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Arcebispos de Cantuária

21.05.2001
Arcebispos de Cantuária

Canterbury tornou-se uma lenda. Os novos músicos estão a redescobrir o imenso manancial oferecido por esta música que nos anos 70 se ergueu como uma catedral de um arcebispo louco no meio de um prado da velha Inglaterra.

LINK (CD 1) “Canterbury Tales – The Best of Caravan”
LINK (CD 2) “Canterbury Tales – The Best of Caravan”

Canterbury (Cantuária) é uma cidade inglesa situada no condado de Kent, a sudeste de Londres. Deu ao mundo os “Contos de Cantuária”, de Geoffrey Chaucer, e o Arcebispo. Mas isso foi antes de um pequeno núcleo de músicos se juntar na segunda metade dos anos 60 para formar o grupo que daria origem a um movimento e uma estética aos quais se convencionou chamar “cena de Canterbury” ou “som de Canterbury”.
O grupo chamava-se The Wild Flowers, nunca chegou a gravar qualquer álbum (embora, bem procurado, seja possível encontrar uma edição póstuma preenchida por actuações ao vivo) mas continha os alicerces dos dois pilares que sustentariam a primeira geração do “Canterbury Sound”: Soft Machine e Caravan. Kevin Ayers e Robert Wyatt, respectivamente vocalista e baterista dos Wild Flowers, formaram em 1967 os Soft Machine, aos quais se vieram a juntar o baixista Hugh Hopper, que também integrou os Wild Flowers, e Daevid Allen, o australiano excêntrico de cuja mente embotada pelos ácidos, o chá de haxixe, o espiritismo e as mensagens enviadas via rádio por entidades alienígenas, haveriam de brotar os Gong. Quanto aos Caravan, já tinham a sua primeira formação inscrita no “line-up” dos Wild Flowers: os irmãos David e Richard Sinclair, Richard Coughlan e Pye Hastings. É deste grupo que agora nos surge o pacote da sua discografia para a Deram, re-remastrizada e enriquecida com temas e informação adicionais.

No País Das Maravilhas
Mas que som era este, afinal, que, extinta nos anos 70 a base do Progressivo sobre o qual evoluiu até meados da década, se estendeu pelos anos 80, dos EUA ao Japão, em grupos como Happy The Man, However ou Kenso, e prosseguiu revitalizado pelos 90, onde foi adoptado pelo pós-rock de Chicago dos The Sea And The Cake ou pelos neo-psicadélicos Gorky’s Zygotic Minci?
A música, o estilo, a estética, as imagens com selo Canterbury ficaram demarcadas desde o início. Robert Wyatt e Richard Sinclair impuseram um estilo e uma filosofia vocais e poéticos que renegavam o tom mais politizado do “flower power”, como eclodira do outro lado ao Atlântico, em São Francisco, personalizado por bandas como os Jefferson Airplane e os Grateful Dead, em assumpção absoluta de uma “britishness” paralela à dos Beatles e dos Kinks, na pop.
Em vez dos mergulhos violentos na mente e das consequentes ressacas de Grace Slick e Jerry Garcia, imersos no “acid rock” e nas doutrinas pregadas pelo papa de LSD, Timothy Leary, Richard Sinclair e Robert Wyatt pegaram ao colo no lado mais surrealista e poético do psicadelismo. A Alice de Lewis Carroll bebeu o seu chá com o chapeleiro maluco às cinco em ponto, num prado de Kent. David Sinclair, nos Caravan, e Mike Ratledge, na “Máquina Mole”, estabeleceram o contraste. À suavidade, mas também às derivações intrincadas, tecidas como uma tapeçaria “nonsense”, que eram as canções moldadas pelas vozes pop de Richard Sinclair e Robert Wyatt (de que a canção “The Moon in June”, incluída no já divergente “Third”, dos Soft Machine, será o exemplo mais sublime), contrapuseram o “fuzz” do órgão electrónico e fraseados jazzy que dispensavam a herança do rhythm ‘n’ blues, onde foi beber a geração mais nova do rock progressivo.

