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Quim Barreiros – “Quimania | Letra a Letra – Quim Barreiros e Tuna Universitária do Instituto Superior Técnico – Dia 26, Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, 22h” (dossier | entrevista)

pop rock >> quarta-feira >> 26.01.1994


QUIMANIA | LETRA A LETRA

QUIM BARREIROS E TUNA UNIVERSITÁRIA DO INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO
Dia 26, Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, 22h




É impossível alguém manter-se indiferente, sem esboçar pelo menos um sorriso, ao ouvir as letras de “O sorveteiro (chupa Teresa)”, “Vais ter um de cada lado”, “Lição de dactilografia”, “Queres é levar com o chouriço” ou o clássico “Bacalhau à Portuguesa”. A música de Quim Barreiros, quer queiramos quer não, existe, vende e é um fenómeno de massas. O homem é um profissional a cem por cento e goza à brava com o que faz, que é no fundo a música popular do país real. Mais importante ainda, faz-nos gozar a nós e rir a bandeiras despregadas com palavras em que a malícia nunca chega a vias de facto e as notas são enfiadas a metro, nas chulas, corridinhos e alguns híbridos de “world music” em versão chancho.
É como uma doença cujo contágio atinge camadas sociais que vão do homem do povo, de Alguidar-de-Baixo, até ao estudante universitário, convertido mais recente à “quimania”, que promoveu o cantor de “Mariazinha, deixa-me ir à cozinha cheirar teu bacalhau” a doutor “honoris causa” da universidade mais popular de Portugal, artista dos artistas, alfa e ómega da desbunda sem barreiras, mas necessariamente com Barreiros.
Há, como é óbvio, o factor moda a condicionar o funcionamento da coisa. Quim Barreiros é “kitsch” e, como tal, um valor que tem piada ostentar e defender. É chocante, de bom tom e ninguém leva a mal dizer-se que se gosta de Quim Barreiros. É também a maneira de uma pessoa mostrar que não tem preconceitos, que está acima deles, sinal de inteligência. “Afinal, a música é só uma, não é?” O argumento, esgrimido como algo que não passa pelo gosto e muito menos pela arte, joga com uma forte dose de perversidade. Claro que ninguém acredita que um jovem universitário, em teoria culto e letrado, goste realmente de Quim Barreiros, da mesma maneira que gosta dos Pearl Jam, U2, GNR ou outro nome qualquer, bom ou mau, dos que fazem música “para ser levada a sério”. Quim Barreiros não é para ser levado a sério. Mesmo sabendo que José Afonso o convidou um dia para fazer um arranjo, mesmo verificando que alguns dos seus discos foram exportados para o estrangeiro com a etiqueta “Portuguese folk music”, mesmo levando em conta que teve a sua fase interventiva logo a seguir ao 25 de Abril, em canções como “Agricultura em progresso”, “A batalha da prodoção” (sic) e “O malhão não é reacionário”. As canções de Quim Barreiros são piadas com banda sonora.
Claro que somos o país que somos e que, nas festas e bailes que se realizam do Minho ao Algarve, do adro da igreja à sociedade recreativa, Quim Barreiros é de facto o rei. Sem segundas leituras, com plena cumplicidade de quem se revê na sua malandrice como num espelho. Rei que por acaso vai nu e se calhar por isso é que lhe acham piada. Porque Quim Barreiros não tem jogo escondido. É meia bola e força. O grau básico da escrita. Como na “Lição de Dactilografia”: “a professora a ensinar” e ele “a bater por letra”…



