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O Mestre Leonard Cohen Deveria Aprender Com A Discípula Suzanne Vega

12.10.2001
O Mestre Leonard Cohen Deveria Aprender Com A Discípula Suzanne Vega

Leonard Cohen e Suzanne Veja têm novos álbuns: Ten New Songs e Songs of Red and Gray.
Mestre e discípula. Qual é um e qual é outro? É diferente o Outono de ambos. Cohen renunciou ao céu e afirma-se feliz. Vega continua a piscar, inquieta, mordida pelas abelhas. O ferrão saiu do espírito dele para se cravar na alma dela. Ele cala. Ela dança.

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Antes de denegrir o novo álbum de Leonard Cohen e, consequentemente, ser alvejado por todo o tipo de impropérios e outros projécteis verbais pelos admiradores incondicionais deste cantor canadiano que acabou de lançar “Tem New Songs”, devemos confessar que nele sempre apreciámos, em primeiro lugar, o poeta. A música sempre desempenhou na sua obra um lugar secundário, espécie de lenga-lenga melódica que acabou por se institucionalizar como estilo.
É verdade que o velhote que há oito anos aderiu à “filosofia” zen, passando a viver como um monge-cozinheiro no Mount Baldy Zen Center, mas que não dispensa o seu copito (“I fought against the bottle/But I had to do it drunk”, diz um dos versos de “That don’t make it junk, uma das canções do novo álbum), tem jeito para lidar com as palavras, ainda que, mesmo neste aspecto, “Tem New Songs” esteja longe de evidenciar a acutilância, por vezes apocalíptica, dos primórdios cohenianos, em álbuns como “The Songs of Leonard Cohen”, “Songs from a Room” e “Songs of Love and Hate”.
É um disco de textos simples e música mais simples ainda, nalguns casos a roçar a indulgência. Como sempre tem acontecido no passado, mas este disco provoca ainda mais, ou se adora ou se detesta a forma como Leonard Cohen expõe, de forma risível, a sua luz, aos olhos alheios. Já foi intolerável, pela intensidade da exposição, este confronto.
Ao fim de 66 anos de vida desenrolada com a persistência de uma contínua viagem em direcção ao silêncio, ficou pouco. Para alguns, o essencial. Para outros, o óbvio, de mãos dadas com o lugar-comum. Mas essa é afinal a etapa última da viagem de auto-descoberta e da renúncia de si próprio. Leva-se uma vida para dizer do fundo do mar o que o comum dos mortais diz de cabeça no ar. Verdades evidentes, ridículas, simplistas. A diferença reside apenas na maneira e na vida de quem as diz. Entre o idiota e o santo, a gramática é a mesma. O sopro do Verbo é que é diferente.
Recentemente Cohen abandonou o mosteiro onde residiu durante quase uma década, reconhecendo a ausência de uma verdadeira vocação espiritual. Renunciou. Curioso: o zen, via do paradoxo, acende-se precisamente quando aquele que o persegue o abandona, o ter cede ao ser. A mão fica cheia ao desistir de segurar. Neste aspecto, Leonard Cohen não tem feito outra coisa senão prosseguir uma coerência que – faça-se-lhe justiça – sempre pautou a sua obra. A simplicidade de “Tem New Songs” desarma. Mas também incomoda. E pode ser irritante. A própria capa do disco mostra o velho cantor e compositor com uma expressão imbecilóide no rosto. Claro que também podemos ver na fotografia a serenidade de um bonzo. Ainda aqui, tudo depende, da intensidade ou da mentira do olhar.

