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Paulo Bragança – “Paulo Bragança Subverte as Convenções Em ‘Amai’ – ‘O Fado Deve Ser Batidos, Rasgado, Esquartejado'” (entrevista) + Paulo Bragança – “Amai” (crítica de discos)

pop rock >> quarta-feira >> 12.10.1994

Paulo Bragança Subverte as Convenções Em “Amai”
“O Fado Deve Ser Batidos, Rasgado, Esquartejado”



Fado é Portugal. Fado é para Paulo Bragança isto, mas também um pretexto para afirmar o gosto por muitas outras músicas. Portuguesas, mas com os olhos postos além. Em “Amai”, segundo álbum deste fadista “sui generis” que tem o condão de provocar as mentalidades mais conservadoras, as palavras e os sons são colocados ao serviço de uma portucalidade que o cantor afirma pelo lado mais trágico. Tão trágico que por vezes roça o “kitsch”. É também a conquista progressiva de uma liberdade de meios de expressão paralelos a um ideal estético e vivencial. Uma ideia que neste disco passa pelo fado, o folclore ibérico e uma modernidade transvertida em vermelhos de paixão fatal. Exagero? “O exagero é a devoção daqueles que amam por perdição”, diz Paulo Bragança.

PÚBLICO – “Amai”, em comparação com o anterior “Notas sobre a Alma”, aponta para múltiplas direcções. Há algum elemento aglutinador?
Paulo Bragança – Mais que o fado, o ponto de partida deste disco é a voz. E uma atitude fadista. Uma atitude que procuro misturar com outras formas musicais. No fundo, tentar transmitir o estado de espírito fadista liberto da guitarra, da viola e do baixo.
P. – Considera-se um verdadeiro fadista?
R. – Considero. Um fadista, quando nasce no século XIX é um anarca, quase um fora-da-lei. Dentro desse espírito, sou. Embora não possa ser radical a esse ponto. Sou fadista mais como porta-voz. Ser fadista é, sem cair no nacionalismo exacerbado, ter um sentimento, uma consciência colectiva. Procuro ser porta-voz dessa alma. A alma de uma nação da qual canto em “Fado herói”: “nação vaga, branca e brava, espectro azul, a fé não voa, astro sorte aziaga, olha o grito, sobe à proa”. Tudo isto para dizer que o português está com os olhos não sei onde… Não sei se para a Europa se para o mar… Ou se para o infinito que também nos contempla de alguma forma…
P. – Em “Interlúdio” diz que “português sou eu, o mar e uma grande rocha”…
R. – Não é a minha voz. É a tal voz colectiva. Portugal a falar. É o português todo, o mar que nos dimensiona no mundo inteiro, e uma “grande rocha” porque quando olho no mapa vejo neste cantinho da Península Ibérica sempre a ponta de Sagres. Vejo Portugal a partir do cabo de Sagres. De resto, essa frase não é minha mas de um amigo meu, o Paulo Pinho.
P. – Como reage às críticas de alguns sectores fadistas mais tradicionalistas?
R. – Aceito as críticas todas desde que sejam sólidas. Mas tenho um relacionamento bom com a escola tradicional. Sempre que entro numa sala de fado eles imediatamente pedem-me para cantar. Tratam-me bem e não acho que haja nisso algum cinismo. Agora, há pessoas que podem ter uma discussão mais ou menos acesa, mas isso é normal, porque de alguma forma eu provoco um bocadinho. Eu quero estimulá-los.

