Arquivo da Categoria: Progressivo

Yes – “Talk”

Pop Rock

27 ABRIL 1994
ÁLBUNS POP ROCK

Yes
Talk

Victory, distri. Polygram


yes

Sim, os Yes já foram um grupo importante, por volta, deixem cá lembrar-me, de meados da década de 70. Hoje são uma caricatura do que foram, mas parecem não dar por nada. Jon Anderson, o vocalista da voz angelical, prossegue imperturbável a sua caminhada em direcção ao céu. “Higher and higher”, como ele continua a escrever nas letras das canções. Seguem com ele outros dois companheiros dos primeiros tempos, Chris Squire, no baixo, e Tony Kaye, no órgão Hammond (outro anacronismo), de regresso após a interrupção de Rick Wakeman. Os outros são Alan White, baterista também já velhote, e Trevor Rabin, um dos Buggles que se deu bem com o “rock sinfónico” e pelos Yes se ficou, na guitarra e teclados.
Não se pode dizer que “Talk” seja um mau disco. É sobretudo um disco inútil. Dá ideia que os Yes andaram a ouvir toda a anterior discografia, recolheram os elementos típicos de uma música que resultou em obras incontornáveis dos anos 70 (“Close to the Edge”, “Tales from Topographic Oceans”, “Relayer”, por acaso os das famosas capas de Roger Dean), juntaram tudo numa misturadora e despejaram o resultado no disco. Ou seja, “Talk” apresenta o som característico dos Yes, mas comos e fosse o menor múltiplo comum. Uma média matemática destituída da vida que animava aqueles álbuns. Falta-lhe o fôlego das boas canções – mesmo assim “Real love” e “Walls” são capazes de pegar nas estações FM americanas – e, no capítulo instrumental, sente-se a falta de um grande guitarrista chamado Steve Howe.
A faceta mais cósmico-lamechas de Anderson, que lhe foi incutida por Vangelis, aparece em “Where will you be”, e os quinze minutos de “Endless dream” chegam para fazer as delícias dos nostálgicos da música progressiva. Com um novo e colorido logotipo e Anderson a não dar mostras de querer parar nos tempos mais próximos, somos capazes de ter Yes para mais uns 20 anos. Yes? Não! (4)



The Robert Fripp String Quintet – “The Bridge Between”

Pop Rock

13 ABRIL 1994
ÁLBUNS POPROCK

DO BARROCO AO TORMENTO

THE ROBERT FRIPP STRING QUINTET
The Bridge Between

Discipline, import. Contraverso


rf

Não, não se trata disso. O ex-líder dos King Crimson e inventor das “frippertronics” não entrou na onda dos Kronos, Balanescus e afins. O String Quintet é simplesmente a designação, algo irónica, da reunião de Fripp com o California Guitar Trio e um quinto guitarrista, Trey Gunn, no “grand stick”, que supomos ser uma variante do “Chapman stick”, uma guitarra electrónica com efeitos, sem caixa. Temos assim cinco guitarras, eléctricas e acústicas, mais “frippertronics”, num álbum gravado ao vivo (sem ruído de palmas…) em Maio e Junho do ano passado, com posteriores pormenores de pós-produção efectuados em estúdio.
“The Bridge Between” é, sob certos aspectos, um álbum surpreendente. Surgido num período em que Robert Fripp se debate com problemas legais relacionados com a sua antiga editora, a EG, que levaram, inclusive, a que o disco seja uma espécie de edição de autor saída com o selo Discipline, título e logotipo de um álbum antigos dos King Crimson, há nele uma fúria dissimulada, a par da habitual tendência do guitarrista para a teorização. Neste caso, e não por acaso, concentrada num pequeno manifesto em que Fripp faz o enquadramento do acto criativo e do papel desempenhado pelo música na sociedade contemporânea, acompanhado de um rodapé em que alerta os músicos para a defesa intransigente dos seus interesses em matéria de direitos de autor, contra o “statu quo” vigente de atropelos constantes a esses direitos.
Quanto à música, prolonga e refina a tendência para a harmonização, por vezes quase sinfónica, das guitarras, característica do anterior projecto de Robert Fripp, a League of Crafty Guitarists. Uma música que alia a energia do rock (Kan-non power”) à complexidade contrapontística da música barroca (em três peças de Johann Sebastian Bach, “Chromatic fantasy”, Contrapunctus” e “Passacaglia”), à citação “kitsch” de “Yamanashi blues”, para terminar no longo e perturbante tema final, “Threnody for souls in torment” (“canto lúgubre para as almas em tormento) que soa a Arvo Pärt no inferno e confirma antigos e xamanísticos interesses de Fripp pelo tantrismo e pela temática do apocalipse. Acima de tudo ressalta a ideia de que Robert Fripp continua atento e actuante. Com a sua guitarra a arder com a mesma intensidade de sempre. (8)

a partir daqui



Marillion – “Brave”

Pop Rock

16 FEVEREIRO 1994
NOVOS LANÇAMENTOS POP-ROCK

Marillion
Brave

EMI, distri. EMI – VC


mar

Com Fish, os Marillion passavam como uma imitação barata e exagerada dos Genesis antes de Peter Gabriel sair. Sem Fish, aconteceu aos Marillion o mesmo que aos Genesis quando Phil Collins substituiu Gabriel na banda. Perderam a sua voz de comando. Por muitos defeitos que Fish pudesse ter, não se pode negar que era um bom artista de circo. Histriónico, dava piruetas vocais sem se estatelar e as capas que desenhava eram bastante boas para entreter o cérebro e os olhos durante uma “trip” de LSD, na variante ácido nostálgico.
Agora, os Marillion gostam de mostrar que estão melhores tecnicamente – e estão, de facto, embora ajudados por uma boa produção – e que Fish não fazia falta nenhuma. Nunca venderam tanto como agora e a MTV já lhes pegou num tema, “The great escape”, salvo erro. O fantasma progressivo ainda não se esfumou e os seus lúgubres gemidos espalham-se por uma “suite” dividida em cinco partes, “Goodbye to all that” (nos anos 70, era de bom tom dividir os temas em muitos subtítulos, por causa da sua extrema complexidade). “Runaway” e “Made again” são canções engraçadas, dentro do estilo Genesis suave, na primeira com uma boa imitação do órgão electrónico de Tony Banks, por Mark Kelly. O resto é mais Supertramp e Camel (“Wave”) e, custa admiti-lo, tem uns minutos realmente belos quando as “uillean pipes” do convidado Tony Hallagan cantam por cima de um fundo de teclas aquático à maneira dos Pink Floyd de “Meddle”, no título-tema.
Darryl Way, ex-Curved Air e Wolf, assina os arranjos orquestrais de “Falling from the moon”. Não é caso para se gritar “bravo!” nem os Marillion tiveram a bravura de se aventurarem além das regiões conhecidas. Mas também não ofende. (5)

aqui