Como As Flores De Um Jardim
Mas no fundo desta poção mágica que também albergava uma nostalgia difusa pela bossa-nova e aragens folk, agitava-se algo indefinível, uma elegância e um mistério que, apesar das inevitáveis dissidências que proliferariam através de uma miríade de correntes derivadas do som original, conferiam unidade ao “som de Canterbury”.
“Volume Two”, dos Soft Machine (1969), e “If I Could Do It All Over Again, I’d Do It All Over You” (1970), também o segundo álbum, dos Caravan, são os dois paradigmas da escola de Canterbury. A chávena de chá de Alice quebrar-se-ia na produção posterior destes dois grupos, em particular dos Soft Machine, que a partir de “Third” encetariam uma das aventuras mais fascinantes de um grupo pop pelo jazz. Os Caravan mantiveram-se mais tempo fiéis à fábula, cedendo apenas ao fim do quinto álbum, “For Girls Who Grow Plump in the Night” (1973).
Mas a aventura de Canterbury dispensava os seus progenitores. Criara-se uma espécie de família, cujos membros não cessaram de difundir, sob formas mais ou menos personalizadas, o legado dos Caravan de dos Soft Machine. O “Canterbury Sound” espalhara-se como as flores de um jardim, polinizando o Progressivo com a sua aura colorida. Apareceram radicais e moderados, dissidentes e tradicionalistas, cada qual acrescentando uma letra, uma frase, à história. Os mais ilustres foram os Hatfield and the North, com Dave Stewart, Pip Pyle e os irmãos Sinclair. Gravaram duas obras-primas que prolongaram o lado mais lúdico e swingante dos Caravan. O lado experimental e cerebral encontra-se nos Egg e, posteriormente, nos National Health, projectos de Dave Stewart, Gilgamesh e Soft Heap orientaram as “canterbury tales” segundo as coordenadas do jazz, os primeiros sob a batuta de Alan Gowen (já falecido, teclista “honorário” dos National Health), os segundos, segundo o comando de Hugh Hopper que, depois do terramoto a solo, “1984”, se dedicou a tentar fazer descarrilar o comboio do jazz-rock. O que os Soft Machine haviam perdido a partir de “Third”, conservou-o Robert Wyatt nos Matching Mole e Kevin Ayers na sua tão disparatada como genial discografia a solo. Os Gong, muitas vezes conotados, com ou sem razão, com o espírito de Canterbury, são algo mais. O seu bule de chá era uma nave espacial. E se estivermos atentos, percebemos que a sua “rádio gnome invisible” continua a emitir.
Canterbury tornou-se numa lenda. Os novos músicos, aqueles com dois dedos de testa, estão a redescobrir o imenso manancial oferecido por esta música que se ergue como a catedral de um arcebispo louco no meio de um prado da velha Inglaterra.
Richard Sinclair, em “R.S.V.P.”, de 1994, diz em jeito de despedida dessa época, numa das canções, “What’s rattlin’? (“O que é que está a fazer barulho?”): I’m bored with Caravan, Fleetwood Mac and Uncle Sam/I’m sick of Tangerine Dream, Hatfield and Soft Machine/Radio Gnome and Henry Cow/We’re not part of that now”, mas acaba a perguntar: “One question we all dream/”What’s doing Mike Ratledge? (…) What’s doing Robert Wyatt?/What’s doing Kevin Ayers?/What’s rattling Mike Doodlage?”.

David Sylvian – Uma Ampola De Tudo, Uma mão Cheia De Nada

21.09.2001
Uma Ampola De Tudo, Uma mão Cheia De Nada

David Sylvian dá a cara ao paradoxo. Esteta ou “estreta”, pop ou ambiental, pintor do artifício ou designer da simplicidade, artista do vazio ou apaziguador do caos, é possível escutar na sua música o zumbido de algo que não tem fundo. O silêncio pode ser tudo e não conter nada. Vem a Portugal abrir a digressão.

