Arquivo da Categoria: Electrónica

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #51 – “Substrata 2, Garmarna… (FM)”

#51 – “Substrata 2, Garmarna… (FM)”

Fernando Magalhães
11.12.2001 170556

“Substrata 2” vale mesmo a pena! Além de incluir a versão remasterizada de “Substrata”, o segundo CD é preenchido pela banda sonora completa de “Man with the Movie camera”. E é precisamente aqui que o deslumbramento é total. Será provavelmente a melhor música composta pelo Geir Jenssen. Longe de quaisquer ambientalismos ou citações mais ou menos veladas à new age (que eu nunca descortinei, mas enfim, há quem pense assim), a música é uma electrónica solene, por vezes abstracta, repleta de efeitos misteriosos e/ou ameaçadores, na linha dos SPK (de “Zemia Lehmani”) de Lustmord ou do projecto WHEN, de Lars Pedersen (alguém conhece o fabuloso, inclassificável e perturbante “Death in the Blue Lake”? – O tema longo com este nome, inspiardo num conto do escritor A. Bjerke, aparece na “colectânea” “Black, White and Grey”, ed. Recommended).

Provavelmente a melhor música alguma vez composta por Geir Jenssen, longe do minimalismo paisagístico de “Cirque”.

FOLK

O álbum dos GARMARNA sobre música de Hildegard Von Bingen, é tecno-folk dispensável, pelo menos os temas que ouvi.
Numa linha próxima, prefiro de longe os QNTAL.

FM

Telectu & Elliott Sharp – “Elliott Sharp E Os Telectu Atuam Hoje Na Sala Polivalente Do CAM, Às 18h30 E 21h30 – A Matemática Do Caos” (concerto | antevisão | artigo de opinião)

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 1 OUTUBRO 1990 >> Cultura


Elliott Sharp e os Telectu atuam hoje na Sala Polivalente do CAM, às 18h30 e 21h30

A matemática do caos


O guitarrista nova-iorquino Elliott Sharp e o duo português Telectu tocam juntos, numa prova de que a “nova música” também tem lugar entre nós. A violência eletrónica, em plena atividade de “sabotagem” cultural.



Nova Iorque – capital de mil perigos e deformidades. Há músicas que traduzem essa monstruosidade. Sons que avisam e perturbam. Nos clubes e nas caves. Na penumbra do fumo, longe das luzes do dia e dos hipermercados.
Elliott Sharp resiste, luta, provoca a cidade, nas suas convulsões guitarrísticas. Loucura artística contra a loucura institucionalizada. Integra hoje a elite dos impulsionadores e inovadores da vanguarda nova-iorquina, ao lado de nomes como John Zorn, Glenn Branca, David Fulton, David Linton, Rhys Chatham, Wayne Horvitz, Ned Rothenberg, Samm Bennett, Scott Johnson, Robert Previte, David Weinstein ou David Garland, muitos deles colaboradores regulares nos seus trabalhos.

Guitarra telúrica

Especialista em abordagens revolucionárias do instrumento, possui uma habilidade inata para despedaçar os códigos estéticos e as posturas técnicas tradicionais, a par de uma capacidade analítica capaz de unir as pulsões inconscientes, físicas e emocionais ao rigor estrutural. O cérebro mestre do telurismo. Matemática do caos.
Exemplo desta atitude é a utilização, em discos como “Marco Polo’s Argali”, “Tessalation Road” ou “Larynx”, de um complexo sistema algorítmico denominado “séries Fibonacci”, através do qual se torna possível gerar diferentes tipos de afinação, bem como novas soluções harmónicas e melódicas.
Elliott Sharp caminha sobre o fio da navalha, ao longo de uma já vasta e diversificada discografia que integra experiências que vão da composição (ou decomposição…) da música para cordas (em “Tessalation Road”, com os Soldier String Quartet, equivalente intuitivo e esquizofrénico dos seus congéneres Kronos Quartet), o brutalismo rítmico tribal realizado em computador (“Virtual Stance”), a “canção” eletrónica demencial (“In the Land of the Yahoos”, ao lado de Sussan Deyhim, Christopher Anders, David Fulton, Shelley Hirsch e Christian Marclay), à transfiguração do ruído, ordenado sequencialmente (“Looppool”) ou a interpretação orquestral dos cantos “Inuit” e “hoomii”, respetivamente das regiões árticas do Canadá e da Mongólia (“Larynx”, com Samm Bennett, David Fulton, David Linton, Robert Previte, Jim Staley e, de novo, os Soldier String Quartet), Capítulos importantes da sua discografia são também “Rhythm and Blues”, “Escape Clause”, “I/S/M:R”, e “Carbon” e “Fractal”.
Uma definição possível para esta música arrebatadora pode ser encontrada nas próprias palavras do guitarrista, relativamente a “Larynx” mas perfeitamente aplicáveis a toda a sua obra: “Música que dança sobre permutações constantes entre uma geometria derivada das séries Fibonacci e uma geometria fractal de turbulência, caos e desordem”.

