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Vários – “ESPECIAL – BALANÇO 95 DA MÚSICA PORTUGUESA – TUDO BOA GENTE”

pop rock >> quarta-feira >> 03.01.1996


ESPECIAL – BALANÇO 95 DA MÚSICA PORTUGUESA
TUDO BOA GENTE



Em 1995, um anjo desceu e depositou uma auréola de santidade sobre as cabeças dos nossos artistas. É verdade. 1995 foi um ano natalício. Sobretudo no Natal. O ano da amizade e de mil cumplicidades. O ano dos espectáculos de solidariedade e dos discos para crianças. Os músicos nacionais descobriram que há mais mundo para além dos respectivos umbigos. Que há causas por que vale a pena lutar e pessoas que vale a pena recordar. Amigos que se foram. Crianças fartas de que as tratem como atrasados mentais.
A estrela brilhou sobretudo no último mês do ano. Em matéria de discos, a prenda do bolo-rei coube a “Espanta Espíritos”, um projecto (mais um) nascido da boa vontade de Manuel Faria, cada dia que passa mais parecido com um Brian Eno português. Músicos nacionais de vários quadrantes encontraram-se em zonas delimitadas, fizeram um pacto de não agressão e divertiram-se a trocar ideias e sons sob o pretexto de “canções de Natal”. Se é verdade que a curiosidade e a surpresa acabaram na maior parte dos casos por se sobrepor à originalidade e à criatividade ds canções propriamente ditas, não é menos verdade que, destes cruzamentos, poderão ter nadcido as sementes de outros encontros futuros e novas perspectivas sobre discursos que, de outro modo, correriam o risco de sucumbir ao estereotipo.
Fernando Girão (ou “Very Nice”, ou “o homem da Regisconta, aqueeeelaaa máááquina!”) também conseguiu juntar montanhas de gente para gravar uma canção – “Racismo não” – num CD-single de apoio à Assistência Médica Internacional (AMI). Disseram sim, entre outros, os Xutos e Pontapés, Carlos do Carmo, Danny Silva, Dora, Dulce Pontes, General D, Janita Salomé, Lena d’Água, Luís Represas, Maria João, Mafalda Veiga, Miguel Ângelo e Paulo Gonzo.
Discos para crianças editaram-se dois, de características bem diferentes. O primeiro, “Bom Dia Benjamim”, foi feito por adultos sobre uma criança imaginária, o Benjamim, e conta as peripécias de um dia da sua vida. José Peixoto, Paulo Curado, João Paulo Esteves da Silva, José Salgueiro, José Mário Branco, Cristina Sampaio, Nuno Artur Silva e Rui Cardoso Martins são alguns dos nomes envolvidos. As crianças agradecem-lhes não terem sido tratadas como imbecilóides e terem feito música “crescida” que eles compreendem e gostam.
O segundo, “Um Cantinho do Céu”, pertence mesmo a uma criança, Diana Lucas, de nove anos, que nele canta tradicionais de Natal com supervisão e alguém abalizado na matéria, Pedro d’Orey, do grupo Romanças. Na retaguarda, um grupo de músicos da área tradicional de meter respeito: Fernando Meireles, Manuel Rocha, Carlos Guerreiro, João Ramos, Rui Júnior, Fernando Molina e José Salgueiro.
No capítulo da solidariedade, toda a gente – ou quase toda – se uniu, já no último mês do ano, no Coliseu dos Recreios, para homenagear a figura de Luís Mateus, jornalista musical da TSF falecido recentemente. A boa música foi a melhor homenagem que poderia ter.
Alguns dos “gurus” da dança nacional, como os D.R. Sax, Black Company, Boss AC e Da Weasel participaram por sua vez, a 6 de Dezembro, no S. Luiz, num espectáculo a favor da Abraço a que apenas faltou uma participação do público a condizer.
Black Company, Blind Zero, Delfins, Rui Veloso, General D, Xutos e Pontapés, Mão Morta, UHF, Sitiados, Táxi e Trabalhadores do Comércio são alguns dos artistas que participaram no “Roma mega Rock”, no Coliseu do Porto, num espectáculo cuja receita reverteu a favor da Associação dos Amigos do Coliseu do Porto – tudo contra a IURD, essa lança do Apocalipse espetada nos lusos costados.
E assim o céu ficou mais próximo e mais próximos ficaram os músicos portugueses uns dos outros.