PÚBLICO – Preparou algum espectáculo especial para a Aula Magna?
QUIM BARREIROS – Quando me telefonaram para ir tocar à Aula Magna perguntei onde ficava essa terra, pensava que fosse uma terra lá para o Alentejo ou para o Algarve. Não conhecia. Só depois é que vim a saber que era uma sala de espectáculos em Lisboa.
P. – Sabe que é uma sala diferente daquelas onde normalmente costuma tocar?
R. – Não sei. Fiquei contente porque é sempre bom tocar numa sala para quem está habituado a tocar em cima de atrelados ou de tractores. Tocar numa sala que tem camarins, casa de banho, que tem tudo, é uma maravilha.
P. – Que músicos o vão acompanhar na Aula Magna?
R. O Rui, o baixista, o Nucha, o baterista, e o Zé Figueiras, o teclas.
P. – Vai apresentar alguma canção nova?
R. – Vão ver só coisas já conhecidas. Eu não modifico assim muito. Acho que é mau modificar. Vou metendo de vez em quando uma nova. Porque a malta vai lá é para ouvir o “Bater por letra”, o “Está a nascer um negócio na tua cabeça”, “O bacalhau”.
P. – Há quem diga que os estudantes universitários, que “adoptaram” a sua música, só conseguem apreciá-la quando estão com os copos…
R. – Não, não é só pelos copos, porque quando vou para a terra deles, tocar para os pais deles e para os avós, ninguém está com os copos e eles divertem-se na mesma. É lógico que se vou a uma Queima, aparecem alguns com uns copinhos, os borracholas do costume.
P. – A sua popularidade deve-se só ao picante das letras?
R. – Aliado ao “rítimo” da música, ainda há mais essa.
P. – Em relação aos estudantes universitários, não estará na moda gostarem de si?
R. – Os estudantes descobriram-me há coisa de uns seis anos. Andei muitos anos da minha vida fora. Tocava mais para a emigração, aqui não se ganhava nenhum. Quando foi o 25 de Abril, estava tudo muito parado. Fui para a América, Canadá, Venezuela, Brasil, Austrália, Caraíbas, toda a Europa. Quando decidi regressar, há seis anos, fui convidado para ir às Queimas do Porto e de Coimbra. Foi a partir daí que comecei a ter sucesso e penso que isto nunca mais vai parar. Quando vejo crianças de três, quatro anos, a cantarem as minhas músicas, é porque são populares. “O bacalhau”, daqui a dez, vinte, trinta anos, vai ser como o “Malhão Malhão”, toda a gente vai cantar.
P. – Os seus primeiros discos davam mais relevo à música folclórica, sem preocupação de serem provocantes…
R. – Repare que tive há muitos anos “O pito da Maria”… Sempre gravei com grandes folcloristas do país e, quando podia, metia a parte mais brejeira. No Brasil – o meu pai é brasileiro, toca acordeão, é sanfoneiro, tenho uma forte pancada pela música brasileira do Nordeste -, o homem que me disse onde estava o filão para mim foi o Luís Gonzaga.
P. – Mas não acha que a música folclórica é mais qualquer coisa do que o que faz?
R. – Claro, eu tenho que ser comercialão. Sou um grande comercialão. Só gravo aquilo que à partida sei que vai vender. Porque fiz bons trabalhos ao longo da minha vida – sou capaz de ter uns cinquenta “long-playings” ou mais – e não se venderam. As coisas brejeiras têm outra saída que não tem uma boa obra que eu faça.
P. – Quer dizer que neste momento para si o mais importante é mesmo só vender?
R. – Não é neste momento, toda a vida fui assim. A parte mais cultural deixo para os outros. Só que os outros não têm dinheiro para pagar a renda da casa e eu tenho.
P. – O que faz ao dinheiro que ganha?
R. – Invisto em imóveis.
P. – A seguir ao dinheiro, o que é mais importante para si?
R. – A família, o amor, a amizade. As relações humanas são o mais importante.
P. – E o sexo?
R. – Ó bacano, sem o sexo o que éramos nós? O sexo é a coisa mais importante que há, a relação entre um homem e uma mulher.



