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The Orb – “John Peel Sessions”

Pop Rock

15 de Maio de 1996
poprock

The Orb
John Peel Sessions
BBC STRANGE FRUIT, DISTRI. MVM


orb

Só faltava mais esta! O éter está viciado e a electricidade já não é o que era. Numa das obrigatórias sessões para o papa radiofónico John Peel, os Orb orientaram as agulhas da música electrónica para o “protopunk”! Nem mais. Basta sintonizar no tema “No fun”, um clássico dos Stooges, refundido (samplado) num contexto “ambient rage” pelo próprio Alex Patterson, para perceber que o tal organismo vivo que dá pelo nome de The Orb não pára de estender os seus tentáculos a tactear novas vítimas. As sessões em causa, descontando a surpresa – ou não – provocada por esta incursão nos finais dos anos 70, oferecem uma totalidade de pouco mais de meia hora, dividida em quatro faixas, preenchidas por abstracções aleatórias, “samples” para colar na caderneta e o habitual jogo de “adivinha onde é que fui sacar esta cena”. O “krautrock”, ora bem, está presente em força, ou não estivessem os Orb ao corrente das tendências em voga, embora não seja crível que os mais jovens reconheçam, no tema de abertura, “Oobe”, as mesmas guitarras acústicas sequenciadas que Klaus Schulze usou em “Black Dance”, ou uma frase melódica copiada à pressa de “Computer World”, dos Kraftwerk. Com os The Orb tem-se a certeza de que o movimento não pára, resta saber se vai dar a algum lado. (6)



Kim Fowley – “Let the Madness In”

Pop Rock

20 de Dezembro de 1995
Álbuns poprock

Kim Fowley
Let the Madness In

RECEIVER, DISTRI. MEGAMÚSICA


kf

Sem cair no exagero de Adolfo Luxúria Canibal – que, numa entrevista recente, afirmava que devia haver, além dele, mais duas ou três pessoas que conheciam a música de Kim Fowley -, é forçoso admitir não estarmos propriamente na presença de uma estrela. Fowley é um lunático, um prolixo lunático que, ao longo dos anos 60 e 70, assinou uma mão cheia de álbuns onde reina o delírio, a par de um número assinalável de produções. Álbuns como “Good Clean Fun”, de 1969, onde o absurdo se instala em faixas como “Motorcycle” – a letra é um vómito prolongado de grunhos e onomatopeias sob a forma de poema romântico de um jovem à sua namorada – ou “The great telephone robbery”, em que Fowley se faz passar por vários personagens e disca telefonemas ao acaso, gravando as respectivas conversas, sugerem uma espécie de Zappa intoxicado por ácido cortado com excesso de estricnina. 1995 assistiu a uma nova investida programada de Fowley, através do regresso aos palcos e da edição do presente álbum – um retrocesso, de certa forma imprevisível, para os batimentos metálicos da “cold wave” e da “música industrial” mais do que uma entrada em letra capitular nas catedrais da “tecno” e da “house”. É um disco de dança e de suor mecânicos, que destila sexo e fantasias de couro e de chicote por cada b.p.m., a começar na recorrência obsessiva de “Lipstick lesbians” e a acabar em “Tori Amos drinking teardrops in the twilight zone” e “Orson Wells’ mother”. “Let the madness in”, apesar de não possuir o mesmo fôlego e “lunacy” dos álbuns do passado, continua, porém, a resolver-se no desequilíbrio e a derreter um número razoável de células cerebrais. (7)



Pete Namlook – “VI” + “VII” + “VIII & IX” + “Syn” + Vários – “The Ambient Cookbook”

Pop Rock

19 de Julho de 1995
Álbuns poprock

Fax para o espaço

PETE NAMLOOK
VI (8)
VII (6)
VIII & IX (2xcd) (6)
X (8)
Syn (2xcd) (9)

VÁRIOS
The Ambient Cookbook (4xcd) (8)

