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Vários – “XV Festa Do ‘Avante!’ Começa Hoje Na Amora – Músicas Autónomas Proclamam Independência” (festivais | concertos | antevisão)

Secção Cultura Sexta-Feira, 06.09.1991


XV Festa Do “Avante!” Começa Hoje Na Amora
Músicas Autónomas Proclamam Independência


Todos os anos, por esta altura, os comunistas portugueses dão espectáculo. Sobre um fundo vermelho cada vez mais esbatido, na Amora, Seixal, voltam a erguer-se os palcos onde se fará a festa. Os camaradas estão resignados: a república da música há muito que se tornou independente.



Ideologia à parte, não faltam motivos de interesse em mais uma edição, a XV, da feta do “Avante!”, que durante três dias vai animar o cinzento poluído da margem Sul do Tejo. Em termos exclusivamente musicais, se ainda não é desta que vêm os Pink Floyd, resta a consolação de poder apreciar ao vivo o rock de Gianna Naninni, uma “latin lover” italiana que já trabalhou com Bertolucci, Antonioni e cantou o hino do último campeonato do Mundo de Futebol, capaz de incendiar corações de todas as cores com o som agressivo do seu mais recente álbum “Scandalo” – no domingo, às 22 h, no palco 25 de Abril.
Mas o programa da Festa não engana: 1991 é o ano da consagração da música tradicional. Não deixa de ser engraçado verificar como o vocábulo “tradição” se sobrepôs aos de “Revolução” no léxico das festividades comunistas. O que vem provar que os comunistas, quando querem, sabem ser homens “às direitas”…
June Tabor com os Oyster Band, Boys of the Lough e Savourna Stevenson constituem cartaz aliciante num campo musical que, finalmente, parece ter-se implantado nos gostos (mais que não seja consumistas) do auditor português.
June Tabor é apenas uma das vozes superlativas do canto feminino de raiz celta. Recentemente, no Coliseu, conseguiu fazer esquecer o equívoco chamado “Folk Tejo”. Pela sua voz, se com ela formos capazes de vibrar em consonância, chega-se ao céu. Em termos de materialismo dialéctico é difícil de compreender. Na Amora será talvez um pouco diferente, já que cantará acompanhada por um grupo de rapazes irlandeses dados à bebida (há algum irlandês que não o seja?) e que por isso mesmo fazem música de cair para o lado – os Oyster Band.
Da Irlanda brumosa de alma acastelada e pátria provisória do “senhor da ira”, os Boys of the Lough transportam consigo as texturas e odores da madeira e do musgo, do vento e da pedra. Trazem a alegria e a tristeza do exílio irlandês. Na flauta e no violino virtuosísticos de Cathal McConnell e Aly Bain. E na gaita-de-foles, como não podia deixar de ser. Sábado às 19 h, no “25 de Abril”, para dançar até à exaustão. O comité central do partido em princípio nãose deve opor…
Duas horas depois, às 21h, no Auditório 1º de Maio, é a vez da harpa de Savourna Stevenson serenar os ânimos, em dueto com o violinista dos “Boys”, Aly Bain. Savourna é um dos expoentes da nova linhagem de harpistas celtas, que com Maire Ni Chathasaigh, Alison Kinnaird, Billy Jackson ou as Sileas, recupera os códigos estilísticos e a mística do lendário Carolan, o bardo, para os devolver de forma intimista num contexto contemporâneo. Outros estrangeiros merecem uma chamada de atenção: os Bogus Brothers e o guitarrista da flamenco Rafael Riqueni (ambos com actuações agendadas para sábado, respectivamente no “25 de Abril” às 22h30 e “1º de Maio” às 22h). Havia o trio de Cedar Walton, mas foi cancelado.
Imensa, a legião portuguesa, representativa de diversos quadrantes, promete momentos de boa música. Sexta-feira convém não perder as actuações dos Plopoplot Pot de Nuno Rebelo, dos Pop Dell’Arte de João Peste e de Jorge Peixinho.
Sábado, sempre no palco principal, uma sequência interessante: Romanças, Issabary, Brigada Vítor Jara, Júlio Pereira, António Pinho Vargas. No 1º de Maio: Trio de Carlos Bica, Idéfix e Zé-di-Zastre – o jazz em português.
Finalmente, no domingo: Tina e os Top Tem, Delfins e José Eduardo Unit. Para o fim uma referência muito especial para a actuação (sexta, 22h30, no “1º de Maio”) dos Telectu de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua que se farão acompanhar pelo percussionista, anarquista e referência mítica da cena vanguardista mundial (Henry Cow, Art Bears, Skeleton Crew, David Thomas, Fred Frith, a constelação da “Recommended”…), Chris Cutler.
Depois há os ranchos folclóricos ou os grupos rock da última divisão, espalhados um pouco por todo o lado, a acompanhar a merenda no chão, de frango, poeira e garrafão. Enquanto se espera que o camarada Cunhal venha dizer que tudo está como era dantes…

Joe Cocker – “Com Uma Pequena Ajuda Dos Amigos” (concerto | antevisão)

Pop-Rock Quarta-Feira, 31.07.1991


Com Uma Pequena Ajuda Dos Amigos

Joe Cocker deve agradecer à voz que tem (ou tinha, pois os anos e os excessos não perdoam) e aos Beatles por lhe terem permitido cantar a canção que lhe trouxe a fama e pela qual continua a ser conhecido: “With a little help from my friends”.