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David Sylvian é, como se costuma dizer, um esteta. Um esteta é alguém que contempla o mundo através das suas formas. Existem dois tipos de estetas. Um dá sentido ao termo aristotélico e considera a forma aquilo que faz cada coisa ser exactamente aquilo que é e a distingue de todas as outras. Existência plena. O outro não consegue vislumbrar além da casca das coisas, deleitando-se com a sua aparência. É o esteta-decorador ou esteta da treta, vulgo “estreta”.
O estetoscópio (salvo seja) de David Sylvian, oscila entre o esquema aristotélico e o papel de parede. Além de que Sylvian é o que se chama um tipo politicamente correcto.. E um verdadeiro neo-renascentista.
Pinta, fotografa, cuida dos filhos, adora a mulher, Ingrid Chavez, ex-protegida de Prince (o teclado do Mcintosh não dá para escrever o símbolo…”, que também pinta e escreve e até dá uma ajudinha, cantando de vez em quando nos concertos e nos discos do marido, interessa-se pelo zen e outras matérias esotéricas, é amigo de Ryuichi Sakamoto (outro esteta, os estetas dão-se bem uns com os outros) e, claro, toca e canta.
Recentemente, o ex-Japan arranjou mesmo tempo extra para tocar ao vivo. Ao ponto de se abalançar numa nova digressão que se inicia em Portugal. Já na próxima segunda-feira, em Lisboa, prosseguindo no dia seguinte, no Porto. O resto da Europa e o Japão vão ter que esperar.
Além da “tournée”, os aficionados de Sylvian têm ainda à disposição a colectânea relativamente recente, “Everything and Nothing”, e a versão remasterizada e remisturada de “Damage”, gravado ao vivo em 1993, de parceria com o guitarrista dos King Crimson, Robert Fripp. Em 2002 estará disponível uma colectânea de temas instrumentais.
“Everything and Nothing” serviu igualmente de genérico à presente digressão, o que significa que a maioria dos temas que David Sylvian irá interpretar faz parte dela. Na Internet ferve-se de impaciência e fazem-se votações com toda a gente a acotovelar-se na tentativa de pressionar o músico para cantar as canções favoritas de cada um. Segundo as últimas estatísticas, “Ride” lidera com 423 votos, seguido de “Some Kind of Fool”, “The Scent of Magnolia”, “Cover me with Flowers” e “Orpheus”. Quanto a álbuns, é curioso, “Brilliant Trees”, álbum de estreia de 1984, vai à frente, seguindo-se “Secrets of the Beehive” e “The First Day”.
Em palco, para acompanhar David Sylvian neste “Tudo ou nada” ao vivo, vão estar o irmão Steve Jansen, antigo companheiro seu nos Japan, na bateria, Matt Cooper, nos teclados, Tim Young, na guitarra, e Keith Lowe, no baixo.

Japão Com Estilo
Mas recordemos a história deste esteta, ou estreta, ou simplesmente um tipo que ganha a vida a fazer música com estilo e elegância.
David Sylvian nasceu há 43 anos em Stone Park, Beckenham, Kent, iniciando-se nas lides musicais (expressão jornalística idiota bastante vulgarizada) como letrista, compositor e vocalista dos Japan. A década de 80 arrancava sob o manto de vergonha provocada pelo punk e era “in” ser “arty”, “poppy” e “stylish”. Os Japan eram tudo isto – uma mistura de electropop, romantismo, filosofia oriental, em jeito de cobertura de creme, a voz amaneirada de Sylvian. “Tin Drum”, álbum de 1981 dos Japan, continha a canção “Ghosts”, ilustrativa da face mais ambiental e misteriosa do grupo e uma das suas melhores de sempre.
Ryuichi Sakamoto, que trocara a veia pós-Kraftwerk dos Yellow Magic Orchestra, pelos fatos Versace, foi sensível à beleza dos fantasmas. O japonês convidou o músico dos Japan para dar voz a “Forbidden colours”, uma das canções da banda sonora de “Merry Christmas Mr. Lawrence”, cuja pauta era assinada pelo próprio Sakamoto. O público adorou e ofereceu a Mr. Sylvian o seu primeiro grande sucesso internacional.
Mas o melhor estava para vir. No ano seguinte, ainda fresco das “charts”, surge “Brilliant Trees”. Gravado em Berlim, aconteceu-lhe o que geralmente acontece quando um artista via gravar a Berlim (como fez Bowie em “Low e “Heroes”) – chega a ser brilhante. Também não admira, com uma lista de convidados de calibre que incluía os trompetistas Jon Hassell, Kenny Wheeler e Mark Isham, o ideólogo dos Can, Holger Czukay, o contrabaixista pau-para-toda-a-obra, Danny Thompson, o inseparável par dos Japan, Steve Jansen e Richard Barbieri e, previsivelmente, Ryuichi Sakamoto. “Brilliant Trees” é pop ambiental com textura de veludo, delicada filigrana de palavras polvilhada por sons e cores multiétnicos.
Já artista completo e diplomado, Sylvian transita do microfone para a fotografia em Polaroid, publicando um livro, “Perspectives”, com montagens e bonecos. Segue-se um vídeo e as primeiras colaborações extra-Sakamoto. Em trio com Robert Fripp e Kenny Wheeler, grava o EP “Steel Cathedrals” que inclui o instrumental “Words with the shaman”, com Jon Hassell na trompete. O shaman poderia bem ser Robert Fripp, o guitarrista discípulo de Lúcifer.

