CRISTINA BRANCO Não é habitual uma cantora de fado começar a carreira no estrangeiro antes de ver reconhecido o seu trabalho em Portugal. Mas foi isso que aconteceu com Cristina Branco, 27 anos, currículo feito na Holanda, que acaba de assinar contrato com a Universal o que significa que os seus discos terão pela primeira vez edição e distribuição nacional.
Integra uma geração de novas fadistas à qual também pertencem Mafalda Arnauth, Sofia Varela, Joana Amendoeira, Marisa e Cátia Guerreiro. Ela prefere chamar-se “cantora de fado”, em vez de “fadista”, distinção que, no seu caso, faz sentido. Embora tenha crescido a ouvir fado (o primeiro de todos foi “Ai Mouraria”) assimilou igualmente a música de José Afonso ou de Sérgio Godinho. E Amália, claro, que deixou marcas, quando pela primeira vez ouviu da diva o álbum “Rara e Inédita”.
Emigrante, encontrou na Holanda a sua casa e foi neste país que gravou o disco de estreia, “Cristina Branco Live in Holland” (1997), aos quais se seguiram “Murmúrios”, com fados de Amália, textos de David Mourão-Ferreira e canções de Sérgio Godinho e Zeca Afonso, “Postscriptum”, a partir de um poema de Maria Teresa Horta, e “Cristina Branco canta Slauerhoff”, sobre versos do poeta holandês J. J. Slauerhoff.
Em Cristina Branco o fado é música do mundo, em que cada pormenor, do gesto à formulação das emoções, do vestuário à estrutura cénica e musical dos espetáculos ao vivo, segue um roteiro onde a sofisticação e a elegância se aliam à expressividade. Uma “cantora de fado” chegada, na atitude, à mundivisão dos Madredeus, cuja voz encontrou na guitarra transcendente de Custódio Castelo a companhia ideal.
21.12.2001
Cinema
O Senhor dos Anéis não é obra que se leia de ânimo leve. Como um passe de magia, ela transforma a vida de quem a lê. Terminada a leitura, fica a saudade, um novo olhar sobre o mundo e o desejo de converter os renitentes. Agora com o filme de Peter Jackson, a Irmandade ganha novos adeptos.
Um Anel Para Todos Dominar
“Os hobbits, aquele povo baixinho, feiinho, barrigudo e peludo, que gosta de comer e de ficar calmamente à mesa, em grandes almoçaradas e jantares, mas que, quando as circunstâncias o exigem, em momentos de crise, se transfigura por completo, faz-me lembrar os portugueses…”
Um adepto da Irmandade
A Humanidade divide-se em dois grupos: o dos que leram “O Senhor dos Anéis”, com os “Monthy Python” e Giselle Bündchen uma das manifestações mais sublimes do génio humano; e o grupo dos que não (estão à espera de quê?).
Os que leram, podem comprovar que não estamos a mentir ao afirmar que a leitura da trilogia escrita por John Ronald Reuel Tolkien, entre 1936 e 1949, e cujo primeiro volume, “A Irmandade dos Anéis”, deu à estampa pela primeira vez em 1954, fez deles pessoas melhores. E os fez descobrir que o mundo pode ser um mundo melhor. E que o mundo da fantasia é tão ou mais real que o mundo físico.
Os que não leram – por teimosia, ou para contrariar a atitude missionária dos que, tendo lido, anseiam partilhar a epifania com os leigos – justificam o lapso tremendo, cofiando o bigode com ar sério ou ajustando a bainha da saia da maioridade, acusando a obra de Tolkien de se destinar às crianças.
Também se encontra a facção dos que, não conseguindo ultrapassar a barreira do volume I, introdução didáctica aos “hobbits” e aos seus usos e costumes que é uma espécie de ritual para distinguir os eleitos dos preguiçosos, desiste ao primeiro embate com a complexa iconografia e onomástica que Tolkien propõe no preâmbulo.
A estes grupos de resistentes, ou detractores, respondem os tolkienómanos fundamentalistas com um encolher de ombros e um olhar de desprezo. A ala mais conservadora, porém, tenta convencê-los, dispondo-se mesmo a ler-lhes em voz alta, se isso for necessário para fazê-los ver a luz,
“O Senhor dos Anéis”, ao contrário da história anterior de Tolkien, “O Hobbit”, não é uma obra para crianças. Ainda que a sua magia apenas possa ser apreendida por aqueles adultos que conservaram dentro de si a pureza (e a Fé) da criança. Encare-se, antes, esta imensa geografia de seres, lugares, linguagens e situações, nos antípodas desse outro tipo, mais negro, delineado duas décadas antes por H.P. Lovecraft, como a emersão na quintessência do Humano, aí onde apenas a imaginação, o humor e a intuição servem de bússola. É a demanda, a aventura perpétua (é facto assente: todos os que a leram sentiram no final uma nostalgia, a sensação de perda, fruto do desejo de que a aventura perdurasse para sempre…) cujo sentido vai da pequenez para uma dimensão cósmica. Com regresso a casa.
