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Freddy Mercury – “O Campeão” (TV)

Televisão e Rádio >> Sábado, 23.05.1992


O Campeão



Depois de mortos são todos bons. Em vida Freddy Mercury nunca passou de um músico sofrível, incarnando a rainha musculada de bigode que quis ser cantora de ópera. Os Queen, a sua banda de sempre, eram o suporte para essa necessidade de ostentação, entre o “heavy metal” de cetim, o rock sinfónico de lataão e as encenações totalitárias inspiradas no “Metropolis” de Fritz Lang ou nos grandes rituais de massas futebolísticos.
Freddy Mercury, reconheça-se, além de uma boa voz, tinha outro ponto a seu favor: o humor. Humor que, aliado à mais completa falta de vergonha, o levou a criar personagens delirantes para os vídeos da banda, desde a dona de casa bigoduda de “I want to break free” ao louco frágil e “snob” – uma das suas melhores composições, definidoras talvez da sua verdadeira personalidade – que personificou num dos derradeiros “clips” dos Queen, “I’m going slightly mad”, canção incluída no álbum “Innuendo”.
A doença não chegou a transformá-lo em vítima, nisso soube ser discreto. A morte transformou-o em herói. Em Wembley, a 20 de Abril deste ano, as “estrelas” homenagearam-no e aproveitaram para um pouco de auto-promoção. Freddy Mercury passou, por obra e graça da sida e da piedosa mão da indústria, à condição de mito. Dos metaleiros como os Def Leppard, aos mestres como David Bowie, passando pela fraude genial que são os Spinal Tap, por interesse, ou por verdadeira amizade, todos lhe elogiaram a música e figura. Freddy Mercury conseguiu ser campeão.
Canal 1, às 15h10

Amália Rodrigues – “Apresentada Fotobiografia De Amália Rodrigues – Imagens De Um Mito Que Sorri”

Cultura >> Sábado, 23.05.1992


Apresentada Fotobiografia De Amália Rodrigues
Imagens De Um Mito Que Sorri



“AMÁLIA – Uma Estranha Forma De Vida”, fotobiografia de Amália Rodrigues, foi apresentada quinta-feira à tarde na adega Machado, ao Bairro Alto, uma casa de fado das antigas, do tempo “em que as pessoas vinham para se encontrarem todas, para ouvir a música de que gostavam”, como a fadista lembrou. O álbum, editado na Verbo, foi compilado por Vítor Pavão dos Santos, director do Museu Nacional do Teatro, prefaciado por David Mourão-Ferreira e reúne fotografias de Augusto Cabrita e do arquivo daquele museu. Imagens de um mito que sorri, de histórias e viagens, registados em sessões onde o pitoresco esteve presente. Numa delas Amália “ia ficando afogada no cais de Alcântara” e noutra “esteve para ser presa”, recordou Fernando Guedes, editor da Verbo, para quem este foi um projecto há muito idealizado e só agora amadurecido.
David Mourão-Ferreira chamou à obra “um prazer para os olhos” e improvisou sobre o tema perante o sorriso de Amália”: “Isto é o livro dos sorrisos de Amália”, afirmou. Foi-se entusiasmando: “Podia-se fazer um estudo sobre o sosrriso de Amália, sobre o que o sorriso de Amália exprime, simultaneamente do que em nós há de sorridente e de triste”. David Mourão-Ferreira foi mais longe: “Mesmo por debaixo do não-sorriso de Amália, descobrimoes sempre o sorriso que tem sido um dos grandes segredos do mito que á Amália, do milagre que é Amália”. Amália, a seu lado, sorriu.
Quando o escritor e actual director do serviço de bibliotecas itinerantes e fixas da Gulbenkian se referiu à fadista como “um heterónimo de Portugal, mais, O Heterónimo de Portugal, Portugal no feminino”, Amália não resistiu e respondeu: “Bem feito!”. Aliás, ao longo da tarde, Amália teve sempre o comentário certo e bem-humorado, corrosivo mesmo, com que a cada instante conseguiu romper o amplexo asfixiante da solenidade característico desta espécie de homenagens. Na altura em que Vítor Pavão dos Santos referiu que “em Portugalo sabe-se muito pouco de Amália”, Amália, a desconhecida, limitou-se a comentar: “Só querem saber quando é que me retiro”.
Por fim, Amália falou de retalhos da sua vida e do livro, da “estranha forma de vida” que continua a ser a sua, da estranheza a “tudo” o que lhe tem “acontecido” e de uma incompreensível vontade de chorar: “Sou uma pessoa estranha. Choro muito”. Quanto à fotobiografia afirmou dar-lhe “sempre vontade de a folhear”. Nela encontrou imagens que a fazem encontrar-se a si própria “aqui e ali” e de “sítios esquecidos mas que ficaram no ar”.
Diz a letra do fado “que estranha forma de vida tem este meu coração / vive dela perdida / quem lhe dará o condão / que estranha forma de vida”. Quem lhe deu este condão? Não sabe bem. Para ela “foi Deus”. Amália vê-se nas fotos, “gosta de se ver”. Tem o contentamento de “saber que não era feia” e “gosto de olhar para trás”. É difícil, isto que Amália faz – olhar o passado e sorrir.

