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King Crimson – “In the Wake of Poseidon” + King Crimson – “Lizard” + King Crimson – “Islands”

7 de Abril 2000
REEDIÇÕES


King Crimson
In the Wake of Poseidon (9/10)
Lizard (10/10)
Islands (8/10)
Virgin EG, distri. EMI-VC

As máscaras do lagarto



Esqueçam todas as baboseiras que ouviram sobre a música progressiva, que nunca soube verdadeiramente o que era. Esqueçam e ouçam estes três álbuns dos King Crimson, para repensarem tudo, em novas reedições cartonadas, miniaturas dos vinilos, com capa de abrir, que assim se juntam à de “In the Court of the Crimson King”, na celebração do 30º aniversário das edições originais. Além da apresentação, excelente, o som é soberbo, fruto de remasterizações feitas com máximo cuidado.
“In the Wake of Poseidon” é o segundo álbum dos King Crimson (1970), depois de “In the Court…”, prolongando e refinando a estética seguida então pelo grupo, uma fusão absolutamente inovadora para a época de rock, classicismo, jazz e canções compostas sobre a guitarra e o mellotron de Robert Fripp e as letras de Peter Sinfield, que distinguiam os King Crimson de qualquer outra banda progressiva dos anos 70 (apenas os Van der Graaf Generator os conseguiram ultrapassar…).
Robert Fripp amenizou um pouco neste disco a violência do álbum de estreia, enveredando por uma complexidade da composição que viria a atingir a perfeição no álbum seguinte, “Lizard”. Ainda com Greg Lake e Michael e Peter Giles no grupo, “In the Wake of Poseidon” inclui clássicos como “Pictures in a city” (espécie de continuação de “21st century schizoid man”, do primeiro álbum), o título-tema, uma extensa balada de cores classicizantes conferidas pelo mellotron, o tema satírico (prática que viria a institucionalizar-se nos álbuns seguintes), “Cat food”, com uma fenomenal intervenção no piano de Keith Tippett e a sequência instrumental, dividida em três partes, “The devil’s triangle”, a ilustrar a faceta luciferina desde sempre cultivada por Fripp. Assustador.
Mas “Lizard”, editado também em 1970, vai mais longe, onde nenhum outro grupo fora antes. Obra-prima absoluta na discografia do grupo (opinião não partilhada pelo seu líder, o réptil da guitarra, Robert Fripp…) e um dos marcos da música progressiva dos anos 70, “Lizard” foi recebida quando do seu lançamento pela crítica inglesa como uma obra cuja estrutura a fazia rivalizar com as grandes peças dos compositores clássicos eruditos. Não é um álbum típico dos King Crimson, da mesma forma que “Their Satanic Majesties Request” não é um álbum típico dos Stones, por exemplo. Obra ímpar, houve quem tentasse caracterizá-la como jazz e quem demorasse dezenas de anos até finalmente a compreender e aceitar. Servido por uma produção que coloca em relevo o mínimo detalhe musical, “Lizard” é um monumento que, volvidas três décadas sobre a sua edificação, mantém a solidez das grandes catedrais.
O tema de abertura, “Cirkus”, inclui uma das mais poderosas entradas instrumentais de todos os tempos, com a irrupção abrupta do mellotron a interromper o que de início aparenta ser uma balada, seguida de um solo deslumbrante de swing de Mel Collins no saxofone. “Indoor games” e “Happy family” (canção surrealista sobre a dissolução dos Beatles…) transportam-nos para um universo paralelo onde o free jazz, a atonalidade, a sobreposição de harmonias, mudanças súbitas de compasso e complicados efeitos de estúdio acentuam a catadupa de imagens herméticas sugeridas pela escrita de Sinfield. O primeiro “lado” do disco termina com uma curta balada de ambiente medieval, “Lady of the dancing water”.
Mas é no título-tema, uma longa suite dividida em várias partes, que Fripp revela todo o seu génio como compositor e arranjador. O tema evolui de uma introdução vocalizada por Jon Anderson, dos Yes, para uma verdadeira sinfonia sobre a guerra que culmina nos dez minutos de antologia de “The battle of glass tears”. Os instrumentos combatem entre si como entidades sobrenaturais numa invasão do cérebro e dos sentidos. Sons lancinantes formam um caleidoscópio de ritmos e timbres reinventados segundo a segundo, num jorro contínuo que emerge como a lava de um vulcão irrompendo do inconsciente, até alcançarem uma dimensão cósmica. Free rock, teste projectivo, alucinação sonora, chamem o que quiserem a esta música, que permanece como testemunho perene de um músico que ainda hoje continua a subverter e a remodelar as regras da música popular.
Editado em 1971, o álbum seguinte, “Islands”, com os novos elementos Boz (baixo e voz) e Ian Wallace (bateria), funciona quase como um anticlímax. É o álbum onde as obsessões de Fripp pela música clássica vão ao ponto de ter convidado uma cantora lírica para cantar no tema de abertura, “Formentera lady”, e assinado em “Prelude: Song of the gulls” uma genuína peça de música de câmara. Mas bastaria o instrumental “Sailor’s tale”, marcado por um solo arrasador de Robert Fripp na guitarra eléctrica, para garantir a este álbum, que também inclui o tema satírico “Ladies of the road”, desta feita sobre as prostitutas, um lugar de relevo na discografia do grupo. Depois da gravação ao vivo do álbum “Earthbound”, os King Crimson fariam uma primeira paragem, reaparecendo em 1973 com “Lark’s Tongues in Aspic”, com uma nova formação e uma mudança radical de estética musical, iniciando uma fase que continuaria em “Starless and Bible Black” até explodir num hard rock metálico e visceral em “Red”.



