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Ricki Lee Jones – “A Arte Do Be-Pop” (artigo de opinião) + “Top 10 Álbuns De Covers” (artigo de opinião / listas)

Y 26|JANEIRO|2001
música|rickie lee jones


classicismo é, em Rickie Lee Jones, sinónimo de classe

Rickie Lee Jones – “génio”, “louca” ou “sublime”? Um pouco de tudo, como se poderá comprovar na primeira atuação ao vivo da cantora em Portugal, para apresentar “It’s like This”, coleção de standards candidata a um Grammy.

a arte do be-pop



É pegar ou largar. A voz de Rickie Lee Jones, ou se odeia ou se ama. Em todo o caso, não seria uma má ideia ela pôr umas gotas de Nazex para desentupir o nariz (será que só grava no Inverno, ao ar livre e de manga curta?). Já lhe chamaram “Tom Waits no feminino”, “génio”, “louca”, “irresponsável” e “sublime”. Tem um pouco de tudo isso, como se verá na sua primeira apresentação ao vivo em Portugal, agendada para o último dia deste mês (quarta-feira), às 22h, na Aula Magna da Universidade de Lisboa.
O seu mais recente álbum, intitulado “It’s like this”, é uma coletânea de “standards” de autores como Gershwin, Brecker Brothers, Beatles, Traffic, Marvin Gaye e Bernstein/Stephen Sondheim, que poderá ser considerada a continuação do clássico trabalho com o mesmo formato editado pela cantora há dez anos, “Pop Pop”.
Para já, o novo disco é candidato a um Grammy, na categoria “pop vocal tradicional”, repetindo o que já acontecera em 1979 com o disco de estreia, “Rickie Lee Jones”, que viria a arrecadas o prémio de “Best New Artist”, e em 1989, quando conquistou, de parceria com Dr. John, outro troféu, pela interpretação jazz de “Makin’ whoopie”.
Rickie Lee Jones começou a escrever canções aos sete anos mas a sua primeira profissão, em 1976 e 1977, foi a de empregada doméstica, em Los Angeles, onde conheceu Chuck E. Weiss e Tom Waits, cujo círculo começou a frequentar e com quem chegou a ter um início de romance. No ano seguinte, foi a vez de Lowel George, dos Little Feat, a descobrir, gravando com ela o tema “Easy money” ao mesmo tempo que convenceu a editora Warner Brothers a investir no seu talento.
Mas Rickie era uma força da natureza e adaptava-se mal às convenções. Depois de ter fugido de casa e ser expulsa da escola, por insubordinação, exigiu da editora que o produtor do primeiro disco fosse Lenny Waronker, um dos nomes mais importantes da companhia.
O álbum saiu em 1979 e um dos temas, “Chuck E’s in love”, chegou aos lugares cimeiros do top americano, com um milhão de cópias vendidas, um Grammy no bolso e digressões esgotadas. Parecia aberto o caminho para o sucesso, mas Rickie Lee Jones era perita em desviar-se e enveredar por caminhos pouco iluminados. Desviou-se para não mais voltar a encontrar o êxito desse primeiro disco, mas em contrapartida a sua música ganhou o estatuto de culto e um núcleo de adeptos ferrenhos.
“Pirates”, de 1981, vendeu metade do disco de estreia. Rickie fugiu uma vez mais. Desta vez mudando-se para Nova Iorque e, logo de seguida, para Paris.
As versões de clássicos aparecem em força pela primeira vez no mini-álbum “Girl at her Volcano”, de 1983, onde a classe das suas interpretações se impunha.