Elogio Da Preguiça
À medida que ganha confiança, David Sylvian vai prolongando a duração dos temas. Mas o que, num ambientalista de génio como Brian Eno, se aceita como emanação de uma zona tão inóspita como luminosa do Espírito, em David Sylvian aparenta mais o colorido de um rebuçado enjoativo que leva eternidades a derreter. “Gone to Earth”, de novo com Fripp, e contando com a presença de um segundo guitarrista, Bill Nelson, outro “artista”, com selo de origem nos Red Noise, estende-se preguiçosamente por dois álbuns. “Ambient” soporífera ferida pelas “frippertronics” do “rei Carmesim”. “Secrets of the Beehive”, de 1987 mexe-se um bocadinho mais e contém “Forbidden colours”, uma das mais expressivas canções dos Japan.
O convívio com Holger Czukay deixara, entretanto, as suas marcas e, de Berlim para Colónia, Sylvian dá o braço ao homem dos Can para com ele fazer os sintetizadores ressonar no par “Plight & Premonition” (1988) e “Flux & Mutability”. Ambos preenchidos por instrumentais looooooooongos que almejavam, em vão, aflorar as zonas sagradas do silêncio que Czukay lograra registar, duas décadas antes, em “Cannaxis”.
1989 é o ano da caixa “Weatherbox”, com “design” do já desaparecido Russell Mills, outro esteta, que costumava trabalhar com Brian Eno. Com os seus antigos companheiros dos Japan enceta o projecto Rain Tree Crow o qual, em comparação com os bocejos anteriores, é um toque de despertador. “Ambient” elegante, recupera algum do mistério perdido pelos Japan. Michael Brook, parceiro habitual de Brian Eno, é um dos participantes. Curiosamente Eno e Sylvian nunca chegaram a trabalhar juntos…

O Silêncio, Tão Próximo…
Seguem-se novas e antigas colaborações. Ingrid Chavez, Bill Frisell, Robert Fripp, Sakamoto, Trey Gunn (outro King Crimson, de uma formação mais tardia). Sylvian aproveita para casar com Ingrid e gravar um novo álbum com Fripp, “The First Day”. O que poderia ter acontecido se tivesse sucedido o inverso, jamais o saberemos.
“The First Day” é mais Fripp que Sylvian, daí o seu ar de ameaça. Mas Sylvian encaixa bem como o homenzinho de estatura pequena mas cérebro descomunal que é Robert Fripp. Um adequado “nervous breakdown” tornou-o digno de emparceirar com o autor de “21st century schizoid man”… O zen ajudou a harmonizar a sua vida.
Já nos anos 90, Sylvian lança “Damage”, ao vivo, com Fripp, e mais dois álbuns a solo, “Dead Beees on a Cake” e “Approaching Silence”. O título deste último diz tudo. A música ambiental desliza sombria, provocando no ouvinte, consoante a sua disposição, o sono ou a meditação.
Tudo está calmo agora. David Sylvian vive em Nova Inglaterra com a mulher, as duas filhas, o enteado e o I-Ching. Cessou contrato com a Virgin e está a transformar a sua casa em estúdio privado. Tudo está bem quando acaba bem. É muito? É pouco! A resposta pode ser dada estalando uma ampola de haiku (poema zen de três versos, contendo um paradoxo lógico tendente a provocar o “satori”, a iluminação instantânea): “Everything and nothing”. Tudo e nada.

Novas Fadas – Kátia | Ana Sofia | Cristina | Mafalda | Joana

20.07.2001
Novas Fadas
Kátia | Ana Sofia | Cristina | Mafalda | Joana
Cinco vozes fabulosas, cinco herdeiras de Amália que dela assimilaram a força interior e para além dela apresentam originalidade, e nuances de um brilho que é também mistério.