Vários (Pedro Saraiva, Dr. Sax, Guto, Black Out, Mimi, Tina & The Top Ten, Ena Pá 2000, Beto Medina, Black Company, Luís Varatojo, Despe & Siga, Manuel João Vieira, Pedro Abrunhosa, Farinha Master, Ocaso Épico, Quim Barreiros) – “Elevador Da Glória” – (dossier | fim de ano)

pop rock >> quarta-feira >> 27.12.1995


ELEVADOR DA GLÓRIA

Os miúdos. As grandes curtições e as grandes secas. As “bocas”. A dança das aulas. O universo das crianças portuguesas e os seus principais protagonistas – as crianças. Sempre na boca dos pais e dos políticos, durante as campanhas eleitorais. Este Ano Novo, porém, quisemos ser diferentes. Afastámos um pouco mais a objectiva. Pedimos licença aos filhos, assim como que um empurrão jovial – vão lá divertir-se mais um bocado e aproveitem bem as férias – e demos a palavra aos pais, aos matulões e matulonas. Pedimos-lhes para nos contarem a noite de “réveillon” das suas vidas. A festa das festas. Eles não se fizeram rogados. O Pedro Saraiva, o Guto, a Mimi, o Beto Medina, o Luís Varatojo, o Manuel João Vieira, o Pedro Abrunhosa, o Farinha Master e o Quim Barreiros, todos já crescidinhos, alguns deles já famosos, outros com esperanças de o ser, falaram das festas de passagem de ano que jamais esquecerão. E do que vão ou não fazer na próxima.
O Pedro foi apanhado em flagrante em cenas de sexo no elevador, o Guto recorda uma festa africana em grande, a Mimi ainda hoje goza quando se lembra de uma actuação dos Tina às cinco da matina na Foz do Arelho, o Beto prefere não adiantar muitos pormenores sobre uma noitada em Roterdão. O Luís tocou uma vez com um grupo de baile “hard rock” e sambinhas, para animar famílias de Sacavém. O Manuel vai a Fátima converter-se ao “islamismo fatimida”, o outro Pedro, dos Bandemónio, quer é calma e sossego, já esteve sozinho no Gerês e este ano vai estar algures entre o céu e a montanha. O Farinha está de muletas e sem grande disposição para festas, aos 21 anos tocou flauta no depósito de água do Algueirão. O Quim bebeu champanhe ouviu Rod Stewart em Copacabana.
A impressão que fica é que este ano se estão um bocado nas tintas e deixam a decisão sobre o local onde vão passar o “revillon” para a última hora.
A propósito de bandas, querem mesmo saber os seus nomes? Então lá vai: O Pedro Saraiva canta nos D. R. Sax, o Guto “rappa” nos Black Out, a Mimi canta nos Tina & The Top Tem e Ena Pá 2000, o Beto Medina compõe e toca guitarra nos Black Company, o Luís Varatojo alinha com os Despe & Siga, o Manuel João Vieira desestabiliza nos Ena Pá 2000, o Pedro Abrunhosa é o Pedro Abrunhosa, o Farina deu electrochoque nos Ocaso Épico, o Quim Barreiros é o Quim Barreiros.
Ano novo, vida nova? Boas entradas, melhores saídas? Galinha afónica afaga-se-lhe a asa? Bah! Eles é que sabem se vale a pena ou não, na manhã seguinte, cozer a bebedeira. Boas entradas e melhores ressacas!

“COISAS QUE SE CALHAR NEM DÁ PARA CONTAR…”

PEDRO SARAIVA, D. R. SAX



Passagem De Ano Memorável
“Há uma festa um bocado curiosa, que foge ao habitual. Uma vez fomos convidados para ir a casa de um amigo nosso – uma festa que começava tardíssimo. Dirigimo-nos para lá e quando chegámos fui de elevador com uma rapariga, amiga de alguém do grupo. De repente ficámos fechados no elevador. Entretanto a piada é que, quando o porteiro desengatou o elevador e abriu a porta, já estávamos numa cena sexual muito forte. Depois subimos. A festa estava uma porcaria. Saímos, de novo no elevador, e fomos a outro lado – à Indústria, talvez. Já ia completamente fora, também com a piela…”

Este Ano

“O grupo D. R. Sax decidiu que este ano seria passado em casa com as famílias. Temos tocado muito, o que é curioso, porque normalmente os grupos, nesta época, costumam estar parados. Tivemos boas propostas, mas recusámos.”