A Vida Negra
Dito isto, que até soa a elogio, feliz ou infelizmente, “Tem New Songs”, feito em estreita colaboração com duas mulheres (as mulheres sempre preencheram os tempos vivos e os tempos mortos de Cohen) – Sharon Robinson, produtora e co-autora de todos os temas e Leanne Ungar, engenheira de som -, se descolado da lenda e da aura de profeta que sempre rodeou o canadiano de voz de gato-pingado, soa a uma papa vagamente “soul” armada sobre programações a trote do cansaço.
O tema central é, como sempre foi e continuará a ser até chegar o momento de Cohen optar em definitivo pelo silêncio absoluto, o amor. Manda a regra imutável da pop e da arte em geral – o amor infeliz. As fugas, as desistências, as traições, as incompreensões, enfim, todo o conjunto de emoções dolorosas que o ser amado nos inflige, sabe-se lá por que motivações maquiavélicas, e nos faz ser desgraçadamente humanos.
Em “Tem New Songs” Leonard Cohen continua a tentar perceber as razões da avalanche. Faz várias perguntas, quase todas a si próprio, e as respostas, à míngua de uma revelação, surgem na forma de canções. Mas as perguntas de “Tem New Songs” soçobram no vazio e o vento do desalento não deixa de soprar. Ao mesmo tempo que faz o trabalho de limpeza da introspecção, Cohen interroga o advogado do céu ou, na sua ausência, do inferno, justificando as suas maleitas com o mal universal e a indiferença de um Deus que implica com ele e lhe faz – ou fez – a vida negra. Daí a simbologia e estrutura poética religiosa (bíblica?) impressa em canções como “Here it is”, “Boogie Street” (ainda o vinho, na sua dupla dimensão dionisíaca e litúrgica…) e “The Land of Plenty”. Não há melhor maneira de tornar universal a dor individual.
A “coroa”, o “vinho” e a “cruz que Leonard Cohen depõe em “Here i tis” passam por ser os sinais de uma agonia que finalmente encontrou plausibilidade e redenção na visão desprendida de quem, já no crepúsculo da viagem, nada mais deseja senão compreender. Mas daí até versos como “May everyone live/And may everyone die/Hello, my love/and my love, goodbye” (em “Here i tis”), sobre caixa de ritmos cha-cha-cha, serem tomados como novo evangelho dos deserdados do amor, vai uma certa distância…
O próprio Cohen, em 1988, a propósito das conotações religiosas da sua música, afirmara: “Pensei que poderia espalhar luz, iluminar o meu mundo e o dos que estão à minha volta, que poderia seguir o caminho do serviço, da ajuda aos outros. Acreditei que conseguiria mas não fui capaz. Este é um terreno no qual os homens mais fortes, mais corajosos, mais nobres, mais bondosos, mais generosos do que eu, homens que capazes de cometer feitos extraordinários, se despedaçaram ao longo do caminho. Quem lida com o Sagrado acaba por ser dilacerado”.
Treze anos volvidos, no novo álbum, faz a confissão do fracasso, em “The land of plenty”: “Na verdade, não tenho coragem/Para permanecer onde devo permanecer/Não tenho realmente temperamento/Para deitar uma mão amiga”.
“The land of plenty” expõe de forma limpid o dilemma: “Don’t really know who sent me/To raise my voice and say:/May the lights in the land of plenty/Shine on truth some day” e, mais íntimo, “Don’t really know why I came here/knowing as I do/What you really think of me/What I really think of you”. Quer dizer, atendendo ao cansaço e à idade, ou aos conselhos que o seu amigo monge Joshu Sasaki lhe terá sussurrado ao ouvido durante a sua estadia no mosteiro, Leonard Cohen desistiu, deixando a esperança para quem tiver ainda a Força: “For the innermost decision/That we cannot but obey/For what’s left of our religion/I lift my voice and pray:/May the lights in the land of plenty/Shine on the truth, some day”. Uma certa forma de “new age” existencial que cai bem. Se é que é possível cair bem… Talvez seja. No presente, Leonard Cohen diz: “Estou feliz”.