“A Ordem É Amar!”
P. – “Vox Populis” é um apanhado de temas tradicionais. Como chegou a esta música?
R. – Tomei contacto com as raízes étnicas, não me considero um desenraizado. Esse tema é cantado num português arcaico, não se trata de dialecto nenhum, mas um raiano, forma de falar própria da zona fronteiriça. Ritmicamente faz lembrar a monofonia dos cantos de Trás-os-Montes. E tentei jogar com a ambiência, com os guizinhos das cabras do pastor e as velhotas a cantar em casa. Debrucei-me sobre alguma música transmontana e a parte ibérica que nos diz respeito. O tema poderá ser uma viagem com começo em Trás-os-Montes – uma zona de fluxo migratório bastante forte, nomeadamente para Espanha – de gente que parte para a Andaluzia.
P. – Afinal, é um revolucionário ou um tradicionalista?
R. – Sou a favor da tradição verdadeira, não da que existe hoje em Portugal. O importante é voltar às nossas raízes e descobrir o verdadeiro posicionamento de Portugal no mundo, o estado da nação. Sou revolucionário na medida em que busco a tradição na sua fonte e a procuro redimensionar.
P. – Que razão o levou a incluir os três excertos instrumentais, funcionando quase como separadores?
R. – São muito clássicos. Foram escritos por Rui Vaz, um novo compositor. Quanto à sua função, prende-se com a intenção de este disco ter um princípio, um meio – uma pausa para se poder reflectir – e um fim. Com cabeça, tronco e membros definidos, embora não seja um “concept album”.
P. – “O espírito da carne” é descaradamente comercial, com piscadelas de olho a um certo som na moda, uma mistura dos Madredeus e dos Enigma, com um toque de vozes búlgaras. Uma coisa “modernaça” que contradiz um pouco o resto do álbum…
R. – Vai ser o “single”. É o tema que se calhar pode espantar mais. É uma salsada que poderá ser como que uma síntese dos outros temas todos.
P. – A versão de “Sorrow’s child”, de Nick Cave, parece-me bastante pouco conseguida. Não estará deslocada num álbum que, como diz, pretende reflectir uma certa portucalidade?
R. – Foi um compromisso que assumi para comigo próprio e para com algumas pessoas. Costumávamos ouvir o Nick Cave… Não acho que esteja deslocada. A letra tem uma relação, “O filho da tristeza, da amargura”. Poderá ser um epílogo que se relaciona bem com o tema seguinte, “Cansaço”, um fado “a capella”.
P. – É uma pessoa amargurada?
R. – Não sou pessimista. Nem triste. Gosto de acção.
P. – Mas o álbum é triste.
R. – É triste. Um reflexo do estado de espírito do que me rodeia. Do mundo à minha volta. É um estado real daquilo que se passa., que não está realmente para grandes festas. Não se pensa nas coisas como se deve pensar. Este disco vai ser um alerta. Por isso a ordem é: amar!
P. – Portanto a salvação está no amor. Não receia que dito desta maneira corre o risco de cair no lugar-comum?
R. – Amar na globalidade. Numa perspectiva universal. Em “Pecado I” falo de uma mulher, Claudine, francesa, mecenas da arte, que conheci em Paris. É uma mulher que luta por uma forma de amar universal. Neste tema digo “com certeza que é pecado, dizem eles, eu amar desta maneira singular”. Sem especificar mais nada. Eu amo as coisas no seu todo. Acho que uma cebola é importante, por exemplo. O meu CD, a cassete-master, dormia sempre com ela. É uma forma de amar estranha…

“Morro E Nasço Todos Os Dias”