Eterno Retorno
Frodo, Merry e Pippin, mesmo Sam Gamgee, os quatro “hobbits” da “Irmandade do Anel”, cuja missão é a destruição do Um Anel no Monte da Condenação (e a vitória sobre o Mal, personificado por Sauron), vão crescendo, física e espiritualmente, aproximando-se gradualmente de uma natureza délfica, a mais nobre de “O Senhor dos Anéis” (aqui Tolkien retoma o ideário do Amor e da Gnose medievais…), à medida que a saga vai avançando. Ciclo de Cavalaria ou Demanda inversa do Graal, o Eterno Retorno de “O Senhor dos Anéis” é apenas aparente. Frodo e os restantes hobbits regressam a casa diferentes do que eram ao partirem. A adaptação à mesquinhez e à normalidade do dia-a-dia no Shire tornara-se impossível. Aos portadores do Anel nada mais restava senão embarcar na derradeira viagem que os levará, na companhia dos derradeiros elfos, a um mundo ainda mais distante, do outro lado do mar. O “Avalon” dos celtas. A “Ilha dos Amores” camoniana. O céu, enfim,
Existe nesta obra que muitos consideram “A Obra” literária do século XX, um itinerário (outra das delícias da leitura: seguir passo a passo, no mapa impresso nas primeiras páginas dos três volumes, as diversas etapas da viagem), exterior e interior. “Um mapa da fantasia que, por detrás, esconde o mapa verdadeiro da Inglaterra”, diz Tom Shippley, professor de filologia inglesa antiga, na Universidade de Leeds. Lê-la, com “L” maiúsculo, é seguir lado a lado com a Irmandade, resistir à fúria dos elementos nas altas encostas de Caradhras, lutar contra aranhas gigantescas na floresta Tenebrosa, enfrentar o terror inominável nos subterrâneos de Moria, naquele que será o episódio mais próximo das trevas Lovecraftianas, como este as efabuloou em “Nas Montanhas da Loucura”.
“O Senhor dos Anéis” obriga-nos a entrar e a viver no interior deste mundo. A partilhar os medos e as alegrias, os anseios e as dúvidas, os momentos de desânimo e os deslumbramentos, as pequenas cobardias e os actos de bravura de cada um dos elementos da Irmandade do Anel. Combatemos ao lado de Frodo e dos seus companheiros, os ferozes orcs e os horrendos trolls; ajudamos a derrubar, com o auxílio dos inenarráveis Ents, a torre de Saruman, o feiticeiro traidor, símbolo da racionalidade demoníaca.
Reaprendemos a olhar o mundo que nos rodeia com um olhar mais límpido e luminoso, a descobrir o véu ténue que separa o sonho da realidade e a vislumbrar o que se move do lado de lá e influencia o lado de cá.
Para Judi Dench, narradora do programa televisivo britânico “J. R. T. T. – A Portrait of John Ronald Reuel Tolkien”, realizado em 1992, no centenário do nascimento do escritor, “o livro ergue-se sobre velhos padrões de um desejo universal, de se querer um mundo mais rico, profundo e vivo do que o que Descartes nos deu. De desejar encontrar algo que não é magia, mas encantamento, no mundo que nos rodeia e que o mundo de Tolkien nos dá, numa base permanente, de modo que, ao fecharmos o livro, podemos olhar à nossa volta, e os nossos olhos mantêm essa imagem. Continuamos a ver esse mundo no mundo em que vivemos”.
Na introdução a “O Senhor dos Anéis”, Tolkien refere o facto de durante a escrita de “O Hobbit”, a obra que daria origem a “O Senhor dos Anéis”, ter tido “vislumbres de coisas mais elevadas, tanto para o bem como para o mal”. Quanto a isso, não tenhamos dúvidas. Sauron continua activo, os seus feitiços a tornar espessas todas as coisas. O “um anel para todos dominar, um anel para os encontrar/um anel para todos prender, e nas trevas os reter/na terra de Mordor, o reino das sombras” continua a exercer o seu poder e fascínio sobre os homens. “O Senhor dos Anéis” extravasa das folhas de papel para o coração do leitor, e de lá escorre para a confusão das cidades, redimindo os vícios de uma Humanidade apartada de si mesma, esquecida dos tempos em que foi grande, incapaz de se reconhecer nos feitos dos heróis.