Cabeça de fantasma. Regressou a Los Angeles e a Hollywood para gravar “The Magazine” (1984), onde a sua voz inconfundível se rodeava de sintetizadores e de uma aura futurista que voltaria mais tarde a entrar em funcionamento, de forma bem mais escura, em “Ghostyhead”.
Depois de nova fase de turbulência da sua vida privada, com casamento, nascimento de uma filha e a morte do pai, Rickie mudou uma vez mais de casa – indo viver para o campo, em França – e de editora, assinando para a Geffen o álbum “Flying Cowboys” (1990), com um novo produtor, Walter Becker, dos Steely Dan, pondo fim a um interregno de seis anos afastada dos estúdios, excetuando o single “The moon is made of gold” e o encontro com os The Blue Nile, na Escócia.
O seu talento interpretativo explodiria em pleno em 1991, no álbum “Pop Pop”, um trabalho imaculado saído dos sonhos de uma criança magoada, apaixonada pela canção clássica e pelo be-bop. O ciclo Geffen fechar-se-ia com “Traffic from Paradise” (1993); o regresso à Warner teria lugar dois anos depois, com “Naked Songs”, revisitação acústica de alguns dos seus temas mais antigos.
“Ghostyhead”, de 1997, marcaria outro dos seus momentos de transgressão. Álbum difícil e mal aceite por alguns, de sonoridades carregadas, explora a eletrónica industrial e o lado mais sombrio de uma personalidade sempre inquieta, permanecendo até à data como um dos seus trabalhos mais estimulantes.
Por fim, nova mudança de editora – passagem para a Artemis –, e o regresso a um dos formatos que lhe é querido, o dos “standards”, com o novo “It’s like this” (com os convidados Joe Jackson e Taj Mahal) a fazer de novo incidir os holofotes na vertente da interpretação. Numa altura em que se tornou “trendy” fazer álbuns de versões (recorde-se que outros dois concorrentes ao Grammy de melhor “pop vocal tradicional”, Joni Mitchell, com “Both Sides Now”, e Bryan Ferry, com “As Time Goes by”, competem igualmente com álbuns de standards) não deixa de haver ironia no facto de Rickie Lee Jones ver associado o seu talento à “tradição”, quando é sabido que ela fez sempre questão de fintar as convenções.
Mas no final do mês se demonstrará que “classicismo” é, em Rickie Lee Jones, sinónimo de “classe”

TOP 10 de álbuns de “covers”

“It’s Like This” insere-se na tradição de álbuns de “covers”. Aqui ficam alguns mais representativos.

JEAN-LUC PONTY
King Kong Blue Note, 1970

“Virtuose” do violino eletrificado, ginasta do jazz de fusão, herdeiro de Grappelli, Ponty deu novo rosto instrumental ao papa dos Mothers of Invention, reinventando o humor de “Idiot bastard son” e “Twenty small guitars”, ou alinhando em cumplicidade com o mestre, em “Music for Electric Violin and low budget orchestra”.

DAVID BOWIE
Pinups EMI, 1973

O camaleão ainda arranjou tempo para vestir a pelo dos seus heróis, travestindo “See Emily play”, de Syd Barrett, “I can’t explain”, de Townshend ou “Where have all the good times gone”, de Ray Davies.

THE RESIDENTS
George and James Ralph, 1984

Os amantes da soul, seu pudessem, davam-lhes um tiro. Os da música clássica, enforcavam-nos. Os “criminosos” são os Residents, e o crime foi o massacre de James Brown e Gershwin, no primeiro volume de uma série dedicada a compositores americanos deste século.

MARIANNE FAITHFULL
Strange Weather Island, 1987

Resultou do encontro mágico entre a produção de Hal Willner e uma voz do fundo da noite. Tom Waits e Bob Dylan sangrados. E os extremos de uma ressurreição sempre incompleta, entre a ferida de “As tears go by” e o despojamento sem esperança de “Boulevard of broken dreams”.

STEVE BERESFORD
L’Extraordinaire Jardin de Charles Trenet Nato, 1988

Do jazzman e lunático Steve Beresford tudo se espera. Mas foi na editora-anedota Chabada que o inglês soltou o humor nonsense e o amor pelas variedades, em particular a “chanson française”, num disco sorridente que levou ao colo as canções de Trenet.

PASCAL COMELADE
El Primitivismo Les Disques du Soleil et de l’Acier, 1988

Tudo o que toca fica em cacos. E é ao juntar os pedaços com a cola da memória que a música se transforma num brinquedo. Aqui remonta alguns dos seus preferidos: Stones, Wyatt, Nino Rota e Chuck Berry.

MARY COUGHLAN
Uncertain Pleasures Eastwest, 1990

Uma das mais sensuais vozes da atualidade, a irlandesa Mary Coughlan desfiou álbuns de “covers”, qual deles o mais brilhante. “Uncertain Pleasures” distingue-se pela arrebatadora versão de “Heartbreak hotel”, de Presley, subindo ao cume em “The little death”, dos Boomtown Rats, feito standard de jazz.

MATHILDE SANTING
Carried Away Solid, 1991

Todd Rundgren, Roddy Frame e os Doors contam-se entre os autores de “Carried Away”, veículo para a voz desta holandesa cultivar a arte da elegância. Com a meticulosidade de colecionadora e o apuro da designer.