P. – Em “Baloiço”, toda a construção rítmica e melódica e uma frase em particular, “estou farto, o que eu preciso não sei, eu sei lá, é do que há-de vir ao Deus dará”, lembra de imediato António Variações. Uma identificação consciente?
R. – A música é do Carlos Maria Trindade e a letra minha. Letra cuja relação com António Variações é de certa forma consciente. Escutei e acompanhei a sua obra. O Carlos Maria Trindade também produziu um disco do Variações. Penso que a cumplicidade será mais dele.
P. – “Pecado II” e “Cansaço” são os dois únicos temas que não se afastam em demasia do fado tradicional. Teve receio de uma ruptura definitiva?
R. – Gosto muito de cantar os fados antigos. À minha maneira. No caso de “Pecado II”, tem um certo espírito coimbrão, no arrastar das guitarras, nas pausas, na utilização do baixo. De certa forma é um fado de Coimbra estilizado. “Cansaço” é um fado tradicional cantado, entre outros, pela Amália. O fado deve ter rasgos, deve ser batido, saltado, rasgado, esquartejado. E ter uma ambiência polivalente.
P. – Cansaço de quê?
R. – As palavras de Luís Macedo, que eu gostaria de ter escrito, dizem: “daí que tudo quanto faço não é feito só por mim”. A pessoa está cansada se calhar porque tudo não é feito só por ela. Não sei.
P. – A generalidade dos arranjos não é inocente. “Amai” aposta no mercado internacional?
R. – Totalmente. Apresentei esta música em Paris, num “café théâtre” “underground” por onde já passou por exemplo a Nina Hagen, e a aceitação foi boa. Com este disco quis mostrar que podia conjugar o fado em diversas perspectiva. Mas não foi nenhum laboratório químico de experiências. No terceiro pode ser que vá a “Amai” e selecione alguns caminhos. Com menos diversidade e uma postura mais linear.
P. – Quer dizer, com menos exagero? Não vai prosseguir o enunciado feito no “Epílogo”: “o exagero é a devoção daqueles que amam por perdição”?
R. – Tinha algumas frases que podiam encerrar o disco, passíveis de várias interpretações. Quando escrevi isso não tive a pretensão de ser poeta, de transmitir algo de novo. A intenção é pôr as pessoas a pensar. A perdição é o destino. Já estou a aceitar de antemão que devo amar. Nasce-se para isso. Quanto ao disco é de facto exagerado. Não um exagero barroco mas da alma. Morro e nasço todos os dias e acordo sempre com esse espírito. Uma vez escrevi “ai se enquanto ao menos eu pudesse de mim sair”. Gosto de sair de mim. Não podemos ser livres de nós. Não quero estar preso a nada.
P. – Não pensou em cantar as palavras de poetas portugueses conhecidos?
R. – Escrevo desde sempre. Em “Pecado II” escrevi “o pecado reina em mim, fugaz me trespassa a alma, não tenham pena de mim, nela só reina a calma”, tinha 17 anos. Não foi posto no primeiro álbum porque acharam que eu não podia escrever coisas assim com aquela idade. Gosto de escrever para mim mesmo. Sou um homem de acção. Gostava de poder realizar um filme. Preciso é de estar a fazer coisas e escrever é uma delas. Mas o que eu gostaria mesmo de fazer, se pudesse, era ter um grande estúdio em casa e ficar lá sempre a escrever.


AMAR EM FRENTE AO ESPELHO

PAULO BRAGANÇA
Amai
Ed. Polygram


Inútil falar de fado, pelo menos se não deitarmos para trás das costas as ideias feitas, a propósito do segundo álbum do cantor descalço. “Amai” é um conjunto de experiências cujo eixo passa pela voz de Paulo Bragança e em redor da qual se aglutinam ideias e sons, alguns deles originais, outros a roçarem o lugar-comum.
Goste-se ou não da sua atitude “provocatória”, o que não se pode negar é a apetência do cantor pelo risco, pelo teste constante das suas possibilidades, tacteando os limites da voz e o significado que tem, ou não tem, estender uma atitude, por ele ainda definida como “de fadista”, a áreas aparentemente incompatíveis com o fado. Há em “Amai” pretensões que poderão ser tomadas por pretensiosismo.
É um álbum barroco, florido, que vive dos sentidos que se lhe quiser emprestar. Clássico a rondar o “kitsch”, como nos três excertos instrumentais “Prelúdio”, “Interlúdio” e “Epílogo”, ou investigando a capacidade de resistência da música tradicional, como em “Vox Populis” – tema digno de um Marc Almond, que vai da inocência do pastor À sanguinolência do matador -, “Amai”, a cada momento, se por um lado desafia o convencionalismo, por outro não consegue evitar recorrer a certas fórmulas de produção que não escondem o desejo de um som politicamente correcto e exportável.
Temas como “O espírito da carne” ou as duas variantes de “Fado herói” vão por onde é mais fácil, por caminhos abertos por outros, de Rodrigo Leão aos Madredeus, isto para fazermos de conta que ninguém andou a ouvir Michael Nyman. Tomemos por brincadeira a versão de “Sorrow’s Child” de Nick Cave, cantada em inglês. Ou como mais uma provocação, neste caso não muito bem sucedida. Tais pecados são porém compensados pelo modo como Paulo Bragança dá um rosto novo a canções como “Adeus”, dos Heróis do Mar, ou ilumina o espaço deixado vago por António Variações em “O baloiço”.
“O farol”, outro dos momentos altos de “Amai”, confirma a importância de Carlos Maria Trindade como produtor e compositor, enquanto em “Pecado I” é o próprio Paulo Bragança a revelar as suas capacidades de composição. É preciso esperar até “Pecado II” e pela interpretação “a capella” de “Cansaço” – escurecido pela sombra de Amália – para o fado se libertar do luxo de roupagens que por vezes lhe ficam demasiado pesadas e transformam a riqueza em ostentação.
Talvez seja esta, de resto, a perdição maior de “Amai”: um gosto pelo excesso que se torna numa faca de dois gumes. Evidentemente, Paulo Bragança, na assunção desse exagero, tem consciência do perigo que corre. Nem todos conseguirão engolir a espampanância nem levar a sério a portugalidade afirmada de forma ambígua, por vezes perversa, ao longo desta conjugação muito pessoal do verbo amar. A Paulo Bragança falta derrotar o mais temível Adamastor – o narcisismo – para conquistar o mar. (7)