Fax+49-69/450464, distri. Symbiose


pn

Regra de ouro para a editora e para o seu patrão, Pete Namlook, é a eleição dos sintetizadores analógicos. Nada se compara, em calor e na corporalidade do som, ao velho filtro VCF de um “Moog synthetizer”. A esta conclusão chegaram Pete Namlook e outros manipuladores de arsenal electrónico, que cada vez mais deixam de lado os frigoríficos digitais para redescobrirem as virtudes musicais do Moog, dos A. R. P. 2600 e “Pró soloist” ou do VCS#, máquinas fabulosas que começaram a ser exploradas ainda nos anos 60, ganharam estatuto de realeza na década seguinte, para finalmente serem deitadas ao baú das antiguidades, com a explosão do movimento “punk”.
Pete Namlook é o Klaus Schulze dos anos 90. Não só pelo espírito com que aborda a música electrónica como pelo modo como orienta toda a estética da sua editora, bizarramente denominada com o número real do seu fax. Em cada um dos seus discos manifesta-se o prazer do contacto directo e da manipulação em tempo real dos timbres dos sintetizadores, exactamente da mesma maneira que Schulze, quando se entregava às suas divagações planantes, no estúdio ou ao vivo numa catedral.
Ao contrário do “sampler” e restante tecnologia digital (não totalmente posta de lado por Pete Namlook, convém esclarecer), que pede ao compositor uma mentalidade analítica e aconselha à distanciação, o analógico permite uma maior intervenção da intuição do momento, determinando, por outro lado, uma noção mais alargada do tempo (manuseamento de botões, troca de cabos, pesquisa lúdica de novas combinações de filtros e ondas sonoras) real ou psicológico da interpretação. Namlook gravou, de resto, na sua editora, uma obra que é todo um manifesto de intenções, “The Dark Side of the Moog”, com Klaus Schulze, precisamente.
Namlook é um músico prolífero, já com um número razoável de títulos no mercado, desde o projecto de etno ambiental, em dois volumes, “Air”, a parcerias com Bill Laswell, em “Psychonavigation”, ou Jonah Sharp, no electrizante “Wechselspannung”. Os discos aqui em análise datam todos do ano passado e, à excepção de “Syn”, foram gravados ao vivo, em vários festivais de música electrónica, com o intervalo de um mês. Exceptuando “Syn”, em todos eles a música foi “criada intuitivamente no próprio momento da interpretação, sem qualquer conceito prévio”, como se pode ler nos respectivos folhetos.
Existe, no início, apenas o silêncio, antes da descoberta, em cada instante, do fluxo musical, organizado à maneira de um arquitecto que, obra a obra, plano a plano, persegue um modelo de perfeição. O espantoso é a organização e organicidade destas peças, isentas de falhas técnicas e com uma unidade formal que pareceria difícil dentro dos parâmetros de uma gravação ao vivo. Umas são mais inspiradas do que outras, como é evidente, mas todas elas, se mais não tivessem para oferecer, permitem pelo menos o gozo de saborear o som pelo som e revelação do acto criativo que brota espontaneamente da dança interminável do homem com a máquina.
O volume VI de um trabalho que o seu autor design simplesmente por “Namlook” – embora dividido por diversos CD – coloca em evidência a beleza dos timbres, em mutação constante, enquanto o volume X se desmultiplica na sobreposição dervíshica dos sequenciadores de ritmo. Menos recheados de ideias, os volumes VII e o duplo VIII e IX contêm todavia motivos de interesse: a utilização de frequências sub-harmónicas (semelhantes às produzidas pelos pássaros…), em “VII”, ou a utilização inusitada de gravações de vozes étnicas como elementos rítmicos, em “IX”.
“Syn” divide-se em duas vertentes distintas. No primeiro disco, composições abstractas, como “Jugoslavia” e “TAT ‘93”, alternam com alucinantes exercícios de tecno humanizado que apetece ouvir com o volume no máximo. O segundo compacto oferece uma única composição de 55m, “The flight”, obra-prima absoluta do ambientalismo, uma viagem astral pelos espaços nocturnos, verdadeira “trip” em todos os sentidos…
Todos estes discos, de novo com “Syn” a ser a excepção, têm apenas uma composição, indexada em segmentos de cinco minutos, de modo a permitir ao ouvinte pesquisar no seu interior. Os títulos recuperam a corrente cósmica dos anos 70: “Monolith”, “The caves of Cubik”, “Subharmonic Interference”, “The gate to the milky way”…
Para quem pretenda uma visão global do que se passa nas cabeças de quem faz música na Fax, aconselha-se a audição da colectânea “The Ambient Cookbook” – um livro de receitas (o folheto, um tratado de ironia de múltiplas leituras, ensina mesmo a cozinhá-las…) -, sonho electrónico para os fãs do analógico, elaborado, entre outros, por Robert Musso, Dr. Atmo, Jonah Sharp e Tetsu Inuoe, além da presença tentacular do próprio Namlook, a solo, ou em colaborações com outros artistas da editora. Além de que o preço, por vontade expressa de Namlook, é inversamente proporcional às gigantescas dimensões dos temas. Na Fax, todos se gerem por princípios e regras físicas diferentes dos habituais. Quem quiser saber mais, basta enviar um fax…