Arquivo da Categoria: Críticas 2003

Twokindermen – “Misstakesonlove”

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2 Maio 2003


TWOKINDERMEN
Misstakesonlove
Kinder of Heart, distri. Ananana
6|10



Em termos musicais, era costume Portugal estar atrasado 20 anos. Agora, estamos melhor. Os Two Kindermen (António Contador e Nuno Antunes) estão apenas atrasados dois ou três. “Misstakesonlove”, banda sonora para um filme (que o grupo costuma projetar nos seus concertos) “sobre erros, enganos e mal entendidos amorosos”, desenrolado à escala de figuras da Playmobil, serve-se da eletrónica com fins exclusivamente lúdicos, repescando a corrente “funny electronics” com que os Schlammpeitziger, Felix Kubin e a putalhada da Stora (Nova Huta, Oleg Kostrow…) repuseram na ordem do dia aquilo que, por sua vez, já tinha sido publicado em ata nos anos 70 pelos Cluster. E nos anos 80 quem se lembra da “música para festas” dos Silicone Teens, que já era o mesmo, na versão camuflada de Daniel Miller? O problema está em que uma piada apenas serve uma vez. Estes sons que há uns anos eram divertidos e tinham devolvido a frescura à eletrónica de entretenimento, soam agora como curiosidade requentada. Como a tentativa de reproduzir a “anedota assassina” dos Monty Python, nos laboratórios alemães… Seja como for, as melodias de feira popular dos Twokindermen poderiam perfeitamente encaixar-se na programação do Canal Panda.

Pedro Caldeira Cabral – “Memórias da Guitarra Portuguesa/A Guitarra do Século XVIII”

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2 Maio 2003


PEDRO CALDEIRA CABRAL
Memórias da Guitarra Portuguesa/A Guitarra do Século XVIII
2xCD ed. e distri. Tradisom
8|10



Há anos que Pedro Caldeira Cabral tem vindo a divulgar o reportório da guitarra portuguesa, funcionando como contraponto erudito de Carlos Paredes. À conceção telúrica do autor de “Verdes Anos” contraporia o fundador do grupo de música antiga, La Batalla, uma visão mais depurada e académica. A presente edição esclarece este e outros pontos. Dividida em dois CDs, o primeiro apresenta o músico na guitarra portuguesa, acompanhado por Fernando Alvim, na guitarra clássica, e Duncan Fox, no contrabaixo, a interpretar, além de temas da sua autoria, outros de Carlos Seixas ou de Paredes (as emblemáticas Variações em si menor e ré maior, as “Danças Portuguesas” e “Verdes anos”), sendo o segundo dedicado a repertório Barroco para guitarra inglesa, com Marcos Magalhães (cravo), Kenneth Frazer (violoncelo barroco) e Duncan Fox (violone barroco). Paredes por Caldeira Cabral é uma outra forma de tocar a essência da música portuguesa, menos próxima do abismo, mais ascética e matematizada, tornando luminosa a emoção que em Paredes era noite. Já as peças de Manuel José Vidigal que ocupam maioritariamente o CD2 são delicadas variações próximas da música popular, lidas e executadas por Caldeira Cabral com o justo equilíbrio entre espírito e ornamentação.



Joel Xavier – “Lisboa”

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2 Maio 2003


JOEL XAVIER
Lisboa
Ed. e distri. Zona Música
7|10



Virtuoso da guitarra, Joel Xavier foi convidado, aos 23 anos, para tocar ao lado de Larry Coryell, Bireli Lagrene e Tomatito, na antologia “Palabra de Guitarra Latina”. Uma honra. “Lisboa”, sucedendo a “Lusitano”, é uma cidade fusionista. “7 colinas”, “O Tejo”, “O castelo”, “O elevador”, “Bairro Alto” formam uma topografia sonora, tecida por Marino Freitas (baixo), Ricardo Dias (acordeão) e André Sousa Machado (bateria) em que o jazz se cruza com a nostalgia do fado, o “novo tango” de Piazzola, o “bal musette” chique de Richard Galliano e a fogueira cigana. “O elétrico” conta com a harmónica do convidado Toots Thielemans para um passeio por um “blues musette” com aroma portuário, enquanto na “Gaivota” (primeira parte de “O fado”), a voz de Carlos do Carmo situa “Lisboa” em sede própria, junto ao rio da Saudade. “Gaivota” que, se outras virtudes não tivesse, tem pelo menos a de focar o virtuosismo de Xavier ao serviço da emoção, pondo freio numa mestria técnica que, noutros temas, não resiste a deixar-se apanhar pelo exibicionismo. Não chega tocar não sei quantas notas por segundo, o difícil é conseguir que cada uma delas seja indispensável para a história que se pretende contar. Joel Xavier tem o fogo, falta-lhe, por enquanto, a arte de o dominar.