Maria João encontra-se com Joe Zawinul e seu grupo no ciclo “Grandes Concertos de Jazz”, no Porto. Grande encontro em perspectiva. Mais ou menos próximo do jazz.
O encontro entre uma das maiores improvisadoras vocais contemporâneas e um dos maiores arquitectos sonoros da chamada música de fusão ensaiou os primeiros passos numa jam session realizada há algum tempo em Colónia, na Alemanha. Terão combinado bem, daí o aprofundamento desta relação que acolhe ainda, como parceiros, os restantes músicos que integram a actual formação de Zawinul pós-Weather Report, os Syndicate: Amit Chatterjee, na guitarra, Etienne M’Bappe, no baixo, Nathaniel Townsley, na bateria, e Manolo Baderna, nas percussões e voz.
Maria João sabe voar e garimpar. Pelas grutas do interior da terra, sobre as nuvens, na neblina. Como em Zawinul, a fusão atravessa a sua música. O seu canto é canto de fusão entre linguagens várias que vão da música tradicional, brasileira ou indiana, mas também a portuguesa, cujo fascínio cada vez mais se faz sentir, ao jazz, passando pela música contemporânea, a canção popular ou, pura e simplesmente, o “scat”, na sua vertente mais interiorizada e pessoal.
Se Billie Holiday, Elis Regina, Ella Fitzgerald e Betty Carter foram as suas primeiras mestres, aquelas que a ensinaram a fazer passar a alma e as suas emoções através da respiração, terá sido Bobby McFerrin quem lhe mostrou ser possível ser-se na voz mais do que uma voz. Como o autor de “The Voice”, Maria João teve a coragem de estender a sua voz para fora do limite da canção, sem receio de se expor em toda a sua fragilidade mas também ostentando todo o seu poder. O percurso desta cantora que gravou pela primeira vez com Jorge Palma e é hoje uma das intérpretes mais conceituadas do novo jazz europeu, tem sido desde sempre a aprendizagem da liberdade, mas também do diálogo. Com outros músicos e com outras músicas.
Com o seu próprio quinteto, em Quinteto de Maria João”, “Cem Caminhos” e “Conversa”, com a pianista japonesa Aki Takase e o contrabaixista Niels-Henning Orsted Pedersen, em “Alice – Live at the Jazz Ost-West”, com os Cal Viva, de José Peixoto, em “Sol”, com Ralph Towner, Ricardo Rocha, Dino Saluzzi, Mário Laginha, Kai Eckardt de Camargo e Manu Katché, em “Fábula” e – no lar onde ganhou a tranquilidade e cumplicidade para poder brincar – com Mário Laginha, em “Danças”, “Cor”, “Lobos, Raposas e Coiotes” e “Chorinho Feliz” e “Mumadji” (mais Toninho Ferragutti e Helge Norbaken), Maria João conquistou as “nuances” de ser, mais do que ter, uma voz. E de falar, cantar com outros mundos. Joe Zawinul tem novos territórios para lhe mostrar.
Joe (Josef) Zawinul foi nos anos 60, juntamente com Miles Davis, John McLaughlin e Chick Corea, um dos pioneiros do jazzrock, após mestrado com Maynard Ferguson, Slide Hampton, Dinah Washington, Cannonbal Adderley e… o próprio Miles Davis, com quem gravou os clássicos “Bitches Brew” e “In A Silent Way”, cabendo-lhe neste último a composição do título-tema.
Mas para este teclista austríaco a passagem pelo hard-bop, o souljazz e os blues representaria apenas a base sobre a qual constituiria o monumental templo de jazz-rock que se chamou Weather Report. Foi no início dos anos 70 que o escândalo rebentou, quando Joe Zawinul agarrou nos sintetizadores A.R.P. e nos pianos eléctricos Wurlitzer e Fender Rhodes para, ao lado de outro grande solista, o saxofonista Wayne Shorter, encetar em 1971 a aventura eléctrica Weather Report que duraria até 1986.