Vários – “Figuras Portuguesas Do Ano – Leões Da Música 1993” (balanço)

pop rock >> quarta-feira, 29.12.1993
FIGURAS PORTUGUESAS DO ANO

Leões Da Música 1993




O troféu Leões da Música é uma iniciativa de um grupo de sócios do Sporting com lugar cativo no Estádio de Alvalade que, graças a este expediente, assistem à borla a todos os concertos que lá ocorrem. Apesar de estarem particularmente gratos a todas as estrelas internacionais que de algum modo financiam a sua equipa ao actuar em Alvalade, evitando os descalabros de tesouraria de outro clube da Segunda Circular, a dita associação decidiu neste ano atribuir o prémio a uma banda portuguesa que também actuou no seu estádio: os Sitiados. Não tanto por lá terem tocado no Portugal ao Vivo, mas em virtude de lançarem uma canção, incluída no seu último álbum “E Agora…”, em que asseguram aquilo de que mesmo os sócios leoninos mais entusiastas já começam a duvidar. Dizem eles que o Sporting vai ser campeão…

Iniciação Sexual 1993




Falando ainda no Portugal ao Vivo, importa desmentir os boatos vindos a público de que uma parte significativa da comitiva da Secretaria de Estado da Juventude que presenciou aquele evento teria riscado os Xutos & Pontapés da enorme lista das bandas que, em 1994, merecerão apoio governamental. O chamado “incidente sexual” ocorrido durante a prestação do tema “Sexo”, quando os Xutos chamaram ao palco um trio de “strippers” que fez questão em despir as roupinhas até às partes mais íntimas, foi, de facto, aplaudido de pé pelas individualidades que a testemunharam e que, segundo fontes fidedignas, terão mesmo adiantado que, agora, finalmente, têm uma boa razão para acompanhar os filhos aos concertos de rock português. Claro que a criação do galardão Iniciação Sexual por parte da revista “Rezar” não tem nada a ver com estas motivações.

Caves Aliança 1993




Desde o ano passado, surgiram bandas portuguesas a cantar em inglês que de novo se fala em conflitos de geração entre os músicos da nossa praça. Para que não acabe tudo à estalada, uma conhecida associação de pais do rock português criou um prémio especial para artistas de gerações diferentes que sejam capazes de se sentar a uma mesma mesa a comer um cozido à portuguesa ou mesmo um arroz à valenciana. O troféu, atribuído este ano pela primeira vez, vai parar às mãos de José Cid e Paulo Bragança, em virtude das afirmações proferidas pelo segundo a este jornal. Apesar de ter dito, sobre o primeiro, que se tratava de uma “burra velha” reconheceu também que, para o outro, era o filho que ele nunca tinha tido. O que não faz dele, necessariamente, um burro novo, mas é uma manifesta prova de ternura intergeracional.

Bacalhau 1993




“Bacalhau”, por extenso “Quero cheirar teu bacalhau”, é o nome de um galardão especialmente atribuído a artistas portugueses pelo grémio de estudiosos que se debruçam sobre os efeitos sociais e antropológicos do maior êxito de Quim Barreiros. O troféu, que em anos anteriores foi sempre secretamente confiado, na medida em que as distinções resultavam de episódios decorridos à meia luz no canto de bastidores, por trás de colunas de som, no banco traseiro de “limousines” ou simplesmente em Monsanto, é neste ano pela primeira vez objecto de grande divulgação pública. O feliz premiado é Vítor Gomes, “rocker” lendário da década de 60, que confiou a este diário um inesquecível episódio ocorrido no seu actual regresso aos palcos. Uma senhora da assistência, não conseguindo mais conter-se perante o “charme” amadurecido do ídolo, terá coberto o artista ajoelhado com a sua saia, deixando-o no escuro de microfone na mão e não sabendo o que fazer a seguir.