URBAN TURBAN
Urban Turban Resource, 1994

Para os suecos Urban Turban, dar lustro a uma canção é esfregá-la com o desregramento. Sarcasmo, rock & rol e sanfonas, numa variante das barbaridades folk dos compatriotas Hedningarna. “Voodoo chile”, de Hendrix, e “Let’s work together”, dos Canned Heat, caíram que nem ginjas nas mãos dos iconoclastas.

JONI MITCHELL
Both Sides now Reprise, 2000

Uma das damas da pop deste século, na sua primeira incursão no universo das “covers”. Canções sobre o amor, numa paleta interpretativa que vai do recolhimento à orquestração majestosa das emoções. “Standards” na sua aceção mais nobre, de modelos a seguir.



Uwe Schmidt – “Atom Heart Father” (artigo de opinião)

Y 2|FEVEREIRO|2001
música|remisturas


Atom Heart Father

Sob as máscaras, um coração atómico. Atom Heart, mago do artifício, engendra novos disfarces em Vs Rather Interesting, álbum de remisturas em que manipula e é manipulado.



Pentatonic Surprise, Dropshadow Didease e Fonosandwich são os mais recentes alter-egos/heterónimos do alemão Uwe Schmidt, para juntar a Atom Heart (incluindo as variantes Atom™, Atomu Shinzu e Coeur Atomique…), I, Bi-Face, Mike McCoy, Lassigue Bendthaus, Softcore, Orange, Datacide, Señor Coconut, Erik Satie, Lisa Carbon, Schnittstelle e Los Samplers. As novas adições podem ser encontradas na recente coletânea “Versus Rather Interesting” (R. I.), mescla de misturas, remisturas e re-remisturas em forma de “combate” entre artistas das editoras Quatermass, como os Pram, Plaid e Pole, e da Rather Interesting, de quem Schmidt é fundador e proprietário. Sendo que do lado da R.I. os “artistas” são ainda o próprio Schmidt, sob vários disfarces.
Sem ser dos projetos mais interessantes do alemão – é difícil achar estimulante esta coleção de grooves minimalistas para dançar aos bochechos – “Versus Rather Interesting” acaba por ter graça pelos malabarismos de manipulação em que Schmidt se tornou mestre, com a curiosidade de neste caso ser também ele quem está na mesa de dissecação.
Já apelidado de “the hardest working man in show-business”, pela prolixidade da sua obra, apenas comparável aos “outputs” igualmente quilométricos de Bill Laswell e Pete Namlook, Uwe Schmidt concentra em si algumas das características artísticas às quais se convencionou colar o rótulo das pós-modernidade – a saber, a fusão, síntese ou colagem de elementos estilísticos díspares, veiculados pela eletrónica, tornando supérfluos os conceitos de geografia e temporalidade.
Ou, dito de outra maneira: o homem arranjou uma maneira original de ganhar dinheiro, editando uma quantidade enorme de discos a coberto de edições limitadas para as quais o mais difícil será a atribuição de designações convincentes aos novos “autores”. Livres de impostos.
Tendo em conta que Uwe Schmidt encetou as suas atividades há pouco mais de uma década, é lícito pensar estarmos em presença de uma formiga da música. Muito provavelmente uma térmita que aos poucos, e com os dentes afiados, vai roendo as fundações, ainda mal solidificadas, da música eletrónica popular dos últimos dez anos.
No início, as ferramentas são parcas: uma bateria, uma “drum-machine”, teclados analógicos e a ânsia de experimentar, de meter o medo na música para ver como funciona. Era mais fácil começar pelo tecno industrial, género com tradição e obra feita na década de 80, de imediato nascendo para este fim “os”Lassigue Bendthaus. A cultura rave e acid-house são devoradas num ápice. A partir daí, o apetite torna-se insaciável. Onde quer que eclodisse um novo género ou sub-género de eletrónica, lá estava o alemão a espetar-lhe a garfada, chupando-lhe as vísceras e os ossos para encher os invólucros vazios com material sintético, coser-lhes uma pele nova, e transformar corpos frescos em manequins para coleção.
Duas fases de um mesmo processo: no álbum duplo “Cloned”, de 1992, faz 12 remisturas do mesmo tema num dos discos enquanto no outro atira para o ar os retalhos de sons que serviram para o trabalho de montagem. Em “Pop Artificielle”, assinado por Lassigue Bendthaus, coloca numa montra réplicas sintéticas de temas pop de David Bowie, John Lennon, Donovan, Prince, ABC, Rolling Stones ou Duran Duran.
Ambient, jazz digital, funk, eletro, easy-listening, eletrónica psicadélica. Uwe Schmidt vai a todas. Como Atom Heart assina uma série de trabalhos de parceria com o seu irmão espiritual Pete Namlook, na editora Fax, deste último, com sede em Frankfurt, fábrica de eletrónica a metro – o cliente pede nós servimos! – onde é possível encontrar a retalho desde kosmischemuzik com Klaus Schulze, a trance, de tecno-pimba a obras-primas de “ambient”, de drum ‘n’ bass a etnoseca intelectual.
À luz das velas e de um romantismo deliciosamente kitsch, rubrica como Erik Satin “Light Music”, incursão noturna no easy-listening e um dos seus melhores álbuns de sempre.
O humor é outra das componentes da obra multidisciplinar de Uwe Schmidt, o que, juntamente com a mudança de residência para Santiago do Chile, se traduz em álbuns em que a ironia se mistura com a anedota. “Descargas”, com a assinatura Los Samplers, devassa a música latino-americana. O samba é ruminado por Lisa Carbon, em “Trio de Janeiro”. Como Señor Coconut Y su Conjunto, em “El Gran Baile Alemán”, transforma em boleros e cha-cha-chas a eletrónica maquinal dos Kraftwerk. “XXX”, com o rapper chileno Tea Time, cola hip-hop e linguagem obscena, com direito ao carimbo “Parental Advisory – Explicit Content”. Numa das faixas, um tal padre O’Riley congratula-se pela televisão chilena não passar pornografia ao mesmo tempo que refere, com o desprendimento de um “fait divers”, o facto de uma em cada duas raparigas chilenas ser violada pelo pai. Sobre a banda sonora de “Love Story” vozes masculinas exclamam “I wanna fuck you!” e “Preciosa!”.
Para se redimir, grava “Geeez’n’Gosh: My Life with Jesus”. Encontro da deep-house com o gospel em louvor de um deus de plástico. Mas séria e a colaboração com Bernd Friedmann no projeto Flanger, em “Templates”, para a editora Ninja Tune.
Há solução, um fio de Ariadne que permita sair deste labirinto?
Não faz mal perder o nome, pouca importância tem ficar sem rosto, mas nunca, mesmo nunca, deixar cair a máscara. É o conselho deste alemão que decidiu colocar o coração dentro de um átomo. Partícula constitutiva da matéria a partir da qual são criadas todas as formas.