Traffic – “Mr. Fantasy” + Taste – “On The Boards” + Manfred Mann – “The Very Best Of the Fontana Years” + Jane – “Between Heaven and Hell” + Edgar Broughton Band – “Oora”

20 Outubro 2000
REEDIÇÕES


Traficantes de sonhos



Como Van Morrison, Steve Winwood é um daqueles cantores brancos que nasceu com a alma dos cantores negros de “soul”. Tendo-se notabilizado nos Spencer Davis Group, seria, contudo, nos Traffic que a sua voz ganharia maior projeção. Os Traffic foram uma das bandas ilustres dos anos 70 e a sua mistura de “rhythm ‘n’ blues”, “soul”, jazz e progressivo rivalizava na época – início dos anos 70 – com a invasão proveniente do outro lado do Atlântico protagonizada pelos Chicago Transit Authority e Blood, Sweat & Tears. Sem o poderio das secções de sopros destas duas bandas, os Traffic primavam antes pela subtileza, pondo em destaque as capacidades vocais e os teclados de Winwood e com Chris Wood, nos saxofones e flautas, a assumir-se como o principal solista do grupo, cuja formação clássica era completada pelo percussionista Jim Capaldi e o multinstrumentista Dave Mason (guitarra, mellotron, sitar, baixo, tamboura). “Mr. Fantasy”, de 1967, quanto a nós o melhor álbum de toda a discografia dos Traffic, surge agora remasterizada de maneira a proporcionar uma imagem fidedigna daquela que foi uma das bandas precursoras da estética de fusão. Baladas psicadélicas, como “Heaven is in your mind” e “Dear Mr. Fantasy” e explorações sónicas onde cada instrumento era pensado como uma extensão não só do músico como do estúdio – em forma de fanfarras surrealistas, canções-labirinto, excentricidade teatral, becos melódicos que encontram inesperadas maneiras de fazer sentido, secções instrumentais bizarras a fazer lembrar os Van Der Graaf Generator (que, na altura, nem sequer tinham ainda gravado…) – juntam-se numa obra única que permanece como um clássico da época. Também disponível em versão remasterizada está outro álbum importante dos Traffic, “John Barleycorn must Die”. (Island, distri. Universal, import. Lojas Valentim de Carvalho, 9/10)