GUTO,
BLACK OUT



Passagem De Ano Memorável

“’Reveillon’ de arromba nunca tive nenhum. Também nunca tive nenhum mau. Há dois anos, estive numa festa africana que durou até às quinhentas da manhã, onde me diverti bastante e tive o prazer de conhecer novas pessoas… e novas miúdas… Foi na Zona Sul, em Vale Milhaços”.

Este Ano

“Vamos actuar na Praça do Comércio. Depois, estamos a pensar arrancar para uma festa qualquer, não interessa. Só para a diversão.”

MIMI, TINA & THE TOP TEM E ENA PÁ 2000



Passagem De Ano Memorável

“Foi precisamente na última passagem de ano, quando os Tina & The Top Tem tocaram no Dreamers Club, na Foz do Arelho. Eram três grupos, os Gasoline, os Pigs in Mud e nós. Diverti-me imenso, fomos a última banda a tocar, começámos já quase às cinco da manhã. Uma noite muito ‘cool’. Todas as pessoas estavam lá, muita gente conhecida, os concertos foram bons.”

Este Ano

“Ainda não sei o que vou fazer. Não temos nenhuns concertos marcados, por isso, em princípio, não iremos tocar em lado nenhum. Se calhar vou passar o ano naquela festa do Frágil e dos Três Pastorinhos, no Convento do Beato”.

BETO MEDINA, BLACK COMPANY



Passagem De Ano Memorável

“Lembro-me de duas ocasiões. Uma delas, em Angola, ainda na altura do recolher obrigatório, quando as festas começavam às dez e as pessoas só se podiam ir embora a partir das quatro da madrugada. Mas a melhor noite foi mesmo uma, há tr~es anos, na Holanda. Começou na casa dos meus tios, um jantar. Já sabíamos que depois iríamos para outro lado qualquer dançar. No jantar, estava muita gente, incluindo familiares que ainda não conhecia. Havia alguém que sabia fazer foguetes e bombinhas.
A partir daí, porém, é que as coisas começaram a melhorar. Saímos dali e fomos para uma discoteca, a Night Town, em Roterdão. Eu e uns primos mais chegados. Champanhe a noite toda, ficámos um bocado alegres demais. No decorrer da festa, como é que hei-de dizer, houve coisas que se calhar nem dá para contar… Coisas que uma pessoa já nem sequer se lembra muito bem… Não convém contar muitos pormenores… Foi óptimo. A minha namorada é que faz alguns comentários sobre as loiras e tal, fala sempre nisso… Mas não foi nada disso: pelo contrário, na festa em si, estavam para aí umas 2000 pessoas, a discoteca tinha sido modificada, estava cheia de luzes, cheira de cores, uma coisa extraordinária.
Conheceu-se muita gente, sabe-se como é, vêm pessoas cumprimentar-nos que nem sequer conhecemos. Estão todos vidrados, cheios de ‘ecstasy’, sem saber bem aquilo que fazem. Foi uma coisa desse género. Uma festa um bocado… não muito maluca, mas um bocado diferente das que tinha passado nos últimos anos.
Muitas vezes, quando conto isto à minha namorada, a Quica, ela faz um bicho-de-sete-cabeças: ‘Ah, e tal, contas da Holanda mas não contas os fins-de-ano passados comigo.’ Mas não é isso: passei fins de ano com ela que foram óptimos, só que este foi diferente. Nunca tinha estado na Holanda, era para aí o terceiro mês que lá estava e estava a gostar. Estive mesmo para ficar lá a viver.”

Este Ano

“Não sei, não tenho nada preparado. Sei que, na banda, não vamos passar juntos. Não vamos actuar em nenhuma festa. Pessoalmente, não gostaria. É diferente estar em cima de um palco, numa passagem de ano… Se calhar, gostaria mais de ver uma banda a actuar que ser eu a actuar. Mas, claro, vou passar o ano com a Quica. Como já não faltam muitos dias, é possível que vá ao Convento do Beato.”

LUÍS VARATOJO.
DESPE & SIGA



Passagem De Ano Memorável

“Lembro-me da primeira vez em que toquei numa passagem de ano, em 1983. Na altura, tinha um grupo de baile, mais ou menos, e tocámos na Academia Recreativa de Sacavém. Foi aí que arranjei a namorada que ainda tenho hoje. Foi giro, porque tocávamos para a chamada ‘malta da pesada’, mas a audiência era assim um bocado mista, com pais à mistura. Conseguimos animar tudo, sem qualquer problema. Tivemos que tocar ‘hard rock’ e ao mesmo tempo misturar uns sambinhas…”

Este Ano

Vamos actuar ali na Praça do Comércio. Fazemos um grupo, nós, os técnicos que trabalham connosco e um grupo de miúdas, bailarinas, que costumam também aparecer no nosso espectáculo. Ao todo, somos para aí umas 40 pessoas. Como nos damos bem e estamos o maior tempo possível juntos, vamos passar o ano juntos. Não temos é ainda sítio. Se houver alguém com uma proposta, para onde der para ir com toda a malta… Embora o programa seja agradável, lá na Praça do Comércio, apesar de ser Inverno. Deverá ser bastante animado.”

