Arquivo da Categoria: Rock Psicadélico

Traffic – “Mr. Fantasy” + Taste – “On The Boards” + Manfred Mann – “The Very Best Of the Fontana Years” + Jane – “Between Heaven and Hell” + Edgar Broughton Band – “Oora”

20 Outubro 2000
REEDIÇÕES


Traficantes de sonhos



Como Van Morrison, Steve Winwood é um daqueles cantores brancos que nasceu com a alma dos cantores negros de “soul”. Tendo-se notabilizado nos Spencer Davis Group, seria, contudo, nos Traffic que a sua voz ganharia maior projeção. Os Traffic foram uma das bandas ilustres dos anos 70 e a sua mistura de “rhythm ‘n’ blues”, “soul”, jazz e progressivo rivalizava na época – início dos anos 70 – com a invasão proveniente do outro lado do Atlântico protagonizada pelos Chicago Transit Authority e Blood, Sweat & Tears. Sem o poderio das secções de sopros destas duas bandas, os Traffic primavam antes pela subtileza, pondo em destaque as capacidades vocais e os teclados de Winwood e com Chris Wood, nos saxofones e flautas, a assumir-se como o principal solista do grupo, cuja formação clássica era completada pelo percussionista Jim Capaldi e o multinstrumentista Dave Mason (guitarra, mellotron, sitar, baixo, tamboura). “Mr. Fantasy”, de 1967, quanto a nós o melhor álbum de toda a discografia dos Traffic, surge agora remasterizada de maneira a proporcionar uma imagem fidedigna daquela que foi uma das bandas precursoras da estética de fusão. Baladas psicadélicas, como “Heaven is in your mind” e “Dear Mr. Fantasy” e explorações sónicas onde cada instrumento era pensado como uma extensão não só do músico como do estúdio – em forma de fanfarras surrealistas, canções-labirinto, excentricidade teatral, becos melódicos que encontram inesperadas maneiras de fazer sentido, secções instrumentais bizarras a fazer lembrar os Van Der Graaf Generator (que, na altura, nem sequer tinham ainda gravado…) – juntam-se numa obra única que permanece como um clássico da época. Também disponível em versão remasterizada está outro álbum importante dos Traffic, “John Barleycorn must Die”. (Island, distri. Universal, import. Lojas Valentim de Carvalho, 9/10)

Rory Gallagher, nome inesquecível para os amantes da guitarra rock, faleceu há cinco anos, na sequência de uma transplantação do fígado mal sucedida, deixando uma vasta obra que, se não primava pela originalidade, mostrava um executante de extraordinárias capacidades. A par de toda a sua discografia a solo, entretanto disponível em versões remasterizada, pode igualmente apreciar-se a sua música através do grupo a que pertenceu antes de enveredar por uma carreira solitária, os Taste. Em “On the Boards”, de 1970, os riffs de guitarra evidenciam todo o respeito que Gallagher tinha pelos “blues”. Mas Rory Gallagher, além de tocar guitarra como ninguém, fazia questão de mostrar que também sabia compor uma canção e, até, tocar saxofone… Para quem ainda regressa com prazer à música dos Cream, por exemplo, a descoberta dos Taste poderá ser gratificante. (Polydor, distri. Universal, 7/10)

Para se compreender até que ponto a pop inglesa dos anos 60 legou um manancial fantástico de canções pop estado de perfeição, não chega referir o nome dos Beatles e dos Kinks, apesar de estas duas bandas serem as que tinham nas suas fileiras dois dos génios da música popular, respetivamente Paul McCartney e Ray Davies. Mas se bandas houve que apenas deixaram a sua marca na Historia através de uma única canção, impressa nos “charts” com o brilho de um cometa, outras houve detentoras de uma obra sólida que com regularidade foram capazes de sobreviver ao monopólio dos “fab four”. Bandas como os Hollies ou os Manfred Mann, estes últimos agora disponíveis com a coletânea “The Very Best of the Fontana Years”. Eram os anos dourados da pop para a qual os Manfred Mann contribuíram como canções inesquecíveis como “Mighty quinn”, “Ha! Ha! Said the clown”, “Semi-detached suburban Mr. James”, “My name is Jack”, “Fox on the run”, “Ragamuffin man” ou “Up the junction”, todas elas incluídas na presente compilação e dignas da remasterização que não chegou a ser feita. Manfred Mann (nome do líder e teclista de origem sul-africana) formaria a seguir os jazz-progressivos Manfred Mann Chapter Three (dois álbuns raros na Vertigo a descobrir) para finalmente se estabelecer com o progressivo mais prosaico da Manfred Mann Earthband. (Spectrum, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10)