Danças Com Abelhas
Será Suzanne Vega capaz de estender a mão? De conservar e usar a força? De ser feliz? Como Leonard Cohen, seu mestre, Suzanne (uma das canções do canadiano chama-se assim, “Suzanne”) colocou o ênfase na palavra “song” no título do seu novo álbum, “Songs in Red and Gray2. Assunção de um estatuto de cantor-compositor clássico que dispensa associações. As canções a “vermelho” e “cinzento” – o vermelho do coração, o cinzento do cérebro – têm uma só assinatura, imediatamente reconhecível: “Canções Suzanne Veja”. À semelhança de Cohen, há uma voz e um estilo inconfundíveis, quer se goste ou não deles. E, ainda como Leonard Cohen, Suzanne Veja não resiste a cantar sobre as suas desventuras amorosas. Com uma diferença: apesar dos santos e penitentes que assombram “Songs of Red and Gray”, para si, o fim de uma relação não é o fim do mundo.
Suzanne, 42 anos, revolve com outra força as feridas de cada um de nós. Menos mito (mesmo a “Virgin Mary” de “It makes me wonder” é a companheira de “uma exploração carnal” do “sagrado” e do “profano”) e mais sangue fresco.
Nos 66 anos de Cohen, o sangue corre frio e devagar. Nela tudo arde ainda. O ardor do ferrão da abelha cravado na carne. Depois, quer se queira quer não, Suzanne Veja sabe colorir as suas histórias com um vigor instrumental que Cohen desde sempre dispensou. E pintar-se com as imagens de uma simbologia da terra: folhas, abelhas, uma rosa-chaga, um baralhos de cartas, aberto em copas – corações. Será uma forma de se cobrir. Cohen vai nu. Ela dança, como uma bailarina.
“Songs in Red and Gray” é, como não poderia deixar de ser, um álbum feito à medida de quem sente e sabe cantar com ternura aquilo que sente. Cohen vai descamando a alma como um réptil. Veja brilha ainda como uma estrela cujo brilho irradia. Cohen arrefece. Vega aquece. Mesmo se “Songs in Red and Gray”, balouçando entre a maquinaria de cetim de “99,9ºF2, orquestrações folky e o arvoredo outonal de segredos ditos, Às escondidas, num sonho, não acrescente uma vírgula à grandeza, sinónimo de beleza, oferecida em “Days of Open Hand”.
Ainda assim, o mestre deveria aprender com a discípula. Que é, aliás, o que fazem todos os verdadeiros mestres.

A Grande Arte Dandy dos XTC

05.10.2001
A Grande Arte Dandy dos XTC

A reedição, em imaculadas miniaturizações, da discografia correspondente à primeira vida do grupo, volta a repor no imaginário pop das últimas duas décadas a grande arte “dandy” dos XTC.

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XTC sabe a “ecstasy”. No ano em que os XTC se formaram, em 1976, ainda não tinham aparecido as pastilhas que dão cor aos olhos e asas aos pés. Mas estava certo. Quando, já no final da década, o punk conseguiu por fim arranjar espaço para introduzir a energia bruta e a boçalidade na então depauperada indústria da pop, os XTC mostraram que afinal era possível ser forte e inteligente sem ter que dar um pontapé no traseiro da tradição.
Hoje os XTC são sinónimo de sofisticação levada aos limites do hedonismo e de arranjos que exigem do estúdio no mínimo 72 pistas de gravação, de forma a fazer valer os seus direitos. Mas nem sempre foi assim.
A história da pop, ao contrário de todas as outras, repete-se. A dos XTC volta a ganhar honras de escuta, agora dignificada por um pacote de reedições, da responsabilidade da EMI Toshiba japonesa (distribuição EMI-VC), da sua discografia maioritariamente dos anos 70 e 80. Fabulosas reproduções miniatura cartonadas dos originais em vinilo de “White Music” (1978), “Go 2” (1978), “Drums and Wires” (1979), “black Sea” (1980), “English Settlement” (1982), “Mummer” (1983), “the Big Express” (1984), “Skylarking” (1986), “Oranges and Lemons” (1989) e “nonsuch” (1992).
Corria ainda gloriosa a época do rock progressivo quando Andy Partridge, futuro líder venerado dos XTC, formou em Wiltshire, Inglaterra, em 1972, os Star Park (Rats Krap ao contrário). No ano seguinte o grupo, já com o novo elemento, Colin Moulding, alterou o nome para Helium Kids, sob a influência corrosiva do proto-punk de Detroit dos MC5 e do “camp” sanguinolento de Alice Cooper. Ninguém adivinharia que o futuro haveria de se chamar estilo, inteligência e sonho.
Ainda hesitante entre mudar de novo de nome, para XTC ou The Dukes of Stratosphere, Partridge optou pelo mais curto, ainda que os segundos tenham chegado a gravar os obscuros e psicadélicos “25 O’Clock” e “Psonic Psunspots” (Partridge costumava dizer que tinha nascido com duas décadas de atraso – a sua pátria era o psicadelismo). O punk chegara. Mas para os XTC a fase do “noise” e da adrenalina gratuita já pertenciam ao passado. Não admira que o álbum de estreia, “White Music”, fosse recebido com exclamações de admiração, como reacção à “coragem” demonstrada pelo grupo. A “coragem” estava no factor melódico. Nas canções cantaroláveis. Numa “britishness” de dandies diletantes que contrastava fortemente com o cinzentismo dos prosélitos do alfinete. Tudo isto se encontra em “White Music”, álbum que contribuiu para que o punk se passasse a chamar “new wave”. Mesmo assim, é o álbum mais energético dos XTC, quase tosco, em comparação com as sinfonias pop que estavam para vir.
“Go 2” é mais minimalista e urbano, atravessado por refregas industriais. Por esta altura, e em consequência de uma digressão conjunta com o grupo americano, era costume apelidar os XTC de “Talking Heads ingleses”. Fazia sentido. Mas enquanto a banda de David Byrne sobrevoava a América desenhando o mapa das suas paranóias, os XTC optaram por flutuar de balão sobre a velha England, fascinados pelos seus parados, os homens de chapéu de coco com o “Times” debaixo do braço, e os telhados de Londres num dia de chuva.

