Arquivo da Categoria: Noise

Animal Collective – “Spirit…/Danse…”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
14 Novembro 2003


ANIMAL COLLECTIVE
Spirit…/Danse…
2xCD Fatcat, distri. Ananana
9|10



Avey Tare e Panda Bear viajaram de Baltimore para Nova Iorque para se dedicarem ao malabarismo musical. Inventam melodias em forma de serpente, atiram-nas ao ar, umas vezes apanham-nas, outras deixam-nas cair para ficarem mais deformadas. Depois furam-nas e retorcem-nas até os olhos saltarem das órbitas. Nesta junção de “Spirit they’re Gone/Spirit they’ve Vanished” e “Danse Manatee”, respetivamente em 1999 e 2001, cabem os maiores desvarios. Eles falam em psicadelismo e a voz de Panda, a par de certas estruturas melódicas, sugere, de facto, os Legendary Pink Dots, mas nada nos prepara para a alucinação: eletrónica animalesca, pianos ora clássicos ora em dissonâncias jazzísticas, “easy listening” para psicopatas, “noise” mutante e pop – sempre a pop… – a trocar-nos as voltas. “Danse…”, mais abstrato, tem a densidade da música contemporânea e a originalidade de um futuro ainda por desembrulhar. Tudo o que pode ser experimentado entre uma visão de Syd Barrett e a cacofonia está aqui. O apocalipse da pop.



Swans – “Children Of God / World Of Skin” + “Swans Are Dead”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
3 Outubro 2003


swans – a praga dos cisnes

SWANS
Children of God/World of Skin
9|10

Swans are Dead
8|10
Ambos 2xCD Young God, distri. Sabotage



“O bem estar e a felicidade nunca me pareceram um fim absoluto. Sinto-me mesmo inclinada a pensar que estes propósitos morais são mais parecidos com os de um porco”. Quem o diz é Jarboe, a serpente entre os cisnes. Os Swans eram uma daquelas bandas americanas dos anos 80 que achavam que o inferno é o melhor local para se viver e que procuravam convencer o seu público do mesmo. Como Clint Ruin, Lydia Lunch, Sonic Youth ou The Art Barbeque, os Swans moldaram o rock em volutas de “noise”, escolhendo como temas para as suas litanias infernais, a religião, o sexo, a morte e, em geral, todas as actividades humanas – da escatologia mais infame a um ascetismo neurótico – que conduzem ao sofrimento e à loucura.
“Children of God”, editado originalmente em 1987 no formato de duplo-álbum e agora reeditado e remasterizado em conjunto com “World of Skin”, do projeto paralelo, Skin, não foge a esta tecla com a diferença de que, comparativamente aos discos anteriores como “Filth” ou “Greed”, pauta o horror por uma espécie de Psicadelismo negro, faceta que viria a acentuar-se nos Skin e na obra a solo de Jarboe.
É verdade que logo a abrir, “New mind” nos põe K.O. Rock sinónimo de agressão física e psíquica, crispado na guitarra carnívora de Gira, arrepiante numa letra que ousa dizer “The sex in your soul will damn you to hell”. Mas “Children of God” aborda o mal de outra perspectiva, aquela que se disfarça sob o manto carmesim do Belo. Jarboe sibila entre guitarras acústicas, pianos e naipes de cordas, num jardim de pesadelo que mima o Psicadelismo, enquanto Gira faz ecoar a sua voz de barítono, invectivando tudo e todos, numa impossível catarse em que o amor é ainda um outro rosto da morte. “I’ll always remember your hand on my shoulder, pulling me down, into the cold dead earth”, um pouco à maneira do pregador Nick Cave, em “Real love”.A agonia eleva-se, enfim, nas asas de vampiro de uma majestade feita de ódio e orgulho, música quase sinfónica, no formidável “Beautiful child” – tão totalitária como a dos Einsturzende Neubauten, horrivelmente pornográfica como a de Boyd Rice (Non), eivada de uma dimensão cinematográfi ca como a de Jim Thirlwell sob o pseudónimo Foetus. E se a dupla condescende em afirmar que somos todos “children of god”, é com um arrepio que reconhecemos a natureza dessa divindade.
Jarboe brilha como uma estátua de sal no outro lado da lua, na compilação de temas dos Skin, “World of Skin”, bom complemento para “Children of God”. Cantora de verdade, em “Cry me a river”, “Blood in your hands” ou “My own hands”, a sua voz chega a ser atraente, atraindo-nos para um labirinto de gigantescos espinhos de rosa. Os violinos e violoncelos cortam como punhais, a eletrónica afunda-se em nevoeiros sinistros a envolverem as vozes, mais litúrgicas do que nunca, dos ofi ciantes. Tudo em “World of skin” ostenta uma religiosidade malsã. Ouve-se um tema como “We’ll fall apart” e a confusão enrola-se no impossível acordo entre Sade Adu e os Dead Can Dance em dia de enterro ou quando a harmónica dos Supertramp (!) é estrangulada por um piano tumular, em “Cold bed”. Ou, como cantava Marc Almond: “Beauty is skin deep”.
Mas não é tudo. Como proclamava Frank Zappa, “the torture never stops”. A par de “Children of God/World of Skin”, foi igualmente reeditado, em CD duplo,“Swans are Dead”, registo das derradeiras digressões do grupo, em 1995 e 1997. Aguente quem puder os 16 minutos de mantra de ruído a que o grupo chamou “Feel happiness”, capazes de deitar por terra a aliança Glen Branca/Sonic Youth. Mas também há um anjo a voar montado num vibrafone a assombrar a missa negra “The sound” e os 17 minutos de “Helpless child”, reflexo distorcido num espelho de águas inquinadas. No canto de cisne dos Swans, o niilismo dos anos 80 transitou, tal qual um vírus já disseminado pelo corpo todo, para os 90. Como uma praga.