P. – Disse uma vez numa entrevista que dinheiro e sexo deviam andar sempre separados. No entanto, nas suas canções, são as referências ao sexo que lhe dão dinheiro…
R. – Não me venhas cá com essa. Ó bacano, ora bem, eu não te sei responder a essa pergunta, mas não… Eu canto aquilo que nós gostamos, que, ao longo dos anos, tem sido falar de sexo. Hoje em dia já se vêem filmes de sexo, já se vêem aulas no liceu de sexo. É uma coisa que está a abrir e portanto aparece o Quim Barreiros com aquelas musicazinhas e toda a malta gosta daquilo.
P. – Tem opinião sobre a sida?
R. – Ó pá, acho que devíamos seguir o conselho dos homens mais velhos, quer dizer, de quem sabe, que é preciso ter cuidado, mas, eh pá, isso vive muito da altura. Há certas alturas em que um homem nem se lembra da sida.
P. – Nesse aspecto arriscava-se, arrisca-se ou toma as devidas precauções?
R. – Ó pá, já não sou novo mas já fui, portanto a mim podiam-me dizer que há a sida e não sei quê que um gajo naquela altura, quando está de pau feito, qual sida qual carapuça, vai sida vai tudo [risos].
P. – Quer dizer que não tem medo?
R. – Não, acho que temos que ter cuidado, e que ensinar o caminho à rapaziada mais nova. Mas é muito mais perigoso andar na estrada do que contrair sida, meu filho!
P. – Já teve algum acidente grave na estrada?
R. – No Canadá ou na América, volta e meia, com o gelo, ia pela ribanceira abaixo. Mas aquilo, como há tanta neve, graças a Deus nunca tive nada.
P. – Costuma e vai tocar para estudantes. O que pensa do problema das propinas?
R. É um problema político. Mas não acho bem eles pagarem. Propina é uma forma do verbo propinar. Um gajo para estudar ter que propinar não faz sentido. Sobre essas coisas que tem havido para aí, não gostei daquela manifestação onde eles levaram pancada. Conheço muito bem os estudantes. São irreverentes mas não são agressivos, são educados. Por outro lado, a polícia também não vai arraiar porrada por dá cá aquela palha. Sou capaz de acreditar que deve haver indivíduos no meio daquilo tudo a fomentarem a desordem. Depois quem leva são os estudantes.
P. – Tem algumas preocupações políticas?
R. – Estou-me nas tintas. Andei agora a fazer campanha política para os partidos todos.
P. – Sobre aquela história de se candidatar à Presidência da República, já desistiu?
R. – A malta ao princípio queria que eu me candidatasse, mas agora já me estão a dizer para não me candidatar, porque se eu ganhasse ficavam sem o Quim Barreiros. Ainda estou na dúvida.
P. – O que pensa dos seus rivais, com um estilo parecido com o seu, como o Artur Gonçalves?
R. – O Artur Gonçalves é um homem que eu admiro. Os primeiros discos que gravou foram comigo. É um velho amigo meu. Assim como há o Crispim, o duo Ele e Ela, o Leonel Nunes, da Guarda, que tem muita graça.
P. – Mas o Quim Barreiros é o maior de todos. Tem algum segredo?
R. – Por vezes uma anedota, contada por um gajo qualquer, não tem piada. E há outros que, com a mesma anedota, mal abrem a boca já toda a gente está a rir-se.
P. – É tão bem disposto na sua vida particular como é em palco?
R. – Acordo e deito-me sempre bem-disposto. Para mim não existem problemas. Sou um aventureiro, nunca estou parado. Não sou capaz de estar sentado a ver um jogo de futebol na televisão. Gosto de ver é o Telejornal.
P. – Que música costuma ouvir em casa?
R. – Gosto de toda a música que me entra bem dentro do coração. Música tocada com “feeling”. Não gosto de música tocada com técnica, só dedos, isso não aprecio. Gosto de um bom cantor, de um Andy Williams, de um Sinatra, do Iglésias, do Carlos do Carmo.
P. – Considera-se um romântico?
R. – Sim, no fundo sou um romântico, não sou nada daquilo que às vezes vocês pensam, por causa das minhas cantigas.



P. – Era capaz de manter com uma mulher apenas um amor platónico?
R. – Não. Sei lá. Falar da mulher é um assunto muito delicado, ainda para mais em entrevistas.
P. – Qual é para si a mulher ideal?
R. – Não existem mulheres ideais nem homens ideais. Gosto de uma mulher inteligente, honesta, não importa se bonita ou não, as mulheres são todas bonitas.
P. – Não acha que as letras de algumas das suas canções dão uma imagem da mulher um bocado diferente dessa?
R. – Quando se fazem essas músicas, o objectivo não é pisar a mulher, mas sim o gozo, a cantiga em si. “Chupa Teresa”… Não estou a rebaixar a Teresa… Porque nós os homens não somos nada sem as mulheres. A mulher é a coisa mais importante que a gente tem na vida. Primeiro as mulheres, depois é que vêm as crianças. Sem mulher não há crianças, só batíamos por letra, ah ah ah ah!

Vários – “Figuras Portuguesas Do Ano – Leões Da Música 1993” (balanço)

pop rock >> quarta-feira, 29.12.1993
FIGURAS PORTUGUESAS DO ANO

Leões Da Música 1993




O troféu Leões da Música é uma iniciativa de um grupo de sócios do Sporting com lugar cativo no Estádio de Alvalade que, graças a este expediente, assistem à borla a todos os concertos que lá ocorrem. Apesar de estarem particularmente gratos a todas as estrelas internacionais que de algum modo financiam a sua equipa ao actuar em Alvalade, evitando os descalabros de tesouraria de outro clube da Segunda Circular, a dita associação decidiu neste ano atribuir o prémio a uma banda portuguesa que também actuou no seu estádio: os Sitiados. Não tanto por lá terem tocado no Portugal ao Vivo, mas em virtude de lançarem uma canção, incluída no seu último álbum “E Agora…”, em que asseguram aquilo de que mesmo os sócios leoninos mais entusiastas já começam a duvidar. Dizem eles que o Sporting vai ser campeão…

