Arquivo da Categoria: Críticas 2003

Vários – “Spike – Works From BEAST, Vol. 1”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
10 Janeiro 2003


VÁRIOS
Spike – Works from BEAST, Vol. 1
Sargasso, distri. Sonoridades
7|10



BEAST é a sigla dos Birmingham Electroacoustic Music Studios, pertencentes à universidade daquela cidade inglesa, projeto criado em 1982 por Jonty Harrison, com o objetivo de divulgar música electro-acústica e acusmática escrita especificamente “for fixed media to be diffused in space through the use of multi-channel sound systems”. Variante britânica do INA.GRM francês, neste seu segundo volume incluem-se composições recentes de Iain Armstrong, Simon Scardanelli, Dugal McKinnon, Antti Saario, Derek Thompson, Steven Naylor, Peter Batchelor, James Bentley e Jamie Bullock. A música afasta-se dos usuais parâmetros da “eletrónica de entretenimento”, ainda que composições como “B-side”, de Antti Saario ostentem marcas passíveis de descodificação pelo público rock ou por aquele já familiarizado com a área de charneira habitada por Fennesz, Jelinek ou de alguns dos manifestos limítrofes de editoras como a Sonig, Mego, Touch e Mille Plateaux. A partir deste ponto, o termo “pop” deixa de fazer sentido e o desconhecido oferece-se à descoberta.

Meredith Monk – “Mercy”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
10 Janeiro 2003


MEREDITH MONK
Mercy
ECM, distri. Dargil
9|10



Escrita para uma “perfomance” criada por Monk de parceria com Ann Hamilton, a música de “Mercy” prossegue uma via de desenvolvimento encetada com “Dolmen Music”, de aliança entre a polifonia antiga, o minimalismo, a eletrónica e a investigação sistemática dos limites musicais da voz humana. Acompanhada pelo seu habitual “ensemble” vocal, Allison Sniffin (piano, sintetizador, viola e violino), John Hollenbeck (percussão, melódica, piano) e Bohdan Hilash (clarinetes), Meredith Monk sobrepõe “layers” vocais/corporais sobre fraseados melódicos repetitivos, ora de estrutura menos linear, como no magnífico “Core chant” final, liturgia imbuída do ascetismo pré-barroco de um Schutz ou de Gabrielli. Outras inflexões aponta para a obra de Daniel Schell (“Braid 1”), o canto gregoriano (“Braid 2”) e curiosas acentuações árabes (“Urban march”), a par de extensões fonéticas patentes em “Masks” (apesar de Irene Papas ter feito, há anos, algo muito semelhante….). Um mundo único e em perpétua expansão que em “Mercy” roça a perfeição.



Faust – “Patchwork”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
10 Janeiro 2003


FAUST
Patchwork
Staubgold, distri. Matéria Prima
7|10



Os velhos ativistas não desistem. Mas o que era lenda foi trocado pelo esforço em manter viva a subversão que, há mais de 30 anos, fez de “Faust”, “So Far” e “The Faust Tapes” a trindade maldita e, depois de Zappa, a segunda principal revolução do rock moderno. “Patchwork” repete a fórmula que deu origem à obra-prima “The Faust Tapes”. Mas se essa imensa colagem tem a consistência de um gigantesco organismo com vida, o novo álbum limita-se a recolar excertos da discografia prévia dos anos 70, 80 e 90, remisturando-os de maneira diferente. Para os incondicionais pode ser um jogo delicioso redescobrir segundos de ruídos familiares ou pedaços de canções como “It’s a rainy day, sunshine girl”, ocultos sob um denso manto de cacofonia. Trata-se, afinal, de pôr em prática o que o produtor Uwe Nettelbeck já preconizava em 1973: “Sempre gostámos da ideia de editar discos que pareçam inacabados; em que a música soe como um ‘bootleg’, como se tivesse sido gravada por alguém que ao passar por um grupo qualquer a ensaiar gravasse e montasse tudo de forma selvagem.”