Rory Gallagher, nome inesquecível para os amantes da guitarra rock, faleceu há cinco anos, na sequência de uma transplantação do fígado mal sucedida, deixando uma vasta obra que, se não primava pela originalidade, mostrava um executante de extraordinárias capacidades. A par de toda a sua discografia a solo, entretanto disponível em versões remasterizada, pode igualmente apreciar-se a sua música através do grupo a que pertenceu antes de enveredar por uma carreira solitária, os Taste. Em “On the Boards”, de 1970, os riffs de guitarra evidenciam todo o respeito que Gallagher tinha pelos “blues”. Mas Rory Gallagher, além de tocar guitarra como ninguém, fazia questão de mostrar que também sabia compor uma canção e, até, tocar saxofone… Para quem ainda regressa com prazer à música dos Cream, por exemplo, a descoberta dos Taste poderá ser gratificante. (Polydor, distri. Universal, 7/10)

Para se compreender até que ponto a pop inglesa dos anos 60 legou um manancial fantástico de canções pop estado de perfeição, não chega referir o nome dos Beatles e dos Kinks, apesar de estas duas bandas serem as que tinham nas suas fileiras dois dos génios da música popular, respetivamente Paul McCartney e Ray Davies. Mas se bandas houve que apenas deixaram a sua marca na Historia através de uma única canção, impressa nos “charts” com o brilho de um cometa, outras houve detentoras de uma obra sólida que com regularidade foram capazes de sobreviver ao monopólio dos “fab four”. Bandas como os Hollies ou os Manfred Mann, estes últimos agora disponíveis com a coletânea “The Very Best of the Fontana Years”. Eram os anos dourados da pop para a qual os Manfred Mann contribuíram como canções inesquecíveis como “Mighty quinn”, “Ha! Ha! Said the clown”, “Semi-detached suburban Mr. James”, “My name is Jack”, “Fox on the run”, “Ragamuffin man” ou “Up the junction”, todas elas incluídas na presente compilação e dignas da remasterização que não chegou a ser feita. Manfred Mann (nome do líder e teclista de origem sul-africana) formaria a seguir os jazz-progressivos Manfred Mann Chapter Three (dois álbuns raros na Vertigo a descobrir) para finalmente se estabelecer com o progressivo mais prosaico da Manfred Mann Earthband. (Spectrum, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10)

Na Alemanha, para quem não cavalgava na crista da onda do que de mais original e alucinado dava pelo nome de “krautrock”, era difícil escapar à influência anglo-saxónica. Pertenciam a esta categoria os Jane, uma honesta banda de hard-rock sinfónico apesar de tudo com uma costela cósmica, cuja discografia (13 albuns, entre 1972 e 1989) não suscita grandes elogios. “Between Heaven and Hell” (1977), porém, distingue-se dos restantes, sobretudo graças à longa suite conceptual que dá titulo ao álbum, nitidamente influenciada por “Ummagumma” e “Atom Heart Mother”, dos Pink Floyd, mas suficientemente carregada de ideias interessantes para não passar despercebida. “Space rock”, secções clássicas, efeitos vocais a cargo de um empertigado émulo de Roger Water dão a ouvir a banda sonora, entre o kitsch e a majestosidade, do paraíso e da danação. No tema final, talvez chamuscados pelas labaredas, os Jane enlouqueceram e entregaram-se nas mãos dos Velvet Underground. (Repertoire, import. FNAC, 7/10)

Feios, porcos e maus. Mas um “must” no circuito de espetáculos rock dos anos 70. Eram assim os Edgar Broughton Band, um gang de hard rock composto por músicos hirsutos, adeptos dos “blues” e do “speed”. As duas coisas juntas resultaram em “hits” da estudantada como “Out demons out” e em riffs de blues psicadélico primário. Com boa vontade, os EDB podiam passar por uma versão camionista de Captain Beefheart, embora também haja quem (decerto com a cabeça já não em muito bom estado) os compare aos Grateful Dead. “Oora”, de 1973, é o seu álbum mais sofisticado, se sofisticação representa a concessão a harmonias pop, guitarras acústicas e uma simbologia imagética que remete para os Hawkwind e os Motorhead. A verdade é que a inclusão de um naipe de metais, violino, efeitos eletrónicos (também do tipo osciladores apontados ao infinito dos Hawkwind, de “X In Search of Space”) e – pasme-se – harmonias vocais from “outer space”, tornam “Oora” num disco suficientemente freak e variado (além de Beefheart, lembra, a espaços, Eric Burdon & the Animals) para justificar uma chamada de atenção. Era uma das características mais interessantes dos anos 70: poder gravar-se todos os tipos de loucura. Como esta. (BGO, distri. Megamúsica, 7/10)



Gong – “Zero to Infinity”

31 de Março 2000
DISCOS – POP ROCK


Daevid Alien, o chá-man

Gong
Zero to Infinity (8/10)
One Eyed Salmon, distri.



