Arquivo da Categoria: Noise

Ruins – “Tzomborgha”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
14 Fevereiro 2003


RUINS
Tzomborgha
Ipecac, distri. Sabotage
7|10



Um dos principais problemas das bandas que vão buscar inspiração às décadas de 70 e 80 é terem a alma pequena. Assimilam por vezes apressadamente determinadas fórmulas ignorando a matéria de fundo. Os japoneses (que nutrem especial simpatia pelo rock progressivo) Ruins fizeram a sua seleção com método e rapidez. Combinam “hardcore”, uma atitude simultaneamente visceral, intelectualizada e “punk” para fabricar algo que bebe em Frank Zappa e nos Magma (juntos em “Mennevuogh”), nos King Crimson e na psicose “nonsense” dos Renaldo and the Loaf, embora sejam igualmente apregoadas as lições dos Henry Cow, Area e This Heat.. São guitarras abrasivas de cepa crimsoniana, explosões de “noise”, vocalizações entre o épico e o operático furibundo, batidas marciais, síncopes e acelerações brutais sucessivas que respeitam a mesma ordem de prioridades que fez o grupo passar anteriormente pela editora Tzadik, de John Zorn. “Tzomborgha” não é tanto um caso de revisitação desmiolada do passado como a filtragem do espectro de frequências de algum do rock progressivo mais radical. Ou do que restou das suas ruínas.



Faust – “Patchwork”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
10 Janeiro 2003


FAUST
Patchwork
Staubgold, distri. Matéria Prima
7|10



Os velhos ativistas não desistem. Mas o que era lenda foi trocado pelo esforço em manter viva a subversão que, há mais de 30 anos, fez de “Faust”, “So Far” e “The Faust Tapes” a trindade maldita e, depois de Zappa, a segunda principal revolução do rock moderno. “Patchwork” repete a fórmula que deu origem à obra-prima “The Faust Tapes”. Mas se essa imensa colagem tem a consistência de um gigantesco organismo com vida, o novo álbum limita-se a recolar excertos da discografia prévia dos anos 70, 80 e 90, remisturando-os de maneira diferente. Para os incondicionais pode ser um jogo delicioso redescobrir segundos de ruídos familiares ou pedaços de canções como “It’s a rainy day, sunshine girl”, ocultos sob um denso manto de cacofonia. Trata-se, afinal, de pôr em prática o que o produtor Uwe Nettelbeck já preconizava em 1973: “Sempre gostámos da ideia de editar discos que pareçam inacabados; em que a música soe como um ‘bootleg’, como se tivesse sido gravada por alguém que ao passar por um grupo qualquer a ensaiar gravasse e montasse tudo de forma selvagem.”



Bernardo Devlin – “Circa 1999 – 9 Implosões”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
5 Dezembro 2003


BERNARDO DEVLIN
Circa 1999 – 9 Implosões
Ed. e distri. Extremocidente
8|10



Devlin é um músico estranho, habitante de constelações geladas e com os olhos demasiadamente abertos para a noite. “Circa 1999” faz em absoluto jus ao complemento “Nove implosões”. A voz deste antigo elemento dos Osso Exótico situa-se algures entre o romantismo sombrio de Scott Walker e o tom operático de Peter Hammill, neste caso num registo próximo do de “The Fall of the House of Usher”. Entre a declamação, o lamento e a litania, Devlin fala da “Hora morta e outros segundos”, “À altura dos olhos” e de um “Novo alvor”, segundo uma gramática de secretas cifras interiores na qual “olhos” e “luz” são termos recorrentes. É dessa visão, alucinada (mas não é a alucinação a visão do invisível?) que nos fala e que nos esconde, sobre impenetráveis paisagens electrónicas que devem tanto à música industrial como à toca sem entrada nem saída de “Tilt”. Não é psicadelismo, porque a evasão onírica não é permitida, antes o desvario de poder de uma estranha cerimónia de sado-maso astral, em que a música – pianos tumulares, saxofones febris e eletrónica fabril, percussões dos abismos, naipes de cordas fúnebres – determina o mais pequeno gesto na encenação desta paixão infernal em forma de estátua.