquer tipo de padrão. Para já, a Etnia mostrou-se interessada em comercializar o disco fora de Portugal.
P. – Nota-se no alinhamento uma divisão marcada entre os temas de sanfona e gaita-de-foles, com maior complexidade e muito música de câmara, e uma sequência, pelo meio, de outros mais populares, como o “Bacalhau”. São os dois lados de uma mesma moeda ou cedências ao mercado?
R. – Foi intencional. Como o Realejo é um grupo que toca música portuguesa, não quisemos de form alguma pôr de parte instrumentos como o cavaquinho, o bandolim ou a concertina, que t~em a mesma dignidade quando são bem tocados. De qualquer modo, o disco foi muito bem selecionado em termos de faixas, fomos para o estúdio com música para fazer dois discos.
P. – Não receia, por exemplo, que a rádio pegue apenas nesse lado, não dando uma imagem correcta da estética global do grupo?
R. – Repare-se, ainda a propósito dos cavaquinhos, que não é muito comum haver um grupo de cavaquinhos a tocar, como n´so tocámos, segundo uma escola que nasceu com o Júlio Pereira, a técnica de “rasgado”. De qualquer modo, penso que os temas mais fortes do disco são aqueles onde a sanfona e a gaita-de-foles se destacam mais.
P. – Nunca pensou em electrificar a sanfona, fazer com ela outro tipo de experiências?
R. – A ideia agrada-me e já fiz, inclusive, algumas experiências. De qualquer modo, aquilo que se passa, em termos de lectrificar a sanfona ou os outros instrumentos, é que os espectáculos do Realejo são na sua maior parte acústicos. Essas experiências de electrificação não têm resultado, até agora, muito bem, embora no disco haja uma faixa que aponta um bocado nesse sentido, a cantiga de Santa Maria, com um movimento meio arrockalhado. Pode ser um ponto de partida…
P. – Mas por enquanto o Realejo continua a ser um grupo de e para interiores, no duplo sentido da palavra?
R. – Sim, até um bocado pela nossa experiência em palco. Os nossos conceros são acústicos, o que cria uma intimidade e uma certa aproximação com o público. Se o Realejo começar a saltar desses palcos pequenos para outros maiores, teremos que pensar de outra forma.

Realejo + Boys of the Lough – “Festival Intercéltico Do Porto – Retratos Da Saudade” (concertos | festivais)

cultura >> domingo, 09.04.1995


Festival Intercéltico Do Porto
Retratos Da Saudade


O dia de abertura da sexta edição do Festival Intercéltico do Porto pautou-se pela tranquilidade. Os Realejo trouxeram de Coimbra uma “Sanfonia” para ser ouvida longe do bulício das multidões. Os Boys of the Lough passaram bem, obrigado, que a idade já não lhes permite grandes brincadeiras. O sublime aconteceu mais tarde, já a cidade dormia.



