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GNR – “Reininho No Recreio” (concerto | televisão)

PÚBLICO SÁBADO, 15 DEZEMBRO 1990 >> Local >> TELEVISÃO


Reininho no recreio


RUI REININHO e os GNR pertencem à casta forjada a ferro e fogo dos sobreviventes. Sobreviveram à onda normalizadora do primeiro “boom” do então denominado “rock português”, à recessão que se lhe seguiu, sobreviveram sobretudo a si próprios, às tentações que o demónio do sucesso decerto não deixou de lhes segredar aos ouvidos: estagnação de ideias, acomodação a programas estéticos preguiçosos, elaborados à pressão, para fácil digestão das massas, segundo a conhecida fórmula do “Reader’s (neste caso “listener”) Digest”.
Reininho e companhia sobrevivem graças ao humor subtil e à distanciação. A palavra séria é dita a brincar, o absurdo veste-se com a casaca da solenidade. Assumem a contradição, engolida vorazmente pelos vampiros, como se de nova bíblia pós-moderna se tratasse.
Há sete meses e picos, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, foi a apoteose do rei da “kitsch pop” e da decadência elegante. Os GNR, como de costume, confundiram e encantaram, baralhando as pistas e presenteando uma multidão delirante com os seus típicos “trompe l’oeil” melódico-gramaticais. “Impressões Digitais”, “Dafundo”, “Morte ao Sol”, “Hardcore Primeiro Escalão”, “Pós (País) Modernos” e mais uns tantos trocadilhos conceptuais chegaram para provar que são diferentes. É possível juntar no mesmo espetáculo a gaita-de-foles dos Sétima Legião e o Vata do Benfica, sem parecer ridículo? Claro que não. A diferença está em que os GNR conseguem fazê-lo de forma sublime. RTP 2, às 23h30

David Sylvian – “O Grande Oriente” (televisão)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 24 AGOSTO 1990 >> Local

RTP


O grande Oriente

DAVID SYLVIAN foi o rosto dos Japan. Um rosto belo, andrógino, como o do jovem de “Morte em Veneza”. Também uma voz. Música estranha, a dos Japan, influenciada no início pelos Roxy Music, depois inventando mundos de fantasmas orientais. David Sylvian, Mick Karn, Steve Jansen, Richard Barbieri – o núcleo fundamental. “Make-up”, trejeitos “glamour”, “Don’t Rain in my Parade”, de Barbra Streisand, imagens e sons de transgressão adolescente em “Adolescent Sex”, de 1979. “Obscure Alternatives”, sombrio, longínquo, satieano. Japan, grupo de artistas. Para além da música. Mick Karn é escultor. Sylvian tem a paixão da fotografia, “Gentlemen Take Polaroids” (1980), marcando o início da colaboração com Ryuichi Sakamoto. O Oriente ganha espaço e influência, “Cantonese Boy”, Mao Tse Tung, sedução. “Bamboo Houses”, de novo com Sakamoto, e “Forbidden Colours”, do filme “Merry Christmas Mr. Lawrence”, Sakamoto, ator e compositor, Sylvian, a voz. Os Japan acabam em 1983, com um vídeo e álbum ao vivo “Oil on Canvas”. A pintura. A cor. O traço.
Steve Jansen e Richard Barbieri ocultam-se nas brumas do ambientalismo eletrónico, em “Worlds in a small Room”, e Mick Karn avisa: “Dreams of Reason Produce Monsters”, depois de ter colaborado com Midge Ure (dos Ultravox), Peter Murphy (então nos Bauhaus) e os Dali’s Car.
David Sylvian demanda a beleza absoluta do canto. A sua voz escorre e flui como a água, tomando formas sempre diferentes, sempre envolventes, com os contornos do segredo e a imensidade esférica e absoluta do silêncio. Música flutuando na quietude ativa e expectante do Zen, procurando o lugar certo do som e das palavras. A exatidão, o centro do alvo, a paz geradora da espiral turbilhonante. “Brilliant Trees” (com Holger Czukay e Jon Hassell), “Gone to Earth” (duplo, com Robert Fripp e Bill Nelson), “Secrets of the Beehive”, o video “Steel Cathedrals” – exercícios contemplativos próximos dos de Brian Eno, sons pairando sobre o bulício do mundo, evoluindo noutras esferas. Infinitas. Transmutando a matéria bruta em diamante. Como faz o alquimista. “Alchemy – An Index of Possibilites”. Do Oriente uterino à espada ocidental.
Canal 1, às 14h50

Genesis – “Sem As Asas Do Arcanjo” (televisão)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 22 AGOSTO 1990 >> Local

RTP

Sem as asas do arcanjo

DOIS GRUPOS distintos, com a mesma designação: Genesis. Antes e depois de Peter Gabriel. Infinitamente mais interessantes e inovadores na primeira fase, aquela em que contavam com os sonhos surreais e as vocalizações teatralizadas do arcanjo Gabriel. “From Genesis to Revelation”, assim se chamava o disco estreia, capa negra, música devedora dos sinfonismos caros aos Moody Blues, textos prenunciadores dos delírios poético-fantásticos que estavam para vir. A editora era a Decca, não alertada para o grande “boom” da música progressiva, prestes a eclodir na passagem para a década de Setenta. A era de oiro desenrolou-se na Charisma, editora onde despontaram grupos importantes do movimento como os de Jackson Heights, Audience e, sobretudo, os Van Der Graaf Generator, de Peter Hammill, ao lado de Peter Gabriel, um dos maiores poetas que a Pop já conheceu.
“Trespass”, “Nursery Cryme”, “Foxtrot”, “Selling England by the Pound”, universos de fábula pontuados pelo humor negro muito britânico e a extraordinária capacidade de Gabriel em criar histórias e personagens que aliavam o feérico das palavras à complexidade barroca de uma música servida por excelentes executantes, como eram e continuam a ser, o guitarrista Steve Hackett, o baixista Michael Rutherford, o teclista Tony Banks e Phil Collins, evidentemente. Com a obra-prima “The Lamb Lies down on Brodway”, os Genesis atingem o auge e Peter Gabriel parte para novas aventuras a solo.
Phil Collins tinha o caminho livre. A partir de “A Trick of the Tail”, já sem Gabriel, a personalidade e imagem da banda desvanecem-se progressivamente. Mas foi só quando Phil começou a cantar que os milhões começaram a aparecer. A partir de aí a história passou a ser outra. Hoje, ao lado de Phil Collins (que praticamente abandonou a bateria), permanecem Tony Banks e Mike Rutherford, aos quais se juntaram Daryl Strummer e Chester Thompson. Vamos vê-los ao vivo, no estádio de Wembley, em julho de 1987, interpretando canções recentes de “Invisible Touch” e outras mais antigas, anteriores glórias. Sem as asas do arcanjo, os Genesis deixaram de voar.