Iniciação Sexual 1993




Falando ainda no Portugal ao Vivo, importa desmentir os boatos vindos a público de que uma parte significativa da comitiva da Secretaria de Estado da Juventude que presenciou aquele evento teria riscado os Xutos & Pontapés da enorme lista das bandas que, em 1994, merecerão apoio governamental. O chamado “incidente sexual” ocorrido durante a prestação do tema “Sexo”, quando os Xutos chamaram ao palco um trio de “strippers” que fez questão em despir as roupinhas até às partes mais íntimas, foi, de facto, aplaudido de pé pelas individualidades que a testemunharam e que, segundo fontes fidedignas, terão mesmo adiantado que, agora, finalmente, têm uma boa razão para acompanhar os filhos aos concertos de rock português. Claro que a criação do galardão Iniciação Sexual por parte da revista “Rezar” não tem nada a ver com estas motivações.

Caves Aliança 1993




Desde o ano passado, surgiram bandas portuguesas a cantar em inglês que de novo se fala em conflitos de geração entre os músicos da nossa praça. Para que não acabe tudo à estalada, uma conhecida associação de pais do rock português criou um prémio especial para artistas de gerações diferentes que sejam capazes de se sentar a uma mesma mesa a comer um cozido à portuguesa ou mesmo um arroz à valenciana. O troféu, atribuído este ano pela primeira vez, vai parar às mãos de José Cid e Paulo Bragança, em virtude das afirmações proferidas pelo segundo a este jornal. Apesar de ter dito, sobre o primeiro, que se tratava de uma “burra velha” reconheceu também que, para o outro, era o filho que ele nunca tinha tido. O que não faz dele, necessariamente, um burro novo, mas é uma manifesta prova de ternura intergeracional.

Bacalhau 1993




“Bacalhau”, por extenso “Quero cheirar teu bacalhau”, é o nome de um galardão especialmente atribuído a artistas portugueses pelo grémio de estudiosos que se debruçam sobre os efeitos sociais e antropológicos do maior êxito de Quim Barreiros. O troféu, que em anos anteriores foi sempre secretamente confiado, na medida em que as distinções resultavam de episódios decorridos à meia luz no canto de bastidores, por trás de colunas de som, no banco traseiro de “limousines” ou simplesmente em Monsanto, é neste ano pela primeira vez objecto de grande divulgação pública. O feliz premiado é Vítor Gomes, “rocker” lendário da década de 60, que confiou a este diário um inesquecível episódio ocorrido no seu actual regresso aos palcos. Uma senhora da assistência, não conseguindo mais conter-se perante o “charme” amadurecido do ídolo, terá coberto o artista ajoelhado com a sua saia, deixando-o no escuro de microfone na mão e não sabendo o que fazer a seguir.

Boas Maneiras 1993




É um prémio da responsabilidade de um grupo de psiquiatras cristãos anónimos mas muito atentos a estas coisas da juventude e do rock. Preocupados, na sua costela cristã, com a imoralidade infecciosa que alastra entre os lusitanos sub-21, desde as bancadas dos estádios às manifestações estudantis (todos domindados pelo hino “P’ro C…”), mas compreendendo, pelo lado da sua costela psiquiátrica, a necessidade de os jovens exprimirem as suas ambições, ou seja, praguejarem, o núcleo em questão decidiu neste ano laurear uma banda estreante. Trata-se dos Lulu Blind, cujo álbum de estreia “Dread”, lançado há pouco mais de um mês, é por certo o disco que inclui o maior rol de palavrões de toda a história do rock nacional. Mas, aí está, as bujardas dos Lulu são proferidas em inglês – o que instantaneamente transforma o ordinário em “chic” -, ainda por cima sob um mar de distorção e ruído, o que contribui ainda mais para que o eventual conteúdo ofensivo se dilua. Uma aliança perfeita, portanto, entre a catarse juvenil e a boa educação.

