Arquivo da Categoria: Críticas 1991

Kitaro – “Live In America”

Pop-Rock Quarta-Feira, 18.09.1991


KITARO
Live In America
2XLP / CD, Geffen, distri. BMG



Tornado mundialmente conhecido por ter composto a banda sonora da série televisiva documental Silk Road / A Rota Da Seda (registada em vários volumes discográficos), o japonês Kitaro passou a referência obrigatória nos circuitos “new age”, nomeadamente nos Estados Unidos, onde o “stress” citadino é aliado preferencial das editoras deste género de sedativo musical.
Adepto das sonoridades analógicas, Kitaro parece neste disco ter-se rendido por fim ao império dos “samplers”. Discípulo de Vangelis e do compatriota Isao Tomita (especialista na recriação em sintetizadores de peças clássicas), Kitaro viaja aqui por paisagens povoadas por harpas, flautas e regatos digitais, por vezes com resultados que fazem esquecer a proverbial mediocridade e monotonia do género (como em toda a sequência do primeiro lado).
Infelizmente, o resto não está à altura das promessas iniciais, descambando no mais detestável “rock planante”, evocativo de atrocidades como aquelas perpetradas, há anos atrás, pelos Space de má memória. Sinfonismos caducos do piorio, sequenciadores deixados a funcionar enquanto os músicos foram almoçar, pompa balofa sem circunstância, fazem deste duplo uma xaropada irritante. “The Light of spirit”? “Cosmic love”? Se misticismo é isto, regressa camarada Marx, estás perdoado.
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Kraftwerk – “A Máquina, Peça A Peça” (artigo de opinião | discografia)

Pop-Rock Quarta-Feira, 14.08.1991


A MÁQUINA, PEÇA A PEÇA


Ao Longo de quase duas décadas, com intervalos de produção mais ou menos alargados, a discografia dos Kraftwerk representa a expressão máxima da modernidade e a apologia irónica do “homem.máquina”. Agora, na sequência do êxito de “The Mix”, os álbuns originais “Radio Activity”, “Trans Europe Express” e “The Man Machine” vão ser repostos em breve no nosso mercado, mas o que se impõe é a retrospectiva integral.

KRAFTWERK / ORGANIZATION, 1972

Duplo álbum raridade editado na Vertigo, no qual os Kraftwerk antecipam a apoteose metálica que, anos mais tarde, os seus compatriotas Einstuerzende Neubauten ou os ingleses Test Dept. se encarregaram de celebrar. Numa Berlim sentão seduzida pelo misticismo planante dos Tangerine Dream e de Klaus Schulze, os Kraftwerk moldavam com a argamassa de Cage, Stockhausen e os resíduos estruturais do concretismo, esculturas de água e de metal, em reverberações corrosivas que depois se haveriam de chamar “música industrial”. Outros agrupamentos germânicos da época, Harmonia, La Dusseldorf, Cluster (cujo álbum “Cluster II” consitui o primeiro grande manifesto do “som industrial” ou os Neu! Viriam, cada um a seu modo, explorar as vias abertas pelos Kraftwerk, formando um núcleo vanguardista surgido precocemente nos anos em que quase todos se preocupavam mais com as imensidões cósmicas do que com abeleza claustrofóbica das grandes fábricas do Ruhr.

RALF AND FLORIAN, 1973

As grandes avalanchas sónicas do primeiro álbum são recicladas num carrossel minimalista que pela primeira vez provoca nos neurónios ãnsias de dançar. “Elektrisches roulette” ou a rumba ciberpaquidérmica “Tanzmusik” (“música de baile”) demosntram até que ponto Terry Riley tinha razão quando defendia que o infinito era circular. “Kristallo” e sobretudo a frescura de frutos e paisagens tropicais de “Ananas symphonie” acariciam o corpo eléctrico de Bradbury e abrem caminho para as sedimentação ambientalistas que Brian Eno transformaria em género autónomo.