A Outra Irmandade
A par da Irmandade dos Anéis, existe, espalhada pelos quatro cantos do mundo, uma outra Irmandade, a dos admiradores de Tolkien. Portugal não é excepção. O Y falou com dois membros dessa Irmandade, António Martins, 37 anos, professor do Ensino Básico, em Loulé, que ainda não viu o filme, e Pedro Laginha, 15 anos, estudante, que já viu, e “adorou”, a adaptação cinematográfica de Peter Jackson. António Martins já leu “O Senhor dos Anéis” duas vezes. Da primeira ficou o deslumbramento da descoberta de uma “paisagem fantástica” e, como acontece aos verdadeiros “crentes”, uma “imensa tristeza por acabar a leitura do livro e a vontade de continuar”.
A paixão pela Idade Média e o amor pela natureza, sentidos desde sempre por António Martins, ajudam a explicar a sua predilecção, entre todas as personagens da trilogia, pelos Ents, cuja acção é determinante na vitória final das forças do Bem contra os exércitos de Saruman.
“O ataque final ao Senhor das Trevas, por aqueles seres, meio animais, meio árvores… São eles que acabam por rebentar com a fortaleza e estoirar com as pedras. Na Natureza também é assim que as coisas acontecem, as armas humanas acabam por ser destruídas por forças naturais”.
Os hobbits são outros dos povos da Terra Média pelos quais este professor do Primário não esconde a sua admiração, descobrindo inclusive na sua compleição física e no seu perfil psicológico insuspeitas conotações… “Aquele povo baixinho, feiinho, barrigudo e peludo, que gosta de comer e de ficar calmamente à mesa, em grandes almoçaradas e jantares, mas que, quando as circunstâncias o exigem, em momentos de crise, se transfigura por completo, faz-me lembrar os portugueses…”.
Destaca ainda a dicotomia Tom Bombadil/Gandalf, outra das suas personagens favoritas: “Tom Bombadil tem poderes fantásticos, nada o afecta, é a eterna testemunha, o mais antigo de todos, tão velho, tão velho, mas apesar de tudo criança, que apesar de todos esses poderes não age, prefere brincar, achando que tudo são trivialidades. Gandalf, pelo contrário, usa a sua sabedoria e os seus poderes. Ainda não perdeu essa capacidade de achar que pode modificar o rumo dos acontecimentos”.
O regresso, muitos anos mais tarde, a “O Senhor dos Anéis”, para uma segunda leitura, “de enfiada, sem conseguir parar, no Metro, na casa de banho, à noite, antes de adormecer”, coincidiu com uma perspectiva já mais serena da obra. Além disso, depois do “choque” causado pela primeira, que terá durado cerca de “dois, três meses”, António tornou-se, como mandam as regras, um “fanático” do universo tolkeniano. “Fiquei escandalizadíssimo quando três ou quatro pessoas me disseram que começaram a ler aquilo e acharam chato (risos). Disse-lhes para insistirem…”. Já conseguiu converter a mulher, que após as resistências habituais, já vai no final do volume I, e “está a adorar”. Para este professor que gosta de passear pela serra algarvia, para contemplar de perto a Natureza, o “mundo imaginário” de “O Senhor dos Anéis” é “uma imagem de todos nós”: “Tolkien conseguiu agarrar nas pulsões mais íntimas da Humanidade”.
Foi através da mãe, que o aconselhou a ler o livro, que Pedro Laginha entrou neste mundo imaginário. Não se fez rogado e logo reparou que o “envolvia”. Leu “A Irmandade do Anel” em um ou dois meses. Seguiu rapidamente para o resto da trilogia. Teve pena de parar. O seu preferido é o volume II, “As Duas Torres”. Destaca a “variedade de raças e místicas” e a “criatividade” das “descrições, dos calendários, dos cenários”. As suas personagens favoritas são Gandalf, Aragorn e Sam Gamgee. Identifica-se com Frodo. “Senti o mesmo que ele estava a sentir, a sua ansiedade”. Pedro é um dos felizardos que já viu o filme. Gostou. “Talvez falte uma coisa ou outra, como a cena do Tom Bombadil…”. A falha não será suficiente para desencorajar Pedro de ler os três livros outra vez.
“Então quando vi o filme, fiquei tão entusiasmado que ando a tentar convencer os meus amigos a lerem também”. São assim, os membros da Irmandade dos Admiradores de “O Senhor dos Anéis”
Poderá ser um dos concertos mais espectaculares do ano. O Auditório de Serralves abrir-se-á à música de Biosphere, projecto do norueguês Geir Jenssen. Imbuída de forte carga cinematográfica, a electrónica de Biosphere conjuga a imensidão dos grandes espaços ártico e o brilho hipnótico de pequenas estrelas vivas. Para ver, ouvir e sonhar. Como uma estufa. Ou um planetário.