Os Weather Report traçariam o caminho que centenas de outras bandas percorreram posteriormente até tornarem o selo “jazzrock” em pouco mais do que um “cliché” citado pelos especialistas de jazz com desdém. E se os próprios Weather Report não demoraram muito até se deixarem enredar nos estereótipos do género que ajudaram a criar, a verdade é que um álbum como “I Sing the Body Electric” (1972) ainda hoje serve de farol a quem queira aventurar-se no jazzrock sem naufragar nos rochedos do lugar-comum.
Maria João & Joe Zawinul Syndicate
Porto | Coliseu
Tel. 223394940. Hoje, às 21h30. Bilhetes a 4000$00 e 5000$00
Dub,House, Hip-Hop. Três formulas para dançar. Três dias, cada um com uma fórmula para dançar. Três nomes por dia. Chama-se LX Cool, o ciclo de dança montado pelas Festas de Lisboa. Destaque para os Zion Train, instituição do dub em Inglaterra, mas cujas operações de sabotagem se estendem pelo resto do mundo. Na mesma noite de dub, 27, actuam os portugueses Cool Hipnoise e Neil Frazer, mais conhecido por Mad Professor. O dia 28 está entregue aos portugueses Hipnótica, aos escoceses Aqua Bassino e ao finlandês Jori Hulkkonen, estes dois últimos pertencentes aos quadros da F Communications. Finalmente, a 29, o hip-hop desce à rua com os franceses Assassin e os portugueses Mind Da Gap e Dj Cruzfader. Todos os espectáculos terão lugar no Cais do Gás, os dois primeiros dias com início às 22h, o último a partir das 14h. Há espaço de sobra para dançar. Calor e ritmos de sobra para suar.
Os Zion Train prometem algo mais, mas é bom não esquecer que o consumo de marijuana é ilegal. Ao vivo, não são a mesma coisa que em estúdio. Improvisam sob as directivas do seu líder, DJ Perch (teclados, unidades de delay e mesa de mistura). Os outros músicos, Cod (teclados, melódica, harmónica, colheres), Tench (teclados, samples e guitarra), Hake (trompete), Forkbeard (trombone e teclados) e a vocalista Molara, sabem quais vão ser os temas, mas desconhecem os ritmos. A paleta de estilos contém reggae, dub, house, tecno e pop.
Mas quem são afinal os Zion Train? O seu novo álbum, “Secrets of the Animal Kingdom in Dub”, é um disco conceptual que liga alguns espécimes animais a um sound system de dub psicadélico. Soa como nenhum outro álbum de dub. Provoca alucinações. As linhas de baixo descem Às camadas geológicas mais profundas do planeta Terra. A electrónica endoidece.
Mas os Zion Train gravaram uma serpentina de deiscos, de 1991 até hoje, entre os quais “Passage to Indica”, “Siren”, “Homegrown Fantasy”, “Love Revolutionaires” e o também conceptual “Natural Wonders of the World”, viagem por vários locais e paisagens do globo, da Garganta do Diabo ao Kilimanjaro, da Amazónia ao Mar dos Sargaços, de Bora Bora ao Krakatoa. A paisagem da capa é uma planície de cannabis estendendo-se até perder de vista (aviso: o consumo de cannabis é ilegal).
De onde vêm, para onde vão? Vêm de uma organização denominada The Train Sound System, À qual pertencia DJ Perch. Em 1990 a organização passou a chamar-se Zion Train, inspirada numa canção com o mesmo nome de Bob Marley. Zion é um estado de espírito, dizem. E Zion Train a melhor maneira de lá chegar. As influências, além de Marley (que fumava Cannabis, embora em Portugal seja ilegal), recuperaram Jah Shaka-Zulu Warrior, Disciples, Iration Steppas, a Sun Ra Orchestra, The Art Ensemble of Chicago e as bandas latinas dos EUA e de Cuba.
Não professam qualquer religião ou ideologia política. Anarquistas, defendem a liberdade de expressão, a liberdade de associação e a liberdade do espírito. E a liberdade de fumar erva, mesmo sendo ilegal. Não são, portanto, políticos. Logo, o “mainstream” cataloga-os como “banda política”. Combatem o sistema corporativista da indústria musical, motivo pelo qual a dita indústria se recusa a editar os seus discos. Eles responderam com a criação da sua própria editora, “vocacionada para a edição de música contemporânea, sem quaisquer conotações comerciais”, a Universal Egg, com sede no País de Gales. Mesmo assim, o álbum “Homegrown Fantasy” vendeu para cima de 20 mil unidades, apesar de, na América, ter sido mal recebido (chamaram-lhe Homegrown Shit”, “merda caseira”). Uma das canções com o mesmo título dos Workimg Week, cantada por Tracey Thorn e Robert Wyatt.