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A história começa há muitos anos atrás, perdendo-se na noite dos tempos. Mas veio Amália e ficou a perceber-se melhor o que era o fado – um astro de duas faces, noite e dia, que nela se confundiam num só rosto. Esfinge. O século XX foi o século de Amália. Havia Amália, a sua voz, os seus discos, os seus espectáculos, a sua presença ofuscante. Sobrava pouco para os restantes.
Com o desaparecimento físico de Amália Rodrigues, por coincidência ou por ditame do destino (o que vai dar ao mesmo), outras vozes femininas despontaram. Vozes fabulosas. Tão orgulhosas de si e da sua diferença como humildes no reconhecimento do que Amália representou na escolha que também elas fizeram, de seguir essa “estranha forma de vida”, bem como na sua afirmação como fadistas.
Escolhemos, para ilustrar o presente radioso do fado cantado no feminino, cinco nomes: Mafalda Arnauth, Cristina Branco, Kátia Guerreiro, Ana Sofia Varela, Joana Amendoeira. Outras há: Mariza, Teresa Tapadas, Maria Ana Bobone. Mas aquelas cinco possuem um toque e um brilho especiais. O toque na essência do fado e a versatilidade da alma que se incendeia a este toque.
Dez anos separam a mais velha, Cristina Branco (28 anos), da mais nova, Joana Amendoeira (18 anos). Mafalda Arnauth tem 26, Kátia Guerreiro, 25, Ana Sofia Varela, 24. Encontram-se em fases distintas. Cristina Branco, cuja carreira tem vindo a ser construída na Holanda, já leva cinco álbuns gravados, o último dos quais, “Corpo Iluminado”, é o primeiro com distribuição nacional, pela Universal. Custódio Castelo, guitarrista de notáveis recursos, tem sido o seu tutor artístico. José Fontes Rocha, Jorge Fernando, Joel Pina e Miguel Carvalhinho, guitarristas e violistas históricos, participam como convidados.
Mafalda Arnauth, uma das novas vozes apadrinhadas por João Braga, depois de um álbum de estreia, “Mafalda Arnauth”, há dois anos, com produção de João Gil, projecta-se a grande altura no novo “Esta Voz que me Atravessa”, ainda no selo EMI, com a produção da dupla Amélia Muge e José Martins. Kátia Guerreiro, em quem chegámos a ver uma sósia de Amália, no espectáculo de homenagem à diva que a deu a conhecer ao grande público, publicou o seu disco de estreia, “Fado Maior”, na Ocarina. Com Paulo Parreira, na guitarra portuguesa. Embora mais nova, Joana Amendoeira já tem dois discos na Espacial, “olhos Garotos”, de 1998, e “(Aquela Rua)”, do ano passado. Custódio Castelo toca guitarra no último. A produção pertence a Jorge Fernando. Ana Sofia Varela só lançará o seu álbum de estreia em Setembro, pela Popular. Para já, o CD-single de apresentação conta com a participação de músicos como Mário Pacheco, José Moz Carrapa e Zé Nabo.
Qualquer destes discos tem outra particularidade – uma apresentação notável, evidenciando o cuidado na apresentação de um modelo estético que enobreça o objecto musical. São rostos e corpos “iluminados”, parafraseando o título do álbum de Cristina Branco. Tão iluminados como as vozes a que pertencem.
Grandes vozes, belas imagens, compositores, poetas e músicos de nomeada.
Vão lançadas. Mas Amália continua a ser o lampião, na rua escura, que as ilumina.

