Arquivo da Categoria: Blues

Santana – “Milagro”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 24.06.1992


SANTANA
Milagro
LP / CD Polydor, distri. Polygram

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Santana arrasta-se pelas vielas do misticismo como um pedinte a esmolar a inspiração que não vem. Num disco pródigo em milagres, este nunca se chega a realizar. Mas há outros. Como é possível, por exemplo, que um disco que reúne 29 convidados, entre sul-americanos mais ou menos anónimos, Larry Graham e Miles Davis, soar como uma amálgama incaracterística de “latino soul” requentado, sem ponta por onde se lhe pegue e uma única canção que se consiga salvar do lodo da mediocridade? Milagre! Como é possível, por outro lado, que a tortura se estenda por quase 70 minutos, na versão em vinilo? Milagre! O único milagre que traz algumas compensações espirituais é curto. Dura pouco mais de um minuto, chama-se “A Dios” e junta, por breves instantes, o trompete de Miles Davis com uma gravação de John Coltrane. O que prova mais uma vez que Santanas da casa não fazem milagres. (3)

Pat Metheny- “O Guitarrista Que É Conforme” 8televisão)

Televisão e Rádio >> Sábado, 04.04.1992

TELEVISÃO


O Guitarrista Que É Conforme



É BOM? É mau? Pat Metheny é conforme. Tecnicamente é um músico perfeito. O discurso da sua guitarra, acústica ou sintetizada, possui a força e a limpidez de um caudal de água. A nitidez do fraseado aprendeu-o com os mestres: Jim Hall, Django Reinhardt, Wes Montgomery. O buril de Manfred Eischer, durante toda a fase ECM, fez o resto, eliminando qualquer aresta mais áspera que pudesse subsistir. Os discos com o vibrafonista Gary Burton aí estão para o demonstrar. Mas é conforme. Quando a coisa descamba para o mau gosto, Pat Metheny cede ao pior dos vícios, o da facilidade, traduzida num jazz-rock de hipermercado que torna irrelevante um disco como “Still Live Talking” e quase repelente outro como “Letter from Home”.
A alternativa é esquecer estes pecadilhos (melhor ainda é não chegar sequer a ouvi-los) e procurar noutras latitudes. Três momentos chegam para não levar o guitarrista muito a sério quando afirma que a sua “primeira pulsão sexual” foi provocada pela voz de Astrud Gilberto, em “Garota de Ipanema”, ainda por cima na televisão: “Question and Answer”, com Dave Holland e Roy Haynes, “Song X”, com Ornette Coleman (um dos seus mestres assumidos embora não seja provável que o saxofonista lhe tenha provocado uma pulsão do mesmo tipo que Astrud Gilberto) e “Electric Counterpoint”, uma peça minimal repetitiva composta por Steve Reich.
Outras pulsões, hoje em “Outras músicas”, para ouvir ou experimentar. É conforme.
Canal 2, às 19h45

Genesis + Rui Veloso – “Chuva de Estrelas” (dossier, só em parte escrito por FM – Natal)

Pop-Rock Quarta-Feira, 11.12.1991 (“dossier”)


CHUVA DE ESTRELAS

Este Natal é uma fartura. É costume artistas consagrados aproveitarem a quadra para regressar às lides editoriais. Mas poucos terão sido os anos, desde a saudosa década de 60, em que o período deu origem a tamanha colheita de novos discos de artistas de primeiro plano (para já não falar de compilações de êxitos). Diz-se que foi da guerra do Golfo, que fez as grandes editoras atrasarem para agora o produto que se previa para antes ou a exigirem antecipações de artistas que planeavam lançar mais tarde.
É esta “rentrée” recheada de vedetas que se revês no presente “dossier”. Consideram-se os nomes mais sonantes, num plano internacional ou nacional, que acabam de editar trabalhos originais de estúdio ou ao vivo. Trata-se de cada um a título daquilo que é fundamental, ou seja, a sua dimensão de fenómeno mediático e comercial, recordando-se os antecedentes e o contexto que assistiram a tais retornos. Nessa medida, as avaliações dos discos respectivos passam para segundo plano.