Estivemos lá. Era um salão de uma casa antiga, forrada com gravuras e retratos antigos de senhoras de seios fartos, crianças louras e militares de bigodes farfalhudos. Fica ao fundo de um jardim, escondido entre memórias. Sentámo-nos na roda de amigos. Ao centro uma sanfona contava histórias de tempos que já lá vão, fazendo ranger os gonzos de uma porta de carvalho por onde se passa para o Início. Foi assim, num filme projectado pela imaginação no Teatro do Terço, sexta-feira, no concerto de abertura da sexta edição do Festival Intercéltico do Porto, com os portugueses Realejo. “Sanfonias” – para utilizar o termo escolhido para título do álbum de estreia do grupo – de música tradicional portuguesa que soube encontrar um lugar de recolhimento e contenção, distante dos arraiais regidos por Dionisos.
A música dos Realejo toca devagar e baixinho, escorrendo como mel. Sem sobressaltos. Ao ritmo das voltas da manivela da sanfona de Fernando Meireles, da gaita-de-foles e da concertina de Amadeu Magalhães, do violino de Manuel Rocha, da guitarra de Rui Seabra e do violoncelo de Ofélia Ribeiro. Música tradicional de câmara, como já uma vez nos referimos ao som deste quinteto de Coimbra. “Canção do gaiteiro”, “Oliveirinha do monte”, “Rosinha” – numa versão instrumental com desenho melódico pela flauta de bisel de Amadeu Magalhães, a contrastar com um arranjo vocalizado do mesmo tema pelos Vai de Roda, no “Terreiro das Bruxas” – “Sanfonia” (um original de Amadeu Magalhães), o clássico “cego andante” e “Dança galega” constituíram momentos altos numa prestação que valeu sobretudo pelo colectivo. Interiorização, disciplina, atenção ao detalhe, ausência de espalhafato, eis algumas das linhas de força determinantes na música dos Realejo, desde já posicionados na dianteira das novas bandas portuguesas de música de raiz tradicional, neste caso com a música antiga no horizonte. Uma faceta que muito provavelmente será concretizada num novo projecto de alguns dos músicos do grupo…
Esperava-se a dança e a euforia do grupo seguinte, os Boys of the Lough, banda escocesa / irlandesa de veteranos que por cá já tinham passado numa daquelas tardes sem glória da Festa do Avante!, onde a curtição só por acaso passa pela música. Afinal os Boys, por esta altura, deveriam ter mudado de nome para Old Meno f the Lough. Pareceram cansados, tocando pouco e falando muito, com o lendário violinista das Ilhas Shetland, Aly Bain, a desempenhar as funções de “compère”, com piadas, na sua maioria boas, afagos na careca do flautista Cathal McConnell e os habituais apelos ao público para dançar. Como ninguém – à excepção de um grupo de jovens mais entusiastas – se dignou levantar o traseiro do assento, Aly optou então por se referir à audiência como um “público inteligente”. Infelizmente para o seu “fiddle”, a dose de combustível alcoólico já excedera a capacidade do depósito. Cathal McConnell, por seu lado, reputado como um dos maiores flautistas irlandeses, esteve longe de fazer esquecer o seu “rival” Matt Molloy, mostrando-se demasiado retraído. Quanto a Christy O’Leary, deu uma lição teórica sobre as “uillean pipes” embora na prática não tivesse deslumbrado. Querer outra coisa, de mais excitante, talvez fosse exigir demais de uma banda que ao longo de toda a sua já longa carreira nunca primou pela ousadia, sendo antes um valor seguro do circuito, com uma postura de fidelidade aos “cânones”.
Poderia deste modo a noite ter acabado de pantufas se o festival Intercéltico fosse apenas um programa de concertos. Não é. Qual caixa de Pandora, as surpresas acontecem quando menos se espera. E o imprevisto aconteceu mesmo, já madrugada dentro, na gruta do castelo de Santa Catarina, por entre as latas de cerveja, copos de whisky e conversas de circunstância. Fanch Landreau decretou uma aliança violinística Bretanha / Irlanda, com Tim O’ Leary, apadrinhada pelas “uillean pipes” de Christy O’ Leary, juntando-se-lhes pouco depois Cathal McConnell, na flauta, um violinista galego anónimo e – já mais diluídos os efeitos da bebedeira – mestre Aly Bain.
Esta reunião bastaria por si só para nos reconciliar com os Boys. Mas houve algo mais, de muito precioso, um daqueles instantes que por vezes passam despercebidos na euforia do momento. Sem ninguém saber muito bem como nem porquê, a meio da corrida dos violinos e da gaita, Cathal McDonnell pousou a flauta, baixou a cabeça e cantou. Uma balada, apenas. Em voz trémula, subitamente agarrada pela distância, pela emoção, pelo silêncio que se fez. Então, aí assim, as brumas afastaram-se e foi possível escutar a voz e as lágrimas da Irlanda profunda. Deve haver com certeza um termo irlandês para “Saudade”.

Vários (Fairport Convention, Skolvan, Boys Of The Lough, Luar Na Lubre, Four Men And A Dog, Realejo) – “Festival Intercéltico Anuncia Programa – AS JÓIAS DA COROA”

pop rock >> quarta-feira >> 01.03.1995


Festival Intercéltico Anuncia Programa
AS JÓIAS DA COROA



FAIRPORT CONVENTION, SKOLVAN, Boys Of The Lough, Luar Na Lubre, Four Men and a Dog e Realejo são os nomes que integram o programa do 6º Festival Intercéltico do Porto, que decorrerá nesta cidade de 7 a 9 de Abril, no cinema do Terço. No primeiro dia, sexta-feira, a honra de abertura caberá aos portugueses Realejo, de Fernando Meireles e Manuel Rocha, na altura em que será lançado no mercado o seu álbum de estreia. A noite conclui-se com osmeio irlandeses, meio escoceses Boys of the Lough, com o virtuoso do violino, no estilo de Shetland, Aly Bain; assim regressam ao nosso país depois de – como já vem sendo hábito – uma inglória passagem pela Festa do Avante! O novo álbum dos Boys chama-se “The Day Dawn”. Sábado verá no cinema do Terço uma banda inglesa tornada uma lenda, os Fairport Convention, papas do “folk rock” britânico, já com meio século de existência e uma passagem, esta inesquecível, por uma das primeiras edições da festa comunista; deles acaba de ser editado o novo “Jewel in the Crown”. No mesmo dia actuam, na primeira parte, os Skolvan, para muitos o melhor grupo da Bretanha da actualidade, cujo último álbum, “Swing & Tears”, foi considerado pela crítica, nacional e estrangeira, Poprock incluído, um dos melhores do ano passado. O Intercéltico fecha no domingo. Na primeira parte com os galegos Luar na Lubre, grupo de música sofisticada, cujo álbum mais recente, “Ara-Solis” (belíssimo), já se encontra disponível em Portugal. A festa vai ser festa mesmo, no concerto de encerramento, com o folk rock energético dos Four Men and a Dog (têm um álbum novo acabado de sair, “Doctor A’s Secret Remedies”), uma máquina de fazer dançar. Como se tornou hábito nas últimas edições, o Intercéltico, organizado como sempre pelo MC – Mundo da Canção, apresenta um vasto programa de actividades paralelas. Este ano, inclui uma exposição sobre José Afonso, uma feira do disco “Celtifolk”, um debate sobre “A imprensa folk europeia” – onde vão estar presentes, entre outros jornalistas, Andrew Cronshaw, da “Folk Roots”, Phillipe Krumm, da “Trad. Magazine”, e Pete Heywood, da “Living Tradition” -, uma Escapada Intercéltica, com visita à Citânia de Briteiros e um “repasto celta” na Penha, em Guimarães.