Sinfonias Barrocas
Com “Drums and Wires” a metamorfose estava completa. Os XTC tinham-se tornado uma banda pop com engenho e arte para preencher as “charts” com canções de irresistível apelo, como “Making plans for Nigel” e o míssil melódico “Senses working overtime”. Os cinco sentidos faziam mesmo horas extraordinárias.
“Black Sea” apresenta-se já como um objecto de luxo, fruto de uma relação intensa com o estúdio. Andy Partridge, apesar de excêntrico e de se vestir de forma ridícula, como os “mods” dos anos 60, ou de calções e boné de ciclista, é um perfeccionista que sempre preferiu a confecção laboratorial em estúdio do que expor-se à avaliação ululante dos espectáculos ao vivo. Como Ray Davies, dos Kinks, tornou-se o retratista dos tiques, dos lugares e das personagens de uma Inglaterra presa entre as rendas vitorianas, as chaminés das fábricas, as tragicomédias familiares que se ocultam atrás de paredes de tijolo, e uma aristocracia de sonâmbulos e “toilettes” à deriva entre Wimbledon, Brighton e Ascot.
O duplo “English Settlement” e “Mummer” são obras-primas de pop mesclada de folk e fantasia. Chamam-lhes os álbuns “rurais” e as capas de ambos são de facto manchas de verde, mar, bosques e humidade. É necessário ouvi-los muitas vezes para se colher deles o maior número de emoções.
O comboio retrocedeu ligeiramente na estação de “The Big Express”. Canções saídas de uma rotativa em andamento acelerado, tiveram pouco tempo para se cuidar em frente ao espelho.
Mas acordados pela Primavera de “Skylarking”, o narcisismo e o gosto pela arquitectura barroca renasceram em todo o seu esplendor. Cada canção é uma filigrana de melodias, ora alinhadas ora em contramão. Os arranjos, entre o chilrear de aves do paraíso, orquestras campestres e guitarras de lâmina afiada, têm a mão de um deus qualquer. Provavelmente Todd Rundgren, que se encarregou da produção, um dos génios e magos de estúdio mais menosprezados da pop artificial, autor da descomunal alucinação sónica que é “A Wizard/A True Star”. Tão alto voaram os XTC em “Skylarking” que alguns atreveram-se mesmo a invocar o nome sagrado dos Beatles.
Atingido o cume segue-se a queda. É inevitável. Mas os XTC caíram devagar. Primeiro em “Orange and Lemons”, o álbum funky, das canções longas e ritmos musculados. A seguir, as melodias arrevesadas de “Nonsuch”, que tombam como flocos de neve.
Com a chegada do Inverno, os XTC retiraram-se para hibernar. Regressaram em 1999, mais pujantes do que nunca, para orbitarem em torno de Vénus e morderem a maçã, na “continuing story”, “Apple Venus”. Mas essa é já outra história, com novos cambiantes. Comprovativa de que a história que Andy Partridge tem para contar, esteja ou não longe do seu epílogo, terá sempre um final feliz.

