Arquivo da Categoria: Críticas 1991

Tanita Tikaram – “Everybody’s Angel”

Pop Rock

13 FEVEREIRO 1991
LP’S

MENINA BONITA

TANITA TIKARAM
Everybody’s Angel

LP e CD, EastWest, distri. Warner port.

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Porque será que a luz de Suzanne Vega ofusca tanto? Ouvem-se as outras senhoras, habitantes do mesmo território, as suas vozes, as canções, as histórias que contam e logo a imagem da nova-iorquina se impõe, omnipresente, implacável, incontornável. Porque será? E, no entanto, o estilo e personalidade da autora de “Days of Open Hand” são de tal maneira próprios dela que, à partida, chegariam para fazer esmorecer a mais pequena tentativa de concorrência. Mas, de facto e paradoxalmente, parecem ter feito escola entre as novas gerações de cantoras femininas.
Por exemplo, vejamos o que se passa com esta rapariga (que, como Vega, optou pelo corte capilar mais ou menos arrapazado) de nome exótico e que conta já com três álbuns no activo. A sua música tem pouco a ver com a da outra senhora. A voz muito menos. Os textos contam outras histórias, outras maneiras de ver o mundo. Mas lá está, faixa sim, faixa não, damos por nós a compará-la com a sempiterna Suzanne. Que segredo se esconderá então por detrás dos modos gentis e das entoações sinuosas desta voz que, tal qual um farol, ilumina a atrai a si todas as outras, para finalmente as destruir na violência de uma personalidade dominadora? Suzanne Vega exemplifica a emancipação do “singer/songwriter” em versão feminina, liberta da imagem sexuada, assente no primado da saia curta e olhar maroto. Suzanne personifica a coerência de uma visão pessoal e vigorosa do mundo, no seu caso da América, filtrada pelo olhar único que é o da mulher. E depois, não há nada a fazer, possui o dom fundamental nestas coisas da música: a arte de compor boas canções.
Regressando à nossa Tanita, verifica-se que entre ambas há certas semelhanças, menos ao nível dos processos musicais propriamente ditos e mais ao nível da atitude: tal como na obra de Suzanne Vega, cada canção da nossa jovem conta uma história que (ao contrário daquela) se acompanha enquanto é cantada, mas que de imediato se esquece, mal termina. Não colam. Não impressionam. Apenas fazem cócegas. Existe uma artificialidade latente na maneira como cada tema se desenrola. Cheira a laboratório, desde a produção (como sempre a cargo de Rod Argent, um veterano com a escola toda, auxiliado por Peter Van Hooke) até aos próprios maneirismos vocais soando a “trabalho de casa”, passando inclusive pela própria pose corporal. Acerca da voz de Tanita Tikaram disse a “Q-Magazine” que “era incapaz de soar mal”. É precisamente disso que se trata, do predomínio da forma exterior, do bonito e do agradável, sobre a beleza verdadeira, nua e por vezes bruta, que às vezes até pode não “soar bem”. Tanita é dona de uma voz atraente. Serve-se dela para cantar canções doces, nunca agressivas, que às vezes tocam ao de leve no firmamento estético da tal Suzanne, como é nitidamente o caso de “Hot Pork Sandwiches”.
Para além disso, neste disco, Tanita Tikaram parece querer abandonar de vez certas tonalidades pretensamente celtas, de resto mais sugeridas que reais, presentes no álbum de estreia, “Ancient Heart”, trocadas por uma desejada (e ainda incipiente) negritude a que tentar dar voz em temas como “Mud in any Water” ou “Me in Mind”, neste último o naipe de metais e os coros recordando a “soul” bem swingada dos velhinhos Foundations.
Para trás ficou a participação no já citado álbum do irlandês Davey Spillane, para dar lugar aos sopros (e ao violino de Helen O’Hara) da “The Section” (na qual figura o ilustre trompetista da ECM, Mark Isham), que aqui pintam com cores quentes as frágeis e delicadas canções da menina Tikaram.
De “Ancient Heart” até este “Everybody’s Angel”, passando por “The Sweet Keeper”, manteve-se o essencial: a fidelidade a um estilo introspectivo que, paradoxalmente, recorre a formas musicais tão extrovertidas como são normalmente as da “country music” (embora Tanita seja inglesa…), traduzido em baladas que acariciam o ouvido, mas, por enquanto, incapazes de elevar a intérprete ao nível superior hierárquico das grandes autoras-compositoras da actualidade. Não que ela pareça importar-se muito, mas, para ouvidos capazes de escutar mais fundo, pode tornar-se incómoda a sombra insistente da tal americana que toca guitarra e conta/canta histórias que, de tão vividas e sentidas, chegam a arrepiar. A diferença existente entre uma “pretty baby” e a “velha” senhora. **