Uwe Schmidt/Atom Heart/Padre O’Riley congratulando-se pelo facto da televisão chilena não passar pornografia



Neu! – “Neu!” + Neu! – “Neu!2” + Neu! – “Neu!’75”

Y 8|JUNHO|2001
música|reedição

É reeditada a trilogia clássica dos Neu!, de Dusseldorf. Do punk ao pós-rock, dos Sex Pistols a David Bowie e aos Stereolab, todos são devedores da motorika de Klaus Dinger. “Neu!”, “Neu!2” e “Neu!’75” aí estão para o provar.


motor de explosão

NEU!
Neu!
9|10
Neu!2
10|10
Neu!’75
10|10
EMI, distri. EMI – VC



Neu! “Novo!”, em alemão. Orgulhosamente exclamativo. Uma, duas, três vezes, a compor uma das trilogias seminais da história do rock. Depois de anos de esbanjamento, em edições piratas e de promessas não cumpridas pelo selo japonês Captain Trip, “Neu!” (1972), “Neu!2” (1973) e “Neu!’75” tiveram agora finalmente honras de reedição oficial, pela EMI. Não remasterizadas, mas com uma apresentação condigna que reproduz na íntegra a estética proto-punk dos originais.
Os Neu! tiveram origem numa das primeiras formações dos Kraftwerk, da qual fazia parte Klaus Dinger, tendo Michael Rother mais tarde uma passagem fugaz pelo grupo. Dois temas que viriam a aparecer no álbum de estreia dos Neu!, “Im gluck” e “Weissensee”, chegaram a ser apresentados num programa de televisão alemã, em Agosto de 1971, mas em nome dos Kraftwerk.
Porém, com o investimento a 100 por cento – após um par de álbuns “industriais” – dos Kraftwerk na eletrónica, Klaus e o seu irmão Thomas Dinger juntaram-se para fazer uma música marcadamente rítmica que juntava o “groove” maquinal da motorika com um romantismo wagneriano e elementos “noise” e da música concreta.
A edição de “Neu!”, em 1972, explodiu como uma granada punk na kosmischemuzik. Mas se o tempo não era ainda o da negação completa da música, os Neu! foram os primeiros a mostrar que krautrock podia ser algo mais que um infinito e lisérgico passeio pelo cosmos. Apresenta-se a seguir alguns dos termos do léxico Neu!