Embaixatriz 1993




Todos os anos, um núcleo de verdadeiros lusitanistas, que por uma questão de perspectiva preferem viver no estrangeiro, elege o seu embaixador cultural. O prémio vai para artistas nacionais que apesar da resistência das multinacionais do disco e da indiferença das entidades giovernamentais, arriscam por conta própria manter vivo o bom nome de Portugal além-fronteiras. O troféu vai neste caso para Eugénia Melo e Castro, que, depois de Roberto Leal e do desaparecido Dino Meira, assumiu a sempre difícil e algo ingrata tarefa de propagar a arte de ser português no Brasil, sobretudo agora que as relações entre os dois países estão manchadas pelo acidente dos e outras manifestações de xenofobia nacional. Geninha chegou ao extremo da abnegação de lançar o álbum “Lisboa dentro de Mim – O Sentimento de Um Ocidental” primeiro no Brasil, e vejam a retribuição: apesar do monte de recortes elogiosos na imprensa de São Paulo e de outras cidades brasileiras, ainda houve jornalistas portugueses que tiveram o desplante de desfazer no disco e, por sinal, nas qualidades vocais da artista.

Pop Kids – “Pop Jurássico” + Jordi – “Potion Magique” + Jovens Cantores de Lisboa – “Da Ocidental Praia” + Ministars – “’Ministars É Um Festival'” + Onda Choc – “Ele É O Rei” + Popeline – “Ao Pé De Ti” + Traquinas – “Bebé Mix”

pop rock >> quarta-feira, 22.12.1993
DISCOS PARA CRIANÇAS


NATALDINO

Pop Kids
Pop Jurássico
Ed. Vidisco




A promoção é peremptória: Os Pop Kids são “seis divertidos e afinados amigos que nos trazem o disco que todos gostavam de ter feito”. Não temos dúvidas que sim. Os outros são todos uns sensaborões que se apunhalam uns aos outros pelas costas e que só nos trazem discos que gostaríamos de não ter feito. A ideia dos dinossauros é original. A referência ao Jurássico também. Mas é um disco “bem feito”, “muito bem tocado” e “muito bem cantado”. Situações do quotidiano dos adolescentes portugueses são retratadas e adaptadas à temática dinossáurica, num álbum conceptual com temas originais que se afasta dos tradicionais enchidos de versões da concorrência. Em vez de se deixarem levar pela onda de versões adapatadas (a propósito, será que os jovens aos quais se dirige este tipo de produto não preferem antes ouvir os originais?), os Pop Kids, e quem os produziu, Nuno Rodrigues e António Pinho, optaram por trabalhar e, pelo menos em termos de forma e apresentação, em ser diferentes. A minha filha – que é sempre um bom barómetro para a avaliação destes discos natalícios – gosta imenso. Um viva para a família Rex e para o seu pai tirano, o sauro, que resolveu despir o casaco. (7)

Jordi
Potion Magique
Versailles, distri. Sony Music




Jordy é um puto francês que canta em francês e, num tema, em inglês, canções de Natal e outras, para os putos portugueses que não vão perceber patavina. Também não perdem nada. É tudo cheio de estrelinhas e “confetti”, um fio de voz irritante e, no apêndice da capa, um boletim de inscrição para quem quiser ser sócio do Fan Club Jordy. Vale a pena, ó putalhada, já que em troca recebem um cartão de membro com um código secreto, uma fotografia de Jordy, uma prenda de boas-vindas e um disco inédito. Só benesses. O que é que se pode querer mais para se passar um bom Natal? (3)

Jovens Cantores de Lisboa
Da Ocidental Praia
Ed. Sony Music




A promoção é peremptória: “Da Ocidental Praia” (não se especifica quel. Ofir? Póvoa de Varzim? Adraga? Praia Grande? Porto Covo?) é “uma homenagem à música portuguesa, incluindo exclusivamente temas de autores nacionais”. Não temos dúvidas que sim. Os outros são todos uns estrangeirados. Desses temas apenas quatro são tocados na íntegra: “O pastor”, dos Madredeus, “Vinho do Porto”, de Carlos Paião, “Conquistador”, dos Da Vinci, e “Sons da Terra”, de Ana Faria. Boa escolha. Sobretudo os três últimos são canções de antologia da moderna música portuguesa. Infelizmente os outros são despachados à molhada em sete “rapsódias temáticas” que integram desde “belos temas tradicionais, cuja autoria se perdeu na memória do tempo” (ah, o que não teriam feito juntos Giacometti e os Jovens Cantores…), a “graciosas cantigas da primeira metade deste século”. Há temas “com letras invulgares”, outros “sobre a música”, outros ainda “bons velhos temas dos anos 30 e 40”. Os Jovens Cantores de Lisboa têm muita “frescura”, “vigor” e “alegria”. O que é que se pode querer mais? (6)