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Mike Westbrook Band – “Off Abbey Road”

Pop Rock

13 FEVEREIRO 1991
LP’S

MIKE WESTBROOK BAND
Off Abbey Road

CD Audio One, distri. Dargil

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Ciclicamente o fenómeno repete-se: repescam-se álbuns inteiros dos Beatles, respeitando o alinhamento original das canções, para as submeter a toda a espécie de manuseios. Mike Westbrook, pianista, compositor, arranjador e dirigente de uma das “big bands” inglesas mais conceituadas, músico há muito ligado à escola do “novo jazz” britânico dos finais da década de 60 e, como todos os ingleses, apreciador de uma boa piada, resolveu “trabalhar” o material de “Abbey Road” e “dar-lhe a volta”. Reformulou a estética beatleniana, transpondo-a para um contexto jazzístico não excessivamente radical. Encomendado para um festival Beatles em Itália, este trabalho apresenta-se agora gravado ao vivo no festival de jazz de Willisau, em Agosto de 1989, por uma banda de oito elementos de que fazem parte o guitarrista Brian Godding (tocou com os Magma, de Christian Vander), o vocalista “freee” Phil Minton e o saxofonista Alan Wakeman (parente do pirotécnico teclista Rick do mesmo apelido). “Off Abbey Road” é a transposição bem sucedida e humorada do universo pop para as liberdades formais concedidas pelo jazz, que a cada momento avança em explorações rítmicas e improvisatórias, alicerçadas nalgumas das canções mais comerciais do famoso quarteto. ***



Public Image Ltd. – “The Greatest Hits, So Far”

Pop Rock

6 EVEREIRO 1991
REEDIÇÃO

PUBLIC IMAGE LTD.
The Greatest Hits, so far

LP duplo e CD, Virgin, distri. Edisom

pil

A colectânea traça em traços gerais, e por ordem cronológica, as principais linhas de força que ao longo dos anos determinaram o percurso estético da banda liderada por Johnny “Ex-Rotten” Lydon. Desde os tempos em que não quis ser “punk”, ou teve medo ou fartou-se ou vá lá saber-se porquê, até à imposição progressiva da imagem de qualidade e prestígio de que actualmente desfruta. Desde 1978, várias personalidades tiveram direito a “imagem pública”, com destaque para Jah Wobble, hoje senhor de terras mais exóticas. Mudaram-se os nomes, manteve-se a vontade, coragem e lucidez do rapaz que queria a anarquia no Reino Unido. Quanto às razões que terão motivado a extinção, para muitos prematura, dos Sex Pistols, talvez a letra de “Public Image” possa fornecer alguns esclarecimentos: “Dois lados para uma única história./ Alguém tinha que me parar./ Não sou o mesmo que era quando comecei,/ não quero ser tratado como uma propriedade” ou ainda, na mesma canção: “Atrás da imagem havia ignorância e medo.” Mas medos passados não movem moinhos e este disco não pára um momento quieto; enérgico e inteligente na maneira como as palavras de Lydon, incisivas e amiúde cruéis, se cruzam e digladiam contra o vórtice instrumental. Os PIL socam na cabeça e no estômago, em golpes, nunca baixos mas de baixo pneumático, sejam eles desferidos por Jah Wobble, Bill Laswell ou Allan Dias. A guitarra acaricia como uma serra eléctrica. A electrónica perfura, tal qual uma broca de dentista. Brutamontes? Bill Laswell chamou em tempos ao ex-Sex Pistols “Ornette Coleman dos vocalistas ‘new wave’”. Com ele já trabalharam nomes como Ginger Baker, Tony Williams, Larry Shankar e Ryuichi Sakamoto, nenhum deles propriamente “mãozinhas de cimento”. Em “Greatest Hits” quase não há pausas para respirar. De “Death Disco”, “Memories” (várias vezes a voz do cantor lembra a do velhinho Roger Chapman, dos Family…), “Careering” (em registo Einstürzende Neubauten, para uma hipotética homenagem a um dos seus heróis, Peter Hammill, que por sinal compôs uma canção com o mesmo nome), “Flowers of Romance”, “This is not a Love Song”, “Rise” (manifesto da produção Laswell) até ao “funky” tribal de “The Body” e “Warrior”, os PIL fazem de cada tema uma celebração exuberante do anticonvencionalismo. No final, um tema inédito: “Don’t Ask me” – canção pop que condensa o Apocalipse numa gota de mel. ****

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