Boas Maneiras 1993




É um prémio da responsabilidade de um grupo de psiquiatras cristãos anónimos mas muito atentos a estas coisas da juventude e do rock. Preocupados, na sua costela cristã, com a imoralidade infecciosa que alastra entre os lusitanos sub-21, desde as bancadas dos estádios às manifestações estudantis (todos domindados pelo hino “P’ro C…”), mas compreendendo, pelo lado da sua costela psiquiátrica, a necessidade de os jovens exprimirem as suas ambições, ou seja, praguejarem, o núcleo em questão decidiu neste ano laurear uma banda estreante. Trata-se dos Lulu Blind, cujo álbum de estreia “Dread”, lançado há pouco mais de um mês, é por certo o disco que inclui o maior rol de palavrões de toda a história do rock nacional. Mas, aí está, as bujardas dos Lulu são proferidas em inglês – o que instantaneamente transforma o ordinário em “chic” -, ainda por cima sob um mar de distorção e ruído, o que contribui ainda mais para que o eventual conteúdo ofensivo se dilua. Uma aliança perfeita, portanto, entre a catarse juvenil e a boa educação.

Embaixatriz 1993




Todos os anos, um núcleo de verdadeiros lusitanistas, que por uma questão de perspectiva preferem viver no estrangeiro, elege o seu embaixador cultural. O prémio vai para artistas nacionais que apesar da resistência das multinacionais do disco e da indiferença das entidades giovernamentais, arriscam por conta própria manter vivo o bom nome de Portugal além-fronteiras. O troféu vai neste caso para Eugénia Melo e Castro, que, depois de Roberto Leal e do desaparecido Dino Meira, assumiu a sempre difícil e algo ingrata tarefa de propagar a arte de ser português no Brasil, sobretudo agora que as relações entre os dois países estão manchadas pelo acidente dos e outras manifestações de xenofobia nacional. Geninha chegou ao extremo da abnegação de lançar o álbum “Lisboa dentro de Mim – O Sentimento de Um Ocidental” primeiro no Brasil, e vejam a retribuição: apesar do monte de recortes elogiosos na imprensa de São Paulo e de outras cidades brasileiras, ainda houve jornalistas portugueses que tiveram o desplante de desfazer no disco e, por sinal, nas qualidades vocais da artista.

Vários ( Sitiados + Xutos & Pontapés + José Cid + Paulo Bragança + Vítor Gomes + Lulu Blind + Eugénia Melo e Castro) – “Figuras Portuguesas Do Ano – Leões Da Música 1993” (balanço 1993 | portugueses | listas | os melhores de 1993)

pop rock >> quarta-feira, 29.12.1993


FIGURAS PORTUGUESAS DO ANO

Leões Da Música 1993



O troféu Leões da Música é uma iniciativa de um grupo de sócios do Sporting com lugar cativo no Estádio de Alvalade que, graças a este expediente, assistem à borla a todos os concertos que lá ocorrem. Apesar de estarem particularmente gratos a todas as estrelas internacionais que de algum modo financiam a sua equipa ao actuar em Alvalade, evitando os descalabros de tesouraria de outro clube da Segunda Circular, a dita associação decidiu neste ano atribuir o prémio a uma banda portuguesa que também actuou no seu estádio: os Sitiados. Não tanto por lá terem tocado no Portugal ao Vivo, mas em virtude de lançarem uma canção, incluída no seu último álbum “E Agora…”, em que asseguram aquilo de que mesmo os sócios leoninos mais entusiastas já começam a duvidar. Dizem eles que o Sporting vai ser campeão…

Iniciação Sexual 1993
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Falando ainda no Portugal ao Vivo, importa desmentir os boatos vindos a público de que uma parte significativa da comitiva da Secretaria de Estado da Juventude que presenciou aquele evento teria riscado os Xutos & Pontapés da enorme lista das bandas que, em 1994, merecerão apoio governamental. O chamado “incidente sexual” ocorrido durante a prestação do tema “Sexo”, quando os Xutos chamaram ao palco um trio de “strippers” que fez questão em despir as roupinhas até às partes mais íntimas, foi, de facto, aplaudido de pé pelas individualidades que a testemunharam e que, segundo fontes fidedignas, terão mesmo adiantado que, agora, finalmente, têm uma boa razão para acompanhar os filhos aos concertos de rock português. Claro que a criação do galardão Iniciação Sexual por parte da revista “Rezar” não tem nada a ver com estas motivações.