Motorika. A paprika do groove. Surgiu como uma bomba, ou um motor de explosão, no seio do krautrock de tendência cósmica. Batida metronómica, inflexível, marcial, preferencialmente entregue a um baterista, embora a “ajuda” da eletrónica (em todo o caso a utilização de uma caixa-de-ritmos seria uma vergonha!) seja, não desejável, mas aceitável. Um atraso de meio tempo e o motor entra em “panne”. Tarefa sobre-humana. Para se ser um bom baterista de motorika é preciso ter alma e, sobretudo, braços de cyborg. Boas tripas e um curso de matemática. Os melhores são Klaus Dinger e Jaki Liebezeit, dos Can. A motorika pode ser saboreada, além dos três clássicos dos Neu!, nos La Düsseldorf (“La Düsseldorf”, “Viva!” e “Individuellos”), nos Harmonia (“Muzik Von Harmonia” e “DeLuxe”), duas bandas com a participação de Klaus Dinger, e em Michael Rother, companheiro de Dinger nos Neu! (“Flammende Herzen”, “Sterntaler”), com a participação de Jaki Liebezeit. Os Can eram demasiado étnicos e humanistas para poderem aderir à motorika. Nos anos 90, a motorika trabalha, sem falhas, na fundação dos La! Neu?. Por exemplo, em “Year of the Tiger”, 40 minutos de musculação rítmica, de moer a paciência e hipnotizar os neurónios.

Düsseldorf. Situada na zona industrial do vale do Reno, Düsseldorf foi o berço do ramo mais convulsivo e… industrial, do krautrock. Além dos Neu! e, claro, dos La Düsseldorf, os Kraftwerk, Ibliss, Annexus Quam, Der Plan, Rheingold e D.A.F. são outra das bandas dos anos 70 e 80 oriundas desta cidade marcada por uma intensa atividade noturna e pela influência da indústria da moda. Os Kreidler, os Tarwater e os To Rococo Rot são alguns dos herdeiros desta cultura da máquina forrada a pele humana.

Julian Cope. O ex-líder dos The Teardrop Explodes e o mais mediático admirador do krautrock dedica um capítulo inteiro (10 páginas) do seu livro “Krautrocksampler – One Head’s Guide to the Great Kosmische Musik, 1968 onwards”, aos Neu!, sem contar com a análise crítica aos três álbuns clássicos do grupo. Sobre o seu primeiro embate com a música dos irmãos Dinger escreve: “Nunca tinha ouvido nada de tão diferente, antes, nem voltei a ouvir, depois”. De “Neu!”, diz que “foi a impressão digital de uma nova espécie de rock ‘n’ rol, sem passado nem futuro imediato”.

Discípulos. Com “Neu!”, álbum de estreia de 1972, os Neu! anteciparam o punk em quatro anos. A batida furiosa, a atitude e estética minimalistas abriram o livro na página do “Ur-punk” (o termo pertence a Julian Cope) sem o qual os Sex Pistols jamais teriam podido arrancar as suas folhas. “Never Mind the Bollocks – Here’s the Sex Pistols” é motorika com um ataque de epilepsia, o caos em vez da disciplina. Os Public Image afinaram o motor. David Bowie nunca escondeu o fascínio e a influência determinante dos Neu! (sobretudo o álbum “Neu!’75”) na composição da sua trilogia de Berlim (“Low”, “Heroes”, “Lodger”). Nos anos 80 os DAF vestiram a farda erótico-fascizante derivada do lado mais marcial dos Neu!. O pós-rock voltou a ligar a chave de ignição. Representantes diretos dos Neu!, os Stereolab mimam-lhes o groove-motorika e os títulos das canções. Menos óbvias, mas não menos fortes, até pela mesma proveniência geográfica (Colónia fica mesmo ao lado), são as citações dos To Rococo Rot, Kreidler, Tarwater e Bernd Friedmann. Nos EUA, os Trans AM e os Tortoise pescaram à linha na lagoa de óleo dos Neu!. Mesmo o universo liofilizado dos “clicks & cuts” fez downloads de programas de motorika computorizada (oh, heresia!), através de um projeto como Scratch Pet Land.