1. Origem
Biosfera. “A fina camada da superfície da terra e do mar que contém a massa total dos organismos vivos existentes no planeta, que processam e reciclam a energia e os nutrientes disponíveis no meio ambiente” (in Enciclopédia Britânica). Em 90, ao tomar conhecimento do projecto científico “Biosphere 2 Space Station Project” – gigantesca cúpula de vidro no deserto do Arizona -, Geir Jenssen adaptou esta designação ao seu projecto musical. Na estação “Biosphere 2” testava-se a viabilidade da manutenção, no espaço, de uma colónia terrestre; na cúpula “Biosphere 2” habitaram várias famílias em isolamento do exterior. Da mesma forma, a música de Biosphere evoca a solidão dos espaços polares e recria a biodiversidade de organismos sónicos em mutação. A sua serenidade advém de uma visão distanciada do planeta, observado a partir do espaço.
2. Ambiente
Nos anos 80, Jenssen integrou o grupo Bel Canto, responsável por dois álbuns editados na editora Crammed Discs, um dos quais, “White-out Conditions”, é um clássico da “pop atmosférica”. Atmosfera que viria a revelar-se ainda demasiado densa para o desejo de silêncio do norueguês. O passo seguinte dá pelo nome de Bleep. A electrónica liberta-se da pop e passa a desenvolver-se através das pulsações da tecno ambiental. É já como Biosphere que grava os clássicos “Microgravity” e “Patashnik”, este último indutor de sonhos para a geração do “chill-out”. Transe boreal cuja síntese se encontra no cume gelado de “En Trance”. Mas quando “Novelty Waves”, retirado de “Patashnik”, é usado como anúncio da Levi’s, Jenssen percebe que chegara a altura de partir de novo. A viagem culminaria nas paisagens de “artic sound” de “Substrata” e da obra-prima “Cirque”.
3. Espaço
Depois de Bruxelas e Oslo, Jenssen estabelece a sua residência em Tromso, cidade norueguesa a 400 milhas a Norte do Círculo Polar Ártico. Aí, longe do caos urbano, a atmosfera é mais límpida e o céu parece mais próximo. Biosphere é um telescópio apontado ao negro do firmamento, emissão galáctica, pesquisa de sinais de vida extraterrestres, mas também colónia de organismos microscópicos em agitação atómica sob o manto do “groove” electrónico. “Trabalho devagar”, disse Gier Jenssen em 1994. O espaço resolve-se no tempo e na distância, que o norueguês considera essencial para a criação musical.
4. Cinema
Geir Jenssen afirma que toda a música que o entusiasma tem a capacidade de provocar visões na sua mente. Afinal, o mesmo estímulo que o cinema. Existe uma relação estreita entre som e imagem quer dentro da estrutura da música dos Biosphere, quer em bioelectroentidades compostas para bandas sonoras – como o clássico do cinema mudo soviético, “O Homem da Câmara de Filmar” (1929, Dziga Vertov), com o tema “The silent orchestra”, ou “KJill by Inches” (1999, Doniol-Valcroze), bem como a totalidade da banda sonora de “Insomnia”, de Erik Skjoldbjaerg. É ainda Jenssen quem aconselha o ouvinte a construir as suas próprias narrativas e visões.
5. Iluminação
“Cirque” culminou um trabalho de depuração. Da embalagem – digipak povoado de texturas que por si só desencadeiam a projecção do filme interior – ao conteúdo, é um universo de temperaturas, ventos e alucinações, num espectro que vai da auto-descoberta e das paisagens glaciares ao beat minimal. Cristais de gelo, fauna e flora subliminares, contraponto glaciar da selva tropical nocturna dos Can de “Future Days”. Inspirou-se no livro “Into the Wild”, de John Krakauer, crónica de viagens de Chris McCandless que, após deambulações pela América do Norte, terminou a sua demanda nas paisagens desoladas do Alasca, onde o seu corpo foi encontrado morto, com uma nota de SOS.
6. Cristais
Geir Jenssen/Biosphere tem ainda a sua assinatura numa quantidade de álbuns, entre encomendas, compilações ou remisturas. Destacam-se “Nordheim Transformed”, recriação da música do compositor de electrónica norueguês dos anos 70, Arne Nordheim, em colaboração com Deathprod, e os dois volumes de “The Fires of Ork”, de parceria com o alemão Pete Namlook. “Substrata 2”, já deste ano, é outro digipak com embalagem de luxo, onde cabe a versão remasterizada de “Substrata”, um dos melhores álbuns de “ambient tecno”. Também deste ano, “Light” reúne os nove temas compostos para a banda sonora de “O Home da Câmara de Filmar”.