Residents – Freak Show Olhos Nos Olhos

28.09.2001
Residents
Freak Show Olhos Nos Olhos

Quem são os Residents?. A pergunta tem sido obsessivamente feita nos últimos 30 anos. A mais famosa banda desconhecida do planeta actua pela primeira vez em Portugal. Sem bilhete de identidade, de fraque e olhos gigantescos no lugar da cabeça. Um concerto histórico.

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Desde que se formaram, em 1970, no estado do Louisiana, terra de carnaval e feitiços, os Residents têm conseguido manter o anonimato. Como e porquê? Como, ninguém sabe. Porquê, porque a questão é irrelevante, dizem eles, e apenas a obra importa. Não se sabe sequer se os músicos que amanhã e domingo irão apresentar no Centro de Arte Moderna, em Lisboa, o novo projecto multimédia “Icky Flix”, no âmbito dos Encontros Acarte, são os mesmos – pelo menos alguns deles – que nos anos 70 atiraram à cara da pop álbuns como “Meet the Residents”, “The Third Reich ‘n’ Roll” e “Eskimo”.
O mistério é intenso, persistente e excitante. Tudo na biografia desta banda pode ser, de resto, mentira, avisa o “site” oficial, residents.com. O mito rodeia todas as actividades dos Residents. Daí o seu poder e eficácia. Os Residents mentem deliberadamente nas entrevistas. Os Residents são humanos? É muito provável que não…

Olhos Nos Olhos
Quem são os Residents? Há quem jure a pés juntos ter estado a seu lado, ter-lhes tocado e conhecer as suas identidades. Nada de especial: são elementos do “staff” da editora Ralph, que formaram ainda nos anos 70 para gravar e distribuir uma música então dificilmente tolerável pelo “mainstream”. Um admirador conseguiu mesmo os seus autógrafos: “Mr. Resident”, “A Resident” e “Residents”.
Afinal, que importância tem saber os nomes? John Smith, Elvis Presley, Abigail Crunch Manuel Ferreira (sim, pode acontecer que haja um português no grupo!)? Absurdo, inquietante, ridículo, irrisório. Mas… quem são os Residents? Que nome dar à ameaça?
Ao vivo, os Residents apresentam-se de fraque e máscaras de globos oculares. Antes costumavam disfarçar-se de lagostas e passear pelos supermercados enfiados em uniformes de amianto. São um quarteto, como os Beatles. The “fabulous eyeballs”. Quando uma das máscaras oculares foi roubada, o quarto “resident” passou a ocultar-se atrás de um crânio e a chamar-se Mr. Skull.
A inquietação, potenciada pelo anonimato, aumenta ao fazermos uma análise da sua obra. Desde o início, o grande objectivo dos Residents tem sido o de minar metodicamente os alicerces da música pop, introduzindo no espaço oco um sucedâneo, por vezes colorido, por vezes sombrio, umas vezes doce, outras amargo, mas sempre camuflada por uma camada em que o humor e a perversidade se confundem. As formas, os géneros, a mitologia, a iconografia da galáxia pop e, finalmente, as novas tecnologias multimédia, têm sido aspiradas, marteladas, amassadas, pervertidas (ou redimidas?) e vomitadas nos media pelos Residents. Existe uma filosofia e uma ideologia subjacentes ao “cartoon”. A desmontagem obedece a regras. Apaga-se a luz. Estudam-se os tiques. Substitui-se o recheio.
A inversão tornou-se visível muito cedo. O single de apresentação, “Santa Dog”, é um anagrama de “Satan God”. O EP “The Beatles Play the Residents and the Residents Play the Beatles” aprofunda o conceito de contaminação. Os Beatles, ícone absoluto da cultura pop, eram os primeiros alvos a abater. A capa e o título de “Meet The Residents”, álbum de estreia de 1973, são uma réplica adulterada de “Meet the Beatles”. Os rostos dos “fabulous four” de Liverpool desfeitos por caricaturas grotescas rabiscadas pelos “fabulous four” do Louisiana. Nos últimos anos assistiu-se a um regresso dos Residents à temática religiosa, isto é, ao tiro ao alvo sobre a Bíblia. Dinamitar o espírito para melhor metamorfosear a carne.