AUTOBAHN, 1974

A auto-estrada e o fascínio do universo linear, ideal para se chegar ao novo mundo, dirigido por controlo remoto. “O automóvel é um instrumento de música”, diziam então Ralf Hütter e Florian Schneider, pela primeira vez auxiliados nas percussões robóticas por Wolfgang Flür e Klaus Roeder. Conny Plank fornecia a garagem, mas, para os Kraftwerk, o estúdio convencional começava a ser pequeno para a desmesura do projecto. A consola auto-suficiente da “fábrica” portátil Kling Klang seria a solução e o veículo privilegiado na construção do império electrónico. “Wahn wahn wahn, das ist autobahn” – transmite o auto-rádio à saída de uma curva, consumando a ultrapassagem definitiva da “Fun fun fun” demasiado humana dos Beach Boys. A “Folk” industrial nascia em 22m30 de viagem através dos arquétipos do homem como eterno transeunte que foram “top” nos Estados Unidos e deveriam servir de exemplo à nossa Junta Autónoma de Estradas. O segundo lado despede-se do céu e das delícias da sonoridade analógica.

RADIO ACTIVITY, 1975

Considerado à época uma desilusão, “Radio Activity” permite aos Kraftwerk a descoberta das melopeias infantis e o abuso da melodia simplista. A rádio deixa de passar música e torna-se ameaçadora. “Eadio activity, discovered by madame Curie, is here to stay, for you and me” – a mensagem, dita desta maneira, era difícil de levar a sério, mas Chernobyl viria a endurecer o conceito, juntando-lhe a dimensão da tragédia (os Kraftwerk acrescentariam mesmo, por causa da catástrofe, novos versos ao tema, em “The mix”). “Airwaves” flutua no ar com a insustentável leveza do vazio pós-nuclear. Mas como numa novela de Philip K. Dick, a realidade é sempre outra coisa e a consciência perde-se sem querer no labirinto das suas próprias mutações. A Europa dançava a valsa dos electrões.

TRANS EUROPE EXPRESS, 1977

Interrompida pelo álbum anterior, a viagem prossegue agora de comboio, que substitui o automóvel, como meio de transporte para o futuro. Síntese magistral de uma tradição europeia reinventada (Franz Schubert de martelo-pilão, a destruir os alicerces românticos), na miragem de uma prosperidade pós-industrial ou na nostalgia totalitária de um continente sem fronteiras. Os Kraftwerk atingem o domínio pleno das técnicas manipulatórias do imaginário contemporâneo. O horror de uma viagem sem fim com destino ao inferno (McLuhan chama-lhe a “aldeia global”) é camuflado pelo polimento extremo do som e pela depuração da palavra, reduzida ao essencial e por isso com um máximo de eficácia. Numa Europa “Endless”, até ao infinito, esmagada no clamor de “metal on metal”, “Trans Europe Express” deu uma alma à máquina e ensinou David Bowie (de “Station to Station”) a ser moderno.

THE MAN MACHINE, 1978

Título óbvio para a continuação de um projecto único na música ocidental do nosso século – a simbiose harmoniosa entre o homem e a máquina, simbolizada na colagem dos músicos e enfatizada pelas referências estéticas a Lissitsky e ao construtivismo russo. “As máquinas respondem-nos directamente e nós às máquinas” – declarava Ralf Hütter a propósito de “We are the robots”, levando ao absurdo o termo comunista “robotnik” – o trabalhador perfeito, como peça da máquina omnipotente que é a sociedade materialista.
Emoção geométrica. Paraíso matemático. Futuro a escurecer em metrópoles banhadas na cor gelada de “néon lights”, tornadas substitutas das estrelas na arquitectura do cosmos.
O mundo deixa-se ofuscar pelo novo brilho – “Looking for a perfect beat” dos Afrika Bambaata deve a inspiração aos homens-máquinas. “The model” é êxito nas Filipinas, cantado por uma intérprete local. “Trans Europe Express” assume a paternidade da “Cold Wave” ou da pop electrónica dos Human League, Depeche Mode, Telex, Orchestral Manoeuvres in the Dark, John Foxx, New Musik, Fad Gadget, entre muitos outros.