Sem Fantasmas
Depois de Mara Abrantes (que cantou aos três anos), José Barata Moura, “as músicas dos desenhos animados”, Rui Veloso, Trovante e músicas tradicionais, do Norte, do Minho e da Beira, de onde os seus pais são naturais, Mafalda Arnauth cantou fado pela primeira vez antes de entrar para a faculdade. Não pela voz de Amália mas pela de Teresa Salgueiro, dos Madredeus, onde sentiu “aqueles requebros” do fado. Depois o “Cheira bem, cheira a Lisboa”, que cantava nas “festinhas”. Nunca pensou em abraçar o fado como carreira. Mesmo quando a sua interpretação de “Foi Deus”, no seu primeiro espectáculo “oficial”, no Teatro São Luiz, em Lisboa, juntamente com outras novas vozes que então despontavam sob o patrocínio de João Braga, se destacou como um dos momentos mais arrebatadores da noite. Mudou entretanto de atitude. Hoje interiorizou essa tal estranha forma de vida, “sem fantasmas”, mas também “sem ter tempo para férias, nem para jantares, nem para encontros com amigos”, porque o fado é uma prioridade.
Cantou, de Amália, “Fadista Louco”, “triste Sina”, tudo fados “que não eram muito comuns e que Amália tivesse privilegiado”. Mas também “Maria Lisboa” e, claro, “Foi Deus”. Nos espectáculos continua a cantar “Sabe-se Lá”. Reconhece: “Nenhuma de nós, aos vinte e poucos anos, pode pensar competir com um percurso de vida como o de Amália.”. Amália já cá não está. “As pessoas já não dizem: lá vem mais uma pessoa para a substituir”. “É preciso ter humildade e a noção das coisas”, diz Mafalda, para quem não há “testemunhos a passar”.
Além de Amália, Mafalda gosta de João Ferreira Rosa, Beatriz da Conceição, Maria da Nazaré, Mariana Alcoentro. Dos novos destaca Camané – “preenche o tal arrepio que é fundamental no fado”. Poetas: Manuel Alegre, David Mourão-Ferreira, Sophia de Mello Breyner…
E ela, Mafalda, que fadista sente ser? “Sanguínea”. “Quero transmitir às pessoas primeiro aquilo que sinto, depois aquilo que componho, e já aqui se perde algo, e a seguir aquilo que chega ao público, o que ele está a ouvir. Neste processo o que me dá mais agonia é tentar saber como vou fazer a minha alma chegar
às pessoas”. Mais agonia ou menos agonia, Mafalda Arnauth pode estar tranquila – a sua alma chega às pessoas.

Iluminações
Cristina Branco tem o “Corpo Iluminado”, título do seu mais recente álbum, depois de “Cristina Branco in Holland” (1997), “Murmúrios2 (1998), “Post-Scriptum” (1999) e “Cristina Branco Canta Slauerhoff”. Natural de Almeirim, foi na Holanda que a sua música começou por encontrar maior aceitação. Situação que o novo disco parece querer alterar.
Cantou fado pela primeira vez aos 22 anos, em Benfica do Ribatejo, numa festa de amigos. O “Ai Mouraria”, de Amália, que conhecera quatro anos antes, através do álbum “Rara e Inédita”. Estreou-se como profissional um ano depois, na Holanda, numa sala de Amsterdão “onde já tinham estado José Afonso, a Amélia Muge…”. Não canta em nenhuma casa de fados. “Nunca cantei”. De Amália, que “inventou tudo”, canta “quase todos os do Alain Oulman, sobretudo aqueles que são menos fado”. Existe uma explicação para este “menos fado”. É que Cristina Branco define-se como uma cantora “revolucionária”, e não como uma fadista, na acepção mais tipificada do termo. Resposta irónica a alguns Velhos do Restelo. “Há alguns anos, por altura do ‘Murmúrios’, acharam um crime dizer-se que eu era fadista. Se fadista é a pessoa que está na casa de fados, as toalhas aos quadradinhos, não tenho esse percurso… Houve quem dissesse que para se ser fadista era necessário ter-se nascido em Lisboa e cantar-se numa casa de fados…”
Dos novos aprecia Mariza, Amélia Muge, Kátia Guerreiro e Camané. Poetas: Pedro Homem de Melo e David Mourão-Ferreira. E as vozes de Sarah Vaughan e Billie Holiday.
Ainda Amália: “Já na fase da sua decadência, quando corria o boato de que ela não gostava de ouvir cantar mulheres, a sensação que isso me deixou foi de que se eu estivesse a começar nessa altura nem sei se conseguiria prosseguir. Quando se venera um ídolo, e ouvindo essas coisas, pensava que deveria haver alguma restrição…”.
Mas considera-se parte de um legado da grande fadista, com quem aprendeu “a contar histórias, que é o mais importante”. O traço fundamental do seu carácter como cantora é o romantismo.

