Arquivo da Categoria: Críticas 1991

Leo Ferré – “Les Loubards” + Sérgio Godinho – “Canto Da Boca”

Pop Rock

6 MARÇO 1991
REEDIÇÕES

LEO FERRÉ
Les Loubards **
LP, MC e CD, EPM, distri. Dargil

leoferre

SÉRGIO GODINHO
Canto da Boca ***
LP / MC / CD, Philips, distri. Polygram port.

sg

Editados respectivamente em 1986 e 1981, os discos de Leo Ferre e Sérgio Godinho voltam a surgir no mercado, acompanhando a actual tendência para recuperar tudo o que é antigo. Ambos os artistas partilham o prazer da palavra – Leo Ferre canta neste disco textos de Jean-Roger Caussimon; Sérgio Godinho escreve ele próprio todas as palavras que aqui se pronunciam pelo canto da boca, mostrando que já vem de trás o gosto pelo trocadilho. O disco de Ferre não é famoso – para além das valsas “J’ entends passer le temps” e “Les Drapeaux merveilleux”, fica a usual torrente de palavras, ditas com raiva, ternura ou amargura pelo velho poeta anarquista. “Canto da Boca” inclui, ao contrário do que acontece com o álbum do francês (de quem Sérgio Godinho se afirma incondicional admirador), alguns clássicos: Com um Brilhozinho nos Olhos”, “É Terça-feira” e “O Porto aqui tão perto”. Sabe bem recordá-los e de novo enternecer-nos com o intimismo sentido de “Já Joguei ao Boxe, já Toquei Bateria”, “Eu Contigo” e “Sempre foi assim”. O regresso dos poetas.



Klaus Schulze – “Dresden – Imaginary Scenes”

Pop Rock

20 FEVEREIRO 1991

KLAUS SCHULZE
Dresden – Imaginary Scenes

LP e CD, Venture, distri. Edisom

dresden

Foi há 21 anos que Klaus Schulze começou a compor o longo tema instrumental electrónico que constitui o “opus” capital do seu trabalho, distribuído, nas suas diversas fases, por uma discografia composta, até agora, de 27 álbuns. O berlinense, responsável pela divulgação da chamada “escola planante” alemã, inventou uma linguagem, na época inovadora, para os sintetizadores, inspirada na grandiosidade dos românticos e de Richard Wagner em particular.
Nunca mais abandonou esse discurso. Pelo meio ficaram obras-primas como “Irrlicht”,“Mirage” e, sobretudo, os duplos “X” e “Audentity”, fundamentais para a compreensão de uma das vertentes mais significativas da música electrónica.
“Dresden” diferencia-se do anterior (e francamente monótono) “Mediterranean Pads” pela troca do frenesim rítmico por uma maior insistência na harmonização de grandes naipes orquestrais. De resto nada mudou: as mesmas lentas e majestosas progressões melódicas, a exploração controlada das possibilidades tímbricas do computador, uma unidade temática inquebrantável. Capítulo só indispensável para quem não sabe distinguir a “palha” de essencial. **



Eric Woolfson / Alan Parsons – “Freudiana”

Pop Rock

20 FEVEREIRO 1991

ERIC WOOLFSON/ALAN PARSONS
Freudiana

LP duplo e CD, Emi – Valentim de Carvalho

freud

Sexo! Bem mais apelativo que “sexualidade”. Diz-me com que(m) sonhas dir-te-ei quem és. Grandes traumas. Complexos maiores que o das Amoreiras. Libidos desenfreadas. Oh mãe! Oh pai! Desejos inconfessáveis sublimados e deitados no divã. Atraída a atenção do leitor, podemos agora assegurar, cheios de júbilo: até que enfim, um disco sério, obra científica, didáctica, de grande fôlego e insuperável intensidade psicológica.
Sigmund Freud, nome importante, sem dúvida (embora nenhum dos seus discos tem há atingido os tops, os livros sim), mas não tanto como Eric Woolfson e Alan Parsons, juntos e felizes no massacre sistemático perpetrado sobre a figura do mestre.
Calho a vez ao velho Segismundo, mas ninguém, vivo ou morto, está livre de se tornar a próxima vítima. Em “Freudiana” (termo que designa a colecção de artefactos recolhidos por Freud ao longo dos anos ou, mais genericamente, a globalidade dos seus trabalhos e personalidade), cada faixa refere-se a um aspecto particular da vida e obra do autor dos “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” e “A Interpretação dos Sonhos”: o princípio do prazer (que infelizmente neste disco não funciona), alguns casos patológicos arquetípicos (“Little Hans”, Dora, o homem-rato, o homem-lobo, o juiz, etc.), o amigo hipnotizador, as terríveis lutas entre o herói superego e o vilão Id, são alguns dos pretextos para o desfilar contínuo dos lugares-comuns mais insuportáveis do tristemente célebre rock sinfónico.
Imagine-se uma versão caquética e envernizada de “The Wall” (a qual dos discos pertencem os imortais versos: “And now you’re alone my friend/and you must face the world outside”?) para se ter uma ideia aproximada do objecto em questão. Os vocalistas foram escolhidos a dedo de entre a fina-flor da mediocridade (Leo Sayer, Kiki Dee, John Miles…), os instrumentistas (Laurie Cottle – baixo, Stuart Elliot – bateria e percussão, Ian Bairnson – guitarras, o nosso amigo Eric – teclados, Richard Cottle – sintetizadores e saxofones e o nosso outro velho amigo Alana – teclados adicionais) cumprem o que lhes foi exigido por contrato com o entusiasmo e empenhamento de um empregado de escritório a fazer horas extraordinárias num sábado à noite.
Incluem-se mesmo três temas instrumentais, “The Nirvana Principle”, “Beyond the Pleasure Principle” e “Freudiana” que infelizmente não se parecem nada com os famosos quatro minutos e picos de silêncio de John Cage.
Mas do mal o menos: só a música e as letras é que não prestam. De resto, pelo cuidado posto na apresentação, vê-se que se trata de um produto de luxo. Oh mãe! *

aqui