MANUEL JOÃO VIEIRA,
ENA PÁ 2000



Passagem De Ano Memorável

“Em 1962. Não aconteceu nada de especial.”

Este Ano
“Vamos em peregrinação a Fátima, passar lá o fim do ano. Porque nos vamos converter ao islamismo fatimida, com o resto dos iranianos.”

PEDRO ABRUNHOSA



Passagem De Ano Memorável

“Pensando bem, as melhores foram aquelas passadas com mais calma. As piores foram as que passei a trabalhar. As melhores foram todas as que passei no Gerês, sozinho, entre o frio e a natureza, no topo da montanha.”

Este Ano

“O que desejo para mim mesmo é exactamente o mesmo, a paz e sossego. Em concreto, estou a pensar passar o ano algures, entre o céu e a montanha.”

FARINHA MASTER,
OCASO ÉPICO



Passagem De Ano Memorável

“Devia ter uns 21 anos e fui sozinho para o depósito de água do Algueirão, um edifício circular com uma calote esférica no cimo e que fica num ponto alto, de onde se vê todo o Algueirão. Lá dentro, há uma sala cilíndrica que faz uma reverberação muito grande. Levei a minha flauta, tocava e via a menifestação da passagem de ano no exterior, os foguetes, as pessoas a passarem lá em baixo. Foi giro, não levei quaisquer produtos químicos, nem sequer champanhe ou passas. Estive ali umas duas, três horas.

Este Ano

“Não façoplanos. Na maioria das vezes as passagens de ano são convites de última hora. Neste momento, houve uma proposta de a fazer aqui em minha casa com uns amigos meus, que deixei um bocado no ar. Não estou com muita energia, uma vez que estou de muletas, devido a um acidente de motorizada..”

QUIM BARREIROS



Passagem De Ano Memorável

“Em todos os ‘reveillons’ que me lembro, desde os nove anos, trabalhei sempre, quer como músico de conjuntos musicais, quer como artista. Agora, o ano passado não trabalhei e gostei, foi bom para mim. Estava em Copacaban, estava lá o Rod Stewart a actuar. Foi uma festa muito bonita, com os amigos, a abrir champanhe francês na praia de Copacabana.”

Este Ano

“Vou trabalhar, para a discoteca Antonius, em Vila do Conde. Antes, sou capaz de pegar na família e ir jantar à estalagem Zende, em Ofir, Esposende”.

Realejo – “Realejo Lançam “Sanfonia” – SANFONA CONCERTANTE”

pop rock >> quarta-feira >> 20.12.1995


Realejo Lançam “Sanfonia”
SANFONA CONCERTANTE


“sanfonia” é o título do primeiro álbum, há muito aguardado, dos Realejo, um lançamento recente da editora Movieplay. Fernando Meireles, mentor do grupo, falou ao PÚBLICO do seu amor de sempre, a sanfona, e da maneira como a arrancou ao desprezo e abandono a que foi votada pela História.