Fora isso, não há muito mais suficientemente digno de realce. É um caso típico de uma boa voz desaproveitada e perdida num repertório medíocre. O cantor bem tinha razão quando implorava uma ajudazinha dos amigos. Para a posteridade ficou a veemência do pedido na jornada gloriosa de Woodstock. Mas quando faltam as outras coisas, como por exemplo o talento de compositor, não há santos nem amigos que possam valer.

Companhia De Gás

Ora, como o homem foi contratado para vir cá hoje cantar ao estádio, vamos lá fazer um esforço e reconhecer-lhe a importância que não tem nem nunca teve. É verdade, costuma também referir-se que é “o branco com a voz mais negra” do rock, designação que em geral se aplica aos cantores de pele clara cuja voz tende para a rouquidão.
Joe “With a little help from my friends” Cocker nasceu em Sheffield, o que é importante para se compreender o seu timbre vocal. Ainda muito novo, começa por tocar bateria, o que é importante para se compreender a sua maneira de cantar, numa banda de “skiffle”, The Cavaliers, da qual faz parte o seu irmão, o que é importante para se compreender que não é filho único, e lhe garante a característica única da sua maneira de cantar. Nos intervalos das baitdas trabalha na Comanhia de Gás, pelo que os Cavaliers mudam de nome, passando a chamar-se Vance Arnold and the Avengers, sem dúvida mais apropriado para o seu estilo musical. Troca a bateria pela voz e decide-se por uma carreira a solo, sem a ajuda de nunguém. Arrisca e deixa a Companhia de Gás.
Grava o seu primeiro single, “I’ll Cry Instead”, que, a julgar pela reacção da editora, não terá sido muito bem sucedido: é despedido. Humilhado, pede desculpa ao antigo patrão da companhia onde trabalhou e ele aceita-o de volta, afagando-lhe o cabelo e aconselhando-o a abandonar de uma vez por todas a carreira de músico. O complexo da “companhoa” nunca mais o abandonará. Será nessa altura que Joe “with a little help” toma a decisão de nunca mais tentar nada sem a companhia de alguém para o ajudar.
Entre 1964 e 1967 divide o seu tempo entre a Companhia de Gás e uns biscates na Grease Band, do teclista Chris Stainton. Com esta banda, ou seja, com a ajuda de amigos, consegue atingir o top britânico, com novo single, “Marjorie”. No ano seguinte, John Lennon e Paul McCartney dão-lhe autorização para cantar “With a little help from my friends”. Joe não se faz rogado e canta-a mesmo. O single atinge o 1º lugar nas listas de vendas e a canção ficou imortalizada na inspirada interpretação de Woodstock. A história de Joe Cocker termina aqui. (?!)

Depois Da História

Há quem atribua uma certa importância ao álbum de 1970, “Mad Dogs and Englishman”, mais por incluir um tema de Leo Russell, “Delta lady”, dedicado a Rita Coolidge, que por outra coisa. “Luxury you can afford”, de 1978, é importante, segundo a promoção, por ter sido gravado na mesma editora onde gravaram Joni Mitchell e Linda Ronstadt. De acordo com este critério, Roberto Carlos seria tão importante como Bernstein ou Glenn Gould, visto terem os três gravado para a mesma editora.
“Sheffield Steel” é um regresso às origens e a tentativa de conseguir algum êxito através do recurso a interpretações de temas de Bob Dylan, Randy Newman, Jimmy Cliff e Steve Winwood. Junta-se a Jennifer Warnes (outra grande artista) e gravam o tema “Up where we belong”, incluído na banda sonora de “Oficial e Cavalheiro”.
“Joe Cocker Live!” é uma colectânea dos melhores (in)sucessos de Joe “with a little help from my friends” Cocker e, a propósito da sua gravação, conta o cantor: “Tínhamos pensado gravar o álbum ao longo de quatro actuações diferentes, mas parecia que tínhamos mau-olhado… Na primeira noite, eu não tinha voz, nas duas noites seguintes havia falhas a mais. Cheguei a pensar que não íamos conseguir, mas resolvemos tentar uma última vez.” Tentaram e Joe “with a little friend from my helps” cantou, como se fosse a primeira vez, “From a little help from my friends”.
Em Lisboa, tudo se prepara para ouvi-lo cantar “With a little from help my friends”. Não se sabe se Joe “with a little etc. etc. etc.” ainda trabalha na Companhia de Gás.