“Zero to Infinity” é o capítulo cinco da saga de Zero, personagem criada nos anos 70 pelo australiano Daevid Allen (“Alien” será um apelido mais apropriado…) para os Gong, iniciada oficialmente na trilogia “Radio Gnome Invisible” (“The Flying Teapot”, “Angel’s Egg” e “You”) e continuada, já nos anos 90, com “Shapeshifter”, Allen faz, de resto, um resumo dos anteriores episódios desta história no livrete deste “Zero to Infinity”, recordando os tempos em que Zero entrou pela primeira vez em contacto com o planeta Gong através das emissões telepáticas da Rádio Gnome e a aterragem dos seus habitantes, os “pot head pixies”, no Tibete, num domingo de Páscoa de 1966… Através de múltiplas peripécias, iniciações e encontros com estranhas personagens como os Octave Doctors e a bruxa e deusa-prostituta Yoni (protagonizada por Gilli Smyth, a voz de sereia do mar de haxixe dos Gong), Zero acaba finalmente por morrer algures na Austrália (trespasse documentado em “Shapeshifter”), ressurgindo em “Zero to Infinity” apenas como entidade astral, sem corpo físico.
Zero aloja-se no córtex dos terrestres, experimentando as suas vivências e os seus pontos de vista. Uma alusão à vida no planeta Terra cada vez mais reduzida a uma experiência virtual, que Daevid Allen desmonta através de um sentido de humor não tão “nonsense” como pode parecer à primeira vista. Zero acaba com os “destruidores de sonhos” que actuam dentro dos pesadelos dos humanos, transforma-se em andróide (passando a chamar-se Spheroid Zeroid…), discute com o Professor Paradox, encontra a criatura Gongolope e, finalmente, reconhece que o nirvana está em conseguir fazer uma chávena de chá decente. Não um chá qualquer, mas um “infinitea”, um chá que se confunde com o Infinito. Chama-se a isto chá-manismo. Confusos? É caso para isso, sobretudo para quem penetra pela primeira vez nos mistérios do universo Gong. Porém, para os iniciados na mitologia do grupo (descrita detalhadamente no “site” oficial do grupo, planetgong.co.uk, e o livro estará em breve nas bancas…), tudo encaixa no lugar certo, o que, no caso dos Gong, se situa na “ilha do qualquer lado”.
Em termos de sonoridade, “Zero to Infinity” está mais próximo da trilogia dos anos 70 do que “Shapeshifter”, com as típicas paisagens de electrónica planante criadas por Theo Travis (substituindo, com competência e num registo semelhante, o magnífico Tim Blake, teclista da formação clássica de “Radio Gnome Invisible”), alcunhado, segundo a tradição Gong, de Theodophilus Acidopholus. Sobre este fundo “cósmico-tripante”, que agora inclui samples de theremin, pairam saxofones jazzy e flautas orientalizantes, também pelo mesmo Theo Travis, que praticamente substitui o clássico Gongman, Didier Malherbe, presente neste álbum apenas em dois temas, “Magdalene” (nova personificação de Yoni/Gilli Smyth, em cânticos pedrada-de-haxe) e o longo “The invisible temple”.
Daevid Allen, com a sua nova alcunha Sri Capuccino longfellow, continua a manejar com a classe e a excentricidade de sempre os pedais da sua “glissando guitar”, a cantar como um lunático iluminado os mantras da sua filosofia e a aperfeiçoar a gramática do seu misticismo “sui generis”. Como em “Bodilingus”, um falso reggae em toada Can, onde entoa: “The testicle, my friend, is very mystical.”