Na Alemanha, para quem não cavalgava na crista da onda do que de mais original e alucinado dava pelo nome de “krautrock”, era difícil escapar à influência anglo-saxónica. Pertenciam a esta categoria os Jane, uma honesta banda de hard-rock sinfónico apesar de tudo com uma costela cósmica, cuja discografia (13 albuns, entre 1972 e 1989) não suscita grandes elogios. “Between Heaven and Hell” (1977), porém, distingue-se dos restantes, sobretudo graças à longa suite conceptual que dá titulo ao álbum, nitidamente influenciada por “Ummagumma” e “Atom Heart Mother”, dos Pink Floyd, mas suficientemente carregada de ideias interessantes para não passar despercebida. “Space rock”, secções clássicas, efeitos vocais a cargo de um empertigado émulo de Roger Water dão a ouvir a banda sonora, entre o kitsch e a majestosidade, do paraíso e da danação. No tema final, talvez chamuscados pelas labaredas, os Jane enlouqueceram e entregaram-se nas mãos dos Velvet Underground. (Repertoire, import. FNAC, 7/10)

Feios, porcos e maus. Mas um “must” no circuito de espetáculos rock dos anos 70. Eram assim os Edgar Broughton Band, um gang de hard rock composto por músicos hirsutos, adeptos dos “blues” e do “speed”. As duas coisas juntas resultaram em “hits” da estudantada como “Out demons out” e em riffs de blues psicadélico primário. Com boa vontade, os EDB podiam passar por uma versão camionista de Captain Beefheart, embora também haja quem (decerto com a cabeça já não em muito bom estado) os compare aos Grateful Dead. “Oora”, de 1973, é o seu álbum mais sofisticado, se sofisticação representa a concessão a harmonias pop, guitarras acústicas e uma simbologia imagética que remete para os Hawkwind e os Motorhead. A verdade é que a inclusão de um naipe de metais, violino, efeitos eletrónicos (também do tipo osciladores apontados ao infinito dos Hawkwind, de “X In Search of Space”) e – pasme-se – harmonias vocais from “outer space”, tornam “Oora” num disco suficientemente freak e variado (além de Beefheart, lembra, a espaços, Eric Burdon & the Animals) para justificar uma chamada de atenção. Era uma das características mais interessantes dos anos 70: poder gravar-se todos os tipos de loucura. Como esta. (BGO, distri. Megamúsica, 7/10)



Gong – “Zero to Infinity”

31 de Março 2000
DISCOS – POP ROCK


Daevid Alien, o chá-man

Gong
Zero to Infinity (8/10)
One Eyed Salmon, distri.



“Zero to Infinity” é o capítulo cinco da saga de Zero, personagem criada nos anos 70 pelo australiano Daevid Allen (“Alien” será um apelido mais apropriado…) para os Gong, iniciada oficialmente na trilogia “Radio Gnome Invisible” (“The Flying Teapot”, “Angel’s Egg” e “You”) e continuada, já nos anos 90, com “Shapeshifter”, Allen faz, de resto, um resumo dos anteriores episódios desta história no livrete deste “Zero to Infinity”, recordando os tempos em que Zero entrou pela primeira vez em contacto com o planeta Gong através das emissões telepáticas da Rádio Gnome e a aterragem dos seus habitantes, os “pot head pixies”, no Tibete, num domingo de Páscoa de 1966… Através de múltiplas peripécias, iniciações e encontros com estranhas personagens como os Octave Doctors e a bruxa e deusa-prostituta Yoni (protagonizada por Gilli Smyth, a voz de sereia do mar de haxixe dos Gong), Zero acaba finalmente por morrer algures na Austrália (trespasse documentado em “Shapeshifter”), ressurgindo em “Zero to Infinity” apenas como entidade astral, sem corpo físico.
Zero aloja-se no córtex dos terrestres, experimentando as suas vivências e os seus pontos de vista. Uma alusão à vida no planeta Terra cada vez mais reduzida a uma experiência virtual, que Daevid Allen desmonta através de um sentido de humor não tão “nonsense” como pode parecer à primeira vista. Zero acaba com os “destruidores de sonhos” que actuam dentro dos pesadelos dos humanos, transforma-se em andróide (passando a chamar-se Spheroid Zeroid…), discute com o Professor Paradox, encontra a criatura Gongolope e, finalmente, reconhece que o nirvana está em conseguir fazer uma chávena de chá decente. Não um chá qualquer, mas um “infinitea”, um chá que se confunde com o Infinito. Chama-se a isto chá-manismo. Confusos? É caso para isso, sobretudo para quem penetra pela primeira vez nos mistérios do universo Gong. Porém, para os iniciados na mitologia do grupo (descrita detalhadamente no “site” oficial do grupo, planetgong.co.uk, e o livro estará em breve nas bancas…), tudo encaixa no lugar certo, o que, no caso dos Gong, se situa na “ilha do qualquer lado”.
Em termos de sonoridade, “Zero to Infinity” está mais próximo da trilogia dos anos 70 do que “Shapeshifter”, com as típicas paisagens de electrónica planante criadas por Theo Travis (substituindo, com competência e num registo semelhante, o magnífico Tim Blake, teclista da formação clássica de “Radio Gnome Invisible”), alcunhado, segundo a tradição Gong, de Theodophilus Acidopholus. Sobre este fundo “cósmico-tripante”, que agora inclui samples de theremin, pairam saxofones jazzy e flautas orientalizantes, também pelo mesmo Theo Travis, que praticamente substitui o clássico Gongman, Didier Malherbe, presente neste álbum apenas em dois temas, “Magdalene” (nova personificação de Yoni/Gilli Smyth, em cânticos pedrada-de-haxe) e o longo “The invisible temple”.
Daevid Allen, com a sua nova alcunha Sri Capuccino longfellow, continua a manejar com a classe e a excentricidade de sempre os pedais da sua “glissando guitar”, a cantar como um lunático iluminado os mantras da sua filosofia e a aperfeiçoar a gramática do seu misticismo “sui generis”. Como em “Bodilingus”, um falso reggae em toada Can, onde entoa: “The testicle, my friend, is very mystical.”