Carlos Santana – “Carlos Santana Antecipa Concerto De Alvalade – Amor, Devoção E Rendição”

Secção Cultura Sexta-Feira, 26.07.1991


Carlos Santana Antecipa Concerto De Alvalade
Amor, Devoção E Rendição


Durante três horas de música e misticismo, Carlos Santana vai mostrar por que é considerado um herói da guitarra e depositário fiel dos ideais dos anos 60. Não receia o embate com as gerações mais novas. Afinal, “os jovens também têm coração”.



Há místicos e místicos. Ou seja há místicos e mistificadores, o que não é bem a mesma coisa. No primeiro caso estão Santo Agostinho, Santa Teresa D’Ávila, Vasco Gonçalves, Sousa Cintra ou o arcebispo de Braga. São pessoas que se inflamam facilmente, possuídos pela chama divina, entrando em transe para melhor receberem as directivas do alto e depois as transmitirem aos subalternos. No segundo incluem-se os que fingem sentir o que não sentem. São os chamados macacos de imitação que, em matéria de transporte místico, o melhor que conseguem é apanhar o autocarro para o Calvário. Há muitos. Quase todos. Na música abundam as duas espécies. Os compositores medievais, John Coltrane, Duke Ellington, Keith Jarrett, John McLaughlin e Amália Rodrigues são místicos. Sting e Roberto Carlos são mistificadores. E Carlos Santana, o que é? Vamos ver.
É preciso não esquecer que o guitarrista integrou a geração “hippy” dos anos 60, de Woodstock, paz, amor e “flower-power” – “basicamente um punhado de adolescentes que recusaram o Vietname e fizeram frente à autoridade”. Isso, e a descoberta de um novo mundo proporcionada pela ingestão industrial de alucinogéneos – “muita gente morreu por ter tomado as drogas erradas, mentes fracas que não conseguem suportar o confronto com a realidade cósmica derradeira e acabam por atirar-se de uma janela”. Ele tomou as certas: LSD, mescalina e peyote (um cogumelo pouco recomendado em culinária).

Experiência Religiosa

Em Woodstock viu “muita beleza e potencial e um oceano de carne, olhos, dentes e braços, a oposição à América oficial”. “Hoje é diferente” – opina – “as gerações mais novas tomam drogas como a cocaína ou a heroína para fugirem e se alienarem, não para uma elevação espiritual.” De Altamont recorda a sensação de “uma presença demoníaca” e, nos olhos de Mick Jaegger e Keith Richards, a expressão da “paranoia total, incontrolável”.
Não tem nada contra os Happy Mondays, que “não conhece bem”, embora preferisse partilhar o concerto com “músicos africanos, ou com uma sensibilidade mais próxima” da sua, nem receia um mau acolhimento da sua música, por parte da camada mais jovem do público, vinda para ouvir a banda de Shaun Ryder – “os mais novos também têm coração”.
Para Carlos Santana a música constitui “uma experiência religiosa, uma forma de processo espiritual” – música que não “vem” dele, mas “passa através” dele, como faz questão, amiúde, de frisar. Títulos como “Lotus”, “Moonflower”, “Inner secrets”, “Silver dreams & golden reality” ou “Spirits dancing in the flesh” não enganam ninguém.
Dois Johns, como ele também iluminados, desempenham um papel importante na sua vida: Coltrane e McLaughlin. O primeiro é influência assumida, na espiritualidade ou na pilhagem do título “Welcome”. O jovem músico terá chegado mesmo a dormir ao som de gravações do saxofonista e autor de “Blue Train”, durante a noite inteira. De qualquer modo gravou com Alice Coltrane o álbum “Illuminations”.

Adeus Guru

Com John McLaughlin deixou para a posteridade as vibrações de “Love, devotion, surrender”, apesar de na altura ter achado a experiência intimidatória – “John McLaughlin era e é como um oceano de música e luz”. Carlos Santana não passava, então, de um “adolescente hesitante”. Através de John McLaughlin travou conhecimento com as doutrinas do guru Sri Chinmoy que renegaria, após anos de devoção e sacrifício, quando percebeu tratar-se afinal de “uma mera questão de poder”. Miles Davis, a quem chama “o Muhammad Ali da música”, é outra das fontes inspiradoras que gosta de citar.
Chega a Portugal com umas décadas de atraso mas não se preocupa muito com isso. Ele que em tempos afirmara: “Os músicos vêm como por um rio. Cavalgam os rápidos até chegarem a águas mais clamas e depois seguem, substituídos pelos mais novos que juntam á corrente a sua própria energia e inspiração”. Em relação ao concerto de amanhã, apenas deseja, como disse ao PÚBLICO, que as pessoas se “sintam felizes”.