Caves Aliança 1993



Desde o ano passado, surgiram bandas portuguesas a cantar em inglês que de novo se fala em conflitos de geração entre os músicos da nossa praça. Para que não acabe tudo à estalada, uma conhecida associação de pais do rock português criou um prémio especial para artistas de gerações diferentes que sejam capazes de se sentar a uma mesma mesa a comer um cozido à portuguesa ou mesmo um arroz à valenciana. O troféu, atribuído este ano pela primeira vez, vai parar às mãos de José Cid e Paulo Bragança, em virtude das afirmações proferidas pelo segundo a este jornal. Apesar de ter dito, sobre o primeiro, que se tratava de uma “burra velha” reconheceu também que, para o outro, era o filho que ele nunca tinha tido. O que não faz dele, necessariamente, um burro novo, mas é uma manifesta prova de ternura intergeracional.

Bacalhau 1993



“Bacalhau”, por extenso “Quero cheirar teu bacalhau”, é o nome de um galardão especialmente atribuído a artistas portugueses pelo grémio de estudiosos que se debruçam sobre os efeitos sociais e antropológicos do maior êxito de Quim Barreiros. O troféu, que em anos anteriores foi sempre secretamente confiado, na medida em que as distinções resultavam de episódios decorridos à meia luz no canto de bastidores, por trás de colunas de som, no banco traseiro de “limousines” ou simplesmente em Monsanto, é neste ano pela primeira vez objecto de grande divulgação pública. O feliz premiado é Vítor Gomes, “rocker” lendário da década de 60, que confiou a este diário um inesquecível episódio ocorrido no seu actual regresso aos palcos. Uma senhora da assistência, não conseguindo mais conter-se perante o “charme” amadurecido do ídolo, terá coberto o artista ajoelhado com a sua saia, deixando-o no escuro de microfone na mão e não sabendo o que fazer a seguir.

Boas Maneiras 1993



É um prémio da responsabilidade de um grupo de psiquiatras cristãos anónimos mas muito atentos a estas coisas da juventude e do rock. Preocupados, na sua costela cristã, com a imoralidade infecciosa que alastra entre os lusitanos sub-21, desde as bancadas dos estádios às manifestações estudantis (todos domindados pelo hino “P’ro C…”), mas compreendendo, pelo lado da sua costela psiquiátrica, a necessidade de os jovens exprimirem as suas ambições, ou seja, praguejarem, o núcleo em questão decidiu neste ano laurear uma banda estreante. Trata-se dos Lulu Blind, cujo álbum de estreia “Dread”, lançado há pouco mais de um mês, é por certo o disco que inclui o maior rol de palavrões de toda a história do rock nacional. Mas, aí está, as bujardas dos Lulu são proferidas em inglês – o que instantaneamente transforma o ordinário em “chic” -, ainda por cima sob um mar de distorção e ruído, o que contribui ainda mais para que o eventual conteúdo ofensivo se dilua. Uma aliança perfeita, portanto, entre a catarse juvenil e a boa educação.

Embaixatriz 1993



Todos os anos, um núcleo de verdadeiros lusitanistas, que por uma questão de perspectiva preferem viver no estrangeiro, elege o seu embaixador cultural. O prémio vai para artistas nacionais que apesar da resistência das multinacionais do disco e da indiferença das entidades giovernamentais, arriscam por conta própria manter vivo o bom nome de Portugal além-fronteiras. O troféu vai neste caso para Eugénia Melo e Castro, que, depois de Roberto Leal e do desaparecido Dino Meira, assumiu a sempre difícil e algo ingrata tarefa de propagar a arte de ser português no Brasil, sobretudo agora que as relações entre os dois países estão manchadas pelo acidente dos e outras manifestações de xenofobia nacional. Geninha chegou ao extremo da abnegação de lançar o álbum “Lisboa dentro de Mim – O Sentimento de Um Ocidental” primeiro no Brasil, e vejam a retribuição: apesar do monte de recortes elogiosos na imprensa de São Paulo e de outras cidades brasileiras, ainda houve jornalistas portugueses que tiveram o desplante de desfazer no disco e, por sinal, nas qualidades vocais da artista.