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Hans-Joachim Roedelius – “La Nordica”

Pop Rock

5 Fevereiro 1997
poprock

Hans-Joachim Roedelius
La Nordica
MULTIMOOD, DISTRI. ANANANA


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Nem de propósito! Na semana passada, quando escrevemos sobre “Sinfonia Contempora No.1”, alertávamos para a edição da segunda parte da obra “sinfónica” deste compositor alemão. Aqui está ela. Desta feita, não numa editora “new age”, mas num selo especializado em música electrónica experimental. “La Nordica” é pois a “Sinfonia Contempora II”, subintitulada, em alemão, “Salz des Nordens”.
Estamos longe, muito longe, do apela imediatista e brutal dos Kluster e dos dois primeiros trabalhos dos Cluster. Afastada ficou também, em definitivo (pelo menos, neste disco), a veia mais romântica e pianística de Roedelius, que ainda percorria algumas sequências de “Sinfonia Contempora No.1”. Durante mais três longuíssimos movimentos (respectivamente, com 26, 22 e21 minutos de duração), Roedelius dispensa, por completo, a melodia, mergulhando fundo num pântano de metais em fusão e motores em “panne”, em câmaras de tortura trespassadas por lâminas electrificadas (talvez aquelas onde Peter Hammill se deixou enlouquecer, em “In bromine chambers”, no segundo e infernal lado de “In Camera”), num ambientalismo fabril que coloca “La Nordica” nos mesmos territórios de agonia electrónica de sintetistas como Asmus Tietchens, Jeff Greinke, Christoph Heeman, Peter Frohmader ou Conrad Schnitzler.
Bastante mais experimental que “Sinfonia Contempoa No.1” (não por acaso, Roedelius contou, desta vez, com a colaboração dos seu companheiro dos Cluster, Dieter Moebius), “La Nordica” estará, porventura, mais próximo do gosto dos apreciadores da música de compositores como Alban Berg, Pierre Henry, Stockausen ou Luciano Berio, que dos aficionados do “krautrock”, do qual Roedelius foi um dos fundadores e principais exploradores. Faltará a este estudo sonoro em torno da claustrofobia, por vezes de um hermetismo excessivo, a maior diversidade de ambientes e registos que caracterizam a primeira parte da sinfonia. Não obstante, “La Nordica” coloca, de uma vez por todas, o nome de Hans-Joachim Roedelius na galeria dos grandes compositores eruditos – na área do experimentalismo – deste século. (8)

Richard Sinclair – “R. S. V. P.”

Pop Rock

29 Janeiro 1997
poprock

Richard Sinclair
R. S. V. P.
RICHARD SINCLAIR SONGS, IMPORT. PLANETA ROCK


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Aqui está como se pode trazer para o presente uma escola que frutificou no passado, sem cair na nostalgia passadista num no ridículo de reproduções despropositadas. Richard Sinclair, além de baixista, foi “a voz” – uma voz que se tornou num dos ícones do movimento – dos Caravan e Hatfield and the North (antes de entrar para os menos representativos Camel), dois dos principais grupos da escola de Canterbury, que, na transição dos anos 60 para os 70, deu origem, além destes, aos Soft Machine, Gong, Egg, Khan, Gilgamesh, Matching Mole e National Health, entre outros. Em “R.S.V.P.”, a voz, um misto de “englishness” e bossa nova, não perdeu nenhuma das suas qualidades nesta reciclagem de sons de Canterbury que surge como continuidade de uma corrente que nunca chegou verdadeiramente a quebrar. O tema de abertura, “What’s rattlin’”, é mesmo um saboroso exercício de fina ironia: “Não quero que isto seja mais uma história nostálgica como as ‘Canterbury Tales’ de Chaucer escritas em braile. Já tive que chegasse disso. Estou farto de chávenas de chá e ‘riffs’ em 15 por 8 à la Hatfield and the North.”
A letra deste tema faz ainda alusão a alguns dos seus companheiros dessa época, aos Caravan, Hatfield, Gong, Soft Machine, Robert Wyatt e Kevin Ayers, mas também aos Tangerine Dream e Henry Cow. No final, num trocadilho com o nome do antigo teclista dos Soft Machine, refere um dos principais enigmas que ficaram destes heróis de Canterbury: “What’s doing Mike Ratledge? What’s rattling Mike Doodlage?” Afinal, em “R.S.V.P.” estão presentes Andy Ward (dos Camel), Pip Pyle, Hugh Hopper, Jimmy Hastings, Didier Malherbe e Tony Coe, pertencentes à nata de Canterbury, num exercício de “pop-jazz” mais sinuoso que complexo, com incursões de didgeridu e excentricidades várias destes pequenos génios que a história voltou a desembrulhar.
Na altura em que projectos como os Gorky’s Zygotic Mynci e 13th Sign recriam a mitologia gonguiana dos “pot head pixies”, desmultiplicando-se em referências ao som e atitude de Canterbury, faz ainda mais sentido reatar (ou iniciar) o contacto com um dos fundadores da “original thing”. (7)



Cro Magnon – “Zapp!”

Pop Rock

29 Janeiro 1997
poprock

Cro Magnon
Zapp!
CARBON, IMPORT. PLANETA ROCK


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Não confundir com o grupo com o mesmo nome que gravou um álbum pré-histórico, percursor dos actuais tribalismos, na ESP. Estes Cro Magnon são europeus, belgas, civilizados e adeptos da sofisticação, e a sua proposta é uma “Urban chamber music”, que é como quem diz uma música de raiz clássica e intimista que recorre a fórmulas e estruturas modernas de composição conotadas com o rock. Sem ser especialmente inovador (de notar que se trata de uma edição de 1992 que só agora chega até nós), tal não impede de discernir uma quantidade de pontos de interesse neste alinhamento de pequenas peças equidistantes do minimalismo electrónico da Mikel Rouse Broken Consort e da falsa etnicidade de Daniel Schell com os Karo, para citar os dois grupos de parentesco mais próximo com os Cro Magnon. É uma combinação, sempre curiosa e suficientemente imaginativa, de violino, baixo, saxofones, guitarra eléctrica, samplagens e teclados vários que, socorrendo-se do referencial da “nova música de câmara”, está, no entanto, mais próxima do minimalismo dos grupos já citados, na sequência de uma apetência belga por este tipo de formações (Soft Verdict, Justine), que dos introdutores desta escola, os também belgas Univers Zero e Art Zoyd. (8)