Eletrónicos

Os Telectu, grupo de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua, com o qual Elliott Sharp tocará hoje no CAM (Centro de Arte Moderna da Gulbenkian), são pioneiros da música eletrónica no nosso país, passando do minimalismo inicial, para posteriores incursões nas sonoridades ambientais (em álbuns como “Rosa Cruz”, e “Halley”), a música “mimética” (“Mimesis”, “Cameratta Electronica”) ou, atualmente, aproximações a um expressionismo digital no qual se incluem músicos como Jeff Greinke, Robert Rich, Peter Frohmader ou, por vezes, o próprio Elliott Sharp, influência evidente em alguns temas de “Live at the KnittingFactory” e “Digital Buiça”.
A conjunção da eletrónica dos Telectu com a guitarra explosiva de Elliott Sharp pode fazer estragos. Espera-se que esta não seja uma iniciativa isolada e que as “músicas alternativas” ocupem, no nosso meio musical, o lugar de destaque a que têm direito.

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #49 – “TRANSCHAMPS, SENSER, FENNESZ, FÜXA… (FM)”

#49 – “TRANSCHAMPS, SENSER, FENNESZ, FÜXA… (FM)”

Fernando Magalhães
05.12.2001 160400
Cá estou, para dar uma palavra amiga a todos os forenses. 🙂

Eis as primeiras patacoadas de hoje:

1 – Devo dizer que acho o “Give it to you”, o tal tema de rock FM que abre “Double exposure”, absolutamente irresistível. Versão rock da música dos andróides Tubeway Army…

2 – O disco dos SENSER para a Neo Ouija que alguns forenses têm andado a citar, não é nada de especial. É até um pouco chato. Trata-se de uma daquelas obras que se limitam a “copiar” determinada escola, neste caso dos AROVANE. A mesma electrónica de cristal, bonitinha, ultra-melodiosa, mas sem ponta de criatividade. Da mesma fornada, prefiro, de longe, os PUB.

4 – Confirmaram-se as impressões prévias sobre “Endless Summer”. Tem pormenores geniais (sobretudo nas metamorfores de ruído em melodia), mas também sequências que se arrastam demasiado tempo, sem que se vislumbre qual o sentido que Fennesz lhes quer dar…

5 – Já que os FRIDGE andam a ser muito citados…Que tal descobrir outra das bandas “reveladas” pelo pós-rock, cuja obra se tem vindo a revelar de grande qualidade, de obra para obra – os FÜXA?

Pedrotaos
05.12.2001 170544

tenho um disco dos Fuxa ..o VWO….do qual gosto bastante principalmente devido aos teclados (hammond?) que por vezes se assemelham a certos temas dos Yo La Tengo.

saudações

p.s.o VWO é o melhor deles ou há algo mais importante por descobrir?

Fernando Magalhães
05.12.2001 190716
O “VWO” é o “Very Well Organized”, certo?

O anterior, “3 Field Rotation” (ed. Ché, 1996) é um carrocel de orgãos electrónicos (creio que Farfisa e não Hammond) inpsirado obliquamente nos Cluster. Lo-fi altamente sedutor.

Mas o meu preferido é “Accretion” (ed. Mind Expansion, 1998) muito mais electrónico, experimental e variado.

Creio que os FÜXA já gravaram outro álbum depois deste, mas ainda não o ouvi.

FM