Nada Foi Encenado
No hospital de Évora, onde exerce medicina, cura os males do corpo. Com a voz cura os males do espírito. Kátia Guerreiro, médica de profissão, canta o fado. Antes cantou num rancho folclórico dos Açores, onde interpretou pela primeira vez “Amar, amar”, com poema de Florbela Espanca, “que a Teresa Silva Carvalho cantava”, e no grupo “Os Charruas”, passando ainda pela Tuna Médica de Lisboa. Em Outubro do ano passado esteve no Coliseu dos Recreios, no espectáculo “uma Vela por Amália”.
Deu voz a dois fados, de Amália: “Amor de mel, amor de fel” e “Barco Negro”. Teresa Silva Carvalho, Maria Teresa de Noronha e Camané, e os poetas Camões, Sophia de Melo Breyner, Fernando Pessoa e “uma grande amiga”, Maria Luísa Baptista incluem-se na lista das suas preferências.
Nessa ocasião, no Coliseu, estarreceu pela voz e pela extraordinária semelhança física com a diva. Aceita as comparações, mas esclarece que “nada foi encenado”: “Em relação às minhas expressões, à minha forma de franzir as sobrancelhas, é a minha maneira de estar no palco, de cantar, quando sinto não estou a pensar no que estou a fazer, naquilo que as pessoas poderão estar a ver. Canto com o corpo inteiro, se há coincidências ou não… nunca andei a observar a Amália… sempre cantei assim… a única coisa que posso dizer é que sinto muito em mim a Amália quando estou a cantar…”
Define-se como “tradicionalista”: “No fado, não se pode mudar nada. O que é, é. Depois há variações…”. “Fado Maior”, o seu disco de estreia, mostra uma cantora “apaixonada” que canta “os amores ardentes e os desamores, as paixões e as desavenças, o desânimo, a luta, a solidão, a alegria”.

Um Mistério
Das cinco, apenas Ana Sofia Varela, natural de Santarém, ainda não lançou nenhum álbum. Mas não vai ser necessário esperar muito. “Ana Sofia Varela” sairá em Setembro. Para já a sua voz magnífica pode ser apreciada num single com dois temas, um deles, “Quem canta na minha voz”, com letra de João Monge e música de Rui Veloso. Presença regular no Clube do Fado, participou no espectáculo “Uma Vela Por Amália”. Canta desde criança. Começou por Amália e Nuno da Câmara Pereira, aprendendo cedo a “dobrar a voz”. A participação, há três anos, no espectáculo “De Sol a Lua” abriu-lhe as portas da profissionalização, depois de uma série de presenças no concurso Grandes Noites do Fado. É uma das vozes convidadas do álbum “A Guitarra e Outras Mulheres”, de António Chainho. Participou ainda numa das edições do Festival das Músicas e dos Portos. Gosta de Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, Teresa Silva Carvalho e, da nova geração, Kátia Guerreira, Camané, Joana Amendoeira. E de Amália, “demasiado grande” e aquela que lhe “abriu as portas”. “Gaivota”, “Barco Negro”, “Amor de Mel…” são alguns dos fados que continua a cantar, apesar de, recentemente, ter arriscado a escrita das suas próprias composições. O disco é a realização de “um dos seus sonhos mais fortes”. Embora considere que o fado não possa mudar muito – “o que muda são as interpretações” – na disputa teórica que se vai travando entre tradicionalistas e revolucionários, Ana Sofia Varela refugia-se, declarando-se “centrista”. “Tristeza”, “melancolia2 e “alegria” são os principais estados de alma que a levam a cantar. Não arrisca procurar mais fundo uma explicação para a música que a arrebata: “O fado é um mistério”.
Joana Amendoeira é a mais nova. Mas aos 18 anos, já gravou dois álbuns, “Olhos Garotos” e “(Aquela Rua)”. Começou a cantar aos 8, fados do Nuno da Câmara Pereira. Em casa ouvia Amália, João Braga, Carlos do Carmo… Cantou na Grande Noite do Fado e em “uma Vela por Amália”. A partir daí nunca mais parou. Amália alimenta-a de “emoções”. Dela canta de preferência “fados pouco conhecidos”. Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, Carlos do Carmo, Hermínia Silva e Camané “alimentam-na” igualmente. David Mourão-Ferreira e Pedro Homem de Mello voltam a ser citados como poetas predilectos. Nos seus discos Joana Amendoeira espera que as pessoas vejam que “não está a imitar ninguém” e “uma fadista que canta vários sentimentos, além da tristeza”. Aos 18 anos pode ser-se triste? Joana abre um sorriso largo, luminoso. Estava dada a resposta.