embora tarde, “Sanfonia” chegou a tempo de entrar directamente para a lista dos “melhores do ano” do Poprock. É o vértice que faltava ao triângulo formado pelos Gaiteiros de Lisboa e pela Brigada Victor Jara. Polígono que, muito em breve, terá aumentado o seu número de lados, com os próximos a serem traçados pelos Vai de Roda, O Ó Que Som Tem, Cramol e Amélia Muge. Por enquanto não mencionaremos sequer o projecto de um disco a solo de Isabel Silvestre, com produção de João Gil, da Ala dos Namorados. É segredo. Para já é tempo de rodar a manivela da sanfona e dar a palavra ao seu executante e construtor Fernando Meireles.
PÚBLICO – “Sanfonia” começa e termina na sanfona. É um manifesto em sua defesa?
FERNANDO MEIRELES – O projecto começou a partir do momento em que construí a minha primeira sanfona. Era preciso tocá-la e dá-la a conhecer. Foi igualmente determinante a leitura da obra sobre instrumentos populares portugueses, do doutor Ernesto Veiga de Oliveira, nomeadamente o capítulo da sanfona.
P. – Não é um disco de grandes ousadias formais…
R. – A tarefa era, à partida, dignificar não só a sanfona como os instrumentos tradicionais portugueses, os quais, de um modo geral, eram mal feitos. Para mim, enquanto músico, isso sempre me desgostou. Foi por isso que comecei a fazer instrumentos. Uma das minhas preocupações é que a sonoridade do Realejo seja característica dos instrumentos e que esses sejam bons.
P. – Porquê a opção por um disco totalmente instrumental?
R. – … E totalmente acústico. As vozes não foram postas de lado “a priori”, o que aconteceu foi que nunca encontrámos no nosso caminho alguém com boa voz, ao nível de qualidade e de “feeling”. Para o nosso tipo de música, o que é preciso é ter onda. Algo difícil de encontrar, ainda para mais aqui em Coimbra, um meio pequenino…
P. – É também um dos poucos discos, na área em que se insere, onde o virtuosismo, ao nível da execução, é um facto, e não existe o receio de o mostrar…
R. – Exacto. Os instrumentos devem tocar por si. Devem ser bons, soar bem, e depois serem bem tocados. Conhecemos um pouco o que se passa no panorama musical português, onde muitas vezes as pessoas usam os sintetizadores para “fazer cama” e depois metem umas vozinhas por cima, não sei quê, e aquilo até sai bonitinho. Não nos sentimos minimamente atraídos por esse tipo de coisas. Gosto dos instrumentos portugueses e sempre achei que eles deviam ter uma certa dignidade que tinham vindo a perder sistematicamente, sobretudo a seguir a 1975, durante o “boom” da música de raiz tradicional portuguesa, quando se começaram a fazer instrumentos a dar com um pau e de qualquer maneira…
P. – Apesar disso, “Sanfonia” soa bastante “europeu”, não acha?
R. – Sim, tem uma sonoridade um bocado além fronteiras, o que resulta em grande parte da responsabilidade musical assumida pelo Amadeu Magalhães, autor dos arranjos. É um som universal, sem limites e sem estar amarrado a qualquer tipo de padrão. Para já, a Etnia mostrou-se interessada em comercializar o disco fora de Portugal.
P. – Nota-se no alinhamento uma divisão marcada entre os temas de sanfona e gaita-de-foles, com maior complexidade e muito música de câmara, e uma sequência, pelo meio, de outros mais populares, como o “Bacalhau”. São os dois lados de uma mesma moeda ou cedências ao mercado?
R. – Foi intencional. Como o Realejo é um grupo que toca música portuguesa, não quisemos de form alguma pôr de parte instrumentos como o cavaquinho, o bandolim ou a concertina, que t~em a mesma dignidade quando são bem tocados. De qualquer modo, o disco foi muito bem selecionado em termos de faixas, fomos para o estúdio com música para fazer dois discos.
P. – Não receia, por exemplo, que a rádio pegue apenas nesse lado, não dando uma imagem correcta da estética global do grupo?
R. – Repare-se, ainda a propósito dos cavaquinhos, que não é muito comum haver um grupo de cavaquinhos a tocar, como n´so tocámos, segundo uma escola que nasceu com o Júlio Pereira, a técnica de “rasgado”. De qualquer modo, penso que os temas mais fortes do disco são aqueles onde a sanfona e a gaita-de-foles se destacam mais.
P. – Nunca pensou em electrificar a sanfona, fazer com ela outro tipo de experiências?
R. – A ideia agrada-me e já fiz, inclusive, algumas experiências. De qualquer modo, aquilo que se passa, em termos de lectrificar a sanfona ou os outros instrumentos, é que os espectáculos do Realejo são na sua maior parte acústicos. Essas experiências de electrificação não têm resultado, até agora, muito bem, embora no disco haja uma faixa que aponta um bocado nesse sentido, a cantiga de Santa Maria, com um movimento meio arrockalhado. Pode ser um ponto de partida…
P. – Mas por enquanto o Realejo continua a ser um grupo de e para interiores, no duplo sentido da palavra?
R. – Sim, até um bocado pela nossa experiência em palco. Os nossos conceros são acústicos, o que cria uma intimidade e uma certa aproximação com o público. Se o Realejo começar a saltar desses palcos pequenos para outros maiores, teremos que pensar de outra forma.