Os Zion Train participaram na antologia “The Encyclopedia Psychedelica”, e remisturaram os New Model Army, The Ruts, Maxi Priest, Coil, Hawkwind, Gary Clail, Dub Syndicate e Ozric Tentacles. Criaram a sua rede de informação na revista “The Wobbler”, cujos assuntos vão do “sério” ao “ridículo”, e um clube multimédia privativo, onde é possível ouvir música avant-garde, tecno ou drum ‘n’ bass, ver filmes, experimentar novas tecnologias ou, simplesmente, não fazer nada. Por estas e por outras é que o consumo de cannabis é ilegal. A música dos Zion Train, não.
Zion Train, Cool Hipnoise, Mad Professor
Dia 27, Às 22h
Hipnótica, Aqua Bassino, Jori Hulkkonen
Dia 28, Às 22h
Mind Da Gap, Assassin, DJ Cruzfader
Dia 29, Às 14h
Lisboa, Cais do Gás. Entrada Livre.
15.06.2001
Brian Eno – Gotas de um Mundo Gelado
Enoglobal
Alguns dos álbuns com a assinatura de Brian Eno, enquanto compositor, produtor ou músico participante. Não foram considerados os álbuns dos Roxy Music nem a sua discografia a solo.
Anos 70
Trabalho febril. Incursões no som de Canterbury (Matching Mole, Quiet Sun, Lady June, Phil Manzanera) e no Progressivo (Genesis, Camel) e colaborações com os seus amigos John Cale e Robert Wyatt são o lado mais visível de uma actividade que se estendeu ao minimalismo de Michael Nyman, ao ambientalismo de câmara de Gavin Bryars e à world imaginária dos Penguin Café. Sobreviveu a choques sucessivos com Robert Fripp e saiu ileso do túmulo de Nico, arranjando ainda tempo para navegar no space rock de Robert Calvert, da troupe Hawkwind. O futuro inventou-o na trilogia de Berlim de Bowie, que não seriam nada sem o design prévio dos Cluster, e em “My Life In The Bush Of Ghosts”, mas também a recriar a “de-evolution” dos Devo e a dar polimento ao funk na Idade dos Jetsons dos Talking Heads. Foi a Nova Iorque partir os dentes ao rock no disco-manifesto da vaga “no wave”.
MATCHING MOLE: Little Red Record
ROBERT FRIPP & BRIAN ENO: (No Pussyfooting); Evening Star
ROBERT CALVERT: Captain Lockheed And The Starfighters; Lucky Leif and the Longships
JOHN CALE: Fear; Slow Dazzle; Helen of Troy
LADY JUNE: Linguistic Leprosy
NICO: The End
GENESIS: The Lamb Lies Down On Broadway
PHIL MANZANERA: Diamond Head
QUIET SUN: Mainstream
ROBERT WYATT: Ruth is Stranger Than Richard
GAVIN BRYARS: The Sinking of the Titanic
MICHAEL NYMAN: Decay Music
PENGUIN CAFÉ ORCHESTRA: Music From the Penguin Café
HAROLD BUDD: The Pavillion of Dreams
DAVID BOWIE: Low; Heroes; Lodger
ULTRAVOX: Ultravox!
CLUSTER & ENO: Cluster & Eno; After the Heat
PHIL MANZANERA/801: Listen Now
CAMEL: Rain Dances
TOM PHILIPS: Irma
DEVO: Q: Are we not Men? We are Devo!