Chick Corea – “Banda De Chick Corea Actua Em Lisboa E No Porto – Fusões Eléctricas”

Cultura >> Quinta-Feira, 14.05.1992


Banda De Chick Corea Actua Em Lisboa E No Porto
Fusões Eléctricas


Chick Corea e a Elektric Band regressam a Portugal volvidos dois anos sobre a sua actuação, em Novembro de 1990, nos Festivais de Lisboa. Hoje, às 22h, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e amanhã, à mesma hora, no Coliseu do Porto, o jazz-rock volta a atacar em força, trazido por cinco intérpretes brancos que fizeram subir a voltagem da “grande música negra”.
Por muito que os seus detractores defendam o contrário e o acusem de demasiadas cedências ao rock, Chick Corea é uma referência incontornável no panorama do jazz mundial. Pianista de técnica irrepreensível, o músico de ascendência latina (tem antepassados sicilianos, o seu nome verdadeiro é Armando e o bigodinho aparado rente que exibiu durante anos não enganava ninguém…) caracteriza-se por um percurso estilístico que, ao longo dos anos, se tem desmultiplicado, como compositor e intérprete, por áreas tão diversas como a electrónica, a música erudita, o piano solo ou o formato em duo acústico, de que são exemplos brilhantes os discos gravados de parceria com o vibrafonista Gary Burton, no selo ECM.
Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell, ao lado de outras constelações do bebop e do har-hop, integram o leque das suas influências. Mais tarde, Horace Silver ensinou-lhe o calor dos ritmos latino-americanos que Chick jamais deixou de integrar na sua própria música, em temas como “Spain”, “La Fiesta” ou “Armando’s rhumba”.
“Tones for Joan’s Bones” é a estreia discográfica do pianista, na condição de “leader”, em meados dos anos 60, durante os quais actua ao lado de Blue Mitchell e de Sarah Vaughan. No final dessa década ocorre o momento crucial – o encontro com Miles Davis, com quem grava as obras-primas do trompetista, “In A Silent Way” e “Bitches Brew”, esta última antepassado bíblico da galáxia “jazz rock” que viria a formar-se.
Assimilado o discurso da modernidade e as “lições de piano” de Bill Evans, Herbie Hancock e McCoy Tyner, Chick Corea abandona o mestre para formar um trio de improvisação com Dave Holland e Barry Altschull, depois aumentado para quarteto (designado Circle) com a inclusão do saxofonista “free” Anthony Braxton.
Satisfeitos os apetites vanguardistas, cumprida a saudação ao “fre jazz”, faltava a Chick Corea a exploração dos universos electrónicos, consumada que fora também, em 1972, a sua primeira aventura em piano solo. Return to Forever – o nome é todo um programa de síntese entre a tradição e o futuro aberto pela descoberta recente do sintetizador “Moog” – consagra Chick Corea como um dos grandes inovadores da música de fusão. Pelos Return To Forever passaram nomes que também eles viriam a fazer escola: Stanley Clarke, Airto Moreira, Flora Purim, Al Di Meola e Lenny White, entre outros.
A aventura acaba em 1975, altura em que Chick Corea sente necessidade de rasgar novos horizontes. É o período das obras clássicas, da escrita para grandes orquestras, da afirmação como compositor. 1985 assiste ao nascimento da Elektrik Band que assinala o retorno do pianista à electricidade e às explorações fusionistas. Da actual formação fazem parte Eric Marienthal, saxofones, Dave Weckl, bateria, Jimmy Earl, que substitui o menino prodígio John Patitucci no baixo, e Frank Gambale, guitarra.