La! Neu? Nos anos 90 os Neu! ressuscitaram. Não tanto através da edição de um inútil “Neu!4”, que recupera algum do lixo deitado fora nas sessões de estúdio dos anos 70, mas da criação dos La! Neu? Com os La! Neu? Klaus Dinger a energia que se apagara nos anos 80, jogando na ambiguidade e na ironia de um novo coletivo que juntava os dois projetos principais a que esteve ligado, os Neu e os La Düsseldorf, colando as respetivas siglas mas trocando o ponto de exclamação original dos Neu! por outro de interrogação. Troca legítima na medida em que os La! Neu?, mais do que um grupo estável, são uma espécie de fundação Dinger, na qual têm sido editados álbuns da mulher, dos filhos, dos sobrinhos, dos amigos e dos cães, sempre sob a sua supervisão. Entre exercícios de estilo e trabalhos de dispensável auto-indulgência, vale a pena investigar os CDs de Rembrandt Lensink (“Zeeland”) e dos Die With Dignity (“Kraut?”). Dos La! Neu?, grupo, aconselham-se o primeiro, “Düsseldorf”, e “Year of the Tiger”.

Novos, sempre

É impossível resistir à batida de “Hallogallo”, tema-ícone que abre “Neu!”, o álbum que despejou alcatrão e penas para cima do krautrock. A “motorika” em toda a sua glória, uma outra viatura, paralela à dos Kraftwerk, para acelerar numa auto-estrada de Düsseldorf ou de Lisboa, ou para acompanhar como banda-sonora um ritual sado-maso. Klaus Dinger e Michael Rother detinham a fórmula secreta do groove minimal, mas também a dose certa de paisagismo noisy, urbano-ambiental, que também se revolvia nas entranhas dos primeiros Cluster e Kraftwerk. A música concreta gargareja sobre uma drone de metal em “Im gluck”, raga industrial em contraponto aos mantras faraónicos dos Popol Vuh e “Negativland” é o perfeito prefácio, em broca-pneumática, ao destroyer Einsturzende Neubauten. A “Kosmichemuzik” vergava aos golpes dos Neu!, paradoxalmente apresentados na edição inglesa do disco por Dave Brock, dos Hawkwind, a mais cósmica das bandas cósmicas.
“Neu!2” repete o logotipo e o lettering, agora com um enorme “2” pintado em spray fluorescente. “Fur immer” (título retomado pelos D.A.F.) dispara de novo em “motorika”, levada ao extremo da fúria em “Spitzenqalitat”, gigantesca tareia de rock eletrónico mesclada de onirismo onde se descortinam traços dos White Noise. Quanto a “Lila Engel”, serviu de ensinamento a Johnny Rotten. Mas é o segundo lado de “Neu!2” que a história aponta como exemplo de ousadia, provocação e criatividade. Com apenas metade do álbum gravado, o budget extinguira-se entretanto. Klaus Dinger não hesitou, preenchendo todo o segundo lado com variações de temas antigos, entre os quais o single “Super”, rodado a 16 ou a 78 rotações. “Hallo excentrico” é “Fur immer” cuja fita foi travada no gravador pelas mãos de Michael Rother e do engenheiro de som Conny Plank. Genial e hilariante.
Após um interregno de dois anos e o projeto Harmonia pelo meio, os Neu! voltaram a reunir-se para gravar “Neu!’75”, o mais aclamado dos seus álbuns e aquele que, em definitivo, os projetou como percursores da new wave. Mais calmo e clássico que os seus antecessores, “Neu!’75” deixa perceber facilmente, em temas como “Isi” e “See land”, a influência disseminada pelos Harmonia, no balanço entre o calor dos sintetizadores, o cristal da guitarra de Rother e a batida, menos furiosa e mais ondulante, de Thomas Dinger, que tomara ao seu irmão o lugar de baterista. “Leb wohl”, visão de piano e mar, guarda as sementes de Joachim Roedelius e prenuncia o impacte que a música dos Neu! teria sobre Brian Eno. “Hero” e “After eight” são novas lições de punk eletrónico aos Sex Pistols. Entre elas, “E-musik”, ergue-se como o mais formidável reator de motorika psicadélica que o krautrock alguma vez conheceu, suficiente para colocar “Neu!’75” na galeria das obras-primas.

Nota: Três correções relativas ao texto sobre os Neu! na pág. 8: Afinal as reedições são mesmo remasterizadas (diz nos próprios discos, em letras muito pequeninas…). A editora é a Grönland, subsidiária da EMI. E “Neu!4” não é lixo dos anos 70 mas dos anos 80…