Teoria da Obscuridade
Flashback. Em 1966 os músicos que viriam a constituir-se como The Residents, antigos companheiros de escola (pobres professores!), abandonam o Louisiana, onde se dedicavam à gravação e recolha de música local, e estabelecem a sua base de operações em São Francisco, assistindo de perto ao “Summer of Love”. Ervas daninhas em pleno roseiral. Em 1969, chegam rumores aos ouvidos de um guitarrista inglês, de seu nome Philip Lithman, posteriormente conhecido como Snakefinger. Vai de propósito à Califórnia, investigar. Mas antes, numa passagem pela Bavária, na orla da floresta negra, Lithman conhece uma misteriosa personagem, N. (Nigel?) Senada. Lithman e Senada travam por sua vez conhecimento com o grupo. N. Senada impressiona os futuros Residents com a sua “teoria da obscuridade” e o ensino de bizarras técnicas fonéticas.
Quando, em 1971, a Warner Brothers recusa uma cassete que os quatro lhe tinham enviado, para hipotética inclusão numa colectânea, e a devolve à procedência, por escrito, em pacote endereçado simplesmente aos “residents” da morada indicada, estava encontrado o nome que se viria a tornar lenda: The Residents.
Abramos aqui um parênteses, para falar do misterioso senhor Senada, nascido, ao que parece, na Alemanha, em 1907. Uns dizem que não passava de uma personagem ficcional inventada pelos próprios Residents. Mas N. Senada compôs e gravou músicas reais, sendo a sua obra mais conhecida, “Pollex Christi (The Thumb of Christ)”, inspirrada em excertos de “Carmina Burana”, de Carl Orff. Senada advogava as virtudes do erro e afirmava ser impossível tocar correctamente as suas composições. Em 1938 desistiu de fazer música, alegando que esta se tornara “demasiado estarrecedora” para os ouvidos humanos. Parte então para o Canadá para estudar os costumes do povo “Inuit”. Com base nos seus apontamentos sociológicos sobre esta etnia esquimó, os Residents compõem “Eskimo”, de 1979. A partir daí o seu rasto perde-se por completo. Um musicólogo garante que N. Senada é Harry Partch, um dos compositores preferidos dos Residents (juntamente com Captain Beefheart), coincidindo as técnicas musicais de ambos.