Chris Cutler + Eugene Chadbourne + Phil Minton + Jon Rouse + … – “Improvisação Sem Rótulos No Festival Co-Lab” (concertos / festivais / artigo de opinião)

(público >> cultura >> pop/rock >> concertos / festivais)
sábado, 20 Setembro 2003


Improvisação sem rótulos no Festival Co-Lab

Chris Cutler, Eugene Chadbourne, Phil Minton e Jon Rouse são os convidados de honra do festival internacional de música experimental/improvisada do Porto



Phil Minton

Co-Lab, laboratório de colaborações musicais em torno de um conceito de liberdade que nasce da improvisação. É também nome de festival: Co-Lab, Festival Internacional de música experimental/improvisada – de hoje a 28 no Teatro Carlos Alberto, no Porto –, um dos menos comprometidos com as regras do “mainstream”, ao qual não escapam nem as “novas músicas”. Diz a organização que “de fora, ficam todos os rótulos – free jazz, rock progressivo, minimalismo, pós-serialismo and so on”. Descontando o “and so on”, género ainda pouco conhecido entre nós, o Co-Lab despreza, de facto, o imobilismo e a arrumação em prateleiras.
As atenções centram-se em quatro nomes sonantes da música improvisada europeia: Chris Cutler, Eugene Chadbourne, Phil Minton e Jon Rose. Vão colaborar uns com os outros, trocar ideias e sons, em formatos que vão do solo ao quarteto.
Chris Cutler é o baterista-aranha (os seus ritmos estendem-se dos materiais mais elementares à bateria eletrónica), o anarquista, o esteta e o apreciador de vinhos que militou nos anos 70 e 80 em algumas das mais importantes formações de “art rock”, como os Henry Cow, Art Bears, News from Babel e Cassiber, imbuídas do espírito de intervenção política que levou à criação da cooperativa “Rock in Oposition”. Onde a música nasce espontânea, lá está ele a impor a ordem, a única não totalitária, que advém da inteligência, em colaborações que vão de antigos colegas seus nos Henry Cow, como Fred Frith, a Lutz Glandien e aos portugueses Telectu.
Eugene Chadbourne é o guitarrista excêntrico que adaptou a música de Bach ao banjo. Transforma numa espécie de “country music” de insetos Duke Ellington e Albert Ayler e colaborou com os Butthole Surfers, rockers sujos e subversivos. Não menos desalinhado, Jon Rose é o violinista sem escalas nem modelos fixos (incluindo os dos violinos que toca, mutações aberrantes que fariam arregalar os olhos de espanto a Paganini: mecânicos, eólicos, de duplo braço, etc.) e o humorista que já gravou um “Music for Restaurants”, com direito a poesia fonética e colagens delirantes em ementa de “haute cuisine” musical.
Phil Minton, o vocalista doido que canta como se estivesse a viver os últimos segundos de vida e o homem que, na sua estreia ao vivo em Portugal, quase nos atingiu em cheio com uma escarreta (sim, o canto de Minton tem origem no fundo) proveniente de uma “performance”, digamos, mais visceral, completa o quadrilátero de grandes improvisadores deste Co-Lab (dias 24, 26 e 28, às 21h30).

Os portugueses
Paulo Raposo, músico e videasta dos Vitriol, junta forças com o alemão Marc Behrens, criador de atmosferas eletrónicas, e Jeremy Bernstein, autor de um “ambiente informático multidimensional de processamento de dados” (hoje, às 21h30). Pierre Redon improvisará ao lado de Etsuko Chida. O primeiro, influenciado por Cage e Derek Bailey, faz “uma música que tem sobretudo em conta a espacialização da matéria sonora, a polifonia e uma construção rítmica alicerçada sobre pulsações irregulares”. A segunda toca koto (instrumento tradicional japonês) e canta (hoje, às 21h30).
Ernesto Rodrigues, com Guilherme Rodrigues, Manuel Mota, José Oliveira e Margarida Garcia, são outras presenças portuguesas no Co-Lab (dia 24, às 21h30). Ernesto Rodrigues, esgotada a paciência com o rock, dos tempos em que integrava a banda de Jorge Palma, partiu para os limites mais radicais da música improvisada até chegar à chamada “micro-música” ou “near silence”, apropriação das diretivas de John Cage, mestre-escultor do silêncio ou, melhor dizendo, poeta-cientista munido de microscópio sonoro de alta potência.

Festival Co-Lab
PORTO Teatro Carlos Alberto. Tel.: 223401910. Hoje e dias 24, 26 e 28, às 21h30. Bilhetes de 7 a 15 euros.