Saturnia – Música Cósmica Portuguesa Para Dançar – “Chamada De Saturno” (artigo de opinião)

18 de Fevereiro 2000


Música cósmica portuguesa para dançar

Chamada de Saturno


A nave do “space rock” que no final dos anos 60 foi lançado pelos Hawkwind, Nektar e Pink Floyd e hoje se mantém em órbita com os Ozric Tentacles é habitada em Portugal pelo projecto Saturnia, de Luís Simões. Segundo o próprio, “uma mistura de psicadélico clássico e progressivo dos anos 70 com beats contemporâneos”.



Tudo começou porque o irmão mais velho se casou e saiu de casa, deixando-lhe a colecção de discos em vinilo. Luís Simões, de 27 anos, não se fez rogado. Aprendeu a ouvir e a gostar do passado. Há quatro anos formou – com M. Strange (pseudónimo de Eduardo Vasconcelos), aos quais se juntou mais tarde um terceiro elemento, Vasco Pereira – os Saturnia, um projecto de “sensibilidade hippie para os anos 90” onde se misturam theremins, ondas de krautrock e grooves de drum ‘n’ bass. “Música cósmica”, para viajar. “Trippy”, como Luís Simões lhe chama numa alusão às “trips” de música e ácido que há 30 anos atiravam as cabeças para o lado oculto da lua.
“Somos os três músicos com um ‘background’ de rock mas estacionado nas áreas do ‘space rock’ e do ‘prog rock’ do fim dos anos 60, princípio dos 70, dos Hawkwind, Pink Floyd, Gong, esse tipo de bandas”, explica Luís Simões. “Em 1996, quando a cena dos Saturnia começou, esse tipo de referências, da ‘trip’, da improvisação, dos ambientes, estavam completamente excluídas do rock.”
Mas Luís Simões percebeu que “essa forma de pensar, essa filosofia” tinha “ficado presa na cena da música electrónica, mesmo ainda de o drum ‘n’ bass e do trip hop terem rebentado, com a cena tecnotrance, os ‘chill outs’, tudo isso”.
O que os Saturnia fizeram foi a 2fusão” entre esses dois universos separados pelo tempo mas paradoxalmente unidos pelos conceitos de viagem e evasão. O primeiro desses universos herdou-o Luís Simões do irmão mais velho. “Era o que se ouvia sempre lá em casa.” Hoje, depois de ter absorvido os velhos álbuns em vinilo que ficaram lá por casa depois de o irmão se casar, fala com à-vontade sobre o livro “Krautrocksampler”, de Julian Cope e da foto da capa, tirada do álbum “Yeti”, dos Amon Düül II. A música de dança e electrónica, essa, enche o éter do ano 2000.
Basta ler os títulos das faixas do álbum que os Saturnia tencionam em breve editar para se perceber a galáxia em torno da qual gravitam: “Club Aquarium”, “The twilight bong”, “Interstellar rainbow lung”… Neles, o “groove” é uma constante mas apontado às estrelas. A tal “trip” que Luís Simões só até certo ponto conota com o consumo de drogas psicotrópicas. Sorri ao falar dos Hawkwind, os quais, neste particular, eram “uma desgraça!”. Quanto aos Saturnia, admite que pode haver diferenças entre ouvir-se a música em estado “normal” ou “alterado”. Pode ser considerada “uma banda sonora tripante”, reconhece Luís Simões, embora negando que seja esse o propósito. “É mais uma música que visa a harmonização do ‘eu’ com o universo que o rodeia. Mas também um “sequencial de religiosidade dopada, de mantras dopados”. No fundo, para o ideólogo dos Saturnia, trata-se afinal da “cena descendente do período psicadélico, um psicadelismo contemporâneo”. “Busca-se qualquer coisa, não só em relação à música mas, de uma forma geral, do que é a sociedade ocidental actualmente, onde há uma enorme falte de valores, ideais e crenças.” Para Luís Simões, a resposta encontra-se algures entre os anéis de Saturno.


QUINTO ANDAR: Luís Simões, Saturnia from Arte Sonora on Vimeo.