As Toupeiras Triunfam
Nenhum álbum dos Residents é mais marcado pela “teoria da obscuridade” de N. Senada, do que “Not Available”, banda sonora imaginária de um naufrágio mental. De acordo com a doutrina, “Not Available” só deveria ser editado quando todos, incluindo os seus autores, se tivessem esquecido da sua existência.
Assim, o disco, segundo do grupo, foi gravado em 1974 mas apenas viu a luz do dia quatro anos mais tarde, quando o posterior “The Third Reich ‘n’ Roll”, já saíra, em 1976. Na prática, o segundo álbum dos Residents é oficialmente o terceiro.
“The Third Reich ‘n’ Roll” contém disseminados todos os princípios da ideologia Residents, sendo em si mesmo um tratado de dissecação da música pop. Glosa êxitos dos Beatles e dos Stones e outros “hits” do “top tem” para os esventrar através do mesmo tipo de cacofonia epiléptica e aberração que os alemães Faust montaram no seu álbum de estreia. E afirma que Hitler era um vegetariano.
Além de “Eskimo”, vento ártico sobre os rituais de morte dos esquimós, histeria, silêncio e terror, “Commercial Album”, de 1980, dispara sobre o coração da indústria – 40 temas com um minuto exacto de duração cada, destinados a serem tocados como “jingles” na rádio. A pop assumida na sua condição de prostituta, a canção oferecendo-se como objecto de consumo imediato. A terrível gargalhada dos Residents fez-se ouvir bem alto nos salões da hipocrisia.
Além de Snakefinger, já falecido e autor de magníficos álbuns a solo de inspiração residentiana (“Chewing Hides the Sound”, “Greener Postures”, “Manual of Errors”) e, a par dos Renaldo and the Loaf, um dos primeiros dicípulos da banda, também Fred Frith e Chris Cutler, músicos-teóricos da banda inglesa Henry Cow (com conotações estéticas a Harry Partch, Faust e Mothers of Invention que, por sua vez, estavam ligados a Captain Beefheart…) passaram a ser colaboradores habituais dos “eyeballs”.
A década de 80 é aproveitada pelos Residents para a composição de grandes trabalhos conceptuais. “The Mark of the Mole” e “The Tunes of Two Cities”, partes um e dois de uma “Mole Trilogy” inacabada, contam a história do colapso da civilização humana e da sua derrota às mãos das toupeiras. Metáfora da infiltração subterrânea, da vitória das trevas sobre a luz, da noite sobre o dia, são obras-primas de pop, electrónica, loucura, método e paradoxo. E metem medo.
Saltando por cima de uma terceira parte que nunca existiu, o quarto capítulo da saga, “The Big Bubble”, apresenta os Residents como a banda de casino, The Big Bubble (chegou a especular-se se os rostos da capa não seriam afinal os próprios…). As partes cinco e seis de “Mole Trilogy” são fantasmas.
Na manga, estavam “The American Composers Series”, idealizadas para inundar o mercado durante 20 anos. Cessaram ao fim de dois álbuns, “George & James”, com versões da música de George Gershwin e James Brown, e “Stars & Hank Forever”, correspondente a John Philip de Sousa e Hank Williams Sr.. Uma vez mais, alguns dos mitos da música americana transformados em monstruosidades. Elvis Presley levou com a mesma dose, em “The King and I”, jogo de simulações (“I”/”eye”) e exéquias ao rock ‘n’ roll.

Circo de Horrores
Simulação – a etapa que faltava para a armadilha se fechar e os Residents cerrarem em definitivo as mandíbulas em torno do pescoço da vítima. Se a fase “religiosa”, levada a cabo em “God in 3 Persons” e “Wormwood: A Curious Collection of Bible Stories”, usava como arma a caricatura e o cinismo para derrubar alguns dos santos dos seus altares, o que sucedeu a seguir levaria ainda mais longe a manipulação. Os Residents apropriam-se da tecnologia audiovisual mais sofisticada e aplicam-na no quarto virtual dos jogos electrónicos de computador.
O CD-Rom de “Freak Show” obriga o jogador a funcionar e a pensar como um psicopata à deriva num mundo de criminosos paranóicos. “Bad Day on the Midway”, também uma série de TV, leva-nos em deambulação por um circo de horrores.
Os Residents criaram o seu mundo. Terroristas estéticos, observam-nos com o olhar gelado de “eyeballs” solenemente vestidos de fraque para a cerimónia do fim dos tempos que se avizinha. Cabe-nos a nós sair deste mundo de monstros, psicologicamente vivos e sãos. A sua obra infiltrou-se não só na música como em filmes, livros e vídeos delirantes. A sua música evoluiu da disformidade dos primeiros álbuns para o grotesco electrónico dos anos 80 e deste para a fase litúrgica actual, evangelho a ecoar nos sininhos da demência e no clamor de maquinismos sugadores de almas. Tornaram-se um grupo pop. O grupo pop mais perigoso do mundo. Senhoras e senhores, meet the Residents!