TALKING HEADS: More Songs About Buildings and Food
VÁRIOS: No New York
ROBERT FRIPP: Exposure
TALKING HEADS: Fear of Music
DAVID BYRNE & BRIAN ENO: My Life in the Bush of Ghosts
Anos 80
Os anos 80 foram mais calmos. Tempo para espalhar pelo mundo o ambientalismo de Harold Budd, Michael Brook, Daniel Lanois, Laraaji e do seu irmão Roger, “satieano” convicto. Permitiu aos U2 renascerem das cinzas e coloriu os cocktails de Carmel e o betão dos He Said, uma derivação dos Wire. Com Jon Hassell desbravou o continente das músicas do quarto mundo. E os Talking Heads nunca tinham fervido tanto como em “Remain in Light”.
TALKING HEADS: Remain in Light
HAROLD BUDD & BRIAN ENO: The Plateaux of Mirror
LARAAJI: Day of Radiance
JON HASSELL: Possible Musics; Dream Theory in Malaya; Power Spot; The Surgeon of the Nightsky restores Dead Things by the Power of Sound; Flash of the Split
DAVID BYRNE: The Catherine Wheel
HAROLD BUDD: The Pearl; The White Arcades
U2: The Unforgettable Fire
MICHAEL BROOK: Hybrid
ROGER ENO: Voices
CARMEL: The Falling; Set me Free
HE SAID: Hail
U2: The Joshua Tree; Rattle & Hum
DANIEL LANOIS: Acadie
JOHN CALE: Words for the Dying
Anos 90
A década da dispersão e de todos os convites. Tornou-se moda. Uma espécie de Midas tão apto a participar na world global de GeofFrey Oryema e Baaba Maal como na pop apenas pop de Jane Siberry ou dos James. Coisas mais sérias que têm impressas a sua impressão digital são os álbuns de Laurie Anderson e de Arto Lindsay. Foi buscar um disco de “ambient kraut” perdido nos anos 70 com os Harmonia ao mesmo tempo que passeou por uma das mais belas sinfonias ambientais de Joachim Roedelius, dos Cluster. Irritou-se com a etnoseca de Jah Wobble, foi apropriado pelo pós-rock dos Ui e, uma vez mais, o seu nome figura na ficha técnica de uma obra-prima: “Schleep”, de Robert Wyatt. Não consta que tivesse ficado chocado quando “Velvet Goldmine” desenterrou o seu passado glam, de plumas e falsetto.
GEOFFREY ORYEMA: Exile; Beat the Border
BRIAN ENO & JOHN CALE: Wrong Way Up
U2: Achtung Baby; Zooropa
MICHAEL BROOK: Cobalt Blue
JANE SIBERRY: When I Was a Boy
JAMES: Laid
HANS-JOACHIM ROEDELIUS: Theater Works
LAURIE ANDERSON: Bright Red; The Ugly One With The Jewels
ARTO LINDSAY: O Corpo Sutil
BRIAN ENO & JAH WOBBLE: Spinner
HARMONIA: Tracks & Traces
ROBERT WYATT: Schleep; Eps
BAABA MAAL: Nomad Soul
UILAB: Fires
BSO: Velvet Goldmine
“Drawn From Life”, o novo álbum que Brian Eno vem apresentar ao Porto, no sábado, naquela que será a sua estreia absoluta, ao vivo, em Portugal – no Coliseu, às 22h -, insere-se na corrente da “música ambiental”, género que ajudou a criar.
Mas a música congelada neste CD de parceria com J. Peter Schwalm não é a mesma que Brian Peter George St. John le saptiste de la Salle Eno assina em álbuns como “Discreet Music” (1975), “Music For Airports” (1978), “On Land” (1982), “Apollo Atmospheres & Soundtracks” (1983), “Thursday Afternoon” (1985), “The Shutov Assembly” (1992) e “Neroli” (1993). É “chill-out”. Ambient tecno. Algo que Eno tocara pela primeira vez com a sua varinha transfiguradora, em “The Drop”, álbum de 1997, em particular na sequência árctica do tema “Iced World”.
Ainda que o anterior, “Nerve Net” (1992) explorasse já algumas das coordenadas dos subúrbios da “dance music”, foi “The Drop” que escancarou a porta para uma paisagem desoladoramente vazia. Um vazio nos antípodas do silêncio – berço da “ambient” que Eno cultivou nas suas obras mencionadas. O mesmo silêncio que se insinuou através das colunas avariadas de um sistema estéreo, a minimizar o tédio numa cama de hospital onde esteve internado, e que lhe ensinou as premissas básicas da “discreet music”. Uma música no limiar da capacidade auditiva que deveria harmonizar o ouvido humano com o ruído exterior. Uma música, enfim, que ensinava a ouvir música.