Ministars
“Ministars É Um Festival”
Ed. Edisom



A promoção é peremptória: “A Rita, que tem 14 anos, optou por continuar nos Ministars, por amor à camisola, e pouco lhe importa que gozem com ela na escola.” Não temos dúvidas que sim. Os outros são todos Paulos Sousas e Pachecos. Por isso a Rita foi eleita “chefe de naipe”. Os restantes “stars”, Raquel, por alcunha “a carinha laroca”, Bruno, “o reguila”, Pedro, o “caladinho”, Cristina e Catarina, “as manas”, Joana, “a mais atrevida”, Sara, a “estelinha”, Gilberto, “o pepino”, e Michael, “o home alone”, “precisam dela”. Por isso ela ficou.
“É Um Festival”, como o título indica, recupera canções vencedoras ou “bem classificadas” em váriso festivais da Eurovisão, como “O geniozinho do computador”, “Abanar o capacete”, “Prancha de surf” e “Toca o relógio (trim trim)”.
Atentos à fase conturbada que o mundo atravessa, os Ministars aproveitaram para deixar uma mensagem que, por sinal, é também uma das canções. “Tanta guerra no mundo é de mais”. O que é que se pode querer mais? (6)

Onda Choc
Ele É O Rei
Ed. Sony Music



A promoção é peremptória: o grupo Onda Choc é “o verdadeiro campeão de popularidade e de vendas entre o público infantil e juvenil”. Não temso dúvidas que sim. Os outros são todos falsos. Já vão no 14º disco e em cada um deles levam banhos de prata, ouro e platina. À semelhança dos anteriores sucessos dabanda, o novo disco integra versões em português de temas dos anos 60, como “Be my baby”, dos Ronettes, e “I cal your name”, dos Beatles, via Mamas and Papas, cujos títulos em português são bastante fiéis ao espírito dos originais: “Ó mãe, sobe-me a semanada” e “a tua voz”. Mais subjectiva foi a leitura de “Sweet a la la la la long” que passou a ser “Ninguém tapa os ouvidos”. Há ainda “temas que fazem sonhar, como “Namoro”, “Meu primeiro amor”, “Sonhos cor-de-rosa” e “A primeira história de amor”. Além de que a Onda Choc são “expressivos” e “afinados”. O que é que se pode querer mais? (6)

Popeline
Ao Pé De Ti
Ed. Sony Music



A promoção é peremptória: “Ao pé de Ti” destina-se “ao público ‘teenager’”. Não temos dúvidas que sim. Os outros são todos para os velhadas. Os Popline são formados por raparigas de idades compreendidas entre os 12 e os 15 anos que foram selecionadas do Coro dos Jovens Cantores de Lisboa (os mesmos do já clássico “Da Ocidental Praia”). Os nossos “teenagers” passam deste modo a ter à sua disposição novolote de adaptações que decerto farão as suas delícias. Se não é fácil perceber a lógica que levou a transformar “Stupid cupid” em “Estúpido cupido”, já a dificuldade apresentada por “Fernando” foi bem solucionada com “Aqui não há tristeza”. De realçar ainda a “boa prestação das solistas”, bem como “a qualidade conseguida pelo coro”. O que é que se pode querer mais? (4)

Traquinas
Bebé Mix
Ed. Vidisco



A promoção é peremptória: são “as cantigas de ontem, de hoje, de sempre, num feliz ‘mix’ à moda dos graúdos, para os mais miúdos”. Não temos dúvidas que sim. Os outros são todos à moda dos miúdos para os mais graúdos. 2Bebé Mix” traz os mesmos temas infantis do disco do ano passado, “Canções Infantis”, pela Caixa dos Sonhos, agora acrescidos de uma batida disco em quatro longas rapsódias que incluem os clássicos “Atirei o pau ao gato”, “Todos os patinhos sabem bem nadar”, “A caminho de Viseu”, “Fui ao jardim da Celeste”, “Joana come a papa”, “Papagaio louro”, “A minha machadinha” e tantos outros que “nunca foram esquecidos por quem as cantou e, mais tarde, ensinou aos filhos”. A minha filha, que vai fazer cinco anos, foi peremptória: gostou, cantou e dançou. O que é que se pode querer mais? (6)

“AQUI NÃO HÁ TRISTEZAS” MAGALHÃES