COMPUTER WORLD, 1981

Bem instalados no coração da máquina, os Kraftwerk inventam novos “vídeo games” para consumo do homem automático. “Pocket Calculator” é tocado em calculadoras de bolso Casio e Texas, que, nos concertos ao vivo, são distribuídos à assistência, convidada a com eles improvisar. Data desta época a remodulação dos estúdio Kling Klang, de maneira a permitir a sua utilização em palco, concedendo ao conceito duplo de “hardware / software” a dimensão do espectáculo. Anulada a tensão dialéctica entre racionalidade luciferina (“Numbers”) e a emoção, resta a derradeira mutação interior a capitulação do humano, demasiado humano, na pureza fria do amor computorizado.

ELECTRIC CAFÉ, 1982

“Boing boom tschak”, cadência onomatopaica com que os Kraftwerk se servem para parodiar o Hadesteleológico, imitando com a voz o som dos sintetizadores e introduzindo uma nota de humanidade e humor à implacabilidade do projecto, “Electric Café” é o ponto de diversãopossível num pesadelo já consumado. Muito minimal para cérebros normais – “Techno pop”, “Musique non stop” -, a vida, considerada abstracção, só através da repetição “ad infinitum” da melodia como hipnose terapêutica, consegue o sucedâneo artificial capaz de manter a máquina em funcionamento. “Sex object” e “The telefone cal” falam da solidão. Gerado por um computador o homem será ainda o animal que ri?

Yello – “Baby”

Pop-Rock Quarta-Feira, 31.07.1991


A MÁQUINA DO PRAZER

YELLO
Baby
LP / CD, Mercury, distri. Polygram



Entre os passatempos preferidos de Dieter Meier, vocalista de olho azul e ar alucinado do suo suíço Yello, contam-se o circuito regular pelos casinos da Europa e a narração de feitos de um antepassado gorila.
Curiosidades que ajudam a explicar um pouco o carácter lúdico e o humor “nonsense” da música e filosofia do grupo. “Baby” é, até à data, o exemplo mais acessível, mas também mais previsível dos seus métodos e estratégias de sabotagem.
Os primeiros exercícios “Solid Pleasure” e “Claro Que Si” não escondem o fascínio dessa época pela lógica do absurdo e pelas desfocagens estruturais, ao mesmo tempo que revelavam já uma das facetas posteriormente exploradas até à exaustão – a colagem de estilos, a mestria absoluta da electrónica, a construção de cada canção como uma curta-metragem experimental, a tendência para o calor e coloridos latinos (Dieter Meier e Boris Blank cedo deixaram crescer o bigode, o último adoptando a pose de “matador” de olhar “macho” e cabelo empastado em brilhantina).
“You Gotta Say Yes to Another Excess”, tribal até ao absurdo, heterodoxo até à loucura e, ainda por cima, dançável, atinge o apogeu eufórico na arte de conjugação dos extremos, bem expresso na imagem do gorila, “pai do excesso”, que desce da floresta amazónica até ao empedrado de Montmatre. Faltava envernizar o produto e apresenta-lo envolto em roupagens “à la page”, destinado ao consumo nas discotecas. “One Second”, “Flag” e este “Baby” limitam-se a polir as arestas mais cortantes e a exagerar a sedução do cabaré intergaláctico entretanto tornado imagem de marca. Em “Baby” são ainda e sempre o apelo fantasmagórico de Carmen Miranda, o calor dos trópicos, o “filme negro” e a “dolce vitta”, segundo as regras do acaso falseado e os ensinamentos rítmicos dos Kraftwerk. Abandonado o obscurantismo experimental da fase inicial, os Yello transformaram-se numa espécie de máquina de prazer que neste disco continua a trabalhar em pleno, ainda que os mecanismos do seu funcionamento já não sejam segredo para ninguém.
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