No excelente livrete que acompanha a antologia (seis CDs) de Brian Eno publicada em 1993, compara-se a música ambiental do compositor inglês a um jardim zen, cuja “tranquilidade parece desencadear um estado de apaziguamento da mente e que, ao mesmo tempo, sintoniza os receptores do corpo para um meio ambiente vibrante de acontecimentos em miniatura: uma borboleta que pousa no musgo, gotículas de água tombando ininterruptamente, zumbidos de insectos, reflexos da ondulação aquática nas canas de bambu…”. Caos, ordem e coincidência. Segundo um equilíbrio de contrários em permanente mutação que é a realidade tal qual a percepcionamos.
John Cage, claro, já o teorizara nas suas conceptualizações sobre o silêncio e a musicalidade do ruído. Eno, discípulo espiritual de Cage, aplicou-as a seu modo, tirando partido da aleatoriedade como instrumento de composição musical. As suas “estratégias oblíquas”, sistema de cartas, como um Tarot, desenhadas em conjunto com o artista plástico Peter Schmidt, estiveram na base da criação dos álbuns “Taking Tiger Mountain (By Strategy)” (1974), “Another Green World” (1975) e “Before and After Science” (1976). Eno fundou ainda a colecção “Obscure”, de inspiração cageiana, onde podem ser encontradas obras de Tom Philips, Jan Steele, Gavin Bryars, Christopher Hobbs e do próprio John Cage.
Chill-Out vs. Natureza
O “chill-out” reflecte outra realidade. O seu silêncio não é o silêncio prenhe da noite, dos sons dos animais, da terra, dos lagos e das estrelas que fazem de “On Land” uma sinfonia da Natureza cantada na primeira pessoa, mas o silêncio da ausência. “On Land” é a música do mundo ao qual puseram na frente microfones. A capa de “Cluster & Eno” (1976), outro clássico da “ambient music”, gravado com a dupla alemã Cluster, mostra um microfone instalado em pleno campo, apontado ao vento e ao céu no crepúsculo.
O “chill out” de “Drawn from Life”, pelo contrário, é a panaceia para uma ferida virtual. Imagem sonora digitalizada, anestesia. Um ecrã insistentemente em branco contra o qual se evaporam as derradeiras gotas de suor de uma “rave” sem memória.
Os genes desta música tão branqueadora como um comprimido de Prozac, mas cruel ao ponto de deixar o espírito abandonado numa noite sem sonhos, podem ser encontrados ainda antes em “The Drop”, em “Evening Star” (1975), gravado de parceria com Robert Fripp, guitarrista do King Crimson. O tema que preenche todo o segundo lado deste disco banhado na claridade de um corredor da morgue, “Na Indexo f Metals”, anunciava já a paisagem desolada do novo milénio, ao som dos sinos de loucura que sempre se fazem ouvir quando algum fim se aproxima. “Evening Star”, a estrela da tarde, é Vénus, zénite planetário de Lúcifer, o rei carmesim, King Crimson, Robert Fripp… Na foto da contracapa de “Evening Star”, Eno quase é esmagado pela figura altiva de Fripp, o guitarrista discípulo das doutrinas mágicas de Gurdjieff e J. G. Bennett. Fripp de estreia a solo, “Exposure” (1979), dissemina entre o clamor torturado das suas “frippertronics” a leitura de textos sobre o apocalipse.
Duas décadas volvidas, o próprio Eno se encarregaria de fazer a “exposição” fotográfica da mesma obra ao negro, no registo ambiental que lhe é peculiar. Em “The Drop”, precisamente…
“Drawn From Life” suaviza o retrato, mas a realidade que lhe está subjacente permanece tão terrífica como antes. Ou mais, porque agora o pin com um “smile” que tem colado na aba do casaco faz a morte parecer a miúda atraente com quem se tem um flirt no conforto de um sofá forrado de veludo.