GENESIS



Phil Collins, Tony Banks e Michael Rutherford chamam “nova era” ao período discográfico iniciado com “Abacab” e cujo penúltimo capítulo remontava a 1986 e a “Invisible Touch”, que, diga-se de passagem, foi número um em tudo o que é sítio. Os três Genesis enaltecem as virtudes do estúdio próprio, que, dizem eles, lhes garante um som impecável. Aliás, pode dizer-se que estão em condições de enaltecer tudo. Phil Collins, então, não tem razões de queixa.
Assim, os motivos que os levaram a não pôr, por enquanto, cobro ao dinossauro são de ordem exclusivamente artística. Faz-lhes falta o som de grupo, a companhia mútua, o acréscimo de criatividade segundo a lei de que “três cabeças trabalham melhor que uma cabeça só”.
“We Can’t Dance” é ainda um objecto terapêutico, uma purga, remádio santo para o “stress” dos artistas: “aliviou-nos da tensão” – garante Tony Banks, o mais tenso dos Genesis, por acaso aquele que dos três se saiu menos bem nas actividades a solo e, por isso, o mais atreito à hipertensão.
Passados tantos anos sobre as saídas de Peter Gabriel e Steve Hackett, os Genesis resolveram que queriam ser “diferentes”. Por exemplo, Tony Banks descobriu que existiam outros registos no sintetizador para além das cordas sintéticas e que era possível, com um sampler, imitar um som de órgão. No próximo álbum, lá para 2010, talvez nos mostre como é possível produzir, com um órgão, o som de um sampler sintético de cordas. Tony Banks é um infeliz. Sente-se “frustrado” pela falta de sucesso dos seus discos. Os outros apiedaram-se.
Para Phil Collins, mais um menos um disco dos Genesis tanto se lhe dá como se lhe deu – é mais uma diversão que outra coisa, uma pequena extravagância “raffiné”. Está bem instalado na vida. Não necessita de fazer ondas para fazer dinheiro. Um “aid” aqui, um protesto ali, um depoimento humanitário acolá garantem-lhe a manutenção da imagem “clean” e o caudal de divisas. Condescende em dar-se ares de rufia e diz que gosta de pornografia e que é contra a censura. Ah, valente!
Mike Rutherford toca baixo e tem cara de parvo.
Seria muito bonito, e muito digno, e tudo isso, a lenda, o mito, o nome, se não nos quisessem impingir os discos. Sim, é verdade, o Natal é boa altura para “dar música”. Mas o que é de mais enjoa. Adeus ó vão-se embora.

RUI VELOSO



Não edites amanhã o que podes editar hoje, parece ser o lema das editoras neste final de ano. Coincidência ou não, portugueses e estrangeiros escolheram o Natal para deitar cá para fora os frutos, verdes ou maduros, nalguns casos podres, da sua inspiração. É um ver se te avias. À partida, com Rui Veloso, o risco de “flop” comercial é diminuto, tendo em conta que é o nome mais sonante do rock português, o que, com o empurrão das operações de “marketing”, garante desde logo o escoamento do produto.
Encomendado pela Comissão dos Descobrimentos e beneficiando de um “budget” que terá rondado os seis mil contos, “Auto da Pimenta” tem ainda por cima algumas vantagens adicionais: é um objecto de apresentação luxuosa que, independentemente do conteúdo musical, convida à aquisição. Tudo na embalagem, desde o grafismo imaculado à profusão de imagens que piscam o olho ao aventureiro dos mares que vive em cada um de nós, grita “comprem-me”. Goste-se ou não, ouça-se ou não, “Auto da Pimenta” não é difícil adivinhar que vai ser a prenda de Natal mais procurada. É um valor seguro, um “bibelot” cultural capaz de fazer boa figura na discoteca ou na compacteca, da mesma forma que a colecção encadernada das obras completas de Eça de Queirós serve para abrilhantar a estante da biblioteca.
Depois, há os Descobrimentos e blá, blá blá, somos todos heróis, o mar, o fado, caravelas e saudade, ah que saudades do Império (do cinema, bem entendido…), Camões, Fernão Mendes Pinto, o Centro Cultural de Belém e para o ano, se Deus quiser e não houver bronca entretanto, a CEE. Assim, quem este Natal não comprar “Auto da Pimenta”, não é bom português nem bom chefe de família.
O disco, coitado, não tem culpa nenhuma. É um bom disco, tão bom ou melhor que os outros já gravados pela dupla. Rui Veloso e Carlos Tê fizeram o que se lhes pedia, a revisão moderna da epopeia dos Descobrimentos, e fizeram-no bem. “Auto da Pimenta” é um manual honesto do “português moderno”, pintado com as